A caixa – Parte 11

-Deita, deita! – Eu disse pra ela.

Mara tentou em vão me impedir de empurrá-la para baixo, mas as pisadas vinham aumentando e ela finalmente cedeu.
Eu fiquei em pé. Não me restava escolha senão proteger Mara da fúria do Mungo, usando meu corpo como escudo. Fiquei parado e esperei o impacto.

Dito e feito. O Mungo me deu uma pancada violentíssima. Voei e acertei a parede. Senti algo dentro de mim fazer um “clack” quando colidi com a chapa de aço. Eu caí mole como um pedaço de trapo sujo. Ainda ouvi os gritos de Mara. Mas eu não conseguia me mover. Estava muito machucado.
-Maraaa?- Eu gritei no chão. Respirar doía terrivelmente.

Ouvi os gritos de Mara gradualmente se distanciando. O Mungo havia agarrado Mara e estava carregando ela para longe.
Fiz um esforço sobre-humano para tentar me erguer, mas a dor que eu sentia era tão grande que concluí que devia ter quebrado uma costela, clavícula ou qualquer porra dessa.

Os sons dos gritos foram lentamente se reduzindo, eu mal conseguia levantar minha cabeça.

“Então é assim que acaba.” – Pensei. Meu rosto roçava na chapa úmida e fria. Minhas esperanças de sobrevivência estavam se esvaindo velozmente, mas eu não conseguia pensar em outra coisa senão para onde o Mungo havia levado a Mara.

Agora só me restava o silêncio de minha respiração irregular. Eu sentia o esforço que meu coração fazia para bater. Talvez fosse melhor que ele parasse. Meus motivos para lutar contra o meu destino não eram os melhores. Eu havia fracassado em proteger a Mara. Percebi e desejei do fundo do meu ser que eu estivesse ficado louco, que estivesse numa cela de alguma instituição psiquiátrica, deitado numa maca enferrujada, atado com correias de couro na escuridão. Vivenciando meus delírios.
Com os olhos cerrados, tentei imaginar a cama e o colchãozinho duro sob mim. As correias de contenção em meus braços. O encardido lençol jogado sobre meu corpo. Talvez, se eu concentrasse totalmente, iria acordar no sanatório, despertando de um episódio de loucura produzido pelo stress de terminar meu relacionamento com aquela maluca da Jane.

Eu esperei no escuro. O peito ardendo, me obrigava a respirar curtinho, o que me cansava bastante.

Mas nada aconteceu. Não abri os olhos e vi um ventilador quebrado com teias de aranha penduradas. Nem paredes imundas, macas ou coisas do tipo. Eu só via a escuridão, a chapa fria sob meu rosto empoçava as lagrimas que desciam no canto dos meus olhos. O meu peito dolorido, o silêncio parecia definitivo, como uma sepultura. Aquilo era pior que a morte. Eu ão sabia o que era a morte, mas imaginava que pelo menos ela não envolveria tanto sofrimento. Acabava? A gente acordava o céu, eu veria anjos ou diabos? Eu veria o túnel de luz dos filmes? Não sei, mas se acabasse se simplesmente a dor passasse, a angústia daquele cárcere bizarro, o medo daquela criatura monstruosa, vinda sabe-se de onde… A falta de comida, de água, a imundice, o cansaço, e a dor… A dor desgraçada que nunca passava, minha companheira de todas as horas. Se a morte fizesse a dor passar ela seria uma nova companhia, e muito bem vinda por sinal.

Esparramado no chão, desgraçadamente esperando a “angústia de quem vive”, conferi a minha mente em busca de algum momento mais trágico que aquele. Não achei. Eu não era nem nunca fui um sujeito de abandonar as esperanças. Se havia alguma qualidade no meu ser era a resiliência. As imagens do jardim de infância surgiram na minha cabeça. Eu me lembrava com alguma clareza, dos dias que passei construindo casinhas. Eu empilhava os blocos de toquinhos de madeira, tentando fazer prédios. Mas havia um menino lá, um tal de Romildo, que sempre destruía os meus prédios. Eu passava horas tentando empilhar os blocos, querendo atingir o céu… Mas bastava Romildo perceber que eu estava atingindo meu objetivo que ele jogava o que quer que estivesse ao alcance de sua mão, para desabar minha construção. Eu tinha um ímpeto de estrangular aquele moleque, mas algo me impedia. Eu apenas recomeçava…

