A caixa – Parte 21

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Eu posso assegurar que foi um dos maiores sustos que já levei em toda minha vida.

Um inseto estava falando comigo. A voz que saía do besouro era fina e baixa. Eu fiquei em tamanho estado de choque, que simplesmente não disse nada, apenas assenti com a cabeça.

-Vá até uma duna em uma terça-feira, noite de lua cheia. Chame por Leonard, sete vezes e ele virá.  – Disse o inseto no parapeito,  com sua voz macabra.

Eu fiquei pasmo. Aquilo simplesmente não era possível. Era um truque. Devia ser o Cabelinho dando uma de ventríloquo.

-Você entendeu? – Perguntou o besouro. Eu novamente, concordei com a cabeça.  Mas aquilo era algo tão inesperado, tão sensacional, tão absolutamente fantástico que me veio à mente pegar um copo e prender ele. Ninguém jamais acreditaria em mim. Mas foi só este pensamento surgir na minha mente que a carapaça do besouro se abriu e em menos de um segundo, ele decolou para cima de mim, com um barulho que lembrava um motor de kart. Certa vez, eu vi uma entrevista do ator Jorge Lafond dizendo que o homem pode ser o maior machão, o maior brucutu, mas na hora que a barata voa, toda a masculinidade se esvai.

De certo que na hora em que o besourão voou para cima de mim, minha masculinidade se travestiu de uma mariposa degenerada e louca. Gritei sacudindo os braços. Num salto que me deu vergonha de mim mesmo durante muito tempo, eu pulei para trás, as pernas abertas, os braços se agitando no ar. Era uma cena ridícula, em que se minha vida fosse um filme, seria retratada em câmera lenta com direito ao replay dos Trapalhões.

Caí na lateral da cama, capotei para trás gritando feito uma gazela e bati de cabeça no piso de taco.

Minutos depois a porta se abriu num estrondo e apareceu o Cabelinho, só de cueca. Ele estava bêbado ou chapado. Ou os dois.  E tão logo acendeu a luz e me viu daquele jeito escroto, desatou a rir e nem se deu ao trabalho de me ajudar. Isso resultou num torcicolo escroto, que fazia uma combinação perfeita com minha musculatura já fragilizada pela surra.

Quando Cabelinho finalmente conseguiu se conter, e me ajudou a levantar,  eu sentei na cama feito a velha daquele programa humorístico, “A praça è nossa”. Eu era só uma carcaça roxa e cheia de dores.

-Cara que merda foi essa? Pesadelo? – Perguntou Cabelinho.

-Meu… Ai… Nem te conto… Ai! Ai!

-Tu sonhou com o Mungo mesmo? – Perguntou ele rindo de mim.

-Que sonhei, véio? Que sonhei o que! Eu nem deitei!

-Hã?

-Eu tava deitado, mas não dormi. Até que uma parada bateu na janela. Tipo uma pedra.

-Véio, aqui é o décimo andar, porra!

-Então, por isso mesmo. Fui la ver e… Tinha um bicho, meu.

-Um bicho? Aqui em Sampa? Fala sério! Mais fácil ser uma bicha!

-Hahaha… Ai! Puts, ta doendo meu pescoço. Mas é serio mesmo, tinha um bicho, tipo dum besouro, ali na janela.

-Tá, tu viu uma barata. E daí?

-Não, meu! Não era barata. Era um besourão mesmo, enorme. Meio azul até.

-Ok, e daí?

-Daí que ele… Puta, como que eu vou falar isso?

-O que, porra?

-Ele falou comigo! – eu disse.

Cabelinho ficou sério olhando pra mim. Ficamos nos olhando sério por quase dez segundos, quando então o cabelinho soltou um peido com a boca que se transformou numa gargalhada que não parava mais.

Era impossível falar com ele. Ele ria de passar mal. Acabei empurrando ele e expulsando o Cabelinho do meu quarto. Ele se foi, ainda rindo sem controle. Eu bati a porta, putaço. Depois fechei a janela, com o cu na mão do bicho falante voltar,  e deitei. Demorei para achar uma posição que meu pescoço duro não doesse. Eu podia ouvir. Cabelinho ainda estava lá na sala, rindo.

