O Cartão Negro parte 1

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Paulo entrou no ônibus lotado que pegava para ir ao trabalho. Durante o trajeto de sua casa até o trabalho na firma de seguros, ele costumava pensar na vida. Mas naquele dia o ônibus estava lotado e ele não conseguiu lugar para sentar. Não era incomum que isso acontecesse. Ocorria com certa frequência.

Pra variar, Paulo chegou atrasado mais um dia. Quando finalmente chegou no andar, passou pela dona Carmina da recepção, que olhou pra ele com uma cara de pavor. Aquilo já dava o indício que Paulo precisava para antever a merda que se seguiria. Ao virar no corredor da direita do hall, ele já viu Cardoso, o chefe, parado na porta da baia dele.

Cardoso era um homem grande. Era uma coisa entre um gordo e um halterofilista. Era o que chamamos popularmente de parrudo. Era um corpo de estivador enfiado num terno de quinta categoria. Ele sempre parecia apertado naquele terno, vivia suando na testa e seu mau humor era algo crônico. Todos no setor de Paulo tinham um profundo medo dele, até porque Cardoso já havia dado demonstrações de não bater bem da cachola.

Fora isso, ele media quase dois metros de altura.

Paulo se aproximou quieto. Entrou na baia sem olhar na cara do Cardoso.

-Boa tarde, Paulo. – Ele disse com aquela cara detestável de areia mijada.

Paulo sabia que aquele “boa tarde” era uma referência ao seu atraso de quinze minutos.

-Bom dia, doutor Cardoso.

-Atrasou de novo né? Foi o que dessa vez?

-Parece que foi uma batida na marginal.

-Ah… Batida, sei. Batida comigo só de limão, seu Paulo. Só de limão. Tô de olho em você hein? Cadê o relatório que eu pedi ontem?

-Tá aqui no Pen drive. Já mando pro seu email.

-Estou esperando. Depois passa na minha sala que eu quero ver uns contratos com você.

-Sim senhor.

Cardoso saiu da porta da Baia e passou pelo corredor silencioso da empresa. Tão logo ele saiu o burburinho começou. As pessoas levantaram para olhar sobre as suas respectivas baias.

Clóvis, o famoso “malucão” chegou na porta.

-Porra Paulo, apostei que você ia levar porrada hoje e perdi.

Paulo sorriu. Clovis era um dos seus poucos amigos na empresa. Conheciam-se de longa data. Desde os tempos do cursinho. Era de onde vinha o apelido “Malucão”.

Clóvis sempre foi um cara inteligente pra caramba. Era fiscal de contratos. Um daqueles caras que tem o conhecimento enciclopédico. Ele passava noites e noites lendo livros. Mas não era o que se poderia chamar de nerd. Embora tivesse uma cara de doido e nunca penteasse os cabelos ruivos, o que deixava um penacho eterno para o alto, tal qual o Pica-Pau, o cara gostava de fazer motocross. E de mulher. Clóvis tinha um problema com o próprio nome. Ocorre que a mãe dele resolvera homenagear o bisavô e colocou no filho o nome de Clóvis. Ele não tinha grades problemas até a época de escola, quando os meninos caçoavam do nome dele, chamando-o de “Clovis Bornay” em alusão a um famoso homossexual carioca que desfilava fantasias de luxo no carnaval. Desde então, Clóvis ficara complexado com o próprio nome, o que fez com que se agarrasse ao apelido de “malucão”.  Naquele dia, Clóvis Malucão  tinha uma novidade:

-Aí, Paulo!

-Fala.Vai falando. -Paulo estava concentrado abrindo os arquivos no computador.

-Consegui aquele cartão que eu te falei. -Disse, tirando um papel do bolso.Paulo largou o computador na mesma hora.

-Caraaaaca! Ah, moleque! Valeu! – Paulo pegou o pequeno pedaço de papel colorido das mãos do colega.

