Ganzu – O quinto dia

Marcelo desceu correndo do sofá. Pulou a poça de vísceras malcheirosas e bateu a porta. Passou o trinco.

-Acabou! – Disse Nareba.

Todos se abraçaram. As meninas choraram. Já não dava pra ver quase nada na sala. Vladmir buscou as velas.
A luz fraca do fogo iluminou a sala de laranja e os retos mortais de Armando e Reginaldo deixavam o ambiente ainda mais mórbido.

Temos que enterrar ele. – Disse Sarah, olhando para o par de pernas perto do sofá, que era só que restou do amigo.

-Tá louca? Se formos lá fora o Ganzu pega a gente!
-Eu disse! Vamos matar essa porra e colocar no vidro com álcool. Mas aí o sabidão se meteu… Olha a porra que deu! É tudo culpa dele! – Disse Greg, apontando o dedo em riste na cara de Marcelo.
-Quem disse que era pra não matar foi o Armando, porra!
-Foda-se! Você que achou essa porra. Você que trouxe esse bicho pra cá! É sua culpa!
-Pena que aquele puto não atirou em você, seu babacão! – Respondeu Marcelo, aos gritos.
-Vou te mostrar quem é babacão!
-Greg, não piore as coisas! – Disse Aninha, entrando no meio dos dois.
-Vamos subir! Aqui não é seguro!- Disse Sarah. Ela tinha o nariz vermelho como uma pimenta de tanto chorar.
-Pelo menos o Ganzu comeu os bandidos. – Riu Vladmir. O Russo estava fazendo um esforço para não demonstrar seu trauma. Ninguém parecia disposto a zoar o cara por ter feito xixi nas calças. – Vamos! Preciso tomar um banho.
-Vai ser impossível dormir sabendo que este bicho está lá fora. – Falou Aninha, enquanto subia as escadas.
-Bom… Espero que ele vá pra bem longe daqui. -Respondeu Marcelo.
-E essa chuva que não pára, meu Deus? -Sarah parecia desesperada.
-Acho que temos que dormir todos juntos. – Disse Marcelo.

Todos foram para o segundo andar da casa. Foi preciso dar uma geral nos quartos, que estavam todos revirados. Depois o grupo resolveu que passariam a noite no quarto maior, do Armando. Enquanto Sarah, Aninha e Vladmir e Greg se revesavam tomando banho, Marcelo desceu com a lanterna do russo. Ele foi até a cozinha, preparar uns sanduíches. Ninguém tinha fome, mas Marcelo sabia que os amigos precisariam comer alguma coisa.

A sala fedia horrivelmente. O àcido digestivo do Ganzu havia liquefeito quase totalmente os corpos, mas quando os intestinos derreteram, o cheiro de fezes, gordura, sangue e tripas se decompondo tornou a sala um lugar proibitivo.
Na cozinha Marcelo viu o caldo que escorria do cadáver no quartinho. A gosma descia num filete cremoso até o ralo.

Nareba tentou abstrair a cena, que parecia aquelas imagens de crime. Acendeu uma a uma as velas nos pratinhos com água na sala. Foi até a geladeira, pegou uns ovos para cozinhar. Enquanto esperava começou a olhar os armários afim de estabelecer o quanto de comida eles ainda tinham. Colocou a leiteira no fogo com vários ovos dentro. Ainda tinha dois sacos de não de forma, mas um deles tinha mofado. A comida estava acabando depressa. Marcelo estimou que talvez eles só tivessem provisão para mais dois dias. A água mineral que eles tinham levado já estava no fim, e beber a água da casa poderia ser arriscado, uma vez que o encanamento de ferro era velho e todo oxidado. A própria água do banho vinha com gosto de ferrugem, o que era um mau sinal. Marcelo chegou a pensar que talvez estivessem ficando mais sujos ao tomar banho.