Eu tinha ficado puto, mas entendia o lado dele. Era escroto mesmo aquilo. Se fosse com ele eu ia achar que ele tinha surtado, que fumou orégano. Obviamente, foi foda de pegar no sono. A adrenalina estava a mil por hora. Levantei e tomei um copo de leite para poder desmaiar. Andei até a cozinha duro feito o Robocop. Não tinha posição direito para dormir. As costelas inchadas, o olho estufado, a orelha que parecia um brócoli e o pescoço duro do Robocop. Eu estava, como dizia minha mãe, bem “prejudicado”.

Fiquei pensando nela para dormir.  Prometi a mim mesmo que assim que eu me desvencilhasse daquela maldição que havia me metido, iria visitá-la em Portugal.

No dia seguinte, acordei cedo. Mal havia raiado o dia. Demorei a levantar da cama, pois tudo doía.  Tomei um banho, escovei os dentes e dei minha mijada matinal. Não nessa ordem, exatamente, mas em seguida, fui tomar café.

A vantagem de acordar cedo é fazer o dia render mais. Deixei a minha parte do dinheiro da faxineira  na mesa, junto com um bilhete que custei a escrever, porque minha cabeça só não doía se eu a movesse bem devagar.  No bilhete, eu dizia para o Cabelinho que era para ele não esquecer de falar com a tal bruxa. E que o lance do besouro tinha sido verdade mesmo. Felizmente tava saindo um sol e meti o meu óculos escuros com a maior lente que tinha. Ele era meio cafona, espelhadão, mas pelo menos disfarçava o roxo.

Saí de casa, e andei bem devagar até o metrô. A vantagem de sair cedo é não cair na confusão de gente que é uma ou duas horas depois. Meu medo era tomar uma cotovelada nas costelas.  Fui direto para o jornal.

Ser o primeiro da redação a chegar sempre causa uma certa perplexidade na galera, até porque, como o Cabelinho demora pra caralho no banho, eu geralmente chego atrasado e preciso ficar até tarde para compensar no banco de horas. Mas naquele dia, chegar cedo foi um saco. Cada um que chegava perguntava o motivo dos óculos e dizia que ele era feio. Eu mostrava o roxo e explicava que “lutei com um assaltante” na rua Augusta. Aí todo mundo concordava que era melhor ficar de óculos mesmo.

Passei o inicio da manhã estudando tudo que eu podia sobre insetos falantes. Quase não havia referências a insetos falantes na literatura fantástica, fantasias medievais e nem na mitologia. As boas referências a insetos que podiam falar, só achei o mais famoso, “O  Grilo falante”,  super-ego externo do personagem Pinóquio. Mas quando a pesquisa era sobre “animais falantes”, o volume de resultados era colossal. A Bíblia mesmo estava entre as fontes de animais falantes. Havia animais falantes em praticamente todas as tradições míticas humanas. Entre as tradições de mitos envolvendo criaturas falantes, encontrei na mitologia Celta um pequeno manancial delas.

Os celtas não escreviam seus mitos, eles passavam de geração a geração através da tradição oral de seus bardos. Para os druidas, escrever seus mitos seria o mesmo que aprisionar seus espíritos. Portanto, muito do que se sabe hoje em dia sobre os mitos celtas, e do estudo de sua mitologia vem do resgate de suas lendas através dos registros feitos por monges copistas irlandeses que passaram as principais histórias celtas para o papel em belíssimos manuscritos. Esses papeis bem preservados dão conta de diversas lendas que teriam se perdido na obscuridade do tempo se não tivessem sido registradas. De uma certa forma, aquilo me atraía, e saber que em plena década de noventa, às portas da virada do milênio, eu me defrontava com a mesma perplexidade que provavelmente um camponês poderia ter tido ao se deparar com algo assim, parecia instigante.

Eu estava com cara de pastel olhando o monitor quando o telefone tocou.

-Sim?

-Ô seu merda! – Era o Cabelinho, obviamente.

-Opa!

-Saiu cedo hein?

-Meu… Nem vou te dar papo, porque tu ficou me zoando ontem e nem pra me ajudar.

-Ah, não fode… Você me acorda caindo da cama e vem com aquela maluquice de… hahaha, calma. hahahaha, caralho… Hahahaha, porra, eu não consigo… Hahaha!

-Ah, eu vou desligar. Não enche!

