Jurado de morte – Parte 6

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Zé Waler dirigia velozmente aquele táxi. Enquanto guiava pelas tortuosas estradas, ele ia pensando como faria para matar Lion.

O presidio é algo feito para manter a sociedade a salvo dos bandidos, mas isso também dificulta as coisas quando se trata de tentar matar alguém lá dentro.

Enquanto esperava para ultrapassar uma van, lembrou-se da mulher. Pensou como foi burro de optar por aquela fuga, desesperada, para a casa de campo do Amarildo. E se o bigodudo resolve se vingar na Gizela?

Aquele pensamento o arrepiou. Ele estava tão desesperado para fugir que não pensou o suficiente para garantir a segurança da própria mulher.

Sentiu um estranho nó na garganta. Há dois dias que a vontade de chorar estava entupida em sua garganta como se fosse uma casca de pipoca. Tentou abstrair Gizela. Voltou-se para a estrada. Concentrou toda sua atenção por varios minutos em dirigir o taxi, fazendo o percurso de volta na maior velocidade que podia. Sorriu quando imaginou que o taxista balofo iria receber aquelas multas no atacado e no varejo.

Zé estava disposto a apagar Lion. Mas como fazer isso? Devia ser de um modo rápido, eficiente, sem testemunhas e de forma instantânea. Mas não… Antes ele iria deixar bem claro para o Thundercat maldito que ele estava morrendo porque se meteu a besta com a pessoa errada.

Ele que se meta de macho lá para as negas dele. Pois agora ele mexeu com o cara errado. Ele é Zé Walter…

-Armado e perigoso… – Disse sorrindo para si mesmo, olhando no retrovisor do taxi.

Zé sentia uma estranha euforia. Uma louca energia que tomava seu coração e o órgão já disparava só de imaginar o dedo no gatilho com o trabuco na cara de Lion. O que se sucederia era difícil de imaginar, mas seria apenas eles dois naquela cela imunda. Então haveria o estampido e em seguida, o alívio… Ele estaria livre.

Zé sentiu o estômago doer. Estava com fome.

Caiu em si que não comia fazia muito tempo. No nervoso da situação no taxi, não sentira fome, mas agora passado aquela parte do pesadelo, a fome veio galopante.Olhou para o painel e viu que o combustível já estava nas últimas.

Zé estacionou na beira da estrada, numa rede de lanchonetes especializada em pão com linguiça anexa a um posto de gasolina.

Correu lá pra dentro e já pediu logo dois pães com linguiça e queijo, mais um refrigerante de 500ml.

O atendente magrinho olhou pra ele de cima abaixo.

-Tá com fome, hein patrão?

-Pago ali? – Perguntou Zé Walter.

-Sim senhor. Ali no caixa.

Zé desembrulhou o dinheiro embolado no bolso que iria usar para pagar o taxi. Pagou a comida e sentou-se em uma mesa no canto. Perto da janela. Dali ele podia ver o taxi. E uma meia duzia meninas-frentistas que usavam calça de ginástica tão justa que permitiam aos motoristas de caminhão que passavam por ali antever todos os detalhes de sua anatomia sexual.

Zé ficou ali pensando naquelas mulheres. Tinha uma que realmente tinha um corpo escultural, mas o rosto dela era mais feio que o do capeta.

Zé estava absorto observando as reentrâncias que se formavam nas calças de ginástica. Ele pensava se seria uma obrigatoriedade as mulheres frentistas daquele po0sto não usarem calcinha.

Nisso, o magrelo do balcão chegou com os pães com linguiça e o copão de refrigerante.

-Bom apetite, moço. – Disse o magrelo.

Zé achou estranho e percebeu que o magrelo do balcão havia olhado de uma forma diferente pra ele.

Enquanto saboreava o pão com linguiça, Zé vasculhava sua mente em busca de respostas para muitas perguntas. Sua cabeça estava confusa, pensando em varias possibilidades ao mesmo tempo. Mas enquanto comia, deteve sua atenção por breves momentos naquele rapaz. De tempos em tempos, o magrelo do balcão olhava pra ele.  Olhava, olhava e quando percebia que Zé estava olhando de volta, desviava o olhar de forma brusca e disfarçava, passando um pano encardido em cima do balcão de metal.

A lanchonete estava meio vazia. E entravam uns poucos gatos pingados.

Zé ficou disfarçando e olhando para o sujeito. Notou que ele olhava detidamente para o Taxi do lado de fora. E então olhava pra ele.

Estava ficando cada vez mais claro para Zé Walter que o magrelo do balcão não era flor que se cheirasse. Naquela altura do campeonato, não seria de se espantar que o magrelo estivesse mancomunado com os assassinos.  Ele estava olhando o taxi, quando pegou um pedaço de papel de pão e anotou alguma coisa. Zé sentiu um novo arrepio. Certamente que o magrelo agora estava anotando a placa do Taxi.

