A caixa

Eu não sabia como havia ido parar ali.

Abri os olhos e não vi nada, estava tudo escuro. Pensei que talvez eu nem tivesse aberto os olhos, mas quando pisquei, me convenci de que havia ficado cego. Senti  um profundo horror tomar conta de minha alma. E tentei me levantar. Só aí encostei no chão duro, frio e metálico. Estava frio. Bem frio.

Me levantei com certa dificuldade, ainda sem nada poder ver.

Dei um passo à frente e parei.

Não dava para ver nada, lhufas, a escuridão era completa. Eu estava cego? Ou estava preso? Não dava para saber.

Tentei ouvir alguma coisa, mas havia apenas um profundo e tenebroso silêncio que me invadia. Mantive-me parado, tentando escutar alguma coisa. Mas eu só ouvia o sibilar tímido do ar entrando nas minhas narinas. Senti o coração batendo no peito e era como se eu pudesse ouvi-lo.

Pensei em gritar, mas me contive. Eu não sabia onde estava. Gritar talvez complicasse ainda mais as coisas.

Sentei-me no chão frio e cruzei minhas pernas em posição de lótus. Esperei. Talvez alguém viesse.

Pensei que talvez eu estivesse num elevador. Não sei como cheguei ali, não me lembro. O tempo parecia não passar. Mas minha cabeça funcionava a mil por hora, tentando determinar em que parte do passado eu havia cometido o vacilo de parar naquele lugar.

O ar era pesado, e embora frio, parecia viciado. Não ouvia ar entrando ou sentia o vento.

Aquele pensamento me assustou a ponto de me fazer levantar novamente. Andei devagar. Pisando com cuidado. Poderia haver um buraco ou coisa assim. Eu não via nada. Mas pelo menos, o tato ainda funcionava.

Estiquei os braços à frente, na expectativa de me deparar com uma porta, uma parede, algo assim. Dei vários passos e comecei a me assustar quando minhas mãos não achavam obstáculo algum.

Aquilo me deu medo. Parei. Talvez eu estivesse indo na direção errada.

Pela primeira vez, respirei fundo e gritei:

-Socorro!

O som ecoou. Eu ouvi varias vezes o grito de socorro. Aquilo me mostrou que eu estava numa espécie de caixa. E não era pequena.

Andei para frente, com os braços esticados. Uma hora eu tinha que bater em alguma coisa. Era uma experiência excruciante a de não ver nada. Enquanto andava, ouvia meus passos ecoando no metal.

Andei, andei… E ia pensando no caminho sobre os cegos que eu ja havia visto na vida. Talvez se estivessem no meu lugar eles fizessem diferente. Mas ali estava eu, lascado como um peixe de mar num aquário de água doce.

Eu andava, andava e nada da parede tocar as pontas de meus dedos. Quando dei por mim,  eu estava chorando. O medo era aterrador. As lagrimas rolavam no meu rosto fazendo cócegas.

Comecei a correr. “A parede há de chegar!” – Pensei.

Corri durante varios minutos, completamente na escuridão. Os passos ainda ecoavam. De vez em quando, eu sentia que passava sobre partes ocas, pois o som ali era diferente. Mas não topei, não senti elevação, degrau, rampa ou qualquer elemento diverso de uma superfície metálica e plana.

Parei esbaforido. Olhei para o lado. Talvez a parede estivesse a poucos centímetros de mim… Mas não havia como saber.

Talvez fosse um sonho. Pensei nisso e esperei ansiosos que essa percepção criativa fosse suficiente para me acordar. Não foi.

Não era sonho, nem pesadelo. Ali estava eu.

Meti a mão no bolso. Eu estava de roupa. Reconheci pelo tato minhas calças jeans. A carteira ainda estava comigo, no bolso de trás. O pente, um antigo pente de plástico da marca “Flamengo” que ganhei de meu avô,  no outro bolso.

Eu estava de sapatos e pelo toque, eram os mesmos da noite anterior. As memórias estavam ainda confusas mas gradualmente comecei a me lembrar de algumas coisas.

Na noite anterior eu havia terminado meu relacionamento com Jane, na Pizzaria do Mario. Jane ficou triste, mas eram as coisas da vida. Eu não me via feliz ao lado dela, de modo que optei por ser honesto a enganar a mulher que um dia amei.

Jane chorou, disse que jamais me perdoaria, arrancou a aliança e jogou na minha cara. A maldita tinha uma ótima mira, de modo que acertou bem no meu dente, lascando um pedaço.  Na hora doeu, mas a situação do vexame na pizzaria foi tão grande, com tanta gente olhando ela jogar o copo de cerveja em mim, aos gritos histéricos, palavrões e coisas ininteligíveis (ela era sempre assim, depois de estourar seu pavio curto, Jane começava a embolar palavrões e remixar palavrões em novas versões de impropérios) que nem liguei para a dor. Fiquei quieto, impávido, o que irritou ainda mais a mulher, que considerou minha reação de frieza e descaso. Ela saiu, batendo a porta.