-Calma! Hahaha… Calma, porra.

-Meu, tu podia me dar um descanso, né véi?

-Aqui, pera. Calma. – Ele disse. Ficou uns segundos em silêncio.

-Alô? – Eu perguntei, pois achei que tinha caído a ligação.

-Calma. Tô me concentrando… Ok. Beleza. Vamos falar seriamente agora. Tu sonhou.

-É ruim, meu!

-Tu sonhou cara!

-Não sonhei não, meu. Eu vi o bicho na janela. Eu abri a janela e ele falou comigo.

-Falou o que?

-Ele perguntou pra mim se era eu que tava procurando o Leonard.

-Quem?

-O Leonard… Lembra? O cara que salvou o maluco lá que era amigo do professor Serge.

-Logo, vamos abstrair o fato ululante que insetos não tem aparelho vocal, logo, tirando o grilo falante, claro, não falam.  Como um inseto poderia saber quem é Leonard?

-Hum… – Gemi na interlocução do outro lado da linha.

-Se ele falasse: Me dá comida, ou algo assim, se ele perguntasse “que dia é hoje?”… Aí tudo bem, podemos ver aí uma informação extrínseca  Mas Leonard? Pô, isso está claro, somente na sua cabeça. Se está na sua cabeça, e você estava dormindo antes de se encontrar com o inseto na janela, é extremamente provável que você tenha sonhado, o sonho começa quando você escuta o treco batendo na janela e termina quando você, assustado com o sonho virando um pesadelo, cai da cama. Como as pontas, o ponto em que o sonho se inicia e o ponto em que o sonho termina se dão sem emendas claras, você confunde tudo, e como já está passando por um problema de confusão mental decorrente de um trauma encefálico devido ao tempo em coma, ao acidente e tudo mais, mistura isso tudo numa sopa insana. Mas como você é uma pessoa muito estudada, muito esclarecida, é um jornalista, seu cérebro organiza suas “viagens” na maionese de uma forma lógica, tão logica que te confunde, o que retroalimenta suas fantasias, como foi com o Mendigo que sumiu. O inseto também sumiu, não é?

-Bom, ele voou pra cima de mim e aí eu pulei e…

-Sumiu. Então, se sumiu é porque nunca existiu. Nem o inseto, nem o mendigo… E provavelmente, nem Mungo e muito menos a caixa, Anderson.  – Eu tinha que concordar, que quando o Cabelinho não tava drogado ele era um chato do caralho.

-É… – Eu disse, tentando matar o assunto.  Se ele não queria acreditar em mim, que não acreditasse. Foda-se ele. Mas impelido pelas minhas emoções, evoquei novamente o velho, o guru, a Mara e Serge, que esteve na caixa.

-Meu… Quer saber mesmo o que eu penso? O guru sua mente organizou a figura dele a posteriori, como ocorre com o famoso dejavú. Ao mesmo tempo, pode ser que você já tivesse visto aquela foto, que ficou guardada no seu inconsciente, e foi resgatada de lá por seu mecanismo cerebral.

-E a Mara? E o seu Alfredo?

– Essas eu não sei. De fato são esses dois que temos de concreto no seu caso. Mas vamos imaginar que duas ou mais pessoas possam fazer uma telepatia. Há muitos estudos, alguns ainda em curso para a validação da telepatia. E se três pessoas em coma conseguem de uma forma ainda desconhecida da ciência estabelecer uma comunicação? Sonham o mesmo sonho? Pode ser um caso único no mundo…

-E o professor Serge?

-Cara eu acho que esse velho lá do instituto de Yôga é só um charlatão barato que inventou um caô para te tirar dinheiro. Cedo ou tarde, ele vai aparecer com uma proposta de expansão da sua consciência… Algo assim, que vai te tirar dinheiro. Veja, ele vive disso, meu. Esse cara vai dizer que você vai morrer se não se aperfeiçoar, e isso é só um gatilho de urgência para fragilizar e te obrigar a pagar o que ele pede. Fala sério, é papo de vendedor de carro, meu. Aposto que se você quiser comprar um carro hoje e não fechar negócio, o vendedor vai aparecer amanhã dizendo que tem um outro interessado, e tal. Isso é pra apressar a tomada de decisão. Dizer que você vai morrer é a mesma coisa, só que mais dramático. E aí, olhe para você, todo impressionado, feito um legítimo apatetado. O francês deve estar rindo de você até agora, seu merda.