Nareba pegou o vidro de maionese na geladeira. Procurou a faca nos armários. Não encontrava. Assim que Marcelo abriu a gaveta ouviu um estalo atrás dele.
Seu coração quase saiu pela boca quando a imagem do Ganzu entrando pela janela dos fundos invadiu sua mente. Mas o estalo era do temporizador do gerador que alimentava a geladeira. O motor ligou e o som do mesmo invadiu a casa.
A água já estava fervendo. Marcelo preparou os sanduíches com maionese, e somente quando o som do motor se desligou, ele ouviu as pancadas. Eram batidas fortes contra a porta da frente.

-Puta Merda! é o Ganzu.

Mas depois da quarta batida, o barulho parou.

Marcelo desligou o fogo, e foi lentamente até a janela. Tentava não fazer barulho. Desviou das poças de ácido com cuidado e olhou lá pra fora, mas a escuridão não permitia que Marcelo visse nada.
Ele pegou a lanterna do bolso e apontou lá pra varanda. Viu as cadeiras de plastico, viu os vasos de samambaias ressecadas balançando com o vento e a chuva que pingava do telhado, mas não havia sinal do Ganzu.
-Cadê você, maldito? – Sussurrou, enquanto varria a parte visível da varanda com a lanterna.

-Screeeeck! – Uma coisa agarrou a perna de Marcelo, que deu um grito de desespero.
-Ahhhhhh!
-Greg deu uma sonora gargalhada. – Hahahaha… Ele quase se cagou! Tá fazendo o que aí, chassi de frango?- Era o Greg e suas brincadeiras de mau gosto.
-Porra! Porra! Filho da puta!
-Achei que eu tivesse mandado você fazer uns sanduíches pra galera, não ficar na janela.
-Mandou? Vai se foder, otário. Desde quando você manda em alguma coisa?
-Você não voltava e as meninas estão meio boladas lá.
-O Ganzu tava tentando voltar! Tava batendo na porta.
-Sério?
-Sério.
-Então ele não foi embora?
-Ainda não… Não sei porque. Acho que ele voltou quando o gerador ligou. – Disse Marcelo. – Agora, você tem que parar com essas palhaçadas, cara. Se eu tivesse armado, eu podia ter te dado um tiro pensando que era o bicho, porra.

Marcelo estranhou porque Greg estava quieto, com os olhos esbugalhados olhando fixamente pra ele. A expressão de Greg era de puro pavor.

-Que foi? Que foi cara?
Greg não respondeu. Só começou a andar para trás, bem devagar. E então, apontou o dedo para Marcelo.

Quando Marcelo se virou, viu na janela a sombra tenebrosa do Ganzu. Estava enorme. Suas diversas perninhas estavam subindo pela janela, procurando uma entrada.

Marcelo saiu de perto da janela. Nareba correu junto com Greg para a escada.

-Caralho! Foi por pouco! – Disse Marcelo ofegante.
-Cê acha que ele viu a gente? – Perguntou Greg, apavorado.
-Não… Acho que ele ouviu meu grito e veio na direção da janela.

O bicho se mexeu perto da janela e desceu. lentamente sua sombra ameaçadora desapareceu na escuridão da varanda.

-Ele está circundando a casa. – Disse Greg.
-Ele tá sentindo o cheiro dos corpos. Com certeza! -Respondeu Marcelo.
-Cada hora que passa esse maldito está maior!
-É verdade! Ele ainda está crescendo. Ele nasceu ontem, porra…
-Qual será o tamanho adulto dessa coisa?
-Não pretendo ficar aqui para saber, Greg. Vamos, vou trancar a janela. Você pega os sanduíches.
-Vamos! Rápido! – Disse Greg, saltando da escada para a cozinha.

Marcelo correu até a janela e trancou as placas de madeira. A sala tinha duas grandes janelas, uma de cada lado da porta. Marcelo trancou as duas e verificou se a porta estava bem trancada. Saltou a poça nauseabunda e foi até a cozinha. Greg estava acabando de passar o creme de maionese e ovo nos pães.

-Tudo bem aí em baixo? – Alguém gritou na escada. Era Aninha.
-Shhhh! Não grita! Não grita! – Disse Marcelo. – Verifica se as janelas estão todas trancadas!
-Tá ok!

Os dois subiram com o sanduíches e uma das garrafas de água. Se reuniram no quarto.