Paulo era um obstinado colecionador de cartões. Passou toda a juventude colecionando cartões de visita. Ele tinha diversas pastas lotadas de cartões. Eram cartões de todos os tipos. De vendedores, de taxistas, de empresários, advogados… Milhares de cartões. Aquela febre de colecionar cartões de visita começou aos doze anos, quando o pai dele morreu. Após o velório, Paulo voltou para casa e ao abrir a caixa de objetos pessoais do pai, encontrou uma pequena caixinha com diversos cartões, de colegas de trabalho do pai.

Gradualmente, o menino foi juntando mais um e mais outro, aumentando aquela caixinha até que o volume de cartões a impedia de fechar. Ele então passou a comprar álbuns de fotos para guardar os cartões. O que era apenas uma curtição gradualmente começou a tornar-se uma estranha obsessão. Ao ponto de levar o jovem Paulo a incursões por shoppings, onde ele entrava de loja em loja, olhava algum produto demonstrando um certo interesse, apenas para em seguida pedir para o vendedor lhe dar um cartão da loja.

A coleção ultrapassava a marca dos dois mil e seiscentos cartões. E só aumentava.

-Porra não entendo essa sua tara de colecionar cartão. -Disse malucão.

-Eu te disse, cara. Nego coleciona de tudo, meu. Tem gente que coleciona figurinha, selo, nota, óculos, até pilha velha, porra. Eu coleciono cartão, ué.

-Mas cara… Isso é estranho, você não acha não?

-Eu não. Veja, o cartão é algo interessante, é a marca de uma pessoa, uma loja, um produto. O cartão é a figurinha do executivo, cara.

Nisso Cardoso aparece na baia.

-Porra! Que merda é essa aqui? Cadê o meu relatório Paulo?

-Ah, tô abrindo aqui, Doutor Cardoso. Só um minutinho.- Disse Paulo, virando-se para o computador. Malucão saiu de fininho e voltou para sua baia.

-Minutinho porra nenhuma. Você chega atrasado e fica de papo? Que merda é essa? Eu vou levar o caso pro  Ribamar. Vou pedir pra ele tomar uma providência, pô!

-Aqui está. Já enviei, Doutor.

-Hummm. – Grunhiu Cardoso.

Quando o chefe saiu, Malucão voltou.

-Porra hoje ele tá com a macaca.

-Cara babaca.

-É por isso que eu falo que tem gente que devia usar ferradura, cara.

-Esse é um.

-É bora trabalhar. Antes que esse encosto volte pra aporrinhar. -Disse Malucão.

Os dois voltaram sua atenção para o trabalho e só tornaram a se falar na hora do almoço.

Paulo trabalhava redigindo contratos para a seguradora. Era uma vida meio chata, meio medíocre. Ganhava um salário razoável, nem pouco nem muito. Tinha uma casa ampla, onde morava com a mãe, dona Mara. Era uma senhora já idosa que andava doente. Seu tempo livre era dedicado quase integralmente a sua paixão, a coleção de cartões.

Foi a paixão desmedida pela coleção que fez com que Michelle terminasse o namoro com ele. O fim do relacionamento foi abrupto e Michelle escreveu uma carta dizendo que não queria mais estar em segundo lugar na vida dele. Ciúmes da coleção.

“Mulheres são estranhas…” Era tudo o que Paulo pensava quando se lembrava da namorada. Durante vários dias ele tentou sem sucesso uma reaproximação. Paulo tentou pedir perdão, fez de tudo para voltar, mas ela ignorou seus recados e ligações.

Quando deu a hora do almoço, paulo e Malucão foram comer na churrascaria da esquina. Era um serviço tipo self-service com uma comida meio rampeira, mas pelo menos era barata. Enquanto comiam, debatiam amenidades. Falavam sobre o campeonato brasileiro e política internacional. Paulo gostava de falar sobre assuntos políticos, enquanto Malucão preferia mesmo era falar de mulher.

