Como eu aprendi a gostar de Paulo Autran

Eu vou contar a verdade. Nunca gostei do Paulo Autran. Eu achava ele metido, seboso, prepotente e todos os adjetivos ligados a um velho que se acha bem mais do que é. No Brasil, talvez no mundo, é feio falar mal de quem já morreu. Vide o Brisola, que mal faleceu e ganhou de imediato um show de cobertura jornalística da sua maior inimiga, a Globo. Sempre matérias exaltando suas qualidades e virtudes.

Mas o fato é que eu passei a maior parte d minha vida não indo com a cara daquele velho. Não sei era alguma coisa na voz, na maneira dele sentar ou o jeito mole de falar com o cigarro abicholadamente pendendo dos dedos e os olhos semi-cerrados com um soninho blasè. Ele parecia uma espécie de Ugh Hafner gay metido a rei naquela poltrona Luís XV. Muita gente falou pra o Autran que ele era o “MONSTRO SAGRADO” do teatro. Se não me engano, este termo foi cunhado específicamente para o Paulo Autran. Pelo mestre da “babaovagem” Fausto Silva.

Um dia eu voltava do trabalho e liguei o radio. Era umas cinco e pouco da tarde. O sol começava seu mergulho para detrás dos morros no horizonte e eu escutava as notícias do dia. Na verdade eu só pensava na vida. O som do radio nos meus ouvidos era só mais um jeito de me desligar do mundo. É como tomar banho. Sempre que eu quero ter alguma idéia, vou tomar banho.

Mas eu ouvia aquele som de notícias sem prestar nenhuma atenção a elas, até que ouvi uma musica clássica. Aquilo soou tão estranho numa radio de notícias que parei e prestei atenção. E uma voz soou em meio a música, lendo um poema. Era um poema tão bonito, tão espetacular que eu perdi o comando mental e não sabia mais para onde eu ia. Meus neurônios que estavam trabalhando para definir pra onde eu ia, tiraram um descanso e foi como se uma copa do mundo acontecesse na minha mente. Pararam todos de trabalhar e eu acabei ficando ali. Todos os sentidos apontando para as ondas invisíveis do rádio que penetravam no meu cérebro narrando aquela poesia.

Quando a poesia acabou tudo voltou ao normal. Retomei meu caminhar e voltei para casa. Mas algo em mim estava diferente. Eu havia sido transformado de alguma maneira. Eu acho que foi só aí que descobri que a poesia tem um estranho poder que eu desconhecia. No dia seguinte, tornei a procurar aquela rádio, em busca da música clássica e da voz. Depois de um tempo, eu a encontrei. Estava começada, mas fiquei ouvindo atentamente. Dessa vez, era um texto engraçado. Eu sorri. E fui mais feliz para casa.

E nisso se passaram vários e vários dias. Eu todo dia ligando meu radinho que depois passou a ser um celular para ouvir a Band News e ouvir o programa chamado “Quadrante”. Depois do terceiro programa, eu descobri que o dono daquela voz que me satisfazia tanto era o Paulo Autran. Foi como se uma grande surpresa acontecesse. Eu, que sempre vi Paulo Autran com os olhos da rejeição, havia me tornado um fã de sua voz, de sua leitura. Nos últimos meses comecei a pensar sobre meu desejo de ter alguns dos textos do Mundo Gump lidos pelo Paulo. Sonho que nunca se realizará, mas que foi a semente da idéia de um podcast do Mundo Gump (BREVE) para quem não tem tempo de ler, ou não consegue ler porque é cego.

Eu passei a gostar daquele cara. E aprendi muito com ele. Uma pena que Paulo só tenha começado a fazer o programa quadrante no fim da sua vida. A literatura teria muito a ganhar com isso. Eu descobri textos maravilhosos graças à genialidade de quem convidou Paulo para ler diariamente, um texto da literatura brasileira numa radio de notícias.

Muita gente que não ficou sabendo disso, nunca ouviu o programa, talvez não goste do Paulo como eu não gostava. E é por isso que eu gostaria de oferecer aos leitores a coleção completa do programa quadrante. Talvez vocês mudem de idéia, e vejam, como eu vi e ouvi, que tinha uma opinião errada sobre aquele homem.

Eu tive a sorte de descobrir uma mensagem de Nelson Antunes, um conhecedor de discos antigos e colecionador de várias pérolas. Nesta mensagem, Nelson conta que Paulo gravou vários discos lendo poemas e textos da literatura. Esses discos estão por aí, estragando em estantes empoeiradas. Nelson pede para quem tem uma dessas preciosidades, não jogar fora. Enviar para ele, pois ele faz uma divulgação desse material riquíssimo.

