A caixa – Parte 18

-Mas, mas o que o senhor quer dizer com isso de que eu vou morrer? – Perguntei, estarrecido. Serge parecia completamente convicto do que ele dizia.
O velho francês deu uma golada na bebida fumegante, antes de limpar a garganta.

-Anderson, você não é o único que já esteve na caixa. A maioria das pessoas que vão para lá nunca mais retornam. Os poucos que conseguem encontrar o caminho de volta, retornam sem memórias do que passaram na caixa.
-Então, o senhor sabe? -Questionei surpreso.
-Sei, mas são muito poucos os que sabem.
-E o Sadduh?
-O nome dele é é Paddresh Vassal. Ele está em transe, sem comer nem falar há quase duas décadas.
-Mas… Eu falei com ele.
-Eu sei, você disse no telefone. De alguma forma, você se conectou com Vassal do outro lado, na caixa.
-Mas, professor Serge, e as pessoas que estiveram comigo na caixa? Eu deixei Mara lá.
-Há poucas esperanças para ela, Anderson. – Ele disse, levantando-se.
Serge levantou-se em, silêncio da poltrona e andou até a estante de livros, onde se encostou, perto de uma vela. Com ela acendeu um incenso. Eu não tirava os olhos do homem, que tinha cerca de setenta anos, cabelos compridos presos num rabo de cavalo e barba branca. Ele era bem forte para a idade que tinha, e vestia uma bata branca de mangas compridas. Eu não sabia o que dizer, já que tudo parceia muito confuso. Foi Serge que interrompeu meus pensamentos.
-Por acaso o seu nariz já sangrou?
-Já… Hoje.
-Resta pouco tempo, Anderson. A Caixa quer que você volte para ela, e está tentando te arrastar para lá novamente.
-A caixa? Quer dizer que a caixa tem vontade própria?
-Eu sei lá? – Ele falou, com tanta franqueza que chegava a parecer grosseria. Deu mais uma golada no café e então continuou. -O que eu sei é que pessoas que já saíram da caixa dessa maneira começaram a gradualmente ter episódios de retorno à ela. Os episódios são assim, começam e vão se tornando cada vez mais comuns, a pessoa sangra pelo nariz, e gradualmente, isso produz hemorragia no lobo frontal a morte se dá por hemorragia cerebral.
-Mas… Eu, eu não posso voltar pra lá.
-Não há outra solução, Anderson. Quer dizer, haver, até há. Um tiro na cabeça, por exemplo. Se você morrer nesta realidade não irá para a caixa.
-Essa não parece uma solução muito aprazível. – Eu disse tentando ser engraçado, como geralmente eu fazia quando estava realmente nervoso.
-Do mesmo modo, ao morrer na caixa, sua existência aqui chega ao fim.
-Tem que ter uma saída, professor. E se eu procurar o indiano? Ele entrou na caixa de algum jeito.
-Impossível. Paddresh como eu te disse, está “fora do ar” há décadas. E mesmo que na remota hipótese dele despertar, o que te leva a crer que conseguiria em pouco tempo aprender todo o conhecimento necessário para realizar o tipo de imersão profunda que ele realiza? Ele passou a vida inteira estudando para fazer isso.
-Mas não tem solução senão voltar para a caixa e esperar a morte?
-Não há o que fazer, Anderson. Sinto muito.
-Como o senhor pode ter tanta certeza disso, professor?
-Eu estive lá. – Ele respondeu, secamente.

