Ganzu – O oitavo dia – Parte 2

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Valdmir Obrushev correu de volta para os fundos. Ele temia que o Ganzu percebesse sua presença. Acuado perto do quartinho, seria uma presa fácil para o monstro. Vladmir precisava sair de lá. Escondeu-se atrás da parede e ficou esperando o Ganzu conseguir chegar ao meio da escada. Quando o bicho finalmente atingiu o meio da escada, Vlad correu rápido como um foguete. Foi até a pia e agarrou o acendedor do fogão e uma garrafa de álcool. Depois saltou as madeiras quebradas e podres no piso da sala e conseguiu sair pela porta.
Antes de fechá-la, olhou para cima e viu a criatura enorme, se espremendo no corredor da escada. Aquele monte de perninhas se agitando de um lado a outro. Ao fundo, ouviu os gritos de terror das duas.
Vladmir chegou esbaforido no carro. Marcelo estava colocando o galãozinho de gasolina no carro. Em seguida ele correu e deu a partida. O carro pegou de primeira.

-Graças a Deus, sua lata velha do inferno!
-Caralho! Caralho! – Vladmir gritou, pulando dentro da van.
-Ele tava cavando um túnel debaixo da casa! Por isso que tinha sumido! – Disse Marcelo.
-Ele subiu as escadas! Vai pegar as meninas! Ei! Ei! Onde você vai, porra?
-O desgraçado não vai pegar elas, cara! – Disse Marcelo, abandonando o carro.
-Marcelo! Marcelo! Nareba, porra! Volta pro carro, cara!

Marcelo olhou para a casa. Fechada. De onde ele estava, ninguém diria que havia um monstro assassino dentro dela. Mas dava para ouvir os gritos abafados das duas lá dentro.

Marcelo não sabia o que fazer. Pensou em voltar lá…
O rapaz correu na direção da Varanda. Estava disposto a entrar na casa, mas Vlad começou a gritar histericamente no carro.

-Nareba! Narebaaaaa!
-Que foi, porra? – Perguntou Marcelo, se virando.
-Alá! – Gritou o Nerd de dentro do carro. Ele apontava para o segundo andar da casa.

No alto, Marcelo viu surgir uma coisa azul. Depois viu que eram duas cabeças pequenas. Eram as meninas. Elas tinham conseguido subir pelo telhado. As duas andaram, se equilibrando precariamente.
As duas agitavam os braços, desesperadas, mas não gritavam.

Marcelo e Vlad viram as meninas andando no telhado até a antena do radio.

-Mas que merda essas doidas estão fazendo, cara? – Perguntou o russo de dentro da van.
-Eu… Eu não sei. – Respondeu o rapaz.

Elas foram até a antena e se agarraram nos cabos. As duas puxaram o fio preto que descia pela antena, amarraram bem no tubo de aço enferrujado.

-Ah não, cara!
-Elas vão fazer rapel com o fio do rádio!
-“Vamo” lá! “Vamo” lá, porra! – Gritou Marcelo.
Os dois correram até a casa. Marcelo agitava os braços no ar indicando para elas não fazerem aquilo. Mas era inútil.
-Elas estão desesperadas, cara.

Só então Marcelo percebeu a fumaça subindo das janelas. A casa estava se incendiando.

Vlad se virou para Nareba: – Elas botaram fogo na casa, bicho!

Marcelo correu e ficou bem em baixo do telhado. A primeira que estava descendo era Sarah. Ela estava agarrada precariamente aos dois cabos de borracha, que estavam se estirando rapidamente.

Sua carne era severamente cortada pelos cabos. Marcelo percebeu que ela não estava suportando a dor, embora lutasse.

-O fio não vai aguentar! – Gritou Marcelo.

Sarah desceu agarrada ao fio até o meio da parede e soltou. Ela caiu em cima de Marcelo e os dois foram parar no chão.
Uma fumaça preta subia pelo buraco do telhado. A casa estava irrompendo em chamas rapidamente.
Sarah estava tossindo e estava muito tonta. Não conseguia falar e só apontava, tossindo muito.

-Que foi? Que foi?

Marcelo viu aninha lá em cima. Ela não conseguia alcançar o cabo, porque uma língua de fogo emergiu do telhado. Assim, ela deu a volta, e foi na direção do telhado da varanda. Lá dentro da casa, se ouvia, entre os estalidos e o som do fogo consumindo a madeira antiga, os barulhos da criatura que parecia estar em frenesi, destruindo tudo. Era o som de coisas se batendo, coisas caindo. O incêndio crescia violentamente.

