Jurado de morte – Parte 9

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Zé agarrou-se ao tronco com tanta força que parou de sentir os dedos. Fechou os olhos e preparou-se para morrer.
Em seguida, outro tiro foi disparado. Mas não houve grito nem nada do tipo. Apenas um silêncio.
Zé abriu os olhos e olhou para baixo. De cima do galho, ele podia ver por entre a fresta do portão os homens colocando munição em varias armas. Eram todas armas de grosso calibre. A fresta era estreita, então não dava para ver muito, mas pelo pouco que viu, Zé Walter notou um arsenal digno de filme de guerra.
Ele ficou ali, agarrado ao tronco, vendo os homens testando as armas. Volta e meia um deles dava um tiro para o ar.
Um tempo depois varias vans dobraram a esquina da rua estreita e subiram a rua na direção da casa, como uma carreata silenciosa.
Da primeira van desceu um sujeito forte que fez sinal com a mão para as outras. As vans pararam e desligaram os motores.
Zé olhava da árvore, mas estava escuro e não dava para ver muito bem, mas lhe pareceu que as vans estavam cheias de gente. Zé contou sete vans no total. Calculou de cabeça que ali deviam estar cerca de quarenta bandidos aguardando alguma coisa.
O fortão bateu três vezes no portão de ferro. Dali a um tempo o portão abriu e o Buda saiu, segurando um fuzil.
Os dois se cumprimentaram e ficaram conversando na frente da casa. Zé estava muito alto, bem em cima deles. Não dava pra escutar o que eles estavam dizendo, mas pareciam combinar uma estratégia qualquer. O Buda pegou do bolso da bermuda um mapa e mostrou ao cara forte. Das vans desceram varios homens que se juntaram ao bolinho na porta da casa.
Zé teve medo que algum deles olhasse para cima. Com aquele monte de bandidos e armas, se isso acontecesse, ele seria transformado em peneira.
O Buda passou as informações nos mapas para alguns homens, que voltaram para as vans. Em seguida dois sujeitos magrelos trajando apenas bermudas brancas, que mais pareciam escravos de filme ou novela surgiuram de dentro da casa, carregando uma caixa pesada. Os caras abriram a caixa e Zé Walter viu uma enorme quantidade de armas ali dentro. Os homens saíam das vans e vinham em fila, receber o armamento. Revólveres, pistolas, metralhadoras… A quantidade de armas distribuídas era impressionante.
Quando as armas já estavam no fim, surgiu o Lion na porta. Ele foi cumprimentado por varios dos bandidos. Eles conversaram um pouco.
Ajeitaram-se em uma roda e oraram à Deus para saírem vitoriosos naquele bonde.

Zé ficou agarrado ao galho, olhando fixamente para ele. Era ele mesmo. Aquele sujeito dos olhos vazios e escuros. Assassino de mais de 500 pessoas, ali, bem debaixo dele, orando a Deus. Lion virava a cabeça para cima diversas vezes na oração. Cada vez que ele virava para cima, Zé temia ser descoberto. Mas felizmente, Lion orava com os olhos fechados.
A oração dos bandidos já terminava quando Zé escutou um pequeno estalo no galho em que se agarrava.
Seu coração quase parou pela segunda vez. O galho não ia aguentar. Ele era pesado demais.
Zé anteveu a cena dramática que aconteceria. O galho ia se partir e ele ia cair em cheio em cima do Buda, bem ao lado do Lion e seus amigos, armados até os dentes. E então, se não morresse na queda, ele seria levado para dentro daquela casa e sofreria torturas sem fim até que sua cabeça fosse decepada pela espada justiceira.
Zé começou a rezar mentalmente. Prendeu a respiração e os pequenos estalos pararam.
Nisso, os homens já voltavam para suas respectivas vans. Zé Walter respirou lenta e pausadamente, fazendo um esforço sobre-humano para parar de tremer de medo.
O Buda e o sujeito com cara de maluco saíram e entraram na Van preta. Lentamente as sete vans saíram em direção a rua de cima, seguidas pela van preta. Lion acenou para Buda e para o maluco e esperou até eles virarem a esquina.
Então, ele ficou na condição perfeita para que Zé Walter fizesse seu trabalho.
Zé lentamente levou a mão na cintura para pegar o revólver. Pegou, apontou… Mas o galho voltou a estalar. Estalos cada vez mais altos. E Zé abortou o tiro que pretendia dar.
Lion entrou na casa e fechou o portão de ferro com uma batida forte que ecoou na noite.