-O que houve lá em baixo? – Perguntou Sarah.
-O Ganzu. Ele está tentando entrar na casa! – Disse Greg, com os olhos arregalados.
-Vocês viram se está tudo trancado?
-Tá sim! – Disse Aninha. – Estamos seguros aqui, não é?
-Espero que sim! – Respondeu Marcelo.
-O que vamos fazer? – Perguntou Sarah.
-Bom. Antes era a chuva, agora a chuva é o menor dos nossos problemas. O bicho está lá fora. Está sentindo o cheiro dos mortos na sala. Ele tentou entrar. – Disse Marcelo. Greg o interrompeu:
-Nos vimos o bicho tentando entrar pela janela. Ele está enorme! Cresceu mais ainda!
-Vladão, eu acho que ele tem uma audição muito boa. O motor do gerador quando ligou na cozinha fez ele bater na porta tentando entrar.- Disse Marcelo. O russo coçou a cabeça:
– Certamente ele se guia por diversos estímulos externos. Ele é claramente um caçador, do contrario não teria atacado tão ferozmente. Ao contrário, tentaria fugir. Ele vê pessoas como carne. Esse bicho, seja ele um animal da Terra ou do espaço, devia ser da ponta da cadeia alimentar. Pra ele tudo que se mexe é comida. E se ele se guia pelo som, podemos supor que ele consiga caçar de dia, de noite… Em qualquer condição. Dentro ou fora dágua. Aqueles estalos que ele faz devem ajudá-lo a localizar as presas, como um morcego. – Falou o russo.
-E como matamos ele? – Perguntou Greg.
-Sei lá, porra!- disse o gordinho.
-Tem que ter um jeito. Se ele nasce, ele certamente também morre! – Completou Aninha, pegando um dos sanduichinhos.
-Nós vamos ter que dar um jeito de fugir, porque em breve ficaremos sem água e comida. – Disse Marcelo.
-O Armando sabia que a comida estava acabando, mas ele não quis falar nada para não alarmar a gente. – Disse Aninha.
-Bom… Vamos esperar amanhecer para traçar um plano de fuga. Pode ser que sem conseguir entrar, o Ganzu acabe indo embora, procurando comida em outro lugar. – Disse Marelo.
-Deus te ouça, cara! – falou Vladmir Obrushev.

Todos escovaram os dentes e se deitaram nos sacos de dormir. Marcelo soprou a última vela e a escuridão engolfou o quarto.

___

Todos acordaram com um barulho na casa. Era uma batida muito forte.

-Que isso? – Disse Greg, assustado.
-Será que ele entrou? – Perguntou Sarah, já se agarrando no braço de Aninha.
-Não sei! Peraí! – Disse Nareba, pegando a lanterna do chão e correndo para a janela.
-Espere! Não abra! Ele pode estar aí! – Disse Greg.
-Não… O barulho foi lá em baixo. Ele não tem como chegar aqui em cima tão rápido! – Respondeu Marcelo.
-Abre com cuidado, cara! – Disse o russo, levantando e correndo até a janela.

Marcelo abriu. Ainda estava escuro lá fora. Não se via nada.
-Que horas tem? – Perguntou Marcelo.
-Ilumina aqui…Três e quarenta! – Disse Vladmir, consultando o relógio com a lanterna.
-Não tô vendo nada. Alguém ta vendo alguma coisa? – Perguntou Marcelo, passando o poderoso facho de luz pelo jardim. A chuva atrapalhava a ver, marcando muito bem o flash da luz.

Durante um bom tempo o facho de luz percorreu o gramado e o matagal ao redor, mas nada de diferente pôde ser visto. Até que…
-Ali! Ali! – Gritou Sarah, apontando algo perto da árvore.

Estupefatos, todos os amigos viram o Ganzu arrastando a carcaça de um dos cavalos. O bicho estava metade comido. O Ganzu já estava com o tamanho de um carro pequeno.

-Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!- Gemeu Sarah, ao ver a corcova escura e segmentada do ganzu se movendo em ondas pelo mato, puxando o grande pedaço do cavalo. As costelas se erguendo no ar, como espetos.
-Era previsível que ele comesse os cavalos! -Disse Marcelo, consternado.
-Coitadinhos.
-O que você acha que foi o barulho?
-Ele deve ter batido na lateral da casa, puxando o cavalo.

Vladmir estava quieto. Saiu da janela, foi até a mochila e pegou o celular.

-Cara não adianta. Você disse que não tinha sinal. – Falou Aninha.
-Isso é perda de tempo, Vladão. – Marcelo Nareba concordou com a moça do cabelo azul.
-Pera… – Ele respondeu, digitando.
-Tá ligando pra polícia? – Perguntou Sarah.
-Não… Tô calculando o tamanho que ele vai ter amanhã.
-Hã?
-Veja… O Ganzu saiu da pedra com pouco mais de dez centímetros. No dia seguinte, ele tinha quase trinta. Logo, ele triplicou de tamanho. Depois, quando os ladrões chegaram, ele ja tinha algo em torno dos dois metros.
-Essa coisa lá em baixo esta do tamanho de um fusca! – Disse Marcelo.
-Ele deve estar agora com três metros. E como ele já comeu três pessoas e dois cavalos, não há razão para pensarmos que irá parar de crescer. Ele tem um apetite monstruoso, porque está num processo de mutação constante. – Prosseguiu Vladmir. – Segundo meus cálculos, mantendo essa projeção, amanhã ele será do tamanho da nossa van!
-Cruzes! – Disse Sarah, se benzendo.
-Depois ele terá doze metros. E se ele não parar de crescer, exatamente dez dias depois que ele saiu do Geodo, o Ganzu terá se tornado uma monstruosidade comedora de carne com cem metros!
-Ai… Tô passando mal. Preciso sentar! – Disse Sarah, procurando a cama.

Todos estavam em silêncio, olhando para Vladmir.

-Ele não pode continuar a crescer indefinidamente. Vai faltar energia! – Disse Marcelo.
-Tem razão, Nareba! Tem razão! Mas a gente não sabe qual é o consumo energético do Ganzu, né Vladão? – Perguntou Aninha.
-Sim. Exatamente. Se ele está só acumulando toda esta energia, pode ser que ele vá crescendo… Crescendo. Minha percepção é que este bicho provém de um tempo ou de um lugar muito hostil, onde o grande come o pequeno. Por isso ele cresce tão rápido. Crescer para ele é mais que apenas uma questão de amadurecer. É uma defesa. E então passa a ser sua garantia de sobrevivência, pois quanto mais rápido ele fica enorme, mais rápido ele começa a comer as coisas que dias antes comeriam ele. É assim com a Lula gigante até hoje.
-Talvez ela seja contemporânea dele.
-Nem vou dizer que a culpa dessa merda toda é do Nareba! – Disse Greg, socando a parede.
-Calma, Greg. Relaxa. Culpar os outros não resolve nada agora. Temos que nos unir! – Falou Sarah. Greg concordou, sentando-se no chão.
Vladmir Obrushev continuou sua resposta:
-Pode ser. No passado existiram muitos bichos gigantes na Terra. Nosso planeta já viu tubarões que eram do tamanho de baleias! Uma coisa é certa, ele vivia num ambiente com uma grande fartura de alimentos, porque não parece nem um pouco preparado ou disposto a passar fome. – Disse o Nerd. – Certamente ele vai estagnar o crescimento em algum momento, mas se será com dez metros, ou com cem… Quem poderá dizer? Ninguém nunca viu uma porra dessa antes.
– Meu medo é ele voltar.
-Eu não creio que ele volte tão cedo. Com dois cavalos inteiros para comer, o Ganzu deverá dar um bom sossego, pelo menos por algumas horas. – Disse Marcelo.

-Gente… Vamos tentar dormir. Amanhã temos que dar o fora desse inferno. – Disse Greg.
-Certamente meus pais já acionaram as buscas. – Disse Sarah.
-O problema, é que com todos os problemas relacionados à chuva, é provável que nossos nomes estejam na lista de desaparecidos, com milhares de outras pessoas em diversas cidades da região.
-Bosta.
-…Para os bombeiros, ou resgate, nosso sumiço nessa área nessa época está dentro da normalidade, porque com uma barragem estourando, morre tudo que estiver na reta. -Disse o Russo.

