Efeito Okinawa

Numa sala branca, quase hospitalar, está uma mesa. O vidro grande na lateral reflete o que se passa no interior da sala. Nela, há apenas um velho japonês fumando um cigarro. Ele está sentado na cabeceira da mesa de madeira escura, olhando para o vazio.
No fim mal iluminado da sala, a porta se abre e entram dois outros orientais. Eles falam em japonês. Os três homens se cumprimentam solenemente. E então há um silêncio perturbador naquela pequena sala.
O policial mais gordo traz consigo alguns papeis, que joga pesadamente sobre a mesa.
Impassível, na outra ponta da mesa, o velho continua a fumar.

-Então senhor Takahashi?
-… – O velho se mantém em silêncio.
-Vai colaborar com a polícia? Já demos um tempo ao senhor.
-O velho apenas sorri. Apaga demoradamente a guimba do cigarro num cinzeiro carcomido no canto da mesa.

Takahashi é um velho que parece ter uns 76, 77 anos. Os poucos cabelos que lhe restam já são brancos e não mais testemunham a juventude daquele homem, ainda forte e bem constituído. Olhando para ele é difícil de acreditar que antes de se tornar um prestigiado físico, catedrático na mais antiga e renomada universidade do Japão, Takahashi já quis se matar em nome do rei.

Na juventude tentou entrar para o grupo de kamikase, mas nunca conseguiu. Poucos anos depois, quando o japão foi arrasado, ele trabalhava como auxiliar numa peixaria de Tóquio. Takahashi descobriu pelo radio que toda sua família tinha morrido em Nagazaki, graças a bomba atômica que extirpou de vez a guerra da alma japonesa.
Desde a morte da família, o pobre jovem da peixaria ficou obcecado pelo poderio que o conhecimento do átomo poderia oferecer ao ser humano. Sua obsessão cresceu de tal maneira que ele foi trabalhar na Universidade, em troca de bolsa de estudos. Dedicou-se como poucos e tornou-se um pesquisador brilhante. Com o passar dos anos, a obsessão pelo átomo deu lugar a uma compreensão maior das leis que regem o universo.

Um forte soco na mesa é desferido pelo policial gordo, que tem um bigodinho ridículo e cabelos colados na cabeça à base de gel.

-Começa a falar logo, vovô!
Ele é contido pelo outro. Mais educado.

Do outro lado, Takahashi está confortavelmente sentado. Ele olha para o vidro espelhado na parede. E finalmente, rompe o silêncio.

-Pergunta lá se eles já estão gravando. -Diz o velho cientista.
O policial magro, visivelmente consternado olha para o vidro espelhado. Do outro lado, um homem manipula aparelhos eletrônicos fala num microfone, ligado diretamente ao ponto eletrônico do policial.
-Estamos gravando. Vai em frente.
O policial volta-se para o japonês e acena positivamente com a cabeça.

Takahashi agradece e começa a falar.
-Vou contar novamente como tudo começou.
-Se for para contar a mesma mentirada, pode pular direto para a parte em que você matou o professor Toshiro, vovô. – Diz o grosseiro policial.
-Me dá licença?
-Sim. – Diz o gordo notando a mão do policial magro no braço dele.
-Posso?
-Por favor, vá em frente. Pede o policial magro.

-Tudo começou quando eu estava trabalhando num projeto do laboratório de astrofísica. Toshiro sempre foi um bom amigo. Estudamos juntos na faculdade e crescemos juntos. Quando criei as bases da teoria dos corpos imateriais, Toshiro foi meu braço direito. Ele é astrofísico, como vocês sabem…
-Está no relatório. – Diz o policial gordo, impaciente, apontando os papéis no centro da mesa.
O velho pede licença novamente e retoma sua demorada explicação.

Tudo são cores. Cores que se misturam. São cores vibrantes, e o som que se escuta é uma confusão de gritos de crianças, risos e musiquinha infantil.
Toshiro abre os olhos no banco da pracinha do parque.
Levar os sobrinhos no parque era sua obrigação desde que o pai das crianças morrera hum acidente de carro. Ele prometeu à irmã que cuidaria dos dois. Assim, sempre que Toshiro os visitava, ir com eles no parque era um compromisso compulsório.