Zé não esboçou reação. Mas o pão com linguiça perdeu imediatamente todo o seu sabor. Enquanto mastigava aquela massa amorfa e sem gosto, Zé traçava um plano e produzia explicações potenciais para aquele comportamento do balconista.

Certamente que o balconista da lanchonete devia conhecer muita gente. Era um entra e sai enorme ali. Sobretudo nos horários de pico, como na hora do almoço. Será que ele conhecia o gordinho? Talvez fosse isso. O Magrelo estava achando estranho que o motorista do taxi fosse outra pessoa que não o gordinho.

Nisso, o telefone celular do magrelo tocou, lá atrás do balcão. Zé acompanhou com os olhos e viu quando o magrelo entendeu. Não dava pra ler os lábios, pois aquilo se passava bem longe, mas certamente que o magrelo estava falando com alguém sobre ele. O magrelo apoiou-se sobre o balcão e ficou falando, falando. Falava e olhava pra ele. Depois olhava para o Taxi. E então voltava a olhar pra ele.

Zé pensou que talvez pudesse ser uma ligação do próprio motorista do taxi. Naquela altura, ele já teria conseguido chegar a um bar, uma mercearia, um lugar qualquer na beira da estrada que tivesse um telefone. Sabendo quanto o carro tinha de gasolina, não seria difícil que o gordinho calculasse com razoável precisão que Zé teria que abastecer. Como esses taxistas conhecem Deus e o mundo, era provável que em algum papelote dobrado e amassado, ele encontrasse números.  Números escritos de caneta, já borrados e manchados pelo tempo, mas que ainda fossem possíveis de serem decifrados. E então o gordinho ligaria, desesperado, tentando saber com alguém do posto se o taxi dele, roubado, estava passando por lá.

O magrelo continuava, a falar. Falava baixo, quase sussurrando, mas sem perder o sorriso cínico que o caracterizava. Continuava a olhar de rabo de olho para Zé Walter.

Zé sabia que durante tanto tempo de conversa, certamente os dois estavam tramando algum tipo de plano sórdido para impedi-lo de voltar. Tomou o resto de refrigerante que havia no copo e foi para o banheiro urinar.

Passou bem perto do balcão, onde o magrelo falava no telefone. Tentou ouvir alguma coisa, mas deu azar e não conseguiu distinguir nenhuma só palavra que o magrelo falava. Enquanto passava, foi acompanhado pelo olhar do balconista.

Ao chegar no banheiro, ele estava bem sujo. Paredes escurecidas por vazamentos antigos, e rabiscos nas portas do sanitário. Zé escolheu uma baia aleatoriamente. Enquanto urinava, notou que alguém havia entrado no banheiro. Ao se virar, deu de cara com o magrelo. O magrelo andou lentamente, olhando nos olhos dele e entrou no último  sanitário.

Zé Walter saiu do banheiro rapidamente. Imaginou que aquilo poderia ser algum tipo de armadilha.

Voltou para o salão e olhou em volta. Nem sinal do celular do magrelo.

Nisso um homem encostou a mão no ombro de Zé, que assustou-se.

-Ei, moço. O senhor que é o dono do taxi ali?

-N..não, não.

-Ué. Não?

-Não, não. Não senhor. Não sou não. Não sou não senhor.  -Disse balançando a cabeça.

-Uai, sô. Mas o rapaz do balcão me disse…

-O senhor me dá licença? Só um minuto… – Disse Zé Walter, saindo apressado.

Ele havia sido descoberto. Certamente o magrelo tinha recebido a ligação do gordinho, que por sua vez já devia ter alertado todos os bandidos da quadrilha do Lion. Aquele homem parrudo só podia ser um deles. Zé correu para fora da lanchonete. Disparou para o estacionamento em frente, onde deu a volta no taxi. Abriu o porta-luvas e tirou a arma. Colocou a arma na cintura, cobrindo com a camisa para disfarçar. Fechou o taxi e correu. Ele correu até o posto, onde passou a andar por entre os caminhões estacionados. Volta e meia abaixava-se e olhava por baixo da longarina, tentando ver algo de diferente na lanchonete.

Viu então que o homem grande saiu junto com o magrelo do balcão e ficaram olhando para todos os lados. Certamente que procuravam por ele. Desceram as escadinhas e foram até o estacionamento. Ali circularam o taxi e ficaram procurando…

Zé estava certo que aqueles dois estavam no encalço dele. Não havia mais como escapar. Provavelmente o Lion já teria determinado, diretamente do presídio que algum veículo o interceptasse na estrada. Zé Walter se odiou pela estupidez de parar naquela lanchonete.

