A cadeira Obscura – Parte 21

Renato correu desesperadamente quando viu que o monstro estava correndo em sua direção. Ele já tinha uma boa vantagem sobre a bizarra criatura, mas viu, horrorizado, que essa vantagem era rapidamente diminuída pelo monstro, que corria aos saltos.  Para piorar, em meio a  uma planície infinita, Renato não sabia em que direção correr. Não havia onde se esconder. As partes em que o solo era fofo deixavam a fuga ainda mais difícil.

Renato foi atingido pela criatura que o acertou nas costas. Foi como ser atropelado. Seu corpo foi jogado a uma grande distância e ele virou uma cambalhota ao acertar o solo.

Com a boca cheia de areia, Renato tentou retomar a fuga, mas sentiu de imediato aquela mão enorme o agarrar pela perna. Ele tentou se desvencilhar, mas era impossível. Num rugido aterrador a criatura o suspendeu no ar e o lançou contra o solo. No impacto, ele quase perdeu os sentidos. Mal conseguia se mover.

O monstro estava agora debruçado sobre ele. O peso parecia prestes a quebrar suas costelas.

 

—–X—–

Assim que as tochas se apagaram, as três mulheres conseguiram finalmente sentar o rapaz, que se debatia desesperado. Lentamente ele foi perdendo as forças, até que finalmente afundou na cadeira.

A escuridão era completa, e só se ouviam os cânticos dos três mestres.

Subitamente, eles pararam e o silêncio preencheu a câmara completamente. Surgia fraca, uma respiração descompassada, que lentamente foi ficando mais e mais forte, e finalmente eclodiu numa risada maníaca. Quando Aubut parou de rir, ele finalmente falou com a voz de Renato.

-Denique libertatem observate! Denique cibum!

O grão mestre ajoelhou-se, e os dois outros também repetiram o gesto. As três Esplendor também se ajoelharam.  Seraph, que estava nos fundos da sala, já estava ajoelhado diante de Aubut desde o início dos ritos.

Um grito de desespero preencheu a sala cortada na pedra.  Era a voz de Seraph.

Aubut bateu palmas e as tochas se acenderam.

Todos olharam para trás.

Leonard estava acabando de cortar a garganta de Seraph, num corte que quase dava a volta em seu pescoço. Uma cascata de sangue verteu do corte. Seraph tentava se debater contra o velho, mas era contido por um homem negro que vestia uma túnica imaculadamente branca e um estreito chapéu vermelho na cabeça.

Leonard largou Seraph, que caiu de joelhos no chão. Seraph levou a mão até a garganta, e tentando conter o sangue que jorrava, caiu no solo.

Imediatamente as três mulheres começaram a gritar insandecidas. Diante dos olhares dos três velhos, elas pegaram fogo, virando verdadeiras fogueiras humanas. Menos de um minuto depois elas estavam caídas, carbonizadas, como estátuas magras de carvão que ainda fumegavam. O ar na câmara ficou irrespirável. O cheiro de fumaça e de carne queimando era terrível.

Assim que largou o corpo de Seraph no chão, Leonard partiu com a faca em direção aos velhos.  Os dois mais novos sumiram numa nuvem escura e espessa, que os engolfou. Mas o mais velho deles, Frater Malok, estendeu a mão. Leonard caiu. Atacá-los foi inútil. Assim que eles viram as três mulheres se incendiarem, Malok atacou Leonard e tal qual os dois outros mestres, desapareceu logo depois, em meio ao borrão escuro.

Restou Aubut ainda sentado na cadeira. Aubut parecia agarrado ao trono.

-Vai! Rápido, Chi! – Gemeu Leonard, caído no chão.

O homem negro tirou de uma bolsa uma coisa pequena, que era impossível de ver. Correu na direção de Aubut.

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O homem colocou a coisa na testa de Renato, e após proferir um monte de coisa incompreensível no estranho idioma, o corpo de Renato começou a se tremer violentamente. O demônio começou a berrar com urros horríveis quando um brilho azul inundou a câmara. Um brilho que vinha da coisa na mão de Chi que era apertada contra a testa de Aubut.