Ele dormira no banquinho da pracinha após engolir um gigante cachorro quente duplo. As crianças estavam a cerca de cem metros à frente, rodando num brinquedo luminoso, que tocava musiquinhas ingóbeis. Ele se recordou que no início, a coisa de ir ao parquinho era até legal, mas com o passar do tempo, tornara-se um suplício. Era sempre a mesma coisa, vendedores de balões, tiro ao alvo, comida de quinta categoria, doces açucarados e brinquedos que giram até seu estômago sair pela boca. Mas aquilo fazia seus sobrinhos felizes e pra ele, era o que bastava.

Toshiro levantou-se do banco da pracinha e foi até a grade do brinquedo. Naquela velocidade toda as crianças não eram mais que meros borrões surgindo e sumindo em miríades de cores e luzes. Ele não gostava muito de brinquedos, mas ia ao parque mesmo assim.
Enquanto olhava o parque e sua imensidão de pessoas comprando, se divertindo e crianças correndo e rindo, voltou a pensar sobre o trabalho. Em sua cabeça, uma série de cálculos e equações desfilavam em movimentos fantásticos. Planetas e estrelas surgiam entre galáxias enormes, formadas por explosões tão espetaculares que a mente humana não seria capaz de compreender. E o tempo e sua ausência, o congelamento existencial confrontava-se com a ausência da matéria e a expansão do vazio.

Ele só se deu conta que o brinquedo havia enfim parado de girar quando os sobrinhos o pegaram pelo braço.
-Hã? Que foi?
-Vamos na montanha russa, tio!
-Que? Não, não. Me solta. Eu não…
-Tá com medinho tio?
– Bem… Estou. Estou sim, E daí? Vão vocês. Eu fico aqui olhando. Toma, quer mais dinheiro?
-Não, tio. Vamos com a gente, nós já compramos os ingressos. – Disse a sobrinha.

Ela tinha um jeito meigo de falar que desarmava qualquer um. E assim, Toshiro aceitou.
Animados os três entraram na fila e durante todo o tempo que decorreu até a hora de entrar no carrinho, ele passou imaginando que tipo de idiota um homem de sessenta anos deve ser para cair na sedução de uma menina de doze.

Finalmente o carrinho se colocou em movimento e Toshiro só pensava no momento em que a massa do carrinho produziria o misto de emoções agonizante que deslocaria os restos do cachorro quente em seu estômago até de volta à boca.
E não deu outra. O carrinho subiu uma grande inclinação, quase vertical puxado por um cabo e então despencou a toda velocidade montanha abaixo. As crianças gritavam felizes. Mas ele descia em silêncio, apertando forte as mãos no ferro de segurança.
A montanha russe começou a fazer piruetas e ele com os olhos fechados fortemente agarrado ao banco. O medo da morte era quase insuportável.
Finalmente o carrinho reduziu sua velocidade e Toshiro abriu os olhos. Estava agarrado ao carrinho ainda. E foi então que uma pequena coisa, que mudaria tudo que ele estudara sobre a Física aconteceu.
Ante aos seus olhos incrédulos, Toshiro tirou a mão do ferro da montanha-russa sem abrir a mão.
Simplesmente deslizou a mão pela lateral do ferro e era como se aquilo fosse uma holografia. O ferro deslizou por dentro da mão dele, que saiu, na mesma posição, ao lado da barra.
Espantado ele tentou mover a mão de volta para o ferro, mas ele bateu na parte posterior da palma.
O trenzinho chegava ao fim da jornada e o auxiliar abria cada um dos equipamentos de segurança que prendia as pessoas nos carrinhos. Toshiro que acabava de testemunhar algo impossível que violava claramente a lei básica da Física onde dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar do espaço, ficou ali, tentando voltar a mão pelo meio da barra como conseguiu tirar, mas a barra parecia ter ficado solida novamente.
O auxiliar pediu gentilmente que ele saísse do carrinho, mas ele não ouviu. Estava com 100% de sua capacidade mental tentando compreender como aquilo se dera.
A fila de jovens esperando para embarcar era grande e todos começaram a gritar e vaiar. Os sobrinhos voltaram pela área de saída e agarraram o tio. Pediram desculpas ao moço do brinquedo e arrastaram o cientista para fora.