Zé moveu-se lentamente, com medo do galho quebrar. Quando ele finalmente saiu de cima do galho, o mesmo partiu e ficou pendurado na árvore.
Zé Walter sentiu um profundo alívio ao ver que se tivesse atirado ele teria despencado certeiramente de cara na calçada.
Zé ficou de pé, apoiado num outro galho mais acima. Agora ajanela de vidro quebrado estava mais distante, mas ainda era uma distância que ele achava que conseguiria saltar.
Olhou em volta, e não viu viva-alma naquela rua escura.
Zé Walter mirou a janela, agachou-se contra o galho em que estava em pé, colocou o revólver na cintura e retesou todos os músculos. Benzeu-se pedindo proteção a Deus e saltou no ar, com os braços abertos.
Zé Voou direto na direção da janela de vidros quebrados, e agarrou-se a mesma, espatifando a cara em um vidro, que caiu lá em baixo. Zé ficou pendurado, toscamente pendurado, com meio corpo para fora daquela janela. Então usando as pernas conseguiu se arrastar para dentro da casa. Quando ele caiu naquele cômodo escuro, suava em bicas e seu rosto doía.
Ele não via nada. Estava tudo escuro.
Tateou em direção oposta a janela e esfregou a mão na parede até encontrar um interruptor. Quando acendeu a luz, percebeu que estava num quarto cheio de entulhos. Quadros, mesas, cadeiras, armários, um monte de coisa velha acumulada. O quarto mais parecia um brechó.
Zé torceu para que a porta estivesse aberta. Desligou a luz por precaução e girou a maçaneta lentamente. A porta fez um “click” baixo e abriu. Zé olhou pela fresta. Não havia ninguém. Era um corredor mal iluminado que dava acesso a uma escada que descia para o andar de baixo. E do outro lado, tinham duas portas. Zé já ia sair quando ouviu um barulho nas escadas. Ele voltou para dentro do cômodo-depósito e ficou com a arma na mão, de prontidão.
Viu pela fresta um dos negros de bermuda branca vindo calmamente pelo corredor. O negro passou direto pelo quarto-depósito e foi até uma das portas no fim do corredor. Lá ele entrou no que parecia ser um banheiro e a julgar pelo barulho que ouviu, Zé Walter percebeu que o negro estava urinando.
Esperou até que o negro passasse de volta. O homem veio e passou direto, indo para o andar de baixo. Zé foi até a escada. Lá de cima ele ouvia o som de uma televisão, misturado com uma musica Funk e escutava também o Lion falando num radio ou walk talkie.
Zé desceu as escadas com o máximo de cuidado. O revólver do taxista na mão. Ele olhou bem e viu que um dos negros estava lavando o carro, uma caminhonete de cabine dupla num jardim. A caminhonete era preta, com um enorme símbolo da milícia Thundercats estampado no capô. Era a caminhonete que tocava o funk alto. E dentro da casa, sentado na frente de uma televisão gigantesca que passava um filme pornô, sem camisa, segurando uma lata de cerveja numa mão e um walk talkie na outra, estava o Lion. Zé não conseguiu ver onde estava o outro negro. Ao que parecia, os dois eram os guarda-costas do Lion.
Zé pensou em pegar a arma e dar um tiro de lá do alto da escada no Lion, mas aquilo se mostraria um erro. Certamente que os dois negões iriam reagir, atirando nele. A casa devia estar repleta de armas malocadas em todos os cantos possíveis e imagináveis.
Assim, Zé se conteve mais uma vez. Esperou Lion parar de falar no Walk Talkie.
Quando Lion parou de falar, concentrou-se no filme. Tomou um gole de cerveja e ficou admirando duas louras peitudas que se atracavam com volúpia. Zé esperou pacientemente o momento certo de dar o bote.
Olhou da escada e pela janela da sala viu que o negão do carro estava terminando o serviço. O sujeito entrou na sala e virou-se para Lion:
-Patrão, o carro tá pronto.
