Como que eu quase levei um tiro

· · 13 min de leitura
| Aventuras | Aventuras, Textos

Eu estou na penúltima aula. Um saco esperar aula do Sérgio Sklar.
Sérgio Sklar é um professor de Filosofia II. Ele entra sempre vestindo um terno visivelmente apertado e meio puído. O sujeito tem uma bela cabeleira cinza. Quando eu ficar coroa, coisa que vai acontecer em menos de 25 anos, quero ter uma cabeleira estilo Richard Gere daquelas.
O meu pai tem uma, o que é um bom sinal…

Eu lembro que reparei na maneira como duas garotas espevitadas observavam com indisfarçável desejo, aquela cabeleira do Sérgio Sklar, que revoava ao vento.
Sim, ao vento. E o vento vem de um pequeno ventilador que o Sérgio Sklar carrega consigo para onde quer que vá, junto com uma mala de couro cheia de papéis de onde ele tira um fio de extensão todo sujo, que parecia ter uns 50 metros. Uma figura doida.
Mas doida mesmo é a aula.
O cara dá a aula mais espetacularmente incompreensível que alguém já imaginou ter. Calma. Acho que não fui suficientemente claro com relação ao “incompreensível”. É mais ou menos como estudar a síntese da antimatéria em aramaico num quarto escuro, usando uma camisa de força com um gato dentro.
Sim. É isso.

Esta é minha sensação na aula interminável de Filosofia II. Já percebeu que disciplinas que são precedidas pelo “II”, sofrem da mesma condição dos filmes? Veja por exemplo, Highlander II.
Highlander II é tão merda, mas tão merda, que o próprio dono da história pede que os fãs simplesmente ignorem aquilo. Chegar a este ponto é o que chamamos científicamente de “A maldição do dois”.
A Sorte de “O Império contra-ataca” é que não se chama “STAR WARS II”. Senão, seria mais um fracassona lista. Já viu Psicose II? ( Se viu, vai saber do que eu estou falando.)
O tal do “II” tem um poder incrível de piorar aquilo que é bom. E DESTRUIR aquilo que já era ruim. E foi assim com Filsofia. ( e Psicometria, claro. Além de Estatística, obviamente. )
Mas finalmente, a aula do Sérgio Sklar acabou e eu tenho a feliz notícia de que a professora que viria a seguir faltou por motivos pessoais.

Na época da faculdade, isso soa pra todo aluno como “Chopp mais cedo”. Porém, no meu caso de bom nerd, significa ir pra casa mais cedo pra jogar joguinho no computador. Êba!
E assim fui eu até o ponto de ônibus onde sozinho, ainda um completo idiota que não sabe ler os sinais sutis da furada, fico a esperar o ônibus para Niterói.

Vamos localizar a história. A Cena se passa às dez horas da noite, no bairro do Rio Comprido. Eu estou bem na porta daquela faculdade ( Estácio de Sá) onde volta e meia tem tiroteio e ocorreu aquela triste situação daquela menina que tomou um teco e ficou paralítica.
Lá estou eu. No ponto. Sozinho com meus pensamentos.
Lá mesmo. No pé do morro. Na barra pesada. De noite. De frente para uma parede que tem mais de 200 buracos de bala. E não ligo uma coisa com a outra. Não tenho medo.

Quando o ônibus finalmente passa, está vazio. Eu penso:

“Que ótimo. Não tenho que ir em pé. Vou poder ir sentado pela primeira vez na semana. Que maravilha voltar pra casa mais cedo. Fora do tumulto. Sozinho e em paz.”
Entro no ônibus e vejo que o trocador me olha com uma cara que a gente faz ao ver esses garotos prestes a pular de bungee jump.
Ignoro a expressão. Mais um sinal.

Entro normalmente. Pego o walkman emprestado do meu irmão e tento sintonizar uma rádio. Nada pega direito. Só a Rádio Catedral, que eu tento escutar pela primeira vez. Enquanto isso, o ônibus descreve seu longo e penoso passeio por ruas estreitas, subidas de morro, viadutos obscuros e lugares esquecidos por Deus.
Entre as imagens que passam dançando na janela eu me perco em pensamentos tão vagos e fugazes quanto a paisagem.
Neste ponto, o ônibus já está com algumas pessoas além de mim. É uma meia dúzia de gatos pingados. Eu vejo um casal de velhinhos, uma mãe com a filha pequena, um sujeito de cabelo reco e umas velhas que voltam de algum bingo.
De vez em quando, o ônibus para e sobem umas pessoas. Eu observo tentando construir enredos imaginários baseados naquelas figuras soturnas e decadentes. É meu vício.
Entra um casal que parece não se falar. Eles chamam minha atenção. Acho que estão brigados. Sérios. Entram juntos. É uma proximidade que mostra claramente que não são estranhos um ao outro, mas sentam-se separados. O cara está duro. Impassível. Quer com certeza parecer estranho à moça. Movimentos rápidos e rígidos. Ele está tenso.
A moça tem o rosto vermelho. Andou chorando. Devem ter brigado. Ela senta no banco oposto, na mesma altura do ônibus. O cara olha pela janela com olhar distante. Ela olha pra outra janela. Dois minutos após, ela já olha pra ele de rabo de olho. Os pés voltados na direção do homem.
Ah, os pés e seu hábil jeito de entregar a verdade que o resto do corpo tenta em vão esconder…
Tento me torcer todo para ver os pés dele. De relance, num movimento de curva, consigo meu intento e vejo que os dele apontam sorrateiramente para ela.