Foi quando notou um velho Escort XR3 com um casal que entrava no posto. A moça desceu e foi andando para a lanchonete do pão com linguiça. O jovem rapaz que dirigia foi até uma daquelas moças que não usavam calcinha e pediu para encher o tanque. Depois de encher o tanque , ele foi até a mangueira de ar calibrar os pneus. Deixou o carro ligado e começou a encher os pneus do Escort uma  um. Enquanto o jovem enchia o pneu traseiro, Zé esgueirou-se pelo jardim do posto e correu como uma bala para dentro do carro.

Antes que o rapaz pudesse perceber, Zé Walter já estava dando ré a toda velocidade com o carro dele. Na confusão, ele arrancou um pedaço da mangueira de calibragem, disparando o ar da mangueira, que serpenteou no ar como uma cobra. O rapaz desatou a gritar e a moça veio correndo com um pão na mão de dentro da lanchonete.

-Ladrão! Ladrão. – Todo mundo gritava.

Zé deu um cavalo de pau com o Escort e entrou na estrada, desviando de um caminhão. Pisou fundo no acelerador. Enquanto dirigia tentava vasculhar sua memória para saber se o magrelo ou o grandão o teriam visto roubar o Escort. Teve a sensação de que não vira nenhum dos dois na hora do roubo, mas não tinha certeza.

Ele já tinha dirigido alguns quilômetros quando notou que a direção estava pesada.

-Puta que pariu! O pneu! – Falou sozinho.

O carro estava anormalmente pesado. Zé encostou o Escort roubado num acostamento, perto de uma bica.

Desceu e viu o tamanho da cagada. O pneu de trás estava vazio. Completamente vazio, ainda com o bico da mangueira de calibragem engatado. Na pressa, ele arrancou com o carro e o bico que enchia passou a fazer o favor de esvaziar todo o pneu.

Zé sentiu que estava lascado. Certamente que dali a poucos minutos alguma patrulhinha viria em seu encalço.

Abriu o porta-malas. Estava lotado. Zé saiu jogando tudo para fora. Edredom, colchão, mantimentos, latas gaiolas, sacolas de roupas e malas velhas. Finalmente alcançou o estepe. Vazio.

-Caralho! Tá vazio. – Disse.

Ficou pensando no que fazer. Não havia como escapar, só tinha estrada e matagal para onde quer que olhasse. Foi quando surgiu uma Brasília verde-abacate que encostou atrás do Escort.

Desceu um velhinho.

-Opa.

-Oi.

-Furou?

-Pois é…

-E o estepe?

-Vazio.

-Quer ajuda aí?

-Bom… Pode ser. Será que o senhor poderia me fazer um favor? Preciso muito ir até o posto mais próximo, pra encher o pneu. O senhor pode me levar?

-Claro, filho. Entra aí.

Zé Walter entrou no carro do velho.

-E as coisas? Não vai guardar?

-Ah… Sim, é.. Pois é, né? As coisas. Mas tá safo. A minha mulher guarda.

-Mulher?

-Ah.. é. Veja bem… É… A minha mulher, o senhor sabe…

-Ah, já sei. Nem precisa falar. Tá no matinho, né? A minha finada Jacinta era bem assim, não podia viajar. Mal botava o pé na rua já queria fazer xixi, coitada. Mulher tem disso, né?

-Exatamente, meu senhor.

-Carlão.  Muito Prazer. Sua graça?

-Zé… Zenilton. Zenilton.

-Nome diferente, né? -Perguntou o velho.

-Pois é. Coisas do meu pai.  – Disse Zé Walter, disfarçando o ato falho que quase entrega o próprio nome.

Os dois saíram com a brasilia verde abacate e foram até um posto nas redondezas. Chegando lá, o velho Carlão se despediu e foi embora.

Zé Walter correu até o frentista.

-Ei companheiro, tem orelhão aqui?

-Tem sim senhor. Ali, perto da lateral. Do lado do banheiro tem um… Só não sei se tá funcionando. Ele é meio doido. Tem dia que funciona, dia que não funciona. Se chover, já viu…

-Ok, obrigado. – Disse Zé, largando o frentista falando sozinho.

Zé Walter chegou no oroelhão que pra sua felicidade, estava num dos dias bons. Ligou para casa. Ninguém atendeu. O telefone chamou, chamou e nada de atender.

Zé achou aquilo estranho. Era a hora em que a Gizela estaria em casa. Tentou ligar para o celular dela, mas estava desligado. Zé ligou então para Armando, seu cunhado.

-Alô?

-Armando, aqui é o Zé…

-Coé, negão?

-Porra Armando. Tu não sabe atnder telefone não, cara? Por que demora tanto pra atender esta porra, caralho?

-Fala logo, véi. Eu tava vendo filme do Van Damme. Agora tá pausado aqui e as crianças tão enchendo o saco.