-O que? – Eu estava atônito. -Como foi isso, professor?
-Foi nos anos cinquenta. -Ele disse, voltando para a poltrona. – Em 1954 eu trabalhava como oficial militar na Argélia. Era um período conturbado, onde o presidente Ahmed Ben Bella liderava a tentativa de independência. Eu participei do atentado contra ele em Trípoli e na ocasião, acabei sendo baleado. Veja. – Disse ele, levantando a bata. Vi uma horrível cicatriz de queimadura em seu peito.
-Nossa!
-Passei diversos dias em coma. Eu estive na caixa. -Ele disse, segurando a caneca com as duas mãos.
-Mas como você saiu de lá?
-Eu saí da caixa umas oito vezes ao todo. Na primeira vez que eu saí, estava praticamente morto pela fome e a desidratação, quando eu também vi o poste. E sob ele havia uma mulher segurando um guarda-chuva.
-Uma mulher?
-Sim, uma mulher que estava vestindo um manto branco. Eu pensei que fosse a Virgem Maria. Ela não falou comigo, apenas apontou o poste. Eu me agarrei nele e acordei queimado no hospital de campanha, em Argel.
-Cruzes.
-Foi durante o enorme sofrimento que passei no leito do hospital de campanha que consegui pela primeira vez dominar minha própria mente, ao ponto de controlá-la e desligar a dor. Desde então, me dediquei ao estudo da Yoga e do controle da mente sobre o corpo, e também sobre a matéria. Mas isso é uma outra história.
-Então, depois o senhor voltou para a caixa.
-Sim, eu voltei. Logo que eu saí da caixa pela primeira vez, achei que estava livre daquele lugar. Passou quase um ano sem que eu me lembrasse da caixa, mas então começaram as crises. Eu perdia os sentidos e ficava horas desacordado. Enquanto estava desmaiado, eu voltava para a caixa. Em uma dessas vezes que retornei à caixa, conheci Manfred. Aquele sujeito era um mergulhador americano. Ele estava preso na caixa, do lado de fora da minha. Eu disse a Manfred que havia saído de lá, e contei a ele sobre a mulher de branco que aparecia sob o poste, segurando um guarda-chuva. Meus episódios de desmaio e retorno para a caixa eram cada vez mais comuns.
-E o que aconteceu com ele?
-Com Manfred?
-É.
-Quando estive com ele na caixa, eu dormi e acordei fora dela. Durante anos pensei que Manfred tivesse morrido, mas então, quase cinco anos depois, descobri que ele estava vivo. Manfred trabalhava para a Marinha dos EUA. Levei muito tempo pesquisando apara encontrá-lo. Aquilo havia se tornado uma obsessão para mim. Então, quando descobri que o tal Manfred mergulhador estava vivo, foi uma grande surpresa. Nos encontramos e ficamos amigos também fora da caixa.
-E como o Manfred saiu?
-É uma história estranha. – Disse Serge, cruzando a perna. – O Manfred me disse que um dia surgiu um homem na caixa dele.