-Ficou com medo tio? Foi isso? – Perguntou-lhe a sobrinha.
-Hã? Não, não… É que…

Se conteve. Antes mesmo de falar o que havia testemunhado, deu-se conta de que ninguém iria acreditar naquilo.
-É… Fiquei com medo. Vamos embora?
-Ah, tio, só mais um brinquedinho. Por favor. – Disse ela, fingindo implorar de joelhos. As pequenas mãozinhas na posição de prece.
-É tio. Olha, deixa a gente ir no carrinho de bate-bate? – Apontou o sobrinho animado para o brinquedo do outro lado do parque.
Toshiro acenou positivamente com a cabeça e as crianças saíram correndo aos pinotes.

Ele voltou-se para o banco e tratou de buscar em suas memórias o que havia se passado. Inicialmente refletiu sobre a completa impossibilidade de tirar a mão fortemente agarrada a uma barra de ferro sem abir nem romper o metal. Era efetivamente impossível.
Então começou a pensar que talvez ele tivesse sofrido uma alucinação ou coisa parecida. Um pequeno lapso de sanidade motivado por, sei lá, talvez pelo movimento tresloucado da montanha russa. Uma breve falta de oxigenação cerebral, ou mesmo intoxicação alimentar.

Ele buscava justificativas mentais, mas a memória da barra magicamente saindo pela lateral de sua mão era absolutamente clara e precisa. Olhou a mão. Normal.
Nada naquela mão diria que poucos minutos antes, ela violara a lei Newtoniana. Levantou-se e foi pegar as crianças.

Naquela noite, em sua cama, pensava naquela cena. Aquilo não lhe saía da cabeça. Poderia ter acontecido com qualquer pessoa da terra, por que justo com ele, que sabia em um grau de compreensão superior a ampla maioria das pessoas o por que daquilo não ser factível de acontecer.

Sua mente agora dedicava-se integralmente a buscar uma explicação para o ocorrido. Ele já não sentia o prazer de sempre de pensar em orbitas planetárias e explicações para a origem da matéria escura. Pegou o telefone e fez algo impensável. Ligou para seu amigo, o Doutor Takahashi.
Pediu descukpas por ligar tão tarde, e explicou em detalhes o que havia se passado.
Takahashi começou a rir na parte em que a barra de aço deslizara por sua mão. Toshiro pediu a compreensão do velho amigo. Jurou ter testemunhado o fato e disse que também não compreendia, mas que de fato aquele momento singular ocorrera.
Takahashi manteve-se quieto por alguns instantes ao se dar conta da aflição do amigo, confrontado em um de seus mais sólidos fundamentos. Em seguida, do outro lado da linha, doutor Takahashi disse a Toshiro que a única explicação que via era de que ele tivera um lapso mental qualquer.
Toshiro agradeceu a atenção e ajuda do amigo. Despediram-se e finalmente ele dormiu.

Quando acordou pela manhã, o sol estava no céu. Toshiro perdera a hora. Correu para o banheiro afim de tomar um banho e se preparar para a aula na universidade. Enquanto tomava banho pensava no plano de aula, no caminho, no metrô, enfim, em um monte de coisas. Já esquecera da barra.
Foi fechar o registro do chuveiro quando o fenômeno aconteceu novamente.
Sua mão deslizou no ar, como se o registro do chuveiro fosse feito de fumaça. Mas dessa vez, ela atravessou completamente a parede. Assustado, Toshiro tirou a mão e olhou pra ela. Parecia normal. Ele sentia na mão os pingos de água vindos do chuveiro e tudo. Então tentou fechar o registro com a outra mão e para sua surpresa, era sólido.
Então, largou e foi com a mão direita novamente. Estava sólido outra vez.
Aquilo definitivamente não era uma alucinação. Agora ele viu em detalhes. A parede, o registro, enfim, não era sua mão que havia ficado imaterial, pois ele mantivera o tato. Era o registro e a parede que misteriosamente deixaram de ser sólidos como eram.