-Beleza, valeu.
-Porra, que peitão, hein?
-Senta aí, pô. Bora ver o filme!
-Ah, não vai dar, patrão. Eu tenho que ir pra casa. Dona encrenca tá esperando.
-Ah, tá safo. Quer uma grana?
-Não, não precisa não senhor.
-Ah, neguinho. Vai a merda. – Disse Lion pegando uma caixa na estante. Da caixa ele pegou umas notas de dinheiro. – Toma essa porra. Tu lavou o carro, cumpadi. Toma aí. Compra uma roupa nova pra dona encrenca lá. – Disse rindo. O negro abaixou, recolheu as oito notas e agradeceu.
-Valeu, patrão. Mais alguma coisa?
-Não, não. Tá safo. Pode ir.
-Então até manhã. – Disse o guarda-costas, vestindo uma camisa encardida do Flamengo.
Lion colocou o DVD pornô em pause e levantou-se para levar o negro até a porta.
Da escada, Zé Walter via tudo. Ele desceu com cuidado e correu para a cozinha.
Da cozinha, ele viu pela janela de serviço o outro guarda-costas arrumando varias caixas no quintal. Zé pegou a maior faca de cozinha que viu, abaixou-se e saiu pela porta dos fundos. Esgueirou-se pelas caixas no quintal e ficou parado perto de uma piscina, na espreita do negro.
Quando o guarda-costas passou por ele, carregando uma pesada caixa de madeira, Zé Saltou sobre o homem, aragarrando-o num mata-leão e tampando a boca dele. Em seguida, enfiou-lhe a faca na garganta. Um jorro quente de sangue espirrou para entro da piscina. O negro tentou se debater e Zé arrancou a faca da garganta do negro e tornou a cravar novamente, dessa vez no peito. O guarda-costas ainda tentou se debater um pouco, mas perdeu rapidamente as forças. Zé Puxou o corpo ele para a parte mais escura do jardim e ocultou-o atrás de umas folhagens.
Em seguida, correu abaixado até a janela dos fundos. Olho de lá e viu, pela cozinha, que Lion estava novamente na sala.
Zé Walter não pensava em nada além de matar o desgraçado que o jurou de morte.
Correu para dentro da cozinha e de lá observou a sala. O líder da milícia ainda assistia ao filme pornô.
Entre uma ceveja e outra, lion estava cheirando cocaína na mesa de centro.
Zé andou silenciosamente até o sofá em que Lion estava deitado. Em silêncio, colocou a arma na nuca do homem. Lion deu um pulo com o susto.
-Mas que porra é essa? -Perguntou surpreso.
-Surpresa, filho da puta! Sou eu!
-Hã? Quem é você?
-Eu? Ah, vai se foder, seu merda. Vai dizer que não sabe quem eu sou?
-… – Eu te conheço… Você tava preso?
-Não, seu filho da puta. Eu que te coloquei lá. E você me ameaçou de morte. Tá lembrado, seu porra?
-O que?
-Não se faz de retardado, seu otário.
-Mas, mas… Calma, rapaz. É dinheiro? Eu tenho dinheiro aqui. Muito dinheiro. Guarda essa arma. Olha, quer um teco? Tá um teco aí. Essa é da pura!
-Guarda arma é o caralho. Teco é a puta que te pariu, seu esterco humano. Chegou tua hora seu Lion.
-Mas… Eu nem te conheço, rapaz. Que porra é essa? O que foi que eu te fiz?
-Você cometeu um erro, Lion. Você disse que ia me matar. Agora quem vai deitar é você.
-Mas… Mas. Eu não falei nada disso. Você tá maluco.
-Maluco? Eu? Não se faz de imbecil, que isso não vai mudar nada. Eu vim aqui não é por dinheiro nem por merda nenhuma sua. Eu vim pra fazer justiça. Eu vou te matar antes que você me mate.
-Calma, garoto. Calma. Vamos conversar. Dá um teco aí, porra. Você tá careta?
-Quer conversar, seu Lion? Então tá. Conversa com o capeta! – Disse Zé Walter antes de apertar o gatilho com toda força na direção da cara de Lion.
O tiro estourou e o corpo de Lion voou para trás, batendo sobre a televisão onde as duas louras peitudas ainda gemiam.
O corpo inclinou para frente e bateu enm cheio na mesa de centro, de vidro, estourando tudo numa nuvem de cacos de vidro e cocaína. Na nuca, Zé Walter viu o buraco do tiro.

