As crianças da noite – Parte 23

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Leonard abriu os olhos. A Zonzeira estava passando.

Sentiu a grama aos seus pés.  O formigamento estava diminuindo rapidamente e o tato era diferente naquele estado não-material. Do mesmo jeito, ele não se sentia tão forte desde sua juventude. O estado imaterial era como ser um jovem novamente, e o fazia esquecer daquele corpo flácido e vagaroso com o qual habitava a Terra física.

A luminosidade esverdeada que descia do céu o fazia projetar uma sombra na grama. Leonard estava vestindo uma túnica longa que terminava em seus pés, descalços. Ele sempre era projetado na imaterialidade daquele jeito. Mas daquela vez, Leonard estava especialmente nervoso.

Leonard sabia onde estava. Na Terra, existiam cerca de vinte e cinco lugares especiais. Cada um desses lugares permitia certas interfaces entre o universo físico, chamado dimensão da matéria e os múltiplos universos intangíveis. Leonard conhecia a maioria desses lugares especiais, sendo que alguns deles hoje estavam obstruídos, e pelo menos dois estavam repousando na escuridão do leito do oceano.  A razão de existir esses estranhos lugares é que neles, havia uma espécie de região delimitada onde certas entidades eram capazes de se manifestar e interagir com outras. Os lugares especiais permitiam contatos em diferentes níveis, de acordo com a dimensão em que se localizavam. Alguns lugares estavam presentes em mais de uma dimensão. Outros em apenas algumas. Ninguém sabia se haveria algum lugar especial que conectasse todas as dimensões, mas era algo que foi perseguido pelos magos por séculos, sem sucesso.

Leonard sabia que lugar era aquele, e por esta razão, estava de pé, no centro de um dos mais conhecidos – e perigosos – lugares especiais, na dimensão imaterial, conhecida popularmente na Ordem como “dimensão fantasma”.

O lugar, ao norte do Cazaquistão, ficava literalmente no meio do nada, perdido nas estepes planas castigadas pelos ventos. Ele  já pareceria estranho aos olhos das pessoas comuns, limitados ao mundo físico. Mas no plano imaterial, aquele lugar era ainda mais perigoso e assustador, pois permitia encontros com seres das mais insólitas profundezas ctônicas. Se algo desse errado ali, não haveria juiz para julgar. Imperaria a lei do mais forte.

O local ganhara diversos nomes ao longo de diferentes períodos históricos na Terra. Quando a região foi controlada pelos primeiros sábios, vindos das montanhas do oriente, veio a se chamar lub hnub qub no idioma hmong.  Lub hnub qub significava “estrela”. A Razão do nome só seria óbvia a quem, inadvertidamente, levitasse acima daquela área, como faziam os Sábios das montanhas. Infelizmente, seus experimentos foram levados à cabo e tiveram fim trágico para todos eles no ano 260 da era Mbani, quando foram tragados por um dos seres da escuridão, o que levou ao declínio do domínio hmong sobre certos lugares especiais.

Leonard estava no centro do lub hnub qub, um pentagrama de vinte quilômetros.

Ali Leonard reuniu toda a coragem que acreditava possuir e fez  a evocação de Naberius.  O local, de disposição circular, operava como um gigantesco círculo mágico.  A diferença é que nas celebrações da magia, o círculo visava proteger o mago, e ali, aquele lugar o círculo funcionava mais como as cordas invisíveis de um enorme ringue de boxe.

Após evocar Naberius, Leonard concentrou-se em seu segredo. Cada demônio possui um segredo e o segredo de Naberius Leonard já conhecia há décadas.

Era um risco violentíssimo que Leonard encarasse Naberius. As chances de ser destruído ou arrastado para o inferno eram gigantescas, mas Leonard estava disposto a fazer o que fosse preciso para dar a lição que Marenka merecia.

Ele concentrou-se e visualizou o segredo de Naberius. Então chamou-o por três vezes, pedindo humildemente que aquele marquês do inferno se mostrasse.

Leonard esperou, esperou, e então, viu algo rápido, que sobrevoava sua cabeça. Era um pássaro totalmente preto, maior que um corvo. O pássaro pousou na grama, cerca de vinte metros à frente dele.

O Pássaro ficou parado, olhando para Leonard. O caçador sabia que atrás daquela simplória ave estava um poderosíssimo demônio.

-Naberius… – Disse Leonard, curvando-se em respeito.