Saiu do chuveiro atordoado. Então a barra e tudo que testemunhara no parque era verdade. Vestiu-se apressado, encheu um copo de suco de laranja e correu para pegar o metrô. Lotado completamente.
Viajou por quarenta minutos no veículo e chegou finalmente na Universidade. Chegando lá, foi até a classe e viu todos os alunos a sua espera. Pediu desculpas pelo atraso e inciou suas aulas.

Deu a aula mecanicamente, sem o prazer corriqueiro que sentia ao falar de planetas órbitas e demonstrar complexas relações gravitacionais em gráficos de giz no quadro negro.
Após o final da aula, correu para a sala de Takahashi. Explicou lhe o que havia acontecido no banheiro, mas o amigo ainda estava incrédulo.

-Não pode ser. – Balançava a cabeça Takahashi enquanto fumava um cigarro. – Não faz sentido, entende?
-Eu sei. Se não tivesse certeza que aconteceu mesmo, eu não estaria aqui te falando isso.
-Acho que você precisa de férias, meu amigo.
-Não fale assim. Não me trate como louco. Em nome de nossa amizade. Você sabe quando falo sério. Aconteceu mesmo e não sei explicar.
-Mas por que logo com você? Entenda, é uma singularidade deveras rara, e isso considerando e apelando para a licença poética de que seja possível, meu amigo – e por que iria acontecer com você duas vezes no curto espaço de tempo de sua existência?
Os dois ficaram se olhando fixamente. Suas mentes disparavam como cavalos de corrida em busca de solucionar aquele problema que desafiava os preceitos da Física Clássica.

-Talvez… -Toshiro romeu o silêncio. -… Possamos explicar pela teoria quântica.
Pode ser que por alguma razão desconhecida, os átomos que compõe a minha mão se alinharam em posições que permitiram que eles passassem através dos espaços atômicos dos átomos da barra e da parede. – Disse inseguro.
Takahashi teve uma explosão de riso. Apagou o cigarro pela metade no cinzeiro.
-Tá falando sério?
-Você tem outra explicação?
-Bem… Ainda não, mas não pensei nisso longamente. Faz o seguinte. Volta aqui amanhã e conversamos novamente. Caso aconteça outra vez, observe atentamente, e se conseguir, tente registrar isso de alguma forma.
-Ok. Obrigado meu amigo. Eu não estou louco. – Disse Toshiro segurando a mão do amigo.
-É o que todos os loucos dizem. – Respondeu Takahashi rindo.
Toshiro saiu e Takahashi voltou ao trabalho.

Naquela noite, Toshiro trabalhou duramente, estudando grossos livros e desenhando fórmulas matemáticas em um grosso calhamaço de papel.

No sia seguinte, quando Takahashi chegou no escritório, Toshiro estava na porta com um monte de papéis nos braços.
-Que porra é essa? – Questionou o cientista.
-Olha… Temos que conversar. Abre logo essa joça de gabinete aí que eu te mostro.
Takahashi abriu o gabinete e os dois começaram a conversar. O fenômeno não havia se repetido, mas Toshiro passara a noite em claro estudando e tentando formular uma hipótese.

-O que você obteve? – Perguntou Topshiro ao Takahashi.
-Bem… Nada. Não consegui achar uma razão para o universo mudar as regras justo com você, meu amigo. Mas vejo que você andou trabalhando firme aí. – Apontou para o calhamaço.
-Olha… Eu pensei muita coisa, muita coisa mesmo. Mas um desses pensamentos, me chamou a atenção.
-Que pensamento?
-A realidade. Taka, você está certo de que existe mesmo, né?
-Hã? Do que você está falando?
-Sim, até que ponto você pode garantir de que não somos apenas fruto do sonho de alguém? E se estamos agora sonhando isso tudo? Se nada disso é real?
-… – Takahashi manteve-se em silêncio. Em sua cabeça, pensava em como deveria fazer para internar o amigo.
-Eu acho, Taka… Que o real não é real. É sonho. É tudo um sonho. E eu flagrei um pequeno erro. Talvez isso aconteça com mais gente, mas as pessoas pensam que… Sei lá, que ficaram malucas.
– Considerando esta hipótese, eu começo a pensar que a ideia do alinhamento atômico na sua mão é mais plausível. – Diz Takahashi.
-Mas espere… Eu não acabei. Eu fiquei aqui pensando nisso. Se tudo é um sonho, se nós estamos presos em alguma coisa que parece muito com a realidade mas que não é, se eu confrontar isso. Se me concentrar suficiente, talvez eu consiga me libertar. Acordar.