Há todo um balé silencioso, como o acasalamento das abelhas se passando dentro de um nauseabundo lotação semi-vazio na escuridão da cidade. Eu fico satisfeito de ser a testemunha daquela cena.
Volto-me aos meus pensamentos de como o mundo é todo um jogo. Todo uma seqüência de fatos totalmente sem sentido que vão sendo encadeados, mas na verdade, esta aparente falta de sentido esconde uma trama interna. Um fio condutor da realidade que estrutura o que chamamos de real…*

Tomei um tapão.
Eu me viro sorridente esperando encontrar algum amigo da escola. Só amigos da escola cumprimentam-se com tapões dignos de nos fazer expectorar todo catarro da vida.
Mas o que eu vejo é um sujeito mulato com um bigodinho fino no melhor estilo “Canalha malandro do Rio de Janeiro”. Calça jeans e camisão. Uma camiseta verde sem manga por baixo.
Ele senta-se do meu lado e fala uma meia dúzia de coisas que eu não entendo, porque quem fala no meu ouvido, é um bispo lá da rádio Catedral. Tiro o fone e ouço o cara falar:
O dinheiro. Dá o dinheiro.
Vendo que eu estou hesitante, ele tenta ser mais, digamos, “persuasivo”.
De dentro da camisa florida verde, ele saca um trabuco e encosta na minha cintura. É um revólver 38 todo enferrujado. Meu me cago de medo instantâneamente.
Sinto a adrenalina entrar com força rasgante nas minhas veias. Minha pupila dilata e o coração dispara um batuque de centro de macumba. Os cabelinhos da nuca arrepiam e sobe um frio pelas costas.
Na mesma hora, em flashbacks, me vem a mente o revólver que tive sádicamente esfregado no meu globo ocular pelo policial do Niterói Shopping. (vide caso gump dos Aventureiros da Torre Proibida)
O cara continua seu monólogo:

– O dinheiro. Dá o dinheiro, porra! – Engraçado como todo diálogo de bandido que se preze tem que ter um sonoro “porra” no final, né?
Com enorme pesar, pego a carteira. Está ali, juntinho, um bolinho de notas de dez reais. É uma pequena fortuna de 200 merréis que eu havia acabado de receber.
Abro a carteira e deixo o cara meter a mão e arrancar minhas notinhas. Nós (eu e as notas) nunca nos veríamos novamente. O cara arranca também o walkman da minha mão e leva. Vai para a frente do ônibus.
E é neste momento que eu vejo que o ônibus inteiro está sendo saqueado por seis bandidos. Todos armados.
Um está do lado do motorista. A arma apontada pra ele discretamente sob a camisa. Dois outros roubam celulares, jóias.
Vejo o velhinho. Ele está sendo atormentado por um dos bandidos. É um moleque de não mais que 18 anos. Idade para ser neto dele, usando extrema violência. Ele quer a aliança do velhinho.
O senhor tenta tirar a aliança do dedo, mas devido ao tempo, parece que ela se integrou com o corpo dele de um jeito que não sai. O cara tá nervoso. Ele dá uma coronhada no velho. A velha grita. O clima de tensão está crescendo numa velocidade grotesca.
Um a um, cada passageiro do ônibus vai sendo assaltado.
O ônibus chega agora perto do Campo de Santana. Uma espécie de parque urbano, que é um deserto escuro só.
O assalto começa a chegar ao fim.
O bandido do bigodinho vai para a escada do ônibus para descer. Mas então ele pára e volta.
Eu fico ali olhando e vejo que ele tá voltando olhando… Pra mim.

Putaquipariu. Ah, não. É pra mim mesmo que ele tá vindo. Com o revólver na mão.

O cara para na minha frente e diz apontando (didaticamente) com o trabuco:
– Dá o relógio aí plei! – Caralho. O relógio não. Logo o relógio, que é um modelo caríssimo da Timex que usa um sistema ótico especial para gravar dados do computador e que me ajudou a colar durante o segundo grau-Eu penso.