Era um senhor bem distinto, que tinha um guarda-chuva, e se chamava Leonard. O tal do Leonard, possuía uma espécie de faca mágica, que usou para cortar o fundo da caixa. Eles fizeram um buraco e saíram. Manfred me disse que caiu numa escuridão brutal, sentiu muito frio e então bateu na água junto com o tal Leonard. Era um lago dentro de uma caverna. Eles Nadaram na escuridão até uma margem de areia grossa. Leonard trazia consigo um tipo de cristal ou coisa assim, que se iluminou quando ele falou algo numa língua estranha, e usaram aquela luz para achar o caminho e sair de uma enorme caverna. Ao sair, estavam numa floresta da Indonésia. Manfred disse que o tal Leonard disse a ele para seguir reto, apontando-lhe uma direção. Após dois dias de caminhada ele chegou a um pequeno vilarejo onde conseguiu ajuda. Ele ainda disse que foi complicado explicar às autoridades como um mergulhador desaparece durante o mergulho na base do Havaí e surge na Indonésia.
-E o Leonard?
-Manfred disse que ele ficou na floresta, sentado num tronco oco de árvore, como se esperasse o trem. – Ele disse, sorrindo com a xícara na mão. Comecei a me perguntar se o francês não estava ruim das ideias. A idade poderia tê-lo deixado senil. Mas então, acho que dei alguma bandeira ao pensar nisso, pois o professor notou minha expressão de descrédito e emendou:
-Claro que eu não acreditei muito no que ele disse, mas que motivos teria Manfred para mentir para mim? Estivemos juntos naquele lugar estranho.
-Tá, tudo bem. Espere, professor Serge. O senhor me disse que quem sai da caixa do jeito que eu saí, sofre reações, e se não voltar, morre.
-Exato.
-E como o senhor está aqui? Como o senhor não morreu?
-Ah, sim. Eu já estava esquecendo. Então, Anderson, após um tempo sofrendo idas e voltas à caixa, comecei a ter os sintomas de sangramento… Você sabe.
-Sei.
-Eu então telefonei para o Manfred. E ele tinha os mesmos sintomas.
-E? – Perguntei impaciente. O Francês era cheio de firulas para ir direto ao assunto.
-Bom, um dia, Manfred morreu. Hemorragia cerebral. Era o mesmo diagnóstico que eu tinha. Estranhamente, eu havia saído da caixa primeiro que ele, mas ele morreu primeiro. Meu quadro foi se agravando. Então, eu estava internado, praticamente desenganado. Havia tomado todo tipo de medicação existente, e nada havia a fazer. Fiz meu testamento, e me preparei para a morte.
Mas então…
-Então o que, professor?
-Então um dia apareceu um senhor no meu quarto. Eu estava cochilando e quando acordei ele já estava lá, parado, perto da janela, olhando para mim. Não sei de onde ele veio. Ele não disse nada. Ele se aproximou até a beira da minha cama, abaixou-se um pouco e disse uma coisa no meu ouvido. Era uma palavra que não entendi nada.
Imediatamente senti uma dor forte na cabeça. Um som agudo apitou dentro dos meus ouvidos, e senti o coração disparar. Eu fechei os olhos na tremedeira e quando dei por mim, estava sentado, novamente dentro da caixa. Mas agora era diferente.
Havia uma porta, por onde uma forte luz branca vazava, desenhando seu contorno. Levantei-me e fui até ela. A porta era antiga, pesada de carvalho. Abri a porta e só vi uma luz branca vindo na minha direção. Não dava para ver nada lá fora, somente uma luz muito potente. Como eu já conhecia a caixa, estiquei a perna e saí.
Quando eu saí, abri os olhos e lá estava eu, na mesma cama de hospital, no mesmo quarto. O homem não estava mais lá.
Eu até pensei que estivesse sonhando, mas então meus exames que iam de mal a pior, mudaram radicalmente. Os medicos se espantaram e todos pensaram que foi um milagre. No entanto, eu sei que foi o homem misterioso que me libertou da maldição da caixa.
-Mas quem era o homem?
-Não sei. Nunca mais o vi. Ele sumiu, é como se nunca tivesse estado lá.
-E o que foi que ele falou?
-Eu… Eu não sei. Desculpe. – Ele disse. aquilo foi muito frustrante pra mim. EU havia finalmente conhecido outro sobrevivente da caixa, e descobri que estava condenado à morte.

CONTINUA

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11 comentários em “A caixa – Parte 18”

    • Esse capítulo me decepcionou, justamente pelo Leonard ter aparecido e praticamente enterrado com a história.
      Pena. Mas tava muito bom até aqui, muito mesmo!

  1. Muito bom. A história nunca esteve melhor até aqui.

    E essa parte em especial me fez querer saber mais sobre o Leonard, resultado: Estou lendo A Busca de Kuran, esta sensacional. Pelo menos tenho algo pra ler enquanto não sai o próximo episodio.

  2. Tá ficando interessante à medida que a gente vai conseguindo compreeder de que forma que o “Anderson” vai poder se livrar da maldição da caixa. É claro que não vai ser tão moleza assim. tenho certeza que muita coisa ainda vai rolar até desenrrolar (entendeu?…rolar..desemrr…rsrs) esse “novelo”( entendeu?…novelo…novela..rsrs) Desculpe, estou de bom humor hoje!
    Mas que não demore muito, e não vai se esquecer, heim? No final vai ter que o “fincão” com MARA!

  3. Fiquei muito contente de ver A Caixa esbarrando na saga de O Caçador. Excelente o modo como você amarrou as duas sagas, soube que você um dia iria fazer por ter dito que “o mundo de ‘O Caçador’ é muito grande pra uma história só”. Adorei, muito bom mesmo.

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