Takahashi não sabia o que dizer. E por isso, não disse nada. Ficou olhando sério para o amigo.

-Que? Que foi?
-Você está tomando algum remédio? Algo pra emagrecer talvez?
-Não, Taka. Estou lucido meu amigo. Não tomei nada. Aconteceu mesmo e você ainda não acredita, não é.
-Veja, coloque-se no meu lugar. Você pensaria o que?
-Eu pensaria que você pirou, claro. – Riu Toshiro.
-Pois é. Né?

Mas veja, deixa eu te explicar a teoria que eu estava planejando ontem.

Toshiro colocou os papeis sobre a mesa e foi pegar a caneta. Mas novamente, ante os olhos estupefatos do Takahashi, a mão do amigo atravessou a caneta e uma parte da mesa como se ali estivesse um fantasma.

-Caralho! Caralho! – Gritou Takahashi, saltando para trás com os olhos arregalados!
-Veja, Taka. Está acontecendo. Olha! – Disse Toshiro com o braço atravessado no tampo da mesa.
Takahashi abaixou-se e viu, por baixo da mesa grossa de mogno o braço do amigo surgindo magicamente. Era como se a mesa fosse cortada no ponto em que se ligava ao braço de Toshiro.
– Santo Deus. Eu estou vendo mesmo isso! Toshiro, tira a mão daí.
O colega obedeceu e lentamente retirou amão que atravessava o tampo da mesa do catedrático.
Ela parecia normal. Takahashi estendeu a mão até o amigo.
-Vai, atravessa minha mão.
-Pois bem. – Disse Toshiro. Moveu o braço em direção a mão do amigo, mas as duas mãos se chocaram.
-Não atravessou.
-Verdade.
-Tenta na mesa.
Então Toshiro tentou novamente na mesa, mas ela estava solida novamente. E não atravessou.

Takahashi olhou nos olhos do amigo e disse.
-Eu acredito totalmente em você.
-Também, se a essa altura não acreditasse, o maluco aqui seria você, Taka.

Precisamos fazer análises… Sei lá. Construir um modelo. Isso muda tudo, você entende? Tudo!
-Eu sei, Taka. Mas espere. O que você me diz da minha teoria da realidade não ser real?
-Mas como não é real, cara? Olha aqui.

Takahashi dá uns soquinhos na mesa.

-É real. É tudo real. Tudo estava bem até você aparecer com esta loucura…
-Loucura real.
-Loucura realíssima. Agora não sei o que pensar.
-Taka, eu vou fazer o seguinte. Vou me concentrar. Tudo isso é um sonho. Um sonho. Nada disso aqui é verdade. Essa sala, essas paredes, esses livros aí atrás de você…

Takahashi acena positivamente com a cabeça. Levanta-se e vai até a porta. Tranca a pequena salinha.

-Senta ali, que é mais confortável, cara. Vamos ver se a gente consegue repetir o fenômeno.

Toshiro deita-se na poltrona de couro antiquada. Tura os sapatos e fecha os olhos.

-Não é real. Não é real. Vou acordar. Vou acordar. – Ele diz.

Takahashi apenas assiste o amigo sentado, como se estivesse rezando. Ele fala cada vez mais baixo. Os olhos fechados. Cerrados.

E então, ele some.

Não há som, nem explosão. Nem fumaça ou luz. Toshiro desaparece como num passe de mágica.
Ficam ali, apenas os sapatos.
Takahashi fica chocado. Senta na cadeira e olha o sofá, agora vazio. As únicas testemunhas são os sapatos à sua frente. São a garantia de que ele não surtou.