Ninguém quis falar mais nada. Todos se deitaram e tentaram dormir. Nem todos conseguiram.

O dia raiou preguiçoso. Para espanto de Marcelo, depois de algum tempo o som da chuva, constante, quase inaudível, havia parado.
Marcelo foi até a janela. Abriu a janela interna e viu pelo vidro um céu carregado de nuvens, mas com espaços entre elas, onde brotava um tímido resquício de azul. Não tardou, a luz do sol penetrou pela janela.

-Sol! O Sol! – Gritou Marcelo, empolgado. Todos se levantaram, despertando moídos, e um pouco aliviados. Com o sol renascia a esperança no coração dos rapazes.

-Ah, como é bom! – Disse Aninha, esticando os braços pálidos na direção da luz que entrava pela janela.

-Veja as marcas do Ganzu! – Vladmir apontou.
Lá em baixo podia se ver o local onde a criatura atacara os cavalos. Havia ainda uma cabeça parcialmente derretida de um dos cavalos perto da árvore.

-Pobrezinhos.
-Bom, gente… É hoje. A chuva parou… Hoje temos que dar o fora daqui. – Disse Marcelo.
-Não vejo a hora! – Falou Greg, de olhos fechados ainda deitado no saco de dormir.
-Sim, porque o Ganzu sabe que tem mais gente na casa. Ele deve conseguir sentir a gente de alguma forma. – Disse o Nerd.
-Pra ele somos como uma dispensa bem equipada. – Completou Marcelo.
-Meu medo, sabe o que é? – Disse Aninha.
-O que?
-Que esse bicho perceba como é fácil entrar pelo telhado. Quando o Marcelo caiu, ele arrancou uma fileira de telhas. Se o bicho se mete por ali ele vai estourar o forro rapidinho, até porque no quarto do canto já encharcou e tá até chovendo aqui dentro!
-Verdade!
-Gente… E se…
-E se o que, Marcelo?
-E se a gente saísse correndo feito loucos, cada um pra um lado? O bicho é um só. Todos tem uma chance de se foder, mas certamente a maioria vai escapar.
-Cara, tu viu como aquela porra corre? Esse plano é uma merda.
-Isso nem é um plano, né nareba? é o puro desespero de causa. No primeiro atoleiro ele pega a gente! Um a um.
-Eu aposto que sobrevivo mais tempo que o Nareba! – Riu Greg.
-Pesadão assim igual você é? Muito ruim. Tu não chega nem na porteira antes de virar suco de Ganzu!- Respondeu Nareba.
-Pois eu acho que devíamos subir no telhado. Fazer uma grande faixa de SOS. Quem sabe passa um helicóptero… – Disse Sarah.
-Negativo! O telhado está um sabonete. Se alguém cair vai ser comido antes que possa dizer “merda”.- Disse Marcelo.
-Alguém mais tem um plano? Perguntou Aninha.
-Eu tenho um plano! – Disse Greg, lá do seu saco de dormir.
-Ah, lá vem o ogro.
-Aposto que ele vai sugerir suicídio coletivo ou outra babaquice! – Disse Marcelo.
-Na verdade, queria propor outra coisa. No combate, a melhor defesa é o ataque! temos que caçar o filho da puta! – Disse ele.
-Ah… Olha aí! Falou coisa com coisa, finalmente! – Disse Sarah.
-É… Mas ainda assim, quem é o macho que vai caçar aquele monstrengo nojento de quantos metros mesmo, Vladão?
-Hoje deve ter seis, Marcelo! – Disse o nerd.
-Eu caço ele!
-Ah… Tá bom. Mais alguém tem um plano que não envolva virar o He-Man? – Perguntou Marcelo.