O pássaro explodiu em uma nuvem escura, que gradualmente se condensou na forma de um homem de cor cinza, vestindo um fraque. Passaria por um homem normal, vestindo-se de forma um tanto quanto excessiva, se não fosse a cor da pele, completamente cinza. Os dois olhos vermelhos se destacavam. Era um homem muito bonito, aparentando uns quarenta anos. Os cabelos eram também cinza, porém mais escuros, salpicados com fios brancos.

O homem estava com as mãos no bolso e parecia pacato. Ele não disse nada a princípio. Apenas ficou ali, olhando para Leonard formalmente, com um olhar que era ao mesmo tempo condescendente e tirânico.

-Obrigado por vir.  -Disse Leonard.

-Leonardo Doviso… Aqui está você…Um caçador… Aqui… Chamando por Naberius… Você é abusado!  – Disse o homem cinza.

A voz dele era rouca e muito bonita. Parecia um locutor de rádio.  Leonard havia se preparado para fitar uma abominação horrenda. Foi uma grata surpresa que Naberius estivesse de tão bom humor de se apresentar de uma forma agradável. Dizia-se que os demônios quando estão zangados podem aparecer em formas tão grotescas e assustadoras que algumas pessoas mal preparadas para um encontro poderiam ficar loucas somente ao olhar para eles.

-Perdoe meu abuso, poderoso Naberius. Eu não viria, se não fosse importante.

-Presumo que saiba o que está fazendo. Ainda mais nessa dimensão. Está ciente que basta minha vontade para você nunca mais voltar ao plano físico?

-Estou ciente, ó poderoso Marquês Naberius.

-Vamos direto ao assunto então. O que nos traz aqui? -Perguntou Naberius, se aproximando calmamente de Leonard.

-Leraje.

-Leraje? O que tem Leraje?

-Leraje vai se casar com uma Ljuvbna. A mais poderosa das Ljuvbnas.

-Casar? -Naberius parecia ter sido pego de surpresa.  -Continue. Conte-me mais sobre isso, Leonardo Doviso.

-Leonard.

-Ande. Como quiser. Conte-me sobre o casamento, Leonardo.

-Leraje vai se casar com ela, amanhã. Na lua de sangue. Ela foi trazida do mundo intermediário por Marenka.

-Marenka…

-Sim, poderoso Naberius. Marenka tramou tudo. Ela planeja que Leraje despose a mulher, chamada Luma.

-Luma? Nome apropriado.

-Os dois terão filhos… – Disse Leonard.

-Como você sabe?

-Eu consultei o oráculo.

-Ah… Aquela maldita. Como ela vai? Ainda no corpo de criança?

-O senhor sabe… Esta está presa nele para sempre, mas agora ela controla o corpo de uma velha e o tem usado…

-Estamos cientes. Ela paga o preço… Você sabe.  -Disse Naberius, abaixando-se e pegando uma diminuta flor branca no solo.

-O plano de Leraje é trazer seu filho para a dimensão física. Ele reinará na Terra e a preparará para a chegada de suas legiões. Leraje quer expandir seus reinos.

-Errado, Leonardo Doviso. Errado. Leraje quer fazer isso para me destruir. Ele quer levar a guerra para outras dimensões onde pode vencer e me esmagar. – Naberius deixou escapar um pouco de sua raiva. Mas rapidamente tornou a disfarçar isso, com sua voz mansa, grave e bonita de locutor de radio FM.

-Leonard. – Disse ele. – Meu nome é Leonard.

-Eu chamo como eu quiser!  -Respondeu o demônio. Em seguida, emendou:  – E falando nisso… O que você tem a ver com este problema?

-Como sabe, eu sou um caçador. Meu trabalho é perseguir e matar as bruxas e estabelecer o equilíbrio no plano físico… Isso inclui as Ljuvbnas entre outras criaturas de nível mais baixo.

Naberius sorriu, mostrando seus dentes branquíssimos. Ele tinha caninos pontudos como um urso.  Leonard complementou:  – Estou aqui para ajudá-lo a acabar com o golpe baixo de Leraje. De quebra eu acabo com essa Ljuvbna.

-Como pretende fazer isso? – Perguntou Naberius.

-Eu preciso matar Luma.

-Loucura, Leonardo Doviso! Loucura! – Se Leraje pretende se casar com ela, matá-la vai provocar a ira dele. Ele poderá buscar a vingança esmagando o mundo que você conhece.

-Sem ela ele não terá o poder de fazer isso diretamente.

-Mas indiretamente ele ainda pode fazê-lo. Pode inspirar os presidentes das nações a entrarem em guerra, pode trazer a fome, a miséria, doenças. Ele pode acabar com vocês antes que consigam terminar de falar o nome dele. Leraje não terá piedade. Ele não é como eu… Digno.