-Toma mais, ô filho da puta.- Disse Zé, disparando mais três tiros no corpo, só pra “garantir”.

Subitamente, ele sentiu um alivio, mas um alívio tão avassalador de ter dado cabo do homem que o jurou de morte, que nem podia acreditar. Sua vontade era sair gritando de felicidade, dando tiros para cima.
Zé abriu a caixa na estante e pegou um maço gordo de notas. Enfiou todo o dinheiro que podia nos bolsos. Depois pensou em como sair dali. Pensou em Gisela. Prometeu a si mesmo que iria com ela fazer a viagem dos sonhos deles.
Ele já estava se dirigindo para o portão quando teve um novo insight.
Se ele saísse e largasse o corpo de lion daquele jeito, os homens do bonde quando voltassem iriam saber que alguém matou o chefe. Quem mataria Lion? Não demoraria alguém perceberia que o homem que matou Lion só podia ser ele.
Zé parou e pensou em alternativas. Voltou para dentro da casa. Atravessou a cozinha e foi para a área externa, onde estava a caminhonete. Olhou pelo vidro e viu a chave na ignição.
Voltou então para a casa, e subindo para o segundo andar entrou nos quartos. No quarto do fim do corredor, mal abriu a porta ele viu um bandeirão com o símbolo dos thundercats na parede. Do lado, estava um cofre. E na parede, sob um facho de luz dicróica, estava ela, a famigerada Espada Justiceira.
Uma réplica perfeita da espada do personagem do desenho.
-Caralho, que foda. -Disse Zé olhando a espada. A lâmina, afiadíssima.
Zé pensou naquela arma e em todos os que ela degolou.
Ele pegou a arma e desceu para a sala, disposto a vingar todos os mortos de uma só vez.
Entre gemidos de prazer e gritos obscenos vindos da Tv, ele desferiu um golpe preciso naquele corpo que derramou tanto sangue no tapete de pêlo branco que este ficou cor de rosa.
Zé agarrou Lion pelos cabelos e olhou bem nos olhos negros. Agora, virados para cima e embebidos em sangue, eles não poareciam tão ameaçadores.
Surgiu um barulho no radio. Alguém falou alguma coisa, mas o sinal era ruim e Zé não entendeu nada.
Zé pegou o walk talkie e guardou no bolso. Jogou a cabeça de Lion sobre o sofá e saiu. Pegou a caminhonete e foi para rua.
Fechou os vidros fumê, e partiu na direção do Morro do Carrapato. Já estava querendo amanhecer o dia quando Zé Walter chegou ao morro do Carrapato.
Zé desceu da caminhonete e fui até uma padaria que acabava de abrir. Ali ele chegou para o antendente e pediu um café.
O atendente colocou um café numa pequena xícara.
-Aí.
-Senhor?
-Tu sabe onde que tem uma boca de fumo aqui? -Disse entre goles de café.
O atendente sorriu maliciosamente.
-É do preto ou do branco?
-Dos dois.
-Ah, tô ligado. Se o senhor quiser, eu tenho aqui…
-Não, não. Eu quero em quantidade. Negócios, você sabe como é, né? Foi o Lion que me mandou vir comprar um bagulho do bom aí pra uma festa que ele vai dar.
-Ah, tô ligado. Tô ligado. – Disse o atendente do balcão sussurrando. -Então, tu ta vendo aquela rua ali? Perto da borracharia? Vai até o final e dobra a direita. É a casa azul com placa do sacolé. Pode dizer que foi o Dunga que indicou? É que eu ganho comissão.
-Claro, Dunguinha. Tua comissão tá garantida, meu chapa.
Zé tomou o restante do café, pagou e partiu com a caminhonete na direção indicada. Foi até o fim da rua. Virou cuidadosamente a caminhonete para a posição de saída. Então bateu na porta da casa azul com pleca de sacolé.
-Quem é? -Perguntou uma voz do outro lado da porta.
-Sou amigo do Dunga lá da padaria.
-Quer sacolé?
-Quero.
Uma pequena abertura na porta se abriu. Do outro lado, olhos avermelhados na escuridão.
-Qual sabor?
-Todos.
-Todos?
-É. -Disse Zé Walter, mostrando o bolinho de dinheiro.
Calmaí.
Então Zé escutou uma série de barulhos de trancas e a porta se abriu.
Zé viu que o atendente da porta era um molecote mgrelo de uns doze anos.
Dois negros estavam sentados numa sala vendo Tv. Perto da parede, um adolescente de uns dezessete anos pesava trouxinhas de cocaína numa pequena balança. Zé viu uma arma sobre a mesa.