-Hummm. – Faz sentido.

-Não me leve a mal. Amigo tem que falar a verdade, né? Seu merda!

-É! Seu bosta.  Mas… O que te fez ligar pra cá? Você nunca liga.

-Bom, eu estive aqui com a garota, a tal bruxa. Por mais que eu não leve essa porra a sério, tenho que respeitar seu sistema de crenças. E suas ideias abiloladas. Além do mais, ela é a maior gostosa…

-E aí? Marcou?

-Marquei. Vamos encontrar com ela lá no Bistrô. De lá a gente deve esticar pra casa dela, onde ela vai, como ela mesmo disse, “examinar você”. Entendido?

-Examinar?

-É, porra. Examinar, pode ser do tipo médico, ou pode ser do tipo médico-de-filme-pornô. Então, coloca uma cueca nova, tá, Zé Mané?

-Ah, ok. Entendi.

-Estou animadão… Vai que rola um boquete, né? Tipo…

-Ok. Ok! Esse telefone é da firma! Só lembrando!

-Ah, ok. Me liguei já. Então é isso. No bistrô as nove.

-Então valeu, seu merda.

-Não esquece… Cuequinha nova!  – Ele disse, rindo.

Desliguei o telefone com um sorriso babaca no rosto. O Cabelinho era um cara muito maluco, mas de vez em quando baixava nele esse Freud saído sabe se lá de onde, e tudo fazia um estranho sentido, e geralmente quando isso acontecia, eu me sentia o maior babaca do planeta. Ele era muito inteligente, e para ele, o mundo era bem boçal. Talvez isso explicasse porque ele vivia se anestesiando, enchendo a cara e tentando comer o maior numero de mulheres que podia, sem no entanto, conseguir. Elas deviam achar ele maluco demais, “cabeça” demais, ou então iam atrás de uma imagem e descobriam que por baixo da cobertura de um doidão estava um intelectualóide de carteirinha. Aí elas corriam.

Naquele dia, trabalhei com afinco, tentando eliminar as pendências que se acumulavam na minha mesa.

Em um certo momento do dia, alguém me deu um pescotapa. Você sabe o quanto dói um pescotapa quando se está de torcicolo? Doeu, mas a dor não foi nada comparado a raiva,  pois quando olhei, vi o Marco Aurélio sorrindo, encostado na mesa.

-E aí? Belê? – Ele disse, em um tom alto. Vi que algumas pessoas olharam para trás. Entendi de cara a jogada. Ele sabia que eu o havia reconhecido no Puma que me jogou a lama, e esperava que eu desse uma de otário, desse escândalo, desse um murro na cara dele, na frente de todo mundo. Seria perfeito para seu plano de me desgraçar ir em frente. Eu acabaria demitido por justa-causa. Como aquele Marco Aurélio era filho da puta… Poucas vezes vi traíra mais graúda.

-Tudo bom, Marcão! – Eu respondi, também em um tom mais alto. As pessoas se entreolharam e voltaram ao trabalho. Fiz o jogo dele. Banquei o amigão.

-Que ótimo. Cuidado com a chuva, hein Anderson? – Ele disse, sorrindo. Então, jogou um envelope na minha mesa. Era meu último artigo. Ele simplesmente tinha pego, lido, e então cortou 90% do conteúdo. Em caneta vermelha, escreveu diversas críticas nas laterais. Não obstante, tinha mostrado ao chefe da redação, que se limitou a escrever um CUMPRA-SE em letras garrafais de pilot preto no fim. – Enquanto eu lia, em silêncio, ele batucou na mesa e disse: – Eu sei que você pode fazer melhor. É só se esforçar um pouco mais. Ok, garotão? – E saiu. Nossa,  que ódio que me deu. Meu coração parecia que ia parar de raiva.

Precisei sair, beber uma água, um café, outra água, comi uns biscoitos e fui até a pracinha, em frente ao prédio para espairecer.

