A cadeira obscura – Parte 7

Renato despertou na cama com o telefone da mesinha tocando.

-Alô? – Ele disse, sem abrir os olhos.

-Bom dia. É uma ligação para o senhor. Só um minuto que vou transferir. – Disse a voz metálica e cheia de sotaque do rapaz da recepção.

-…Bom dia, seu puto. – Disse o Mark em meio aos chiados da ligação.

-Fala Mark. Que horas são, porra?

-Seis e vinte. Os meninos estão chegando. Ligaram do posto aí perto da entrada da cidade. Eu mandei eles irem lá pra vila com o caminhão e esperarem perto da ta praça que você falou, ok?

-Ah, tá. Tudo bem.

-Mexa essa sua bunda gorda e vai lá pegar logo aqueles móveis pra nós. Quanto mais demorar mais caro fica, porque vou precisar hospedar os meninos aí, pagar comida e tudo mais.

-Relaxa. A casa ta quase caindo sozinha. Acho que é entrar, pegar as coisas meter no caminhão. Um peteleco e ta resolvido.

-Bom, então estamos acertados. Eles vão jogar tudo no chão, mas você vai precisar arrumar por aí uma escavadeira e caminhão para limpar o terreno. – Disse Mark.

-Deixa essa parte comigo. Nesse lugar cheio de fazendas, isso vai ser mole.

-Até mais.

-Abraço. – Disse Renato, desligando o telefone. O quarto ainda estava na penumbra com uma luz azulada e fraca entrando por trás da cortina.

Renato ficou pensando um tempo no sonho com a mulher morena do restaurante.

Foi quando levou um susto com uma voz rouca que saiu de dentro do banheiro: – Você tem um cigarro?

Renato saltou da cama e sentou-se na beirada da alcova. Era ela, linda, saindo do banheiro com uma toalha branca enrolada na cintura.

-Eu… Eu acho que tenho ali no bolso da jaqueta. – Disse, apontando a peça pendurada no espaldar da cadeira.

A mulher morena foi até a cadeira e começou a procurar o cigarro. Renato se levantou e abriu a janela. A luz difusa entrou no quarto deixando ver o belo corpo da morena. Ela acabava de acender o cigarro.

-Meu nome é… Renato. Ele disse.

-Tudo bem. – Ela respondeu, com o cigarro entre os lábios, que soou como uma voz quase robótica.

-E não vai me dizer o seu?

-Qual nome você quer?

-Você costuma sempre imitar falas famosas de filmes?

Ela sorriu, sendo pega com a frase de Julia Roberts em “Uma linda mulher”. – Tuchê. Meu nome é Lílian.

-Posso fazer mais uma pergunta?

-Só mais uma. – Ela disse, tragando e expelindo uma nuvem de fumaça branca no ar.

-Como que você sabia que eu estava hospedado aqui?

-Todo mundo da vila sabe. O povo sabe muita coisa. Você acha que uma pessoa chega na vila, aquele lugar esquecido por Deus e o povo não comenta? Sabem muito mais do que você imagina.

-Sério?

Ela balançou a cabeça afirmativamente, mantendo o cigarro entre os dedos. Renato estava confuso e intrigado. Então ele estava sendo vigiado…

-E o que mais dizem de mim na vila?

-Dizem que você invadiu a casa do diabo. E que vai pagar por isso. Ele virá atrás de você… Essas coisas que o povo fala.

-Dizem isso mesmo? Quem sabe que eu fui lá? Como sabem disso?

-Nada acontece naquele lugar sem as pessoas ficarem sabendo.

-E você? Por que veio atrás de mim?

-Tesão.

-Só tesão Lílian?

-Só. – Ela disse, apagando a guimba de cigarro no cinzeiro plástico do hotel Bretas.  – Você não me ligou. Eu vou atrás do que eu quero.

Em seguida, pegou as roupas no chão e começou a vestir-se.

Renato apenas observou a mulher voluptuosa colocando o antiquado vestido de malha, que desenhava seu corpo com perfeição. Ele desceu como uma cortina mágica, deslizando por sua pele clara que contrastava com a cabeleira negra. No pescoço, brilhava o colar metálico com um coraçãozinho cafona. Sua única jóia.

-Vamos tomar um café? – Perguntou ele.

-Não, obrigada. Eu não tomo café.

-Hummm. Tudo bem. – Disse Renato, dando de ombros. Começou a vestir-se também. Notou que a mulher parecia querer ignorá-lo.

-Por que está tão quieta? Não foi legal pra você?

-Foi maravilhoso, como eu sabia que seria. – Disse ela, do jeito seco e direto de sempre.

-Eu queria poder te encontrar novamente e…

-Esquece. – Ela respondeu, cortando Renato.

Ele nunca antes havia se sentido tão usado por uma mulher. Um instrumento para aplacar seu tesão. Estranhamente, aquela era a maneira como ele havia tratado muitas mulheres antes dela. Sentiu-se mal.