 

—-X—-

A besta arreganhou a bocarra cheia de dentes.

Um trovão ensurdecedor explodiu ao redor deles e tudo se apagou numa nuvem de poeira.

Renato abriu os olhos. Estava repleto de pó. Ele tossiu o pó branco. Sentiu ânsia e vomitou um caldo gosmento e preto com gosto terrível.

Ele não sabia onde estava. Sentiu a dor das feridas queimando as costas. Logo reconheceria aquele lugar, mas não sabia quem era o negro diante dele, que apertava a pequena cabeça do santo barroco na testa dele.

Não houve tempo para conversas. O homem negro olhou pra ele e falou algo completamente incompreensível o idioma Igbo:

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-Quem… Quem é você?

Ao redor deles, as coisas começaram a ruir. Pedaços do teto começaram a se soltar.

-Vamos sair… Vamos sair. – Gemeu Leonard, que se arrastava pelo chão.

Chi olhou para Leonard assustado.
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-Essa porra vai desabar! – Disse Leonard, apontando o teto. Só havia uma única tocha acesa, que deixava o ambiente muito mais escuro.

Chi correu até onde estava Leonard e o Levantou com dificuldade.

Da cadeira, Renato viu que Leonard estava com uma espécie de faca enfiada na barriga.

-Puta que pariu! – Gemeu. Renato quase não conseguia respirar.

-Cala a boca, moleque. Vamos! Vamos! – Gemeu Leonard, muito fraco. Sua voz era somente um fio quase inaudível em meio ao ambiente inóspito.

Chi ajudou a carregar Leonard.

Renato saiu logo da cadeira e começou a seguir os dois pelo longo e estreito caminho.

O som ecoava na câmara. Era o som das pedras rachando e estalando. Pedaços de grandes pedras começaram a desabar dentro da câmara com estrondosos ecos. O grupo avançou o mas rapido que puderam.

Chi parou diante da pedra lisa que estava onde o corredor estreito terminava.

Renato olhou para Leonard. Ele tinha a faca enfiada na barriga e fazia uma horrível expressão de dor.

-Caralho… Temos que ir pra um hospital.

-“Nhé, nhé, nhé, nunca abandono meus amigos…” -Gemeu Leonard, quase perdendo os sentidos.

-E agora moço? – Renato Perguntou aflito com o estado de Leonard. Lá dentro, tudo começava a ruir.

-Shhhh! – Disse o homem, mandando Renato calar a boca. Chi continuou com a cabeça encostada na pedra por mais alguns segundos, Ele colocou as mãos na pedra e encostou a cabeça nela. Logo uma linha branca se desenhou de cima abaixo e a pedra se abriu.

Era o elevador.

-Graças a Deus! – Gemeu Renato. Eles pularam para o elevador e Chi apertou uma série de botões.

Leonard estava apagado nos braços de Chi.

-Ele morreu? – Perguntou Renato.

O homem negro olhou para ele. Seus olhos transmitiam enorme sabedoria e coragem.

Ele moveu a cabeça negativamente e disse, num português com sotaque quase incompreensível:  – Chi precisa levar Leonard. Senão, Leonard morrer!

-Tudo… Tudo bem! – Disse Renato.

A porta do elevador se abriu. Ali fora estava um lugar estranho. Havia um enorme gramado diante deles e um vento fresco soprou ar puro para dentro do elevador.

Renato fez menção de sair com eles, mas Chi o empurrou.

-Você não!

O negro saiu com Leonard desfalecido nos braços. A porta do elevador se fechou.

Renato ficou ali dentro alguns minutos, até que a porta do elevador se abriu novamente e entrou uma velhinha.

-Bom dia. – Ela disse, sem olhar na cara dele.

Renato mal podia acreditar quando o elevador chegou no térreo e ele estava de volta à cidade.

Renato foi direto até um posto de saúde onde recebeu atendimento. Diante das feridas nas costas o enfermeiro se espantou:

-Você apanhou legal, hein rapaz?