Durante toda a hora do almoço, fiquei no banco de cimento da pracinha repetindo o mantra:  – Marco Aurélio filho da puta… Marco Aurélio filho da puta…

O resto do dia, para minha felicidade, transcorreu sem maiores problemas, porque o Marco Aurélio resolveu emendar o fim de semana e saiu mais cedo.  Reescrevi o artigo, engolindo meu orgulho sem tempero. Voltei para casa mais cedo, pois havia chegado cedo e tinha créditos no banco de horas pela primeira vez no mês. A dor no pescoço estava melhorando.

Tomei um banho, vesti minha “cuequinha mel”. A cuequinha mel tinha este nome porque era a minha “cueca da sorte”. Eu pegava altas gatas sempre que saía com ela. Botei uma roupa nem muito tiozinho e nem muito garotão. Uma parada despojada com classe. Camisão com mangas dobradas sobre camiseta branca. Cinto de couro, calça da Wrangler. Meti umas gotas do meu “ímã de mulher”, o Pour Homme, da Azzaro. O Azzaro era quase uma garantia de enfeitiçar a mulherada. Todo mundo queria aquele perfume, e o meu era um legítimo, trazido de Nova York pela Duda, uma amiga minha que trabalhava de correspondente internacional lá no Jornal do Brasil, no Rio.

Dei uma arrumada no cabelo. Meu olho já tinha desinchado um pouco, e ainda estava roxo, mas felizmente era noite e eu esperava que a bruxa não desse muita atenção a um olho preto de lutador de boxe.

Cheguei meio atrasado no Bistrô por conta do taxi, que só passava lotado. Quando entrei, o bistrô estava bem cheio, mas felizmente o Cabelinho tinha tudo sob controle. Ele estendeu sua mão comprida e magra lá no fundo, perto da parede de pedra. Vi que ele tinha guardado a mesa, e elas já estavam lá. Ao chegar, me deparei com duas gatas estonteantes sentadas à mesa com ele.  Após a sessão de apresentações e às perguntas de sempre sobre o meu olho roxo… Me sentei diante da tal “bruxa”. O nome dela era Ana Paula. Eu esperava “Morgana”, ou algo assim, mas Ana Paula tava bom.

Ela era uma moça não muito alta. Devia ter um metro e sessenta, um e sessenta e cinco, no máximo.  Mas o que não tinha em altura, tinha em “dotes” atrativos. Seus seios eram enormes e fartos, e ela usava um decote preto que era uma obscenidade. Os seios formavam quase que uma “bunda” abaixo do colo dela. Os olhos eram muito pintados, escuros. E o cabelo era um channel preto, com ar de anos vinte, que me lembrava o da Valentina do Guido Crepax. O cabelo bem curto enfatizava seu pescoço comprido. Ela usava um batom vermelho fortíssimo, tinha belos lábios carnudos que combinavam com as unhas vermelho-sangue. Estava com uma saia de couro preta.

Pedimos umas bebidas lá. Eu quis impressionar e fui de uísque nacional, pois não tinha grana para o importado. Elas pediram uns coquetéis caprichados lá.  Papo vai, papo vem, o cara do som meteu um “Eu nasci há dez mil anos atrás”. Dali começamos a falar do Raul, da Sociedade alternativa, o Tomas Green Morton, o Homem do Rá, e elas puxaram papo de Aleister Crowley, Blavatski,  Maçonaria, de Rosa Cruz, Wicca… Cabelinho só botado pilha… Bancando o ignorantão. Ele usava esses truques para animar a conversa. Nada como uma ignorância teimosa fake para despertar o ódio no interlocutor e esquentar o debate. A moça  contou como se “vestiu de céu” em uma celebração junto ao seu coven… Cabelinho imediatamente explicou que “vestir-se de céu” é ficar peladona.

Eu tava meio que boiando nas paradas, mas me admirava como a tal bruxa era bonita. Então elas foram ao banheiro. Sempre juntas, como as mulheres fazem.

Cabelinho me cutucou. – Aí! Tá com aquela cueca?

-Porra, mas que pergunta mais gay!

-Tá ou não tá, caralho?

-Tô!

-Ah! Eu sabia! Vamos comer hoje, mermão! Hoje nós vamos quebrar tudo! Tu viu que tesãozinho? E os peitões? Ah, meu! Se ela for como me disseram que é, vai rolar “Espanhola” pra nós dois hoje.

-Meu, olha só. Tu pode ficar com a “Espanhola” só pra você, porque, meu… Meu lance é com a Mara.