-Esquece? Esquece? Você vem aqui toda cheia de fogo e me deixa maluco com uma noite de sexo como eu não tinha há décadas e depois é isso, “esquece”?

-Corta essa. Acabamos aqui. Até porque…

-Até porque o que?

-Até porque você não vai durar muito. Talvez viva ate amanhã ou depois, mas será sorte sua.

-O que quer dizer? Está me ameaçando? – Renato estava ficando com um misto de sentimentos que iam da rejeição à raiva passando pela curiosidade e um pouco de medo.

-É uma constatação. Quem entra naquela casa, uma hora morre. E você está marcado. Seu destino está traçado.

-Você acredita nessas crendices?

-Todos s que entraram naquela casa morreram.

-E o Dodó?

-O Dodó da Fátima tem o corpo fechado. Ele é imune. A Fátima fechou o corpo dele quando ele era menino. Vou nessa. Adeus.  – Ela disse, colocando os braços ao redor do pescoço de Renato e dando-lhe um beijo quente e úmido, com sabor de menta, nicotina e pasta de dente.

A mulher saiu, batendo a porta do quarto atrás de si. Renato ficou lá, sentado na cama, se sentindo usado. E só pensando na parte em que ele “não sobreviveria até o dia seguinte”.

Depois de alguns minutos pensativo, Renato levantou-se, pegou as coisas, colocou no saco plástico da farmácia e desceu para encerrar a conta do hotel.

Renato foi até a padaria, onde tomou um café. Enquanto tomava a xícara de café preto com torradas grossas cheias de manteiga, olhava as pessoas em volta. Estava com a semente da sensação persecutória devidamente plantada nos miolos. O sol estava ficando forte e o dia prometia um calor infernal quando a estrela estivesse à pino.

Por sorte, ao sair da padaria vinha passando um táxi. Renato pediu para ir até a vila.

Minutos depois, ele desembarcava diante da capela branca que encimava a pracinha da Vila. O enorme caminhão baú já estava estacionado do outro lado da praça, perto da entrada da pensão.

No banquinho da pracinha estava Junior, um homem negro enorme, forte como um estivador. Ele tinha uma feição mal encarada, com uma barba densa que lhe conferia um aspecto assustador. Sua cara de mau encimava um corpanzil de quase dois metros de pura massa bruta. Junior era o “faz tudo da loja”. Mark o chamava de “Jack”, que era um apelido gringo para o cara que faz de tudo.

No caminhão, os três filhos de Junior estavam separando o material. Eles eram respectivamente pela ordem de nascimento: Jamil, Jonsen e o mais novo, Jeremias. Enquanto Jamil o mais velho era um sujeito baixinho e gordinho, mais analítico, os dois mais novos eram verdadeiros gigantes. Cada filho de Júnior era com uma mulher diferente, o que gerou filhos bem diferentes entre si. Todos eles trabalhavam com o pai, menos um quarto, chamado Janílson, que morreu anos atrás.  De todos, Jeremias era o mais forte, capaz de se comprara ao massa bruta que era o pai deles. Quase um fisiculturista no físico, Jeremias era também o mais impaciente de todos. Era ele que gritava com o irmão mais velho.

-Pega essa merda direito aí Jamil! – Gritou ele, jogando uma marreta de aço enorme na direção do gordinho.

-Caralho! Quer me matar, porra? Quer me matar me mata de tiro! Morrer de marretada é foda! – Riu Jamil.

Renato foi até o banco da Praça. Apertou a mão de Junior com força.

-E aí, meu amigo?

-Seu Renato! Bom dia! – Disse o gigante, apertando-lhe a mão com sua força quase sobrenatural.

-Então, Junior. O Mark já passou o esquema né?

-Já sim senhor. Os meninos estão ali preparando o caminhão e…  Só um minuto, por favor. – Disse Junior, virando as costas para Renato. – Porra tigrada! Vamos logo com isso aí! Jamil, junta as cordas. Jonsen, pega o barril lá no fundo do caminhão e traz aqui pra praça. Vamos logo, porra! Quem demorar, não almoça!

As pessoas da vila chegaram a correr ara as janelas quando o gigante de ébano começou a berrar com os filhos.

-Bom, seu Renato. Acho que já estamos com tudo no esquema. Quais as ordens?

-Tá vendo aquela casa ali?

-O casarão, né?

-Sim. Vamos entrar, pegar os moveis todos, tudo que seja aproveitável. Você tá acostumado. Sabe o que tem que fazer.

-Sim senhor.

-Mas depois que limparmos o casarão, nós vamos jogar tudo no chão.

-Essa é a parte legal! – Disse Junior sorrindo. – Destruir é com a gente mesmo, seu Renato!

-Tá. Eu sei bem disso. Você trouxe a mochila e a papelada de praxe?

-Sim senhor. Ta na pastinha ali na boleia.

– Ótimo. Bom, só falta eu pegar a assinatura de autorização com o parente do dono do casarão. Vão preparando as coisas, que eu vou ver essa parte burocrática com ele e já, já dou o sinal verde.