O garçom veio sem graça, me ajudou com os guardanapos, paguei a conta. A pizza banhada em cerveja voltou para dentro, sem que ninguém a tocasse.

Eu paguei a conta, e saí do Mario com uma sensação dúbia de tristeza e felicidade. Finalmente eu havia cortado meu último grilhão e agora estava livre. Livre!

Apalpei a nuca e senti uma dor. A escuridão a minha volta me dava uma sensação de que meus outros sentidos estavam se expandindo, e talvez estivessem mesmo. Voltei a pensar em minha sensação de liberdade na noite anterior e como aquilo parecia inevitavelmente ridículo. Eu, o homem engaiolado.

Por maior que fosse a gaiola, ela era uma gaiola. E eu estava decidido a sair dali.

Tornei a avançar na escuridão. Meus pensamentos agora voltavam-se para o lugar misterioso em que eu me encontrava. Senti um cheiro leve de poeira no ar, mas continuei. Certamente, se havia um eco, devia haver paredes retas em algum lugar. As dimensões pareciam colossais. Eu estava cansado de andar e fitava a possibilidade de desistir quando o eco de meus passos se tornaram gradualmente diferentes. A parede estava próxima.

Aquilo me deu novo ânimo, de modo que corri como louco para a frente, com braços esticados prontos para tocarem no que quer que fosse. Enquanto corria eu determinei mentalmente a distância daquele lugar. Era um galpão, sem dúvida. Talvez um hangar.

Subitamente, sem aviso, a parede apareceu. Fria, metálica e rígida. Foi um estranho alívio que senti quando a toquei.

A sensação de correr em meio a escuridão era assombrosa. Uma sensação de vácuo, de vazio somente comparável a nadar em altas profundidades, onde se perde a noção do que está em cima, em baixo e dos lados.

A parede me ancorava no mundo. E por isso eu a beijei. Fui acometido de um surto súbito de riso. Gargalhei alto, talvez na esperança de ser ouvido, de atrair a atenção, ou, reconheço, me acalentar com uma gota de felicidade, mesmo que mórbida, incontida e falsa.

Agarrei-me a parede lisa e fria e tateei. Alisei cada milímetro. Era lisa, parecia polida. Não senti fenda, rachadura, dobradiça, muito menos portas ou janelas. De tudo, o pior nem era a falta de uma saída, mas a incerteza se eu estava realmente cego ou não.

Eu me sentia muito cansado. Tateei a parede até o piso. Com a ponta dos dedos busquei uma fenda entre o chão e a parede, mas não havia. Nem fenda nem relevo de solda. Era liso. A parede ligava-se ao piso.

Andei pela lateral da parede, mantendo os dedos permanentemente em sua superfície dura. Contei meus passos. Eu sabia que em algum momento eu ia achar a esquina.

Eu já havia passado dos dois mil passos, e nada da esquina surgir. A parede parecia infinita.

Corri.

Enquanto eu corria, concentrava-me nos números que dançavam na minha imaginação. Eu não podia perdê-los, pois somente a eles eu poderia me agarrar na tentativa, talvez infrutífera, de conter minha sanidade.

A esquina custou mas chegou. Foram 3567 passadas até a esquina aparecer do nada e eu meter a minha cara nela, machucando meu nariz. Caí estatelado para trás, esbaforido.  Por poco não acerto a cabeça no chão, o que certamente culminaria em morte, concussão, coágulo ou alguma coisa ruim de nome esquisito.

Percebi o quanto me faltava preparo físico pelo cansaço monumental que sentia.

-Pelo menos agora tenho onde me encostar. – Pensei.

Acomodei-me junto ao canto cuidadosamente dobrado em noventa graus. Percebi isso dobrando meu dedo indicador com a mão para a frente e o polegar para cima. O dedo indicador forma um ângulo de noventa graus precisos quando totalmente dobrado… Bom, pelo menos é assim na minha mão, de modo que enfiei o dedo dobrado na quina e uma parte da parede gelada encostou em cada um dos lados. Movi então a mão para cima, e não parecia haver desnível, amassado ou qualquer indício de alteração. A parede era milimetricamente perfeita. Um belo trabalho de engenharia, eu precisava reconhecer.

Não vi teto. O tempo inteiro que passei ali, não sei se o teto era baixo, alto… Mas pelo menos eu sentia o chão.

Encostei ali e ali fiquei.

Sem ver nada, não foi difícil pegar no sono.

CONTINUA

 

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8 comentários em “A caixa”

  1. Essa história é real?
    Isso aconteceu com você?
    Quem é Jane? Achei que você era casado com a primeira dama!
    Já sei! Jane é a “J” da sua história “a mulher pelada sobre a cama da minha avó”, é assim que se chama se não me engano, lembro que nessa história tinha uma mulher chamada “j”.
    Agora tudo se encaixa!!! Ou não…
    Philipe, nos clareie!!!
    Estou confuso…

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