-Ele tá ficando irado.
-Esse bicho certamente tem um instinto de desespero para incêndios, como a maioria dos animais! – Disse Vlad.
-Cara, leva a Sarah pro carro e começa a montar as bombas! Eu vou ajudar a Aninha. – Marcelo entregou Sarah para o Russo e correu para a varanda, afim de ajudar a amiga.
Aninha conseguiu descer precariamente pelo canto do telhado, caindo sobre o telhado da varanda. Marcelo indicou a amiga o caminho, para saltar da varanda para a árvore. Assim ela fez, mas se jogou de qualquer jeito e caiu no chão.

-Aaaaaaah! – Ela gemeu no chão.
Marcelo correu até Aninha. – Que foi?
-Minha perna.
-Calma. Calma. Acho que só torceu! Eu te ajudo, vem.
-Eu botei… Fogo… Ai! Aaaaaai!
-Tô vendo, vem! Vamos pro carro!

Marcelo conseguiu arrastar a amiga para a van.

-E aí? – Perguntou Marcelo.
-Tá quase lá! Respondeu o nerd, prendendo a última válvula no botijão.

Ele jogou Aninha pela porta lateral do veículo.
-Vamos embora desse pesadelo! – Gritou Sarah.

Marcelo virou a chave e o carro não pegou.

-Ah, não!
-Que foi?
-Puta que pariu!
-Vira de novo! Vai!

Marcelo tornou a girar a chave na ignição, mas o carro não deu a partida.

-Porra! Ele deu isso antes, mas coloquei gasolina. Aí Pegou! Agora essa porra não liga!
-Vai! Vai! – Gritavam as meninas.
-Ele não tá ligando, porra!
-Tenta de novo, Marcelo!
-Tô tentando, meu!

Então numa explosão, as janelas do segundo andar se partiram.
Dentro do carro, as meninas começaram a gritar.
Marcelo olhou pelo buraco no para-brisa estilhaçado e viu o Ganzu surgindo, imenso entre as chamas que engolfavam o casarão.

-Santa mãe do céu!
-Ele tá mais irado que o godzilla! – Gritou o Nerd.
-Liga logo, seu carro filho da puta! – Gritava Marcelo, bombando o acelerador e girando a chave no contato.
-Vamos sair correndo! – berrou Sarah, desesperada.
-Ninguém sai do carro! – Disse Marcelo, com o dedo em riste! – Ele é nossa única chance!
-Ele vai descer! Ele vai descer! – Gritou Aninha, apontando a janela.

Todos olharam para cima e viram a criatura toda queimada estourar um buraco enorme ao redor da janela do segundo andar, e cair sobre o telhado da varanda, que não suportou o peso e estourou. O telhado entrou em colapso e ruiu, com a criatura e tudo.

-É o Ar! É o Ar! – berrou Vladmir Obrushev, apontando para o botão do ar condicionado, que estava ativado.

Marcelo desligou o botão e virou a chave. O motor de arranque ganhou força, Deu dois giros e o carro estourou. O motor estava ligado!

-Pegou! Pegou!
-Vaaaaaai Narebaaaaaa! – Berrou Aninha, vendo a criatura se levantando, colossal em meio aos destroços em chamas.

Marcelo engatou a marcha e pisou fundo. O carro derrapou na grama e saiu pulando pelos desníveis do jardim.

-Corre!

O Ganzu corria atrás.

Desesperados, Aninha e Vladmir colaram o rosto no vidro traseiro, tentando ver a criatura.

Marcelo acelerava o carro o mais que podia. O veículo percorria as irregulares estradas de terra da fazenda a 80km/h.

-Essa merda corre mais? – Perguntou Sarah, no bando da frente.
-Tá no limite! – Disse Marcelo.

-Ele tá ficando pra trás! – Comemorou Sarah.

A criatura corria o mais que podia, mas não alcançava a van. Lentamente, ela foi ficando cada vez mais para trás, até sumir, oculta pela vegetação.

-Uhuuuu! vencemos! – Gritou Vlad, abraçando aninha. Aninha deu um beijo cinematográfico na boca de Vlad.

Sarah se virou e olhou aquela cena lá atrás. Ela cutucou Marcelo, que olhou pelo retrovisor. Enquanto a van sacolejava pelos buracos do caminho.

-Mas heim? – Disse o Nerd, quando Aninha largou o rosto dele. A menina do cabelo azul baixou os olhos, envergonhada.

-Segurem-se! – Berrou Marcelo, pisando com toda força nos freios.
-Aaaaaaaaaaaah!

Antes que eles pudessem fazer qualquer coisa, a van derrapou e saiu de lado. Caíram com tudo no atoleiro, ejetando lama para todos os lados.

-Tá todo mundo bem?
-Ai minha cabeça! – Disse Aninha.