As gravações de Paulo no programa quadrante podem ser ouvidas de forma avulsa no site da Band News.

Mas Nelson Antunes agrupou pra nós em 2 mega-pacotes que estão no Rapidshare. Realmente, não tem como não gostar da literatura brasileira ao ouvir aquilo. Eu garanto. Professores de literatura, levem um radio para suas salas!

Paulo Autran – quadrante; rádio band news fm 1

faixas:

01 Inácio Oliveira de Queiróz – Paroquisa Estende a Mão.mp3
02 Augusto Frederico Schimidt – A Partida.mp3
03 Rubem Braga – a crônica, Duas meninas e o mar.mp3
04 Carlos Drummond de Andrade – Poema de Sete Faces.mp3
05 Rubem Braga – Arnaldo Estrela cronista.mp3
06 Dinah Silveira de Queiroz – História de Mineiro.mp3
07 Carlos Drummond de Andrade – O Outro Nome do Verde.mp3
08 Paulo Mendes Campos – Férias conjugais.mp3
09 Mário Quintana – Velha História.mp3
10 Manuel Bandeira – Rosa e o Subconsciente.mp3
11 Mário Quintana – Canção do Amor Imprevisto.mp3
12 Carlos Drummond de Andrade – Balada do Amor Através das Idades.mp3
13 Fernando Moreira Sales – Alguns Poemas.mp3
14 Fagundes Varela – A Flor do Maracujá.mp3

link para download:

http://rapidshare.com/files/40346858/paulo_autran_-_quadrante__r_dio_…

Paulo Autran – quadrante; rádio band news fm 2

faixas:

01 Cecília Meireles – Retrato.mp3
02 Mário Quintana – Canção de Bar.mp3
03 Fernando Pessoa – Pecado Original.mp3
04 Luis Fernando Veríssimo – Regininha ou os três dias do condor.mp3
05 Carlos Drummond de Andrade – O índio.mp3
06 Luiz Fernando Veríssimo – O reencontro.mp3
07 Carlos Drummond de Andrade – Luzía.mp3
08 Manoel Bandeira – Os carnavais.mp3
09 3 textos.mp3
10 Carlos Drummond de Andrade – O Principezinho.mp3
11 Fernando Sabino – A mulher vestida.mp3
12 Cecília Meireles – chuva com lembranças.mp3
13 Raquel de Queiroz – Já não se faz bandidos como antigamente.mp3
14 De Casimiro Abreu – Aval.mp3

link para download:

http://rapidshare.com/files/40340219/paulo_autran_-_quadrante__r_dio_…

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7 comentários em “Como eu aprendi a gostar de Paulo Autran”

  1. Que bom que você teve a chance de aprender a gostar do Paulo Autran! E um cara como ele podia ter seus defeitos, incluindo alguma vaidade, mas ele era muito maior que isso. Não sei se pessoalmente ele era insuportavelmente vaidoso ou não, já que não tive a sorte de conhecê-lo fora dos palcos, mas nunca me pareceu que ele fosse antipático ou prepotente. Isso sem falar que ele abriu as portas para tanta gente… pense, por exemplo, na Galisteu, que ele dirigiu. Eu o conheci quando era adolescente e ele foi dar uma palestra para os alunos no colégio onde estudava. Ele me ensinou, e a muitos colegas, a gostar de teatro naquela noite. Talvez o que parecesse vaidade fosse só a satisfação sentida por alguém que é extremamente bom no que faz – um dos melhores, na verdade. Ou será que tem muita gente vaidosa que aceita ir a um colégio falar para adolescentes? Enfim, nunca fui de ter ídolos na vida, mas para o Paulo Autran abri uma exceção. Era realmente fã dele e do que pude conhecer de seu trabalho.

  2. Escreva seu comentário aqui.
    Philipe, eu ao contrário de vc sempre fui um admirador de Paulo Autran, principalmente no teatro apesar de poucas vezes tê-lo visto atuar já que eu moro em Salvador, e claro na TV. Infelizmente, também ao contrário de vc não conheci este programa Quadrante, portanto agradeço a oportunidade. Foi uma grande perda mas é da vida. Forte abraço, Mendes.

  3. eu conheço a gravação dele lendo alguns poemas do fernando pessoa, mas não sei se é essa mesma que tu ouviu. vou baixar, igual, já que tem até quintana aí.

    abraço

  4. Ficava ligado todos os dias na Band News só para ouvir o Autran. Adorava muito, era bem na hora tava saindo do trabalho.

    E sempre ele terminava: “Vamos ao Teatro”

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