Tenho que ser rápido dessa vez, pois os caras não gostam de gente que lerda. Eu sorrio aquele sorriso amigavelmente falso de vendedor de carros usados e jogo um dos maiores caôs que eu consegui jogar em alguém em toda minha vida:

– Ah, beleza cumpadi. É de camelô mesmo. Qualquer dez reáu eu compro outro. Pegaí. – Digo já desabotoando a pulseira.

Para meu espanto, o golpe funciona inacreditávelmente bem. O bandido vira-se e vai embora me deixando com o relógio:

-Relógio de camelô é tudo merda. Isso eu não quero não. Pode ficar. – Diz ele.
Quando o bandido vai passando, eu vejo que os outros estão se pirulitando pra fora do ônibus com o produto do roubo dentro de uma mochilinha de nylon vermelha. O assalto chega ao fim.

É agora que acontece.

Tudo fica em câmera lenta. Eu vejo que dois bancos vazios à minha frente, está o carinha do cabelo reco. O bandido do bigodinho vai passando do lado dele. Os outros estão na porta saindo. O mais velho está com o motorista, olhando pra cá.
Não sei como exatamente, mas o carinha do cabelo reco levanta-se com uma porra duma pistola preta na mão. Parece ser uma automática 9mm. Ele aponta para as costas do bandido de bigodinho. Vai atirar.
Eu vejo que o bandidão mais velho que estava com o motorista está agora apontando a arma pra minha direção. Só dá tempo de pensar:
– Merda! E fechar o olho.
Escuto quatro estampidos secos e então, um silêncio que demora exatamente dois segundos e logo após, um grito. E outro. E uma confusão.
Eu estou duro. Petrificado. Os olhos fechados. Eu sinto a camisa empapar. Acho que fui baleado. Acho que estou em choque. Que fui atingido. O cara atirou bem na minha direção. Quatro tiros, um pelo menos tem que pegar em mim.
Abro os olhos. Na minha frente, caído, está o cara do cabelo reco.
Nessa hora eu vejo alguém morrer de tiro pela primeira vez.
Eu sempre pensei que as pessoas morressem como no cinema. No cinema é assim. Toma o tiro, faz um furo. Sai um sanguinho e a pessoa desfalece. Dura. Cadavérica. É a morte. Quando muito, rola um discurso, uma troca de olhares dramática. E a morte surge, como num desmaio.

Vejo chocado que no mundo real a morte é muito pior. O cara, vejam vocês, está estribuchando… Ele está estribuchando de um jeito que eu não vou me esquecer jamais. Sei disso. Parece um boneco levando choque.
As mulheres gritam.
Todo mundo corre para fora do ônibus. Não há nenhum bandido morto.
O cara morreu gratuitamente. Ele foi assaltado como todo mundo e achou, sei lá de que jeito, que conseguiria sozinho matar os seis ladrões. Síndrome do Rambo ou coisa que o valha, sei lá.
Eu passo por cima do corpo. Não tenho coragem de ajudar. Um senhor e o trocador querem pegar o cara e correr para o hospital logo do outro lado da rua. Eles pedem minha ajuda. Um homem que estava lá atrás diz que o garoto já morreu e que não pode mexer no corpo.
Eu estou tonto. Sinto uma estranha vontade de vomitar. Desço correndo daquele ônibus.
O casal brigado está agora abraçado. A moça chorando e o cara, com o olhar não mais perdido, a abraça.
Os velhinhos falam com pessoas na rua. As três velhas falam ao mesmo tempo. Uma para a outra. Uma patrulhinha aparece. Os policiais gordões saem lentamente do veículo carcomido.
Eu estou sem saber o que fazer. Sem saber o que falar. Nem pra onde ir.
Eu ainda estou escutando o tiro. É um loop repetitivo em que revivo a sensação de quase morrer. Ainda estou sentindo o cheiro da pólvora no meu nariz. Na mente, revejo a cena e ouço o gemido do cara que estribucha no gelado piso do ônibus. O tempo passa e eu nem sinto.
Resolvo andar. Conheço aquele lugar. Trabalhei ali. Central do Brasil. Sua fauna rica.
Ando apressado, tentando chegar numa multidão e me perder na segurança de meus pares.
Outro ônibus vem. Eu pego este.
Ele sobe a ponte. Eu olho o mar e penso naquele cara e em seu destino fatal. Penso na família dele. Penso em como eu pude sentir minha roupa empapar de sangue se eu não havia sido baleado. Eu penso em muita coisa. Olho um por um naquele ônibus. Vejo o medo nos olhos das pessoas e descubro que me tornei mais um. Com medo, me refugiando na aglomeração dos meus pares. Eu penso nisso tudo e a cidade me abraça.