-Ah, você e essa porra dessa Mara.

-Ou!

-Foi mal, foi mal!

-Respeito, porra.

-Ok! Não tá mais aqui quem falou, calma ou… Seu merda! Ih, alá. Lá vem elas! Olha só as coxas dessa gata, meu!

As moças voltaram. Foi nessa hora que elas pediram mais uma rodada de drinks e uma porção de fritas. Eu fiquei feliz, já que estava bebendo de estômago vazio fazia uns minutos e o uísque nacional cobrava seu preço. A banda tocou uma do Legião, acho que foi “Daniel na cova dos Leões”, mas eu já tava meio alto. Eu ria atôa, e elas estavam contando piadas. Vi olhares suspeitos entre elas e o Cabelinho. Mas eu tava meio chapado. E pra piorar, ainda pedi mais um uísque.  O Cabelinho levantou para mijar, anunciando isso na mesa. Lembro que pensei que eram essas atitudes que faziam ele sistematicamente perder as chances de foder.

Daí eu fiquei na mesa com as duas garotas, e rolou um vácuo. Eu sempre odiei quando rolava vácuo com mulheres. Nisso, passou uma garota indo pro banheiro e esbarrou na Carla, a amiga do Cabelinho, que estava do outro lado da mesa.

-Carlinha? – Ela gritou.

As duas se abraçaram e pareciam não se ver há séculos. Era o aniversário da tal menina lá e a Carla pediu licença pra nós e foi até uma mesa do outro lado do bistrô, que tava lotadaço naquela sexta a noite.

Me vi frente- a-frente com a tal Ana Paula e me senti fuzilado pelos seus olhares penetrantes.

-O cabelinho tá demorando né?

-O que? – Ela perguntou, seja porque o som estava alto ou porque minha pergunta para puxar assunto era tão looser que ela resolveu me dar outra chance.

-Nada, nada. – Sinalizei.

Daí apareceu o garçom, com as fritas e meu uísque. Tomei um golinho e assim que botei o copo na mesa, a tal Ana Paula pegou e bebeu uma bela golada dele.

-Ei! – Eu disse, sorrindo.

-Agora eu sei os seus segredos! – Ela falou com seus profundos olhos negros cravados em mim.

Eu sorri meio sem graça.

A moça acendeu um cigarro de um jeito meio vulgar.

-Vamos lá fora. – Ela disse, de um jeito bem direto, me apontando o cigarro.

-Mas… E a galera? – Perguntei, apontando o banheiro e a outra mesa.

-Não esquenta. A gente volta já. – Ela respondeu, já se levantando. Me agarrou pela mão e me puxou.

-Calmaí. – Eu gritei, tentando ficar acima do som do Legião. Peguei uma grana do bolso e joguei sobre a mesa. Peguei também o copo de uísque e matei. Afinal, era nacional mas meu dinheiro não dava em árvore.

Ela saiu me puxando pela mão no meio da galera. O Bistrô tinha uma microárea onde a galera dançava ao som da bandinha e o DJ entrava no intervalo. Então ficava uma muvuca de gente dançando, falando, fumando… Era um esbarra-esbarra ideal para a pegação. Enquanto andávamos, não pude negar meus instintos e olhei taradamente para a bundinha rebolativa enfiada naquela microssaia de couro preto com meias escuras por baixo, terminando num belo par de provocantes saltos altos.  Eu me lembrava bem desse detalhe, porque dali em diante o uísque bateu firme, porque eu levantei rápido e as batatas fritas nunca puderam me ajudar.

Fui com ela, meio bobo, meio atrapalhado. Eu estava bebaço. Não tinha a prática etílica do Cabelinho. Tinha sido burrice tentar acompanhar a turma dele.

Ela andou comigo, me puxando pelo braço, como os donos fazem com cães arredios. Tudo parecia confuso e em câmera lenta. Saímos do bistrô e ela me encostou numa banca de jornal, com uma certa violência e autoridade. Não disse nada. Mas me tascou um beijão na boca. Eu estava viajando. Meio loucão. Tava tudo rodando, levei um tempo para entender que ela tava me beijando gostoso. Por um segundo pensei que estava beijando a Mara. Então eu abri os olhos e vi as jabuticabas pretas da Ana Paula vidradas nos meus olhos. Ela me largou a boca, mordendo meu lábio inferior provocantemente.  Aí ela riu.