Em minha mente desfilaram não sei quantas recordações, muitas tristes, de momentos que vivi que gostaria que nunca tivessem acontecido. Certa vez, o Cássio, o novo chefe de redação, que não estava nem um mês no cargo, me chamou para uma conversa. Notei seu modo grave de me chamar à sala dele de imediato, mas fiz como que não tivesse percebido. Foi um dos piores dias da minha vida. Eu não gostava daquele cara, achava-o um babaca, que havia entrado na firma apenas por indicação de amigos prestigiosos. Era um poser, bancava saber mais do que realmente sabia.
A conversa, que deveria ser reservada, não foi. Ele chamou também o Marco Aurélio, um claro desafeto meu.

O papo começou num tom grave, quase litúrgico, onde ele me disse que vinha acompanhando meu desempenho, e que estava muito abaixo do que ele esperava que fosse o ideal. Lembro de ver a cara do Marco Aurélio, impávido. Braços cruzados sobre a mesa. Eu quase podia ouvir o eco de suas gargalhadas mentais ao me ver sendo frito em óleo quente ali na frente dele. O Cássio enumerou uma a uma as minhas falhas, me disse que eu precisava evoluir muito. Em seguida, virou-se para o Marco Aurélio e elogiou dois trabalhos dele, que eram plágio de um artigo meu feito dois anos antes. Eu tive ímpeto de falar, mas me contive. Minha garganta dava um nó e o nojo que me revirava o estômago quase me fazia vomitar neles.
Então era aquilo, Marco Aurélio, o calhorda puxa-saco estava sendo agraciado com um “prêmio salarial de incentivo à produtividade” e eu era chamado ali, ao mesmo tempo, para levar uma mijada e ouvir do Cássio, o babaquinha baiano de cavanhaque de cabrito que tinha que me inspirar no sucesso de Marco Aurélio. Eu estaria feliz se o Cassio, aquela bola de merda de cavanhaque e sotaque de animador de trio elétrico me demitisse, mas o que ele fez foi pior. Perguntou ao Marco Aurélio se ele achava que eu merecia “mais uma chance”. Se a coisa estava escrota, ali ela desandou.
Tive que ouvir, em silêncio, Marco Aurélio, o maior filho da puta que o mundo já conheceu, desfiar um rosário de expressões que pareciam saídas de um milk shake de auto-ajuda e filosofia corporativa de botequim, sobre como era importante para mim ter um espaço em que eu pudesse finalmente “desabrochar” e mostrar o “meu valor oculto”.
Minhas vontades se dividiam em duas: Atingir Marco Aurélio com um murro bem colocado, no meio da cara dele, de modo que o nariz quebrasse e “entrasse” cara adentro, e cuspir na cara de Cássio, jogando em seguida a verdade nua e crua de que ele havia entrado ali por indicação de um diretor que estava comendo a irmã vadia dele. Eu teria prazer em dizer a ele que ele era um merda, um inseto, que se considera muito, mas que não é nem 10% do que pensava que era. Eu diria a ele que tudo que ele entende de gerenciamento de equipe era um vergonhoso amontoado de bosta, que ele era um lixo humano e que o melhor que ele poderia fazer pelo mundo era se jogar da janela, de cabeça.

Mas eu não fiz nada disso.

Eu fiquei quieto, ouvindo a longa explicação do Marco Aurélio, que tal qual um imperador romano, colocou seu polegar virado para cima, poupando meu pescoço. Levantei, agradeci e engolindo o sapo espinhoso mais gordo do mundo, prometi que iria me empenhar mais e que me sentia motivado ao ver que Marco Aurélio estava indo bem.
Apertei a mão de Cássio, enquanto vi nos olhos dele, uma ponta de insatisfação, pois ele esperava que Marco Aurélio me queimasse, para que pudesse me despedir com uma razão justificável, amparado na decisão do outro. O que Cássio, o baiano babaca de cavanhaque escroto não imaginava é que Marco Aurélio era tão sacana, um velhaco tão encardido, que optaria por me manter no emprego apenas e tão somente para sentir o prazer maligno de saber do meu ódio por ele chegar num nível inacreditável.