-Toshiro? Toshiro? – Grita Takahashi quando começa a se dar conta do ocorrido.

Mas o amigo sumiu de vez. Não há sinal dele. Nem resposta. Nem nada.
Takahashi abre a gaveta e tenta fumar um cigarro. Mas está tremendo muito para conseguir acender.
Batem na porta.
Ele abre e é um aluno pedindo orientação num trabalho.
Takahashi, pede desculpas. Diz que vai agendar, pois não está passando bem. Fecha o escritório e vai para casa.

Dias depois, quando a polícia bateu à sua porta, ele já sabia o que esperar.
Todos achavam que ele havia matado Toshiro. No início, Takahashi tentou explicar o misterioso fenômeno, mas riram dele.

– Isso é tudo, vovô? – Perguntou o policial na sala de interrogatório.
– É o que aconteceu. -Disse o velho.
– Você sabe que sustentar essa coisa absurda não vai colar, Doutor. – Comentou o jovem policial magro.
– Eu sei. Eu estou aqui, contando a verdade a vocês. Mas quero pedir um favor.

-Favor? – Questionou o policial gordo.
-Sim. Quero que coloquem nos autos da investigação que eu matei Toshiro.
-Hã? – Os policiais se entreolham sem entender. – Mas o senhor acabou de dizer que o cara sumiu na sua frente, “pluft”!
-Sim. Isso é a verdade. Isso é a verdade insustentável do qual nunca me libertarei. Mas veja, levei décadas para construir minha reputação. Prefiro que me considerem um assassino vaidoso a ser tratado como louco, ser desmoralizado ao argumentar que dois corpos ocupem o mesmo lugar no espaço. Todos vão rir de mim. -Disse o cientista. Lágrimas já escorriam pelo rosto.
Os policiais se entreolharam e olharam para o vidro espelhado. E então saíram da sala.

Algum tempo depois do escândalo estourar nos jornais, nas capas de revistas, a vaidade acadêmica ser debatida em programas sensacionalistas da Tv, a permanente tensão popular em busca de um corpo e a confissão do crime, o julgamento, a sentença e a prisão, Takahashi estava sozinho em sua cela.

Na escuridão da noite, no presídio, sem saber o que fazer ou o que pensar, ele apenas fechou os olhos e concentrou-se no fato de que tudo aquilo que ele estava vivendo era um terrível pesadelo. Uma fraude, uma mentira, uma ilusão. Ele cerrou os olhos, concentrou-se.

Quando a sirene de alarme tocou, os presos acordaram sobressaltados. Os guardas vieram correndo com lanternas e cassetetes. Iluminaram a cela em busca do fugitivo. Minutos depois, a central de segurança acendia as luzes da penitenciária, mas ali estava a cela, trancada, vazia. Sem portas ou buracos abertos.
Toshiro e Takahashi nunca mais foram vistos.

FIM

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47 comentários em “Efeito Okinawa”

  1. ei li e na hora pensei q daria um filmaço!!!

    começo meio e fim!!!

    eu sou viciado em cinema!!! e um dia vou ser cineasta! e kero fazer filmes assim!!!

    esse texto foi uma otima inspiração!!!

    de onde vc tirou philipe

  2. kkk

    ja tive sonhos estranhos estilo esse!!!
    mais eu tive um sonho revelador meu amigo!!!
    eu sonhei q eu conseguia parar o meu coração, por uns segundos apenas, contraindo alguns musculos do peito! dai eu acordei e pensei rsrs q sonho de retardado uahuaha mais o retardado aki tentou!!! o incrivel é q deu certo !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    mais oq eu keria saber mesmo é como liberar adrenalina concientemente!!!
    se eu conseguir parar o coração e liberar a adrenalina bem na hora… axo q consigo atravesar uma porta com um murro!!! kkk

    assisto muitu anime ^^

    oq vc acha Philipe ???

    será q consigo?

  3. Me lembro o Projeto Filadélfia…
    Mt foda sua história cara kkkkkk, ta de parabéns.
    Aproveita e faz um post sobre Terorias de Conspiração xD
    Flwws man.