-Escute meu plano, caralho! – Disse Greg, se levantando. O gigante veio até a janela. – Olha aí… o telhado da varanda.
-Tá… Que tem isso?
-Podemos sair por aqui… Vamos até o final. Dali passamos para o galho da árvore. Descendo por ela, podemos passar para o teto da van. Quebramos o teto solar e entramos por ali. Aí fugimos.
-…Perfeito seu plano, mas só até a parte E o Ganzu vem atrás e come a gente! – Disse Marcelo sorrindo.

-E o atoleiro? – Perguntou Vladmir.

-Foda-se o atoleiro, porra! Não podemos ficar aqui pra sempre.
-Você diz isso porque não foi com a gente ver o atoleiro dos diabos que estava lá na saída… E no segundo dia! Hoje já deve estar dez vezes pior! – Disse o Nerd.

-Ah, tá, espertão. Não gosta de nenhuma ideia que não é a ideia dele… Que por sinal envolve sair correndo feito uma bicha desvairada pelo mato. E aí vem o gordinho baba ovo atrás.
-Espertão não, pô! Tua ideia tava indo bem, mas o carro não vai sair da fazenda. Esse é o problema. – Disse Marcelo.
-Baba-ovo é o caralho!
-Ih, o Skavurska ficou bravinho é? Se enxerga, teu chupeta de baleia!
-Não, Greg. Pára meu! – Disse Sarah.
-Não fode. Tira a mão do meu braço, puta!
-Eu não sou puta, desgraçado.
-Sai fora, porra! – Greg empurrou Sarah, que tropeçou e cai de bunda no colchão do chão.
Marcelo não perdeu tempo. Deu um cruzado de direita bem na cara do lutador, que bateu de cabeça na janela. – Toma isso, panaca!
Greg agarrou Marcelo pelo pescoço.
-Pára! Pára! – Gritava Aninha. Mas o lutador estava irado.
-Marcelo lutava para se desvencilhar das poderosas mãos que esmagavam seu pescoço.

Sarah e Aninha tentavam em vão soltar Greg do pescoço de Marcelo, que começava a desmaiar. Vladmir pulou no pescoço do gigante, agarrando-o por trás, mas com um golpe, o russo caiu no chão.

Marcelo estava quase perdendo os sentidos quando acertou um chute no saco de Greg, que se agachou, Sem no entanto soltá-lo. Faltava pouco para Marcelo desmaiar de vez. Sentiu que estava perdendo as forças. Greg apertava cada vez mais.
Tudo foi lentamente se apagando…
Subitamente, Greg largou o pescoço de Marcelo. Estava tudo rodando e Marcelo não entendeu nada. Nada importava, aliás. Ele só precisava de ar. Caiu arfando no colchão no chão, buscando pelo ar, desesperado.
Quando Marcelo recobrou a consciência, alguns segundos depois, não entendeu. Todo mundo estava na janela, gritando.

-Vai! Vaaai!Correeee!

Marcelo ouviu o som de tiros. Levantou-se sentindo a forte dor no pescoço e foi até a janela.

-É um dos bandidos? – Perguntou Aninha uma das meninas.

-Não, é o cara bizarro da estrada, o que nos ajudou com o gerador! – diosse o Nerd.
-O tio do chupacabra! – Disse Mareclo.

-Ah, não! Alá! Vai pegar o cavalo. Fudeu! – Disse Greg.

Lá em, baixo vinha o caçador que consertava tratores. Ele cavalgava em disparada, batendo com o chicote no cavalo preto. Na mão um revólver que ele usava para atirar para trás, sem nem olhar para onde estava atirando.

Há menos de vinte metros, correndo numa velocidade espantosa vinha um Ganzu. Era uma coisa colossal, com bem mais do que os seis metros previstos. Ele devia ter uns dez. O Ganzu estava correndo atrás do cavalo, quase alcançando o animal.

-Vai! Vai!!!
-Corre tio!
-Ele não vai conseguir! Não vai! O bicho vai pegar! – Dizia Greg.
-Puta que pariu! Ele não vai conseguir, cara! – Gritava Vladmir.
-Vai! Vai! Pula! Puuula! – Gritou Mracelo, acenando.

O caçador olhou para trás e viu que o bicho estava quase agarrando no cavalo em disparada.