Leonard concordou. Mas voltou à carga: – Há uma maneira de fazer isso. Mas precisarei de sua ajuda. Se Marenka não tivesse usado as crianças da noite, se não tivesse se apoderado da mãe dela, não teria conseguido realizar o ritual de elevação da criança Ljuvbna. Todo o problema começa lá atrás, com Marenka.

-Leonardo… Se você matar Leraje, eu posso mandá-lo de volta no tempo. Você mata sua Marenka e não temos mais problemas. – Disse o demônio.

-Eu não posso.

-Claro que pode!

-Não, não posso. Sou proibido de matar Leraje, pois isso desestabilizaria a guerra. Aliás, é isso que garante que não estou aqui como um infiltrado de Leraje para te matar. A neutralidade nas guerras da escuridão.

Naberius soltou uma gargalhada desafiadora. Mas então se recompôs e concordou.

-É digno que você não se meta. – Ele disse, andando ao redor de Leonard.

-Nós precisamos primeiro matar Luma. Depois preciso matar Marenka, o que evitará o sequestro da mãe dela e toda a cadeia de eventos que sucedeu o sequestro.

-Por que Marenka ajudou Leraje? O oráculo disse algo sobre isso?  -Perguntou Naberius.

-Marenka apostou que ele vai vencer… E vai!

-Claro que não vai!  -Naberius parecia irritado. Leonard sentia que discutir com ele era andar na corda-bamba. Ele poderia perder as estribeiras e a pior coisa que se pode imaginar é ver um demônio goético irado.

-Ó poderoso Naberius… Marenka acredita que  Leraje vai esmagar seus domínios, e tomará para si as 19 legiões de demônios sob seu comando. Ele formará quase 50 legiões, mais o poder irrestrito sobre a dimensão física obtida com o filho de sua união com Luma. Ele planeja estender seus domínios sobre as regiões mais densas.

-Então, matando a ljuvbna resolvemos o problema?

-Em parte, porque a lua de sangue já é amanhã. Faltam poucas horas para consumar o ato. Casado com Luma Leraje ficará mais poderoso. Seus domínios sofrerão as consequências imediatas. É preciso primeiro matar Luma. Depois então, acabar com Marenka.

-Se ela vai casar com Leraje, ela está bem protegida. O acesso a ela seria impossível até para mim. -Disse o demônio.

-A menos que Luma seja trazida a uma dimensão de matéria mais densa.

-Como eu já disse, isso é impossível.

-Não exatamente. Uma hora antes da lua de sangue, ela será preparada para a celebração. As Ljuvbnas irão doar grande parte de seu poder a Luma, pois hoje, elas são relegadas a um plano secundário no reino das sombras. Luma é a única esperança delas de formar uma consorte de um marquês do inferno. Elas irão preparar um banho de sangue para Luma. Está entendendo?

-Sim… Prossiga.

-Enquanto ela estiver no sangue, irá absorver grandes níveis de energia e eu acho que seria possível, pelo menos na teoria, usar essa densidade para levá-la à dimensão intermediária. O resto seria comigo.

Assim, uma hora antes da lua de sangue, você poderia me permitir entrar no plano intermediário. Eu entro, mato ela e saio. Uma vez feito isso, teremos que ser rápidos, ou Leraje descobrirá.

-Então, depois que você matar a noiva de Leraje, o que me impediria de te exterminar?

-Leraje ainda seria mais forte. A Marenka vai achar outro bebê. Sem a Luma na jogada, você tem pelo menos alguma chance.

-Mas eu quero que você destrua Leraje.

-Eu já disse que não posso.

-Este é o trato. Você mata Leraje. Eu permito que você exista.

-Então ele já ganhou. Foda-se!

-O que?  Como ousa? – Naberius parecia irado. Sua voz soou como um trovão e ele pareceu crescer um metro em altura.

Leonard não caiu na real do risco que correu até alguns segundos depois de provocar o demônio goético. Mas aí já era tarde.

-Adeus. E desculpe qualquer coisa aí.  – Disse Leonard, virando as costas para o demônio.

-Não! Espere Leonardo! … Tudo bem, combinado. – Disse Naberius.

-É Leonard, porra! Você é burro ou o que?

Já havia se passado vinte minutos que Aesh Pandraj cobrira o corpo de Leonard. Ele havia espalhado o sal grosso e batido as palmas. Nada havia acontecido.