-Porra Marcelo! Tu não viu essa merda de atoleiro? – Gritou Sarah, coberta de lama.
-Por sua causa não! – Berrou Marcelo.
-Mas que cheiro é esse? – Perguntou Aninha.
-Não fui eu! – Disse o nerd.
-Porra! O gás tá vazando, véio! – Disse Marcelo, apontando os botijões caídos no piso da van.

O carro estava afundando lentamente.

-Vai! vai! – Dizia Marcelo, acelerando o carro, mas o veículo só patinava e afundava cada vez mais na lama gosmenta.

-Ah, não! Olha lá! – Gritou Aninha.

Longe, a cerca de cem metros deles surgia o Ganzu, galopante entre as folhagens.

-Agora fodeu, Mané! – Disse o nerd. Todos puderam sentir o horror em sua voz.
-Vamos embora! Vamos! – Gritou Sarah.

Marcelo estava saindo pelo vidro da frente. -Vem, me dá a mão! Rápido!

– Ele tá chegando! – Gritou Aninha, lá atrás.

-Vamos! Abre! – Gritou o Nerd. -Tá emperrada!
-O que? – Perguntou Marcelo já de pé sobre o capô da van.

-A porra da porta! Tá emperrada, caralho! – Berrou o nerd.

-Sai pela frente! Vem! – Disse Marcelo. Sarah pulou o capô para a gigantesca poça de lama. Ela afundou até os joelhos na gosma escura.
-Vai Aninha! Vaaaai! – Gritou o Nerd. Aninha mal conseguia se levantar.
-Aaai! Eu não… Eu não posso. Meu tornozelo. – Ela gemeu.
-Ah, não! Você vai sim, porra!- Disse o gordinho. Ele pegou a garota no colo. E desajeitadamente passou para Marcelo, que estava com meio corpo para dentro do carro.

Marcelo pulou na lama com Aninha no colo. Assim eles afundaram até a cintura.

-Vem Vlad! Veeeem! – Gritaram. Mas o Nerd não apareceu.

A criatura estava chegando assustadoramente perto.

-Vlaaaad! Ele ta vindo!

Vladmir Obrushev saiu apressado pelo buraco do pára-brisa estilhaçado. Ele saltou para o meio da lama, caindo de barriga. Então se levantou mais sujo que um porco de chiqueiro. Só se via a boca:

-Cooooreeeeeee que vai explodiiiiiiiir!

Marcelo entendeu o que aquilo queria dizer. Ele tentava se mexer, mas estava preso na lama. Assim, ele  fez a única coisa que podia. Lançou Aninha no ar com o máximo de força que ele ainda tinha. A menina voou e caiu de cabeça na lama, bem ao lado de Vlad.

Então aconteceu um barulho estranho de metal sendo amassado:

-Caploout! – Eles ouviram. Ninguém olhou para trás para saber o que era. Talvez porque todos soubessem que era o Ganzu saltando sobre o carro.

Marcelo esperneava sem parar, tentando se distanciar do carro no meio de toda aquela lama. Ele ouvia os estalidos da criatura atrás de si. Desesperado, Marcelo Nareba olhou para trás e viu o Ganzu trepado em cima do carro, que afundava ainda mais com o peso do monstro. A criatura estava prestes a vomitar uma cachoeira de ácido sobre eles.

Marcelo viu Vlad metendo a cabeça na água imunda, enquanto empurrava Aninha para fazer o mesmo. Nareba não pensou duas vezes. Ele também afundou na lama. Mergulhou com tudo na água barrenta e cremosa.

Foi Marcelo mergulhar para sentir a colossal onda de choque, que tremeu tudo. Uma força descomunal o arrancou do charco e o lançou no ar.

A van havia explodido com o monstro em cima, criando uma enorme cratera no lamaçal.

Quando Marcelo Levantou a cabeça e limpou a grossa camada de lama que cobria os olhos, tudo que ele viu eram fragmentos retorcidos de metal que ainda caíam do céu, junto com pedaços fumegantes de carne gosmenta. Ele não escutava nada, apenas um zumbido fino.

Uma chuva de tripas esverdeadas começou a cair em todas as direções. Sarah era a que tinha conseguido chegar mais longe. Ela estava saindo do gigantesco atoleiro.
Marcelo Não viu Vlad, nem Aninha.

-Vlaaad? Vlaaaad!

Marcelo viu então que Sarah estava ajoelhada, chorando lá no final do atoleiro.

-Ah não! – Disse Nareba, quando viu o braço de Vlad parcialmente enterrado na lama. Imóvel.

-Vlaaad! – Gritou o rapaz, se mexendo o máximo que podia para chegar até o amigo. Quando Marcelo puxou o braço, Vlad se levantou gritando. Ele parecia um boneco de neve feito de lama.