Malucão era um amante sofrível. Vivia tentando se dar bem com as mulheres, mas tinha muita dificuldade de abordá-las. Isso fazia com que ele acabasse virando as noites em boates de strip tease. Paulo não sabia se o amigo chegou a ter alguma namorada. Ele não se lembrava de ter visto Malucão com uma namorada fixa. Ao que parecia, Malucão era um cara que costumava pagar por sexo. Não só o real, como o virtual.

Naquele dia, Malucão comentou que um amigo havia lhe passado uma dica “quente”. As dicas “quentes” de Malucão costumavam ser belas roubadas. Paulo relutou em ouvir.

-Ah, porra. Lá vem você com mais uma doideira.

-Não, não. Essa é maneira, cara. Eu testei. Deu certo mesmo.

-O que é?

-Cara é um programinha, uma paradinha pequenininha, sabe?

-Ih, fudeu.-Disse Paulo, já rindo.

-Cara fica frio, eu tô falando sério, meu. é um programinha que você coloca pelo men drive. Aí coloca o nome do site de putaria e ele abre, meu. Não tem senha, nçao tem nada não. O troço é show.

-Meu, isso é virus, cara. Você deve estar com o Pc todo ferrado.

-Né nada, cara. Né não… Bom, eu acho que não, né? É… Tipo, pode até ser. Foi feito por um hacker russo aí. Um amigo meu, aquele cara lá dos CDs, sabe?

-O que vende jogo pirata? O tal do Capitão Gancho?

-Esse. Ele que me passou. Coisa fina. Ele disse que não era pra espalhar. Só pra mim mesmo que eu sou brother dele e coisa e tal.

-Ah, cara. Pensa bem. Se fosse bom ele ia vender, meu.

-Porra Paulinho. Tô falando, cara. O cara é brother! Brother não sacaneia brother, brother!

-Tá bom… Brother. -Riu Paulo.

-Toma, pega aqui. Gravei pra você, cara. Tô sabendo que tu tá sem mulher. Deve estar precisando dar um cinco contra um aí.

-Que isso, cara. Tá achando que eu sou igual você?

-Rapaz, olha só, tô até meio pálido, né? Tá dando pra notar, cara? É que essa parada é fogo. Eu chego em casa já rodo logo no pendrive a mulherada. Sabe como é…

-Hahaha. Vamos embora, meu. Antes que o Cardoso venha aqui buscar a gente. -Disse Paulo pegando o Pendrive e colocando no bolso.

Após o almoço, Paulo trabalhava num grande projeto. Uma proposta revolucionária que vinha desenvolvendo silenciosamente ao longo de vários meses. No projeto dele, a empresa teria uma pequena reestruturação de setores, com mudanças pontuais no tramite dos projetos. os resultados seriam impressionantes, com uma substancial otimização do tempo e um consequente aumento de 30% no lucro bruto da companhia. Paulo preparava com cuidado o relatório, que poderia tirá-lo daquele marasmo do setor de contratos. Seu plano era marcar uma reunião com toda a diretoria e apresentar seu projeto para a empresa em grande estilo.

Naquela tarde, Paulo trabalhava no projeto quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, era o vizinho, ligando pra avisar que a mãe dele tinha tomado um tombo na cozinha. Ela estava desacordada, sendo retirada de maca pela ambulância. Ao ouvir o vizinho, Paulo ficou pálido.

Levantou do posto de trabalho e saiu como uma bala. Saiu tão afobado que largou tudo que estava fazendo. Ainda atropelou a estagiária que passava com uma pilha de papeis no corredor. Voou papel para todo lado.

Paulo estava na porta quando ouviu detestável a voz familiar do chefe:

-Aonde você pensa que vai?

-Minha mãe sofreu um acidente… -Gritou Paulo do fim do corredor, saindo correndo.

-Pode ir, vou descontar do seu salário! -Gritou Cardoso de volta.

Paulo teve vontade de mandar o chefe para a PQP, mas calou-se. Saiu afoito para a rua onde chamou um táxi e foi direto para o hospital.