-Tá!  Teu caso é sério mesmo. – Ela disse.

-Hã? – Eu não estava entendendo lhufas. Estava doidão.

-A caixa! Se liga! – Ela disse. Aquilo imediatamente foi como se um botão ligasse em mim. Precisei ficar sóbrio no ato. Eu idiotamente achando que ela só estava tentando me agarrar.

-Tem uma mulher lá, né isso?

-Isso. O nome dela é Mara. Ela está lá ainda… Eu… Eu…

-Eu sei. – Ela disse, piscando o olho. E completou. – O caso não é brincadeira. É sério. Nunca tinha visto um, mas já ouvi falar de um caso similar uma vez.

-Você pode me ajudar?

-Não. – Ela disse, assim, batido. Na lata. De supetão.

-Não? – Agora eu era a personificação da frustração humana.

-Eu não, mas sei quem pode. – Ela disse, pegando um cigarro na pequena bolsa que tinha a tira-colo. Encostou na parede de pedra do Bistrô. Havia uma pequena multidão do lado de fora, curtindo o som e bebendo, esperando vagar mesa lá dentro. A maioria dos caras não tirava os olhos dela. Com toda razão, já que ela era um tesão.

Estávamos ali no meio da galera.  – Está de carro aí? – Ela perguntou.

Envergonhado, eu disse que não tinha carro.

-Tudo bem, vamos no meu.

-Agora?

-Sim, porque a coisa é grave! Temos que ir agora. – Ela disse.

Eu olhei a hora no relógio, eram três e quinze da madrugada.

Concordei e ela saiu, como havia feito antes, me puxando pelo braço como se eu fosse uma criancinha. Chegamos num fusca verde abacate que estava estacionado sobre a calçada, duas ruas atrás da rua do Bistrô.

-Entra aí!  – Ela disse, apontando pra mim o carro.

Entrei. Ela entrou também e pisou fundo. O fusca deu uns estouros, mas pegou e saímos à toda pela madrugada paulistana.

-Estamos indo pra onde?

-Pro interior.

-Interior? – Eu perguntei.

-De Minas.  – Ela disse. Eu quase infartei.

Mas foi a última coisa que me lembro. De alguma forma que ignoro completamente, caí num sono profundo. Talvez seja culpa do uísque. Acordei com uma ressaca maldita, o sol no céu. Ela dirigia o fusca numa estradona reta.

-Bom dia. – Ela disse, sorrindo.

“Meu Deus, como essa mulher é linda!” – Pensei quando olhei pra ela. – Bom dia! – Eu disse, olhando a hora. Seis e meia da matina.

-Estamos quase chegando. -Ela falou. E então, eu vi passar a placa: “Poços de Caldas – 15km”

Estávamos em Minas.

Após mais algum tempo de viagem, ela entrou numas quebradas lá, passamos por umas fazendas, umas estradas de terra que fizeram o fusca sacudir de tudo que foi jeito. Finalmente, quando ela parou o carro, estávamos em frente a uma construção antiga, com janelas azuis, que parecia a sede de uma fazenda. Vi o nome na placa perto do belíssimo jardim. Era um convento.

Ela desceu e pediu que eu esperasse no carro. Eu concordei.

Fiquei vendo aquela mulher estranhamente vestida, totalmente sensual descer no gramado e ir andando, lânguida como uma gata no cio até a porta. Ela bateu e logo depois, surgiu uma freira!

Uma freira, meu!

A freira pareceu espantada ao ver aquela mulher vestida numa microssaia de couro, com meias escuras e um top cavado que quase deixava os seios dela caírem do decote.  Ela falou alguma coisa no ouvido da freira, então apontou para mim no carro. Daí ficaram falando um tempo. Então ela entrou. A porta do convento se fechou e eu fiquei ali, como sempre, feito um pastel, sem entender nada.

Passaram-se vários minutos. Eu tava morrendo de dor de cabeça. Uma sede danada. Vi no espelho do retrovisor que estava com o olho bem melhor. Desci do fusquinha e me estiquei. O ar gelado do campo com cheiro tão puro me invadiu. Me lembrei de minha juventude em Portugal. Eu sentia o cheiro do ar puro, um cheiro frio e cortante, que invadia meus pulões quando eu ia para a escola, de manhã bem cedo.