-Calma! Calma! Sou eu, porra!
-Ah! Ah que bom! Pensei que o Ganzu tinha me pegado! – Disse o Russo, abraçando Marcelo. Ele limpou o rosto. -Cadê a Aninha?
-Sei lá! Ela tava contigo!
-Puuuts!!! Aninha! Aninhaaaa??? – Gritou o nerd, tateando a lama em busca da amiga.

Marcelo também começou a fazer isso.

-Achei! – Disse Marcelo, quando tocou em alguma coisa sob a lama.

Vlad e Marcelo puxaram juntos. Era a perna dela.
-Rápido! Rápido! Puxa ela! Vai!
-Uuung, ela ta mundo fundo.
-No três! Um, dois! Agora!

Os dois conseguiram puxar a menina, que veio para a superfície desacordada.

Marcelo começou a sacudí-la, mas ela estava sem reação. Seu rosto estava coberto de lama espessa.

Marcelo começou a jogar a água da superfície no rosto dela. Era mais líquida mais ainda era suja.
Vlad saltou sobre a moça do cabelo emplastrado de azul e marrom. Começou a fazer respiração boca-a-boca.
Marcelo pressionava o peito dela.
-Vai! Vai!
-Vai Aninha… Não sacaneia a gente! – Disse Vlad.
Mas ela não respondia.

Marcelo viu Sarah chorando no fim do atoleiro. Ela estava inconsolável. Já havia perdido as esperanças.

-Não! Você não vai fazer isso com a gente, caralho!!! Vamos Aninha! Vamos! Volta, porra!

Então, subitamente aninha golfou um caldo marrom escuro e começou a tossir.

-Ah!
-Graças a Deus! Graças a Deus! – Gritou Marcelo.
Vlad se abraçou com ela, chorando no meio da lama.

Poucos minutos depois, Marcelo se arrastou pela lama, seguido pelos dois amigos.
Eles se abraçaram no final do atoleiro. Os pedaços do carro ainda queimavam no meio do atoleiro, exalando um cheiro muito ruim e liberando uma coluna de fumaça preta no ar.

Sarah foi até Marcelo, que estava exausto. Ela não disse nada. Apenas se agachou, puxou Marcelo pelo queixo e deu um longo e carinhoso beijo nele.

-ÊÊÊÊÊÊTA porra! – Gritou Vlad!
-Nós conseguimos! – Berrou Marcelo, todo feliz.
-Vencemos o Ganzu! – Gritou Sarah, abraçando os amigos.
-Eu queria ter um goró para comemorar! – Riu Marcelo.
-Eu só quero voltar pra minha casa. – Disse Aninha, chorando de emoção.

-Vamos embora daqui, pessoal! – Falou Marcelo, tentando se levantar, enquanto era ajudado por Sarah.

Então, o Vladmir subitamente se contraiu. Emudeceu. Parecia catatônico.

-Que foi?
-Vlad? Vlad!!! Ei!

-Cara! Ou! Cê tá bem? – Perguntou Marcelo,  vendo o amigo com cara de estupor.

Vladmir não disse nada. Apenas levantou o braço e trêmulo, apontou para o barranco.

Quando os amigos olharam, o barranco atrás deles estava repleto de pequenos buracos. Havia centenas de buracos,  onde ovos exatamente iguais aos do Ganzu estavam enfiados.

As duas meninas começaram a gritar.

Marcelo não conseguiu dizer nada.

-São ovos do Ganzu? – Perguntou Aninha.

-Não é posssível!

-E-e-ele se-se re-reproduziu! – Balbuciou Vlad.

 

FIM

(Será?)

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16 comentários em “Ganzu – O oitavo dia – Parte 2”

  1. resolveu ler as historinhas malucas e engraçadas do mundo Gump é?! falei pra ti que eram boas!!! lê a do ''Sósia'' uhauehuahehuae chorei de rir!!

  2. Esse será no fim pra desgraçar de vez com a minha ansiedade. Caramba, que conto espetacular e que final surpreendente, não imaginava que o Ganzu iria se reproduzir. Parabéns, mais um conto espetacular padrão Mundo Gump!

  3. Quero ver explicarem para as autoridades o sumiço dos amigos e de um fazendeiro local, nem corpos tem mais.

    Do conto, eu gostei até o Ganzu comer os assaltantes, depois foi mediano.
    Esse monte de ovos salvou o final.

  4. O conto começou muito bem, personagens bem desenvolvidos para um conto, história envolvente, mas acho que depois da metade se perdeu um pouco, ficou parecendo meio filme de sessão da tarde, principalmente depois que o Inácio morreu. Ficou meio corrido o final. É só minha opinião de pseudo-crítico.

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