Da cozinha veio um sujeito grande, com quase dois metros, de bigode, sem camisa e cabelão pixaím black power.
-Coé?
-Beleza?
-Tu vai levar quanto?
-Vou levar tudo.
-Porra, tudo? – O bandido arrelagou os olhos.
-Tudo. Você ouviu.
-Quanto vc tem aí?
-Tenho uns seis mil.
-Rá, rá, rá, rá! Seis mil não dá pra quase nada, ô pela saco.
-Que pena. -Disse Zé sacando a arma e acertando logo três tiros no peito do traficante. O cara caiu por cima do sofá, que capotou para trás com o peso. O moleque que pesava as trouxas levantou tentando alcançar um 765 que estava na mesa. Zé Acertou o moleque na cabeça. Os miolos e sangue se espalharam pela lateral da parede, tal qual uma pintura pós moderna do Jackson Pollock.
Entraram correndo dois outros pivetes armados vindos da cozinha. Zé Sacou o 765 da mesa e matou os dois antes que chegassem na sala.
O moleque que abriu a porta ficou parado, petrificado, com medo.
-O dinheiro. Eu quero o dinheiro, porra! -Disse Zé para o moleque.
O moleque apenas olhava pra ele, petrificado.
-Anda viadinho! – Zé Bateu com a arma nele. -Cadê o dinheiro, porra?
O moleque apenas apontou para a geladeira na cozinha.
Zé agarrou o moleque pelo braço e foi até a cozinha. Abriu a geladeira e viu uma quantidade absurda de dinheiro. Pacotes e mais pacotes de dinheiro.
-Caralho! É muito dinheiro. Vamos moleque, me ajuda a levar este dinheiro aqui lá pro Lion.
-Tio.. Calmaí, eles vão me matar… – Implorava o moleque com lágrimas nos olhos.
-Prefere que eu te mate então, seu puto? -Disse apontando o 765 na cara do garoto, que imediatamente concordou.
Ele foi soluçando com um saco de lixo cheio de dinheiro até o carro. Zé abriu a caçamba da caminhonete e o moleque jogou o dinheiro na caçamba. No total, Zé Walter e o menino levaram três sacos de dinheiro até o carro. Zé olhou bem dentro da cara do moleque. Apontou a arma.
-Olha aí, neguinho. Tu não vai falar nada que foi o Lion que mandou roubar a tua boca não, hein? Se falar o bicho vai pegar. Eu volto e vou escrotizar você e sua família.
O menino apenas acenou com a cabeça positivamente.
Zé pisou fundo no acelerador, descendo o morro a toda velocidade com a caminhonete dos Thundercats.