O homem apertou as esporas nos flancos do cavalo. E o animal correu ainda mais. Porém, o Ganzu estava muito rápido.

O Bicho soltou uma coisa comprida que ninguém da casa conseguiu ver direito o que era. Parecia uma língua. A coisa se agarrou as patas traseiras do cavalo, que capotou. O homem foi cuspido no ar e caiu estatelado, virando duas cambalhotas na lama.
O monstro saltou sobre o cavalo, que se debatia inutilmente. Uma grande quantidade do ácido foi derramada sobre o cavalo. O caçador não perdeu tempo. Logo se levantou e copntinuou a correr, mancando da perna.

-Corre! Corre! – Todos eles gritavam da janela.

O Ganzu largou o cavalo se debatendo enquanto era corroído. Começou a correr atrás do homem.

-Ferrou! Lá vai ele!
-Corre tio! Mais rápido!

Vladmir abriu a porta do quarto e desceu desesperado.
-Ei! Ei! Russo?
-Ele vai conseguir! – Gritou o nerd, saltando os degraus da escada.

O bicho estava quase chegando.

Marcelo correu no outro quarto. Abriu a mochila de Reginaldo e pegou a arma.

Correu até a janela e começou a atirar no Ganzu.

Lá em baixo, o homem estava prestes a chegar na casa.
Vladmir abriu a porta e viu o caçador correndo pela varanda, para se jogar para dentro da casa.
-Vai! Vai! Pula! – Gritou o russo.
O homem se jogou. Entrou voando pela sala como se fosse o Super-Homem.
O russo bateu a porta e passou a tranca. No segundo seguinte uma enorme explosão se deu. O impacto do monstro correndo foi violento e rachou a porta.
A criatura se sacudiu e saiu para a varanda, soltando seus estalos estranhos. Do alto, na janela, Marcelo atirava nele.

-Bri… Brigado… Garoto…. Ufa! Essa… Foi… Por… Pouco! – Disse o caçador, se levantando com dificuldade.
Vladmir ajudou o homem.

Os rapazes desceram para o primeiro andar.

-Cês estão bem?
-Alguém se machucou?
-Porra, Tio! Parece até o Beto Carreiro! – Disse Greg, cumprimentando o homem.
-Mas… Mas que porra é essa ali fora? – Perguntou o caçador.

CONTINUA

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12 comentários em “Ganzu – O quinto dia”

  1. philipe caso você tenha interesse em fazer um post sobre as falcatruas nas obras publicas no brasil eu gostaria de fornecer algumas informações eu tenho uma empreiteira de mao de obra na construção civil e sou constantemente lesado devido a canalhice de políticos e funcionários públicos em geral tenho provas do que estou afirmando ps. procurar órgãos de fiscalização e fazer papel de bobo já desisti disso faz tempo mais jogar a merda no ventilador e reconfortante principalmente em período pre elitoral

  2. Philipe, agora lembrei!! O conto do Stephen King que o seu está me lembrando muito se chama “A Balsa”, se não me engano li no Tripulação de Esqueletos, na minha opinião o melhor livro de contos do SK. Inclusive é nesse mesmo livro que está o próprio “O Nevoeiro”, “O Macaco” (muito bom!), “A excursão” (meu favorito do SK) entre outros, todos muito bons. Não sei se já leu, mas caso contrário, ao menos 90% dos contos desse livro valem muito a pena. Especificamente falando de “A Balsa”, existe uma criatura que poderia ser um primo de 3º grau do Ganzu hahahahah. Achei um link com esse conto pra quem quiser ler:
    http://www.trilhadomedo.com/2013/01/livros-do-medo-conto-balsa-de-stephen.html

    Parabéns Philipe, seus contos estão com narrativas cada vez melhores e aprazíveis de se ler, sem falar que é muito fera ler histórias como essa ambientadas no Brasil!

    • hauhauhauhauhauhaua!

      Concordo plenamente, Ganzu pra presidente!

      Nas próximas eleições, não seja um pau no… vote em Ganzu!

      kkkkk isso foi tosco, eu sei, mas não resisti! kkkkkkkk

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