-Armando, preciso de um grande favor seu, cara.

-Porra Zé. Eu não tenho dinheiro cara. Se é grana…

-Não, viadão. Não é grana não, seu bicha. O lance é outro.

-Que foi? Cara que voz é essa? Que que está acontecendo?

-Eu tô numa roubada. Me fodi aqui. A coisa é séria. Preciso da sua ajuda.

-Fala logo, porra. O que houve? Calmaí. … Sarita? Ô Sarita?  Porra liga logo esta merda desses filme aí pros moleques. Não, não. Não vou ver não… TOma uma atitude, ué. Você é a mãe, porra. … É o Zé. Zé da Gi. Ele tá com problemas. Depois eu falo. Né isso não. Ôôô Sarita, não enche, porra.  Bota o filme lá e diz que se eles sairem na porrada de novo eu vou desligar o dvd!  Foi mal. Zé? Tá aí, Zé?

-Tô.

-Fala aí, Zé. Onde que você tá, cara.

-Eu tô num posto…. Deixa eu ver. Gauchão do Brejo. Indo na estrada de Teresópolis. Não dá pra explicar tudo agora, pois é uma parada bem sinistra.

-Tem a ver com a Gi? Vocês brigaram?

-Não, não. Armando, é merda mesmo, cara. Querem me matar.

-Hã? Porra não é primeiro de abril…

-Seu puto! Você acha que eu vou brincar com uma porra dessas? Eu tô lascado mesmo!

-Ah, Zé. Que merda. No que você se meteu? Tá fazendo o que aí nesse posto?

-Cara, não tenho créditos. A porra aqui vai cair. Vem me buscar que eu te conto. Vou precisar muito da sua ajuda.

-Ok. Eu tô indo praí. Mas…

-Armando, tu tá ligado naquele teu chapa dos tempos do exército? Aquele que você me falou. O chapa-quente.

-Caralho. Que porra é essa? O Timbú? Tu tá falando do Timbú?

-Isso.

-Não sai daí. Fica aí, cara. Ó… Fica calmo. Procura um lugar abrigado e não dá mole. Daqui a mais ou menos uma hora eu tô chegando. Aí você me explica a merda federal que você se meteu pra estar querendo falar com o Timbú.

-Ok. Anotou o nome do posto?

-Gaucho né?

-Gauchão do Brejo.

-Tá. Tá. Tô ligado. Tô indo cara. Não sai daí.

Zé Walter desligou o telefone. Olhou em volta, Ninguém olhava pra ele. Apalpou a arma na cintura. A sensação era incômoda, mas a arma ali dava uma certa segurança. Zé foi para a loja de conveniência do posto e ficou folheando uma revista. Olhou várias revistas. Deu uma lida num quadrinho do Super homem, olhou um manual pratico de fotografias e imaginou o que haveria por trás do novo fascículo da série “Posições para amar”. Então deu uma olhada nas revistas semanais, e finalmente nos jornais. Subitamente, uma manchete com letras garrafais chamou sua atenção:

cabeasvaorolar Jurado de morte   Parte 6

Continua…

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11 comentários em “Jurado de morte – Parte 6”

  1. WOOOOOOWWWWW Mega producao gump, ta show de bola cara, muito bom os dialogos, esta tem pinta de ser uma de suas melhores historias, continua ai que a curiosidade ta matando ja, ou se nao vou ter de usar os olhos de thundera pra ver o final da historia hehehe.
    abracao cara.
    Andre

  2. Cara ta ficando show.. e na minha opinião esse cara ai o Zé, ele é um doente !! o cara é um maniaco arrumando desculpa em tudo que ve pra fazer merda… mas claro não é culpa dele o cara é so doente.. deve esquizofrenico ou alguma parada dessas ai .. eu acho … :/

  3. O texto está realmente muito bom, fodastico!
    Concordo o Bruno, o cara parece esquizofrenico mesmo, cheio de paranóia.
    Já estou esperando pela continuação. :B

  4. eu também achava que o cara era esquizofrenico, mas aí agora o lion fugiu da cadeia, não sei mais nada hahaha

    legal o texto, só não to gostando muito dos dialogos, muito enrolados…

  5. Fala Philipe,

    Muito bom, pelos comentários vemos que as opiniões sobre o Zé são inúmeras, legal isso, mostra que as suas histórias não são previsíveis, e essa caminha para um final muito loko… Muitas perguntas sem respostas… à trama está cada vez melhor, excelente trabalho mais uma vez parabéns!!!

  6. Isso ai !
    Valeu pela parte 6 !!! Como disse o nosso amigo ali em cima, agora faz a 7 pra compensar o tempo que agente ficou no aguardo pela 6. hehehe
    E ja sabe, se der merda chama o Timbú !

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