Em seguida, ele rumou na direção da estrada para as quebradas do Lion, na direção de Viçoso Jardim. O sol já estava raiando quando Zé chegou nas proximidades de um lixão, onde muitas famílias garimpavam um pouco de comida.
Zé jogou o carro num matagal das proximidades. Ele desceu do carro, pegou os dois sacos cheios de dinheiro e jogou lá no meio do lixão. Zé pegou um dos sacos, colocou nas costas e foi para a estrada.
Pegou um ônibus parador na estrada para Viçoso Jardim. Da janela do lotação, ele viu à distância, as pessoas miseráveis comemorando com o saco cheio de dinheiro. Aquilo o deixou feliz. Zé Desceu nas proximidades de onde havia deixado a Parati, perto da banca de jornal.
Ele abriu o carro, jogou o saco de dinheiro dentro. E esperou.
Algum tempo depois, ele viu passar as sete vans com homens armados até os dentes, saindo em disparada da casa. Era o bonde da morte.
Zé abaixou-se e esperou deitado no carro até o bonde passar. Enquanto esperava ele pensava para onde aqueles homens teriam ido.
Depois de algum tempo, quando a rua pareceu voltar ao normal, Zé Walter saiu com a Parati do cunhado de volta para casa.
Enquanto dirigia, Zé Walter lembrou que estava com o Walk Talkie de Lion. Aumentou o volume do aparelho e ouviu uma conversa:
-Tão onde? – Perguntava uma pessoa.
-Estão na base. Atirando. Veio a favela toda. Vem pra cá. Vem pra cá logo, porra! Eles tão matando todo mundo! -Gritava uma outra voz em meio a ruidos e estampidos.
Zé Walter sorriu. Aquele era o fim dos Thundercats.
Ele escutou no rádio que os traficantes da favela do Carrapato não quiseram deixar barato o roubo na boca de fumo. Como previsto, o aviãozinho do tráfico dera com a língua nos dentes, e todos os soldados dos Thundercats pensaram que foram os traficantes do Carrapato que mataram Lion. Zé descobriu pelo radio que o sujeito gigante da boca de fumo era o “Diagonal”, marginal perigoso, procurado há anos pela polícia. Diagonal era o lider de uma facção do crme organizado que visava o controle total das favelas. Por isso era desafeto direto do Lion. Zé Walter literalmente atirou no que viu e matou o que não viu.
O Rádio do carro dava conta de uma guerra sem precedentes entre as milícias do Viçoso Jardim e os comandos unidos das favelas, com prejuízos e incontáveis baixas para os dois lados.
Zé rumou para a casa de Armando. Tocou a campaínha e entregou o carro. A esposa dele atendeu. Sarita disse que Armando tinha ido trabalhar.
Zé entregou a Sarita a chave da Parati e pegou um ônibus para casa.
Ele estava morrendo de saudade de Gizela. Planejou chegar de surpresa, com o dinheiro e sair em seguida para comprar passagens para as Ilhas Gregas e Paris, o sonho da mulher dele.
Desceu do ponto com o saco de dinheiro nas costas sentindo-se o próprio papai noel. Ao chegar no predio, seu Limair estava na portaria, cheio de dedos.
-Seu José… Seu José… -Tentava falar o porteiro, gaguejando.
Zé percebeu que algo estava errado no tom grave na voz do porteiro. Olhou na cara do seu Limair, que perdeu a fala.
Zé Walter correu para o elevador e disparou para casa. Chegando lá, deu de cara com a polícia. Várias pessoas mexiam na casa, tirando fotos.
-O que é isso? – Perguntou.
-O senhor é o dono da casa? -Perguntou-lhe um policial anotando coisas num bloco.
-Sou.
-Meu nome é detetive Barros. Dona… Deixa eu ver aqui. Gi…
-Gizela. É minha mulher. O que houve? Fala pelo amor de Deus!
-Bom, Seu José. Sua esposa, como posso dizer, sofreu um atentado.
-O que?
-Pois, é. O IML já removeu o corpo, seu José. Está a sua disposição para reconhecimen…
-Mas… Mas… Não! Não é possível! – Zé Walter caiu de joelhos. Sentia o mundo desabando.
-Pois é, seu José. Os vizinhos acordaram esta noite com os tiros.
Zé Walter estava desconsolado. Apenas chorava. O policial continuou.
-Eles ligaram para a polícia e a patrulha que faz a segurança no bairro subiu. Encontraram sua esposa morta, esfaqueada. No quarto com ela estava uma outra mulher, que mais tarde foi identificada como Dona Sarah. Ela disse que era sua ex-namorada. Parece que ela tem problemas psiquiátricos. Ela estava repetindo uma coisa sobre ter avisado que ia matar a dona Gizela porque roubou o senhor dela… Que agora o caminho estava livre, que ela iria casar com o senhor. Ela estava completamente fora de si, seu José. Sinto muito… Tudo indica que foi um crime premeditado por uma pessoa com problemas mentais e…

Zé Walter já não mais ouvia o que o policial dizia. Ele estava tonto. Fechou os olhos. Sentiu que ia desmaiar. Chorou desconsoladamente até perder as forças e cair desmaiado no corredor do prédio.