Saindo do posto de saúde, já com curativos nas costas, Renato partiu para casa. Lavou a boca com álcool, mas o gosto horrível daquela merda não parecia querer ir embora. Havia perdido os óculos na confusão, mas felizmente mantinha pares extras no armário. Arrumou a mochila e entrou na caminhonete, rumando para bem longe. Pegou a estrada em direção ao Rio.

Durante todo o trajeto da viagem, Renato foi se lembrando da terrível provação pelo que passou até ali. Com a mente repleta de perguntas sem respostas e a alma torturada pelo medo, ele viajou, dirigindo sem parar. Chovia muito no caminho para o Rio e em muitos pedaços da estrada era quase impossível seguir viagem, mas Renato não estava disposto a arriscar. Atravessou a chuva torrencial em direção à Cidade Maravilhosa, onde pretendia passar alguns dias antes de embarcar de volta para Munique.

E foi assim, depois de contar toda essa saga estranha, que após quase dez chopps escuros depois, fomos expulsos do restaurante do centro do Rio. Mas a história ainda não havia acabado.

Rumamos meio sem destino pelas ruas do centro, com direção á Lapa, onde pretendíamos continuar a conversa. Confesso que até aquele momento, a desconfiança de que meu amigo de infância tivesse se tornado um louco continuava me torturando. Desconfiança que começou lá no início da história dele, quando ele disse sobre a cadeira cujo velho tinha morrido em cima. Mas Renato, caso estivesse invetando aquilo tudo, só para conversar comigo, seria não só um louco como um gênio.

Andávamos pelas ruas escuras e frias. Uma frente fria tinha atingido o Rio dias antes, e vivíamos um incomum inverno na cidade do sol inclemente. Mas pelo menos a chuva havia passado. Renato ia ao meu lado, com os óculos, o cavanhaque de Raul Seixas e as mãos enfiadas nos bolsos. Enquanto andávamos pela Rio Branco, perguntei a ele sobre o velho.

-E ele? Morreu?

-Não sei. Nunca mais soube do velho Leonard. A última visão que tive dele, foi no colo do enorme negão, com aquela faca de cristal enfiada na barriga. Daí o elevador fechou-se e quando vi… Bem, é como eu te contei.

Andamos mais um pouco, em silêncio e enquanto andávamos, começou a me dar vontade de anotar aquilo tudo, converter aquele monte de detalhes em uma história. Se fosse verdade, bem, mas se não fosse, seria igualmente útil como um livreto. Obviamente eu não mencionei que pretendia escrever a história que meu amigo Renato havia me contado.

-Mas então foi isso? Você abandonou Curitiba e pronto? Largou tudo pra trás mesmo?

-Larguei, cara. Não quero mais saber. Estou aqui no Rio faz uns dez dias. A polícia achou o corpo do Mark no dia seguinte, e agora eu não posso viajar, porque pode pegar mal. Vou esperar esfriar o caso. Tá rolando o inquérito, lá. Pelo que eu soube, os bandidos que invadiram a loja e bateram nele são os suspeitos principais. Felizmente, a grana que o careca pagou nunca foi tirada da nossa conta.

-O que significa que você saiu dessa rico!

-Pelo menos isso.

-É. Pelo menos… Rico.

Mas Renato ainda estava estranho, e então, diante de seus longos silêncios, resolvi provocá-lo.

-Você não contou tudo que eu sei.

Novamente, ele fez uma pausa. Estancou no caminho, me olhando sério.  Eu juro que esperei uma gargalhada daquele cara e uma admissão de culpa, onde ele diria que inventou tudo só para conversar mais comigo. Só que nada disso aconteceu. Contrariando minhas expectativas, ele me olhou gravemente e disse:

-A cadeira voltou.

-O que?

-Quando eu acordei ontem, no quarto do hotel. A cadeira estava diante da minha cama! Desde então, estou na rua. Não tive coragem de voltar ao quarto. Aquela merda está me perseguindo… – Ele disse. E então, notei que ele tinha lágrimas nos olhos. Não era mentira. Não podia ser. O cara não seria ator à aquele ponto. E só então eu comecei a acreditar muito firmemente naquilo tudo