Chegando lá, soube que a mãe dele sofrera um Acidente Vascular Cerebral, o popular “derrame”.

Algum tempo depois, ele foi autorizado pelos médicos a ver a mãe no CTI. Ela estava toda entubada. Em coma.  O médico explicou que a situação dela era crítica. O risco de morte era tremendo.

Quando o médico saiu, Paulo ficou ali, sozinho com a mãe. Ela parecia dormir. Paulo sentiu que ela estava em paz. Do lado do leito ele viu as máquinas que mantinham sua mãe monitorada. Ele pegou na mão frágil dela e sentiu os finos ossos por baixo da pele.Ele ficou ali, por vários minutos em total silêncio.

-Ah, mamãe… Que susto que a senhora me deu.- Ele disse.

Foi surpreendente que ao falar com a mãe, Paulo viu os batimentos da idosa aumentarem no painel do aparelho. Foram dois picos cardíacos grandes e subitamente o coração parou. A máquina desatou a apitar. Os médicos e enfermeiros vieram correndo. Uma enfermeira Tirou Paulo do CTI. Ele viu pela janelinha os médicos correndo com a maca para uma sala.

Os minutos se passavam e a angustia só aumentava. A cada minuto, ele esperava e temia pelo pior. E o pior surgiu na forma de um médico, que chamou por ele da porta do CTI. Ele apenas olhou nos olhos do médico e viu, pela expressão do profissional, que não havia mais esperança. O médico acenou negativamente com a cabeça pra ele. Paulo viu tudo em câmera lenta. O mundo rodou ao redor dele, o ambiente escureceu e ele desmaiou.

Paulo acordou sem entender onde estava. Olhou em volta. Era uma espécie de enfermaria. Surgiu uma enfermeira.

-Acordou, né? Tá melhor?

-O que houve?

-Você desmaiou, meu anjo.

-Desmaiei? – Nisso Paulo se lembrou de tudo. Da morte da mãe. Do médico… E então ele chorou.

FIM DA PARTE 1 – Continua amanhã

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15 comentários em “O Cartão Negro parte 1”

  1. Humm muito bom Philipe, to sentindo que ta vindo uma das suas séries que deixam agente sem poder esperar pelo próximo capítulo…Muito bom, Valeu! 😎 😎

    Abraços

    Lucas

    • Dos mesmos produtores de “Jurado de morte” e “O despachante da morte”, breve num blog perto de você. hehehe
      Essa vai ser de seis partes. Já tá toda montada em estrutura. E espero que dê certo.

  2. nem tenho paciencia pra ler, mas boa sorte, quem sabe se um dia vc lançar os livros, ae sim eu tenho coragem de ler.
    nao sei se sou só eu mas me da agonia ler na frente do monitor.

    • Rapaz, deixa disso! O Philipe é muito foda,você lê um texto dele e não para mais não! Leia “Jurado de Morte” que você vai ver o potencial desse cara.

        • nada!!!
          o philipe!!!
          vc é bom pra caramba
          eu adoro as suas historias (tanto as suas quanto as que vc escreve)
          vc é sim um otimo escritor
          mas esse continua amanha é pra zoar
          como eu não tenho muita paciencia de ler na frente do pc
          eu vvou gravar e ler no mp4
          é melhor
          é que aqui no pc fica muito ruim (ainda mais nessa cadeira aqui)
          um dia ainda fico tão rico quanto vc e compro uma cadeira melhor
          adoro seu site
          não é à toa que faz tanto sucesso né?

  3. Só pode estar brincando, entrei no site que o “Paulo” entra e vê a tela preta e de fato existe, e pior, quando entrei num deu em nada, e depois de novo e nada, sai do site e depois de um tempo reentrei, quando de repente apareceu Carlos Eduardo Magalhães Cardoso, O.O, deu-me um troço no estomago, e meu nome é Eduardo, já atualizei a página várias vezes para ver se sair outro nome e nada, não aparece nem um sinal de til ou ponto final. Tenso.

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