FIM

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67 comentários em “Jurado de morte – Parte 9”

  1. Cara muito massa. Esperava um fim mais trágico por parte do Zé, mas ja tinha imaginado que podia se tratar da própria Gizela ser a vítima, mas como todo bom escritor sempre consegue ofusca essa idéia durante o texto. Parabéns, seu site tem sido parada obrigatória para mim desde o dia que descobri por acaso. Obrigado pela história.

    • Ísis, estou feliz que gostou. Eu assinei o contrato ontem com a Editora Multifoco. Agora está nas mãos deles a data do lançamento. Espero que saia em breve. Minha idéia é lançar uma série do blog, que seria: O melhor do mundo gump, O mais bizarro do mundo gump, Bonecos do mundo gump, etc… Tipo isso. Vamos ver no que dá.

  2. Até q enfim o FIM.
    Não me entenda mal, o blog é ótimo, mas essa e todas as outras histórias são um pé no saco!!!
    Vamos lá, volte com as Gumpicesde sempre…

    Falou…

  3. -Pois é, seu José. Os vizinhos acordaram esta noite com os TIROS.
    Zé Walter estava desconsolado. Apenas chorava. O policial continuou.
    -Eles ligaram para a polícia e a patrulha que faz a segurança no bairro subiu. Encontraram sua esposa morta, ESFAQUEADA.

    Como os vizinhos acordaram com os tiros se ela morreu esfaqueada? :S

    Fikdik Philipe o/

    • Este é um mistério que será solucionado na mente do leitor. Na minha eu resolvi fácil.
      Eu julgaria que Gizela com medo de ficar em casa sozinha, pegou uma arma emprestado. Quando a louca entrou na casa, Gizela tentou se proteger, atirando, mas pouco adiantou, pois ela não tinha experiência e não sabia atirar. Morreu na ponta da faca da louca.

  4. Poxa, eu tava achando desde o começo que tudo isso era uma alucinação do Zé, como uma especie de esquizofrenia.

    Esse final surpreendeu, parabens!

    Só uma dica, eu acho q vc abusou muito de linguagem coloquial, ta certo que bandidos geralmente usam um linguajar mais ‘folgado’, mas se vc usasse isso um pouco menos no conto, a leitura teria sido mais agradavel. Fora isso ta ótimo :B

  5. Philipe, muito boa a história mesmo.Me amarro muito em histórias de fantasmas. Li todas suas experiências sobrenaturais. Será que você não tem um conto neste estilo?

  6. Então quer dizer que o cara da pizza era de verdade, o cara do opala era segurança e o taxista mentiu e ele matou o cara que não tinha nada haver com a história.

    Genial Philipe! Me lembrou alguns jogos pra computador onde você tem que fazer um puta arrodeio só pra apertar um botão.

  7. Tinha que ser o Philipe, mas uma história muito bem bolada !
    Parabéns Philipão. Você foi responsável por incessanes acessos meus ao blog procurando por uma continuação dessa saga a cada dia que se passava. Parabéns pelo conto e obrigado pela diversão !
    GUMP !