Aesh chegou a pensar em escavar a terra e remover o corpo, mas lembrou-se da promessa de não tocar jamais no corpo de Leonard. Ele olhava as horas, e o tempo demorava a passar. Aquilo o incomodava. Poderia aparecer um hippie, um viciado qualquer, até um caçador. Era um risco ficar ali. E pensando nisso, Aesh Pendraj foi até as pedras e sentou-se sobre um granito enorme. Ficou ali, sem saber o que fazer, ou o que esperar.

-Ei! Você, ô esquisito!  -Uma voz surgiu do mato.

Era um sujeito esquálido, cheio de tatuagens e com os dentes podres. Ele usava um macacão sujo, com uma série de pins de bandas psicodélicas dos anos 60.

-Tu tá aí mesmo ou eu ainda tô viajando?  -Ele perguntou. Aesh viu nos olhos dilatados que ele devia estar cheio de droga na cabeça.

-Eu sou o “mestre do delírio” cara! Você está nos meus domínios agora! – Disse Aesh, segurando para não rir.

-Puta merda! Cacilda! É mêêêmo.  – Disse o doidão, olhando Aesh de cima abaixo.  -Pô, aí! Gostei desse teu chapéu!

-Isso é um turbante, idiota!

-Opa, foi mal aí, seu mestre do delírio. Não quis ofender… Meu nome é Romildo!  Prazer aí.

Nisso ocorreu uma explosão e o corpo de Leonard deu um solavanco na cova, jogando terra para todo lado.

-Leonard! – Gritou Aesh, correndo em direção ao corpo.  O doidão de macacão sujo o seguiu, com os olhos vermelhos arregalados.

Leonard ainda parecia morto.

Aesh não sabia se podia ou não mexer no corpo. Assim, ele se limitou a gritar:

-Leonard! Leonard! Ressuscita, Leonard!

Romildo, o doidão, ficou ali atrás, só de olho arregalado.

-Cara… Eu acho que ele morreu, véi!

-Leonard! Leonard!  – Aesh Pandraj continuava a chamar, mas o corpo, parcialmente enterrado não parecia ter nenhum sinal vital.

-Ei, cara… Ele morreu. – Disse o drogado, segurando o braço de Aesh.

Aesh ficou puto com aquilo e num safanão, jogou o doidão dentro da sepultura.

-Você! Começa a sacudir ele.

-Eu?

-É, porra. Anda! Começa a sacudir ele!

-Mas… Por que eu?

-Eu sou o mestre do delírio porraaa! Sacode ele que eu tô mandando! Ou vou te dar uma bad trip para sempre!

O doidão pareceu levar um choque ao ouvir “bad trip para sempre”. Começou a escavar desesperadamente a terra com as mãos, e ao chegar a Leonard, começou a sacudí-lo violentamente.

-Ei! Eeeeei ! Vamos, coroa! Volta, porra! O mestre do delírio mandou você voltar, mermão!

Romildo, ainda doidão, puxava e socava o peito de Leonard dentro da sepultura de modo frenético. Do lado de fora, Aesh Pandraj andava de um lado para o outro sem saber o que fazer.

Então Leonard abriu os olhos.

 

O maluco deu um grito de susto.

-Caralho! Ele voltou, véi!

-Aesh! Quem é este panaca me sacudindo? -Perguntou Leonard, ainda grogue, tentando se desvencilhar de Romildo.

-Eeeei! Olha como fala com o mestre do delírio, vovô!

-Deu certo! Deu certo! cara, você ressuscitou ele! Você ressuscitou ele! – Gritou Aesh para Romildo. Leonard ainda estava parcialmente grogue, e não entendeu.

-Ssssim! Ssssiiim! Eu sou místico cara! – Disse Romildo, olhando para suas mãos sujas de terra.

– Você tem poderes, Romildo! Poderes divinos, mermão! -Disse Aesh Pandraj, enquanto era observado por um olhar inquisidor de Leonard, que se levantava e batia a terra das roupas.

-É verdade! Caramba! Caramba! Eu sou tipo o… Sei lá. – Romildo estava eufórico.

-Tipo Jesus!

-Caramba! caramba!  – Disse Romildo, andando em direção à floresta, enquanto olhava estupefato suas próprias mãos!  – Eu sou um Deus, cara! Um Deus! Obrigado, mestre do delírio! Agora eu sei quem eu sou!

-Vá em paz, Romildo “o poderoso”!

-Yessss… O poderoso! – Disse ele, num sussurro, antes de adentrar a mata cantando os trechos do refrão de Expanding Anyway do Morning Teleportation.

CONTINUA

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