Então, um ruído de madeira raspando cortou minha nostalgia ao meio. Olhei para trás e ela estava na porta, fazia sinal para que eu fosse lá. Caminhei com o sol já forte sobre os ombros até a entrada do convento.

-Opa!

-Olha, Anderson. Você tem que ver uma pessoa. Mas eu não posso ir lá, pois ela não pode me ver. Eu já desenrolei tudo e elas vão te levar. Eu ficarei esperando. Seja o que for que ela te falar, não me conte, ouviu? Não me conte.

-Tá.

-Escuta. É sério! Não me conte, jure!

-Eu juro. – Eu disse, já sentindo um certo medinho do que estaria por vir.

Uma freira fez sinal para que eu a seguisse. Eu fui, deixando à porta a Ana Paula. Quando a porta se fechou numa batida, tudo ficou mais escuro. A pouca luz que entrava vinha das antigas janelas pintadas de azul, onde cortinas pesadas escuras deixavam passar a pouca luz, que era filtrada em cortinas finas de crochê, com motivos florais que estavam na parte interna.

Fui seguindo a freira, que parou, olhou para mim e fez um gesto de silêncio. Eu concordei com a cabeça. Não disse nada. Era um silêncio sepulcral e o lugar tinha um cheiro estranho. Um cheiro conhecido, mas estranho. Era um cheiro de mofo, de poeira… Então percebi que era o mesmo cheiro da caixa.

Segui a freira que caminhou, passando por um terraço onde o sol entrava e subimos umas escadas de madeira. Só se ouvia o som das passadas das freiras pelos corredores de madeira de lei. Chegamos a um portão de madeira. Ela bateu e o portão se abriu. Duas freiras fecharam o portão após passarmos. Andamos por um enorme corredor frio e escuro, iluminado por lâmpadas que pareciam muito velhas pois tinha uma camada de fuligem preta depositadas sobre elas. Passamos por mais uma porta, no fim do corredor, que dava acesso a uma antiga escada em caracol. A escada estalava toda a cada passo. Tive medo daquela merda desabar. Ali subimos mais um lance e fomos até o fim do corredor. Nesse andar não havia nada, apenas janelões fechados. Era escuro. A luz que tinha entrava pelas frestas. Ela abriu a única porta que tinha, bem na nossa frente e após virarmos, um novo corredor. Andamos, andamos em silêncio, até que chegamos a uma porta escura, toda trabalhada. Era uma linda escultura antiga com almofadões de madeira entalhados cuidadosamente, provavelmente por escravos. Estimei que a porta tivesse mais de cem anos.

Ela apontou a porta, bateu. Fez sinal para que eu ficasse e saiu, meio apressada. No corredor, ainda olhou para trás duas vezes, talvez para se certificar que eu estava lá. Então fechou a porta atrás de si. E eu fiquei sozinho dentro do convento.  Era tão silencioso quanto a caixa. Ouvi os passos da freira descendo a escada em caracol. Aí sumiu o som e eu estava ali, novamente na escuridão silenciosa, com cheiro de poeira.

Ouvi passos vindo na direção da porta. Senti um absoluto cagaço crescer dentro de mim.

Houve um estalo e a porta rangeu lentamente, quase que um choro, como a roda do carro de boi. Estava tudo escuro ali dentro. Então vi aparecer uma coisa que congelou meu sangue de pavor.

CONTINUA

 

 

7 comentários em “A caixa – Parte 21”

  1. Ansiosa pela parte 21. Seria o Mungo quem ou o que apareceu na porta? Suspense total… Putz, faz tempo que não me ligava numa historia assim como me liguei nessa!!

  2. Como sempre além de SENSACIONAL,está muito imaginativo. E a “riqueza de detalhes”…(escada em parafuso, porta de cem anos…lâmpadas escurecidas pela fuligem, cheiro de mofo…kkk) do convento também está SENSACIONAL. Parabéns, mais uma vez! Aguardamos anciosos os proximos episódios!

  3. Cara, é mesmo Gump! Tô gostando mto desta história. E pára realmente nos pontos mais emocionantes, dando aquele suspense, aquela vontade de ver a próxima parte…

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