  4. uhauaha nem sabia dos ninjas!!!

    mais eu ja sou bom em parar o coração!!!

    o dificil seria conseguir causar o surto, wu ja tentei me lembrar de situações emocionantes q ja me aconteceram mais mesmo assim é bem dificil parar de circular o sangue fazer isso junto!
    fora q corro o risco de desmaiar!

    quando conseguir eu te falo kkkkkkkkk

    abraço e valew a atenção!!!

    • A premissa é parecida, mas acho que vc não sabe o que quer dizer plagio, né? Dá uma olhada no dicionario aí, porque se for partir do seu conceito de plagio, então a origem é plagio de matrix, que é plagio de neuromancer, que será plagio de outro plagio até chegar no Platão e o mito da caverna. .

  5. philipe … texto otimo … um dia você ainda filma algo e eu vou ter orgulho de dizer que eu li isso XD …… que bom que você gostou do meu post do meu blog , o do natal, bem que você disse que é como na academia, com dois dias de blog já estou com o corpo doendo …

  6. Exelente! Não consegui parar de ler nem pra respirar philipão! Eu ia falar que se você fosse filmar em niteroi eu queria participar, mas infelizmente eu ainda não sou japonês ! hahaha
    Parabens, e você deveria considerar a ideia de começar a fazer curtas !

  7. porra meus parabens, estruturalmente coeso e o argumento tende ao realismo bizarro ou sei la o que, lindo. como diz aquela musica do renato russo “vamos fazer um filme”, mas tendencias cinefilas a parte como um conto “isso” esta fantastico meu caro.

    • hahaha valeu, cara. Fico feliz que tenha gostado. Eventualmente surgem propostas diversas, de quadrinho a curta-metragem. No caso, este texto é meio recente.

  8. Ainda ñ tinha lido essa história… pra mim a melhor!! Ainda mais eu que sou louco fico imaginando…muito bom mesmo!!! Acabei de ler sobre como fazer um blog hehe ooo vontade… assunto e história tenho… um philipe com 23 anos hehehe… mass complicado, sou eng. eletricista até as 17:00h, depois artista plástico..fico desenhando… ai ante sde dormir dou uma passada aqui no site….vida corriqueira….por isso parábens! sempre falo pra minha namorada, olha eu lá rs… novamente parábens por ter conseguido… o ponta pé inicial é complicado mesmo… agora preciso ir que estou trabalhando com 7 páginas do mundo gump aberta pra eu ler (O caçador, o analista, o homem no ponto, mentiras mentiras mentiras, eu desarmei a bomba atômica, o depinte e o velho rico…as outras histórias eu já li hehe)….efeito okinawa…a melhor…me deu várias idéias mega interessantes… quem sabe ainda ñ escrevo ela e te passo…

    abraços!! e sucesso!!

    • Cara eu sempre achei que vc fosse o filho da Luciana Gimenes. Hahaha. Véio, leia “o dia que eu encontrei meu eu futuro”. Eu acho essa muito legal. Em termos quânticos, está na linha de efeito okinawa.

      • hahaha pior que todo mundo pensa isso…. um dj do panico da jovem pan, me aceitou no twitter crente que eu era o filho da Luciana Gimenes! hehehe…1% só isso que eu queria… 1% da grana que ele tem rsrsrs…agora eu, moro no interiorrrrr de SP, uma cidade chamada Sertãozinho de 100 mil habitantes, lembra do filme A vila!? mais ou menos parecido

        Essa história “o dia que eu en contrei meu eu futuro” é boa, já havia lido, ou melhor já li todas kkk… falando em ler, preciso comprar o teu livro pra te deixar mais rico… antes de ir, veja que gump.São 10 contos de fadas da disney que suas versões originais são na verdade macabras e não “felizes para sempre”. É bem interessante e ou mesmo tempo, sinistro..vale a pena da uma lida…fica a dica!

  9. Cara, muito bom esse texto. Sei que estou completamente atrasado, mas agora que estou com tempo decidi ler todos os contos do blog. Comecei pela ordem que esta no site.

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