-Sim senhor. – Disse Junior, indo até o caminhão para ajudar os filhos.

Renato foi até a boleia do caminhão e viu a mochila. Sob ela a pasta azul com a documentação, autorizações e etc.

Com os documentos em mãos, Renato atravessou a pracinha e foi até a pequena multidão, que se aglomerava perto do ponto de taxi.

Seu Flávio estava cercado de outros velhos.

-Desculpem. Estou atrapalhando alguma coisa? – Perguntou Renato, quando viu que todos olhavam sério para ele.

-Não, não. Tudo certo, professor. – Disse Flávio.

-Eu trouxe a documentação para o senhor assinar.

-Pensa bem, Flávio. Pensa bem! – Disse um dos homens perto do taxista.

-O que está pegando? – Perguntou Renato ao motorista de praça.

Flávio fez um sinal com os ombros.  – O povo está com medo de demolir a “casa do diabo”.

-Aqui está o documento de autorização dos móveis. É um documento de doação de praxe.  Esse aqui autoriza a gente a botar o que resta da casa abaixo e vender o entulho. Esse aqui…

-Tá, tá. Eu assino. – Disse Flávio, assinando cada folha sem ler.

Com todas as assinaturas e tudo acertado, Renato fez um sinal de joinha para Flávio e foi até o caminhão.

-Tá liberado, pessoal!

Junior e os três filhos partiram para o casarão.

Numa só marretada, Jeremias arreganhou o portão da frente, todo enferrujado.

-Cuidado com os marimbondos! – Gritou Renato.

Junior veio correndo carregando um latão com algumas coisas dentro. Acendeu com um isqueiro e imediatamente surgiu uma chama na lata. Logo o fogo se apagaria, liberando uma nuvem de fumaça espessa.

Ele entrou na escadaria diante da casa e posicionou a lata em frente a entrada do casarão. Logo a fumaça engolfaria toda a construção.

-Mas que merda é essa? Tão defumando a casa? – Perguntou o velho Flávio para Junior.

-Não senhor. Isso é pra tirar os bichos aí. – Disse ele, apontando para a casa. Lentamente, nuvens de insetos levantavam vôo e partiam para longe da casa. O cheiro era horrível e fazia lacrimejar os olhos.

-Mas que raio de troço é esse? – Perguntou Renato, tampando o rosto com as mãos.

-São umas raízes e cascas de uma árvore lá da Amazônia, que a gente mistura com óleo diesel, querosene, estopa e um pouco de água. Isso faz um fumação que bota pra correr qualquer bicho. Os índios usam muito…

Renato olhou ao redor e viu a pequena multidão se avolumando na praça para ver a demolição da casa. Alguns demonstravam medo. Outros, apreensão e muitos ali pareciam felizes e até aliviados com a remoção das ruínas.

Quando a nuvem branca se dissipou com o vento, não havia sinal dos marimbondos, nem aranhas. Muitas delas estavam mortas, se debatendo no chão, numa agonia final. O chão estava coalhado de marimbondos, que cambaleavam tentando levantar vôo, sem sucesso.

-Vamos entrar! – Gritou Junior com  a enorme marreta de aço na mão. Parecia até uma versão negra do Thor.

Os quatro entraram na casa. Foi preciso derrubar a marretadas a porta da frente, que cedeu às pancadas como se fosse de papelão.

Minutos depois, os homens saíam, carregando toda sorte de móveis antigos. Cristaleiras, Baús, camas…

Jamil ia desmontando os móveis e colocando-os no caminhão com a ajuda de Jonsen. O povo da vila se impressionava com a habilidade dos filhos de Junior e do próprio Junior, que saía do casarão carregando sozinho coisas  que nem três homens conseguiriam carregar. Entre cochichos e risos, Renato viu a Lílian. Ela estava na praça, no meio da multidão. Olhava fixamente para ele. Séria. Renato teve uma sensação ruim, lembrando das palavras dela de que o demônio se vingaria.

Então, a atenção de Renato foi atraída por um grito aterrador que saiu de dentro da casa. Junior saiu correndo desesperado de dentro da mansão.

Ante a imagem do gigante forte correndo com medo, a multidão fugiu num verdadeiro “estouro da boiada”.

-É o demônio! É o Demônio! Foge!!! – O povo gritava.

Correu gente gritando para tudo que era lado. As pessoas afobadas e em pânico, derrubaram Renato no chão.

CONTINUA

 

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27 comentários em “A cadeira obscura – Parte 7”

  1. Se bem reconheço os contos do MG, o “júnior” saiu de lá correndo e berrando só pra assustar a população que tava assistindo a demolição… ele vai sair de lá e cair na gargalhada com o cagaço de todo mundo.

  2. Philipe, eu trabalho com comércio exterior. Que achas de importarmos um clone seu para trabalhar no seu lugar e você se dedicar ao blog? Me parece uma solução justa com os leitores que esperam tanto pelos próximos capítulos dos seus contos!

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