  8. :gasp: :gasp: sinistro heim eu ri com esse final mt mt bom…completamente inesperado… “por tras de um grande homem existe sempre uma grande mulher”
    (por tras de uma enorme treta sempre existe mesmo que oculta uma maniaca) sem ofnesas as leitoras…meus parabens cara so cada vez mas teu fã, bom daqui agora vo direto pro caçador que ta mt foda tbm vlw felipe…

  9. cara…sem palavras vc eh o Einstein com poderes…voce faz cada texto cara…na minha escola praticamente todos da escola e os professores ja leram seus textos…eh o site mas badalado de todos…WOW,cara da sentir na pele o que o cara faz…imaginar nem se fala…criatividade eh o que n falta…n falta mesmo…

    WOW…amo….seus textos,….WOW :ohhyeahh: :ohhyeahh: :ohhyeahh: :ohhyeahh: :ohhyeahh:

  10. Esse conto foi foda,muito massa todo esse suspense e tal.Nem ligue pra esses projetos de escritores frustrados com esse papo de linguagem coloquial exagerada ou que seus contos não tem tanto valor quanto as gumpiçes corriqueiras.Tudo nesse blog é um todo.parabens pelo trabalho meu caro!C realmente desperta a imaginação dos leitores com o enredo e com o fato de postar parte por parte.continue com os contos por favor.abraço

  11. :lol2: Muuuuuito louco…Philipe cada vez q entro aqui é como se eu estivesse em outro lugar, outra realidade. Gosto muito do Mundo Gump. Parabéns…nota 10. abraços

  12. Philipe, só agora li toda a série de “Jurado de Morte” e oque eu posso dizer é que foi TOTALMENTE INCRÍVEL!!!! nao sei como pude esperar tanto para ler, caraca, vc é um gênio!!!
    Acompanho o Mundo Gump a 3 anos e vi incriveis façanhas que vc fez. Meu Deus, vc parace ser bom em um pouco de tudo!!! Tu é meu ídolo(e já faz tempo)!!!!

    Valeu!!! !!!*OTIMO CONTO*!!!
    Abraços, Lucas

  13. Muito bom!! Achei ótimo, mas não gostei da parte que comparou os homens negros a escravos, estamos em 2010 esse tipo de comparação é o mesmo que retroceder no tempo, vc tem um grande talento tem que continuar evoluindo…:)

    • Ah, tá. Mas veja, não é mal nenhum em comparar os negros com escravos. Em momento algum eu disse que negros devem ser escravizados. Eu disse que eles pareciam escravos. Os negros foram escravizados e isso aconteceu de fato. Foi uma merda? Foi. Foi errado? Foi. Mas isso não me impede de comparar uma cena atual com algo histórico que estamos cansados de saber. Errado seria se eu dissesse que eles são bandidos por serem negros. Comparar negros de roupa branca, carregadores braçais trabalhando duro com escravos não é uma má comparação.

  14. Tudo bem Philipe! Entendo seu ponto de vista, mas gostaria muito que parassem que associar pessoas negras a escravidão. Pq se pararmos pra avaliar as histórias da maioria dos povos, todos foram escravizados ou explorados de alguma maneira. Como por exemplo os Judeus pelos Egípcius, os índios brasileiros pelos portugueses, mas isso não fica sendo lembrado o tempo todo!

    OBS: Entendi seu ponto de vista, só estou esclarecendo o meu!

  15. CAAAAAARA , que final em ?
    Mais agora , só não gostei porque Gizela morreu … 😛
    Mais deveria virar um curta !
    Excelente trabalho ! :love: :love:

  16. Como eu pude ficar sem ler Jurado de Morte durante o tempo q eu leio o blog (1 mês). Já cansei de falar aki, Cara, tu é muito criativo, não sei como eu passei 4 aanos sem ler o seu Blog (com B maiúsculo), eu fico aki imaginando as cenas todinhas na minha cabeça, Meus PARABÈNS, Vc merece.

  17. “Os vizinhos acordaram esta noite com os tiros”  ” Encontraram sua esposa morta, esfaqueada”so nao entendi uma coisa…..os vizinhos escutaram os tiros mas ela morreu a facadas…..???

  18. nooossa! Isso que dá ser paranóico! kkkk O zé ficou tão doido com a história da ameaça de morte que cometeu um monte de crimes e ainda ficou sem a mulher!
    Só teve uma coisa que eu não entendi, como foi aquela história do entregador de pizza? Era um entregador mesmo? Por que o cara, ao tocar a campainha e não ser atendido, entrou na casa e ainda levou a carta? Não entendi essa parte.

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