Minha aventura no assalto (combo)

· · 10 min de leitura
| Aventuras | Aventuras, conto, Textos

Eu voltava da escola e estava num ônibus.
Engraçado como num lotação, os lugares com janela são os primeiros a acabar. Eu entrei e ali estava um belo lugar na janela. Quando vi, sentou um sujeito mal-encarado do meu lado.
Imediatamente o meu “sentido aranha” começou a apitar alerta vermelho.
Eu estava acuado no canto da parede. O cara já sentado ao meu lado limitava meu acesso ao corredor.
Eu comecei a me sentir como um antílope africano meio bolado, vendo algo amarelo rastejando atrás de uma moita próxima. O problema dos antílopes é que eles só correm quando tem certeza absoluta de que estão fodidos. É estranho dizer isso, mas nós, os humanos, os metidos da cadeia alimentar, aqueles que julgam terem sido feitos “a imagem e semelhança de Deus” tem EXATAMENTE o comportamento do mais besta e retardado antílope do Serengetti.

O sujeito não tirava aquele olhão comprido de cima do meu relógio e eu comecei a ficar bolado.
Algo dentro do meu ser me dizia:
– Você vai ser assaltado, seu burro. Fuja!
Eu relutei. Pensei: Será que não estou sendo preconceituoso? Será que o cara não é apenas um cidadão de bem que não teve condições de se vestir direito, fazer a barba direito? E essa cicatriz medonha no meio da cara dele? Será que não foi um acidente de trabalho? Um acidente quando ele era criança?
Será que estou com preconceito pelo fato do cara ter uma cara de ladrão?

O próprio sujeito estranho interrompeu meus pensamentos com a frase que parecia dizer tudo:

– Que horas são, playboy?

– Senti um calafrio. A voz dentro da minha cabeça berrava sem parar que eu iria ser assaltado. Antes de respondê-lo, numa fração de segundos meu cérebro começou a maquinar a razão daquela pergunta. Comecei a pensar… A aquela devia ser uma pergunta retórica do bandido.

Veja a que ponto chegamos. Bandidos requintados ao ponto de gerar perguntas retóricas para que suas vítimas dessem uma última olhada no bem antes de vê-lo trocar, assim deliberadamente, de mãos.

O hiato que se seguiu à pergunta do “Escadinha” já estava ficando incômodo. Eu tinha que dizer alguma coisa.

– São cinco e dez. – Eu disse apressado. E levantei de imediato, me antecipando ao provável bote. Fingi ver um parente na rua e gritei pela janela do ônibus:
– Marquinho! Me espera!
Eu sei lá quem diabos é o tal do “Marquinho”! Deve ser amigo do Harakiri.

Mas sei que eu levantei e saí atropelando o sujeito que não fez nenhum esforço em me deixar passar. Eu meio que pulei as pernas dele e ganhei o corredor.
Levantei e corri lá pra frente. Desci do ônibus com a sensação de alívio e prazer que só um antílope que escapa das garras dos guepardos se dá ao direito de sentir.

Continuei andando para casa. A descida prematura do busum me fez andar uma caminhada gigante a pé.
Eu fui tranqüilamente, me sentindo o ás da malandragem carioca.
E então comecei a pensar se o cara não era mesmo um trabalhador que só queria saber as horas. Que garantias eu tinha de que aquilo era um assalto?
Teria eu sido uma vítima de meu próprio preconceito racial-socio-cultural? O cara naturalmente sentiu que eu amarelei. Que eu fugi. E se ele não fosse um assaltante? Como deve ser uma merda sentir-se uma ameaça social. Comecei a sofrer por ter feito o pobre trabalhador sentir-se um bandido. Fiquei ali, andando e pensando, sobre os negros e a situação escrota do preconceito racial e social do Brasil.
Senti uma coisa espetando minhas costas. E pra meu espanto, a frase que ouvi no pé do ouvido me fez tremer de cagaço:

Passa o relógio. – Disse a voz. Por um segundo eu vi um filme na minha cabeça. O cara ia mesmo me assaltar. Ele viu que eu tentei fugir e abortou o assalto. Resolveu recuperar o elemento surpresa e desceu um ponto depois. Distraído eu nem vi que ele resolveu me pegar pelas costas.

Quando olhei para trás, de rabo de olho, vi que não era o tal cara. Era um outro. Bem mais novo. Mais novo do que eu. Mas também com a maior pinta de marginal que você pode imaginar. E o pior, estava armado.
As pessoas na rua passavam e fingiam não ver o que acontecia ali, em plena luz do dia.
O cara estava com um canivete.
Eu não tinha outra saída senão apelar mais uma vez para o “Efeito Gump”.
Efeito Gump é o que acontece comigo numa situação de forte estress emocional. Nestas situações bizarras, eu fico calmo e não raro, personifico os mais estranhos personagens. E neste dia, o cara deu o azar da vida dele. *Eu personifiquei o evangélico mais evangelista que você já viu. Nem o Edir Macêdo, Bispo Soares, Silas Malafaia se comparavam ao CAÔ que eu mandei no cara.
Foi uma coisa mais ou menos assim:

-Cê quer o relógio?
-Passa. Passa o relógio ou eu te furo.
-Calma. Não precisa roubar o relógio, meu irmão. eu te DOU o relógio de presente. Você quer?
– Quero. Dá aí. Dá aí.
– Então, Irmão… Sabe porque eu tenho este relógio?
– Dá logo porra.
– (fingindo não me intimidar com o canivete todo enferrujado) Eu era um ladrão.
– Tu era ladrão?
– Era. Eu era ladrão e um dia precisei sacar o “berro” e atirei num cara. Mas ele não morreu. Ele apontou a arma pra mim e…
– E o que?
– Atirou, porra. – disse eu dando aquele tapinha de amigo no braço do meliante. Ele abaixou o canivete.
– Porra ele atirou? E acertou?
– Acertou, irmão. Bem aqui ó. – Disse eu levantando a blusa e apontando um lugar qualquer onde não se via porra nenhuma, afinal, nunca levei tiro na vida. E continuei: – Tá vendo a cicatriz?
-Tô, tô… – Então a bala entrou aqui e saiu nas costas.
– Caralho.
– Pois é, irmão. E o pior não é isso.
– Tu foi pro hospital?
– Fui, mas o pior aconteceu depois.
– Aconteceu o quê?
– Meu irmão, eu vi uma luz. Era uma luz branca. Que surgiu assim, ó. Pá! Na minha frente. E então eu vi uma coisa. Não vou dizer que era santo, nem que era espírito. Mas apareceu uma forma ali na luz e eu senti que estava liberto. Que não era a hora de morrer.
Quando eu abri o olho, eu já tava num hospital. Pensei que tivesse morrido.
A enfermeira falou que tinha morrido mas voltei.
– Puta merda!
– Quando eu voltei, estava livre meu irmão. Eu olhei meu rosto no espelho e vi que Deus em pessoa tinha me libertado. Ele mandou eu voltar. E só depois que eu descobri o porque.
– Por que? – Todo curioso o moleque.
– Porque eu tinha que libertar as pessoas.
– Libertar?
– É, irmão. Quanta gente você conhece que tá na merda? Roubando, cheirando, fumando, matando? Uma porrada, né? Então. Esses.
– Tu é crente?
– Não.
– Ué. Não?
– Não. Deus não precisa dessas coisas de igreja, de culto, de bandinha, nem terno e nem Bíblia. Deus precisa sabe do quê?
– Hã?
– Do seu compromisso. Da sua alma. Não é santo, não é banda, não é construção que vai te dar isso. Conseguir isso é a coisa mais difícil. Mas não é impossível.
Veja você por exemplo. Tu já ia me assaltar. Ia pegar o relógio, né? Eu sei cara. Eu entendo. Você acha que resolveu roubar meu relógio atôa? Logo eu? No meio de tanta gente? Olha o tamanho da cidade. Olha em volta.
Você acha que isso acontece assim, do nada?
Irmão, você foi mandando pra falar comigo. O relógio, quem me mandou usar foi Deus. O relógio é só uma isca. Você veio. Se veio, é porque Deus quer ver você liberto.
Cê quer se libertar?
-… Quero. Acho que sim.
– Irmão, presta atenção. Isso que eu vou te falar é importante. Deus te dá a chance. Ele não muda você. Ele pode fazer isso. Ele fez isso comigo. Mas ele não quer impor sua mudança. Ele quer que VOCÊ (apontando no peito dele, bem no coração) mude. Ele quer que VOCÊ saia da vida que você entrou, mas saia com as suas pernas. Esta é a chance. Pode ser que não haja outra.
-… – O moleque bolado.
– Joga fora essa merda. – Eu disse. Agora num tom mais autoritário, como que revestido do poder de Deus.
E para meu espanto, o moleque jogou a porra do canivete no canteiro.
– Agora fecha os olhos. Fecha os olhos e concentra. Você vai fazer uma conexão. Uma ligação com Deus.
Sei lá o que me deu para falar aquilo, mas eu peguei no braço do cara. Ele ali, de olho fechado eu orei com ele. E quando eu vi eu já tava falando no ouvido dele.
– Aceita Jesus.
– Eu aceito.
-Aceita Jesus, porra!
– Eu aceito.
– Agora! ( eu dei um grito) Aceitaaaaa! – O moleque caiu de joelhos. Ele chorava.
Para meu mais absoluto espanto, eu havia convertido o meu primeiro fiel.
Conversamos um pouco sobre música, sobre esportes e ele foi embora, todo agradecido. Ele morava no bairro do Coelho em São Gonçalo.
Antes dele ir, eu falei que ele deveria entrar para uma igreja. Eu não ia dizer qual. Todas as igrejas são de Deus. Mas que Deus apontaria a igreja certa pra ele.
E fui embora.
Com o meu relógio.
Menos um bandido no mundo. *

Ok, ok. Eu admito. Tudo que está entre os * eu inventei. Não consegui me conter e a aventura real virou um conto.
O fato real é que o cara era mesmo mais novo que eu e realmente estava com um canivete enferrujado apontado pra mim.
Eu comecei a falar com ele que aquilo ia “dar merda” pro lado dele e tal. Falei que ele não sabia de quem eu era filho. Que ele ia se dar mal. Meio que num tom de ameaça no estilo “quem avisa amigo é”.
E ele amarelou. Foi só isso. Ele deve ter pensado que eu era filho de polícia ou pior, de bandido e desistiu do assalto. Eu acabei conversando com ele e ele me contou que era de São Gonçalo, do bairro Coelho (um bairro barra-pesada, ao que parece). Paguei uma coca-cola pro cara e batemos papo por algum tempo. Aquele era o segundo assalto dele.
Ele não me roubou e eu fui pra casa.
Mas a parte inventada é bem mais legal, né?
Gostei deste post combo aventura-conto. Parece até piada do Costinha, que no meio da piada ele contava outra.