Então, ao longo dos meses, trabalhei com afinco. Eu sabia que um bom trabalho seria a resposta que eu precisaria dar à aquelas duas hienas malditas. Eu poderia ter optado pelo caminho mais fácil de pedir a demissão, de preferência causando um duplo nocaute, mas havia usado toda minha força interna para conter meu ímpeto agressivo. Não duvido que era aquilo que Marco Aurélio secretamente desejava: Minha demissão por justa causa.

Tive uma penca de pequenas lembranças onde eu tinha tudo para entregar os pontos, mas nunca me rendi. Eu ia até o final, eu começava tudo de novo, e de novo, e de novo. Era “o senhor incansável”. E agora estava ali, sozinho novamente. O “senhor incansável” estava jogando a toalha, finalmente desistindo do combate. Assumindo a completa incapacidade. Que a morte viesse, mas que viesse logo. Eu não estava suportando a dor.

…Nem a solidão.

Uma pequena luzinha brilhou na escuridão. Eu não sabia se estava de olhos fechados ou abertos. Descobri que eles estavam fechados quando abri e vi que a luzinha fraca que eu via era o poste. Sua luminosidade difusa estava atravessando minhas pálpebras entreabertas.

Lá estava o poste novamente. No mesmo lugar de antes. Era longe. A cena se repetia.

-Estou sonhando de novo? – Me perguntei.

Fiquei ali. Eu não tinha forças para chegar no poste. Esperei que ele se apagasse e fosse embora. Mas o poste não se apagou. A luz dele, na verdade, me pareceu ficar um pouco mais forte.
Eu me esforcei muito para levantar um pouco a cabeça. Lá estava o poste. Lindo… Como um poste de praça, antiquado e belo. Vi na penumbra a indefectível forma do guarda-chuva.
O guru estava lá.

Contrariando todas as células do meu corpo que me diziam para ficar parado, sem me mexer, eu comecei lentamente a me arrastar. No início foi quase impossível, porque eu tinha esfriado. As dores quando eu respirava eram cada vez maiores.
Eu me arrastei pelo chão, e o poste parecia cada vez mais longe. Enquanto usava as pernas para me impulsionar, pensei se a caixa não estava brincando comigo pela última vez. Eu estava disposto a descobrir, mas dificilmente haveria uma próxima.

O sacrifício foi hercúleo.

Eu ja estava sob o poste, a luz me iluminando. Vi os meus braços sujos do sangue seco. O sangue escorrido nos meus braços tinha secado e descascado num belo craquelê. Notei minha magreza.
Me arrastei até junto do guru.

O guru estava sentado, em posição de lótus. Impassível.

Se eu não visse seu peito se movendo, juraria que ele era um boneco. Sua barba preta se ligava ao seu cabelo. Aquele fraldão ridículo acentuava sua magreza. E o guarda-chuva… Eu nunca entendi o guarda-chuva.

-Socorro. – Eu gemi do chão.

O Guru não disse nada. Parecia uma estátua. Pensei que talvez ele não estivesse podendo me ouvir. Da última vez que nos encontramos, o Guru havia me olhado mas não tinha me visto. Talvez ele fosse um fantasma. Mas pra quem quase foi morto por um monstro, um fantasma de sujeito de fralda com guarda-chuva, não parecia muito assustador.
Precisei persistir.

-Socorro, moço… – Eu gemi novamente.

Ele não se moveu por uns dez segundos. Então, vi, que ele moveu a cabeça ligeiramente para cima e para baixo.

-Está me ouvindo?

Ele repetiu o gesto, mas não falou. Aquilo era deveras assustador.

-Eu quero sair daqui. – Eu disse. – Voltar pra minha casa. Me tira daqui! -Eu implorei chorando, confesso.

O Guru balbuciava baixinho alguma coisa. Era tão baixo que nem no completo silêncio da caixa que quase me permitia ouvir meu coração batendo, eu podia entender. Eu resolvi tetar novamente. Implorar pela ajuda dele. Talvez o Guru fosse o mestre da caixa, o dono daquela maldita prisão. Mas não consegui.

O Guru falou, com os olhos fechados:

– Ó Vós quem me dirige a palavra… Tens nome? – O guru parecia muito solene. Eu precisava explicar quem eu era.
– Meu nome é Anderson. – Eu disse.
– O nome é Anderson… – O Guru disse. Ele ficou parado, quieto em posição catatônica durante algum tempo. Eu achei que ele tinha, sei lá, travado. Mas então, eu percebi que ele estava na verdade falando para alguém que eu não podia ver.
– Você quer voltar? – Ele me perguntou.
– Quero. – Eu disse.
– Que… Lugar é este? – Ele perguntou. O Guru esteve o tempo todo de olhos fechados. Ele falava pausadamente, como se não pudesse ou não quisesse se empolgar.
– Eu não sei! Estou preso aqui. – Eu disse.
– É… – Ele disse um monte de coisa que eu não entendi nada e então retomou – Tem que seguir na direção da luz.

Eu estava puto. Não conseguia nem levantar meu corpo do chão gélido da caixa. O Guru repetindo coisas sobre seguir na direção da luz… Nada mais clichê.

-Que luz, porra? Eu estou preso numa caixa! Tem um bicho monstruoso aqui… Me tira daqui, moço, pelo amor de Deus!

O Guru parecia nem me ouvir. Ele estava parado, segurando aquele guarda-chuva ridículo. Não me deu resposta. Até que eu pensei em ir embora. Mas aí ele falou. Daquele jeito lerdo.

-Ajuda… Você precisa ajuda, Anderson.
-Claro porra! Preciso! Me ajuda!
-A luz… A Luz… -O guru disse. Eu não entendia porra nenhuma que ele estava dizendo. Aí o poste piscou. Estava começando a falhar.
Então, uma coisa estranha aconteceu. Eu senti uma pequena vibração no chão. Ela era ritmada. A vibração começou a aumentar.

“Fudeu! Lá vem o Mungo” – Pensei.

Olhei para o Guru em busca de ajuda, e ele havia sumido.

Só havia o poste, que gradualmente diminuía sua luz. Ela foi ficando fraca.

As pancadas aumentavam. O Mungo estava vindo pra cima. Ouvi o rugido da fera horrenda cada vez mais perto.

Eu usei todo o resto das forças que eu tinha para me arrastar para o poste. O Mungo chegando…

Ali estava o poste, a menos de dez centímetros. Eu podia ver sua pintura em esmalte preto, com pontos de oxidação nos arranhões. Estiquei o braço. Faltavam poucos centímetros para alcançar o poste.

O Mungo estava já quase em cima de mim. Seu rugido aterrador me provocava pânico.

Eu estiquei a mão, o máximo que eu podia. Queria me agarrar no poste, para que o Mungo não me jogasse longe de novo.

Senti as mãos monstruosas agarrando nas minhas pernas. Ele apertou muito. A força do monstro era como a de um caminhão me esmagando.

Então eu encostei no poste.

Assim que eu o toquei, um clarão disparou na lâmpada do poste. Um brilho branquíssimo, forte e frio. Foi como um curto circuito. Senti um choque poderosíssimo se apossar do meu corpo. Eu estava sendo eletrocutado. Na fração de segundo que durou o brilho e o choque, senti que o Mungo me soltou no ato, e ouvi o grito do Mungo ecoando na caixa.

Então tudo ficou branco.

CONTINUA

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5 comentários em “A caixa – Parte 11”

  1. Ah não, aí já é sacanagem esse “continua” (não posso falar nada, tenho pessoas me cobrando com a minha história). Foi muito rápida essa parte e justo na hora em que aconteceu um evento chave, apareceu um “continua”. Mas eu sei que é assim que se prende a atenção de um leitor e eu estou esperando ansiosamente pela parte 12. Cada vez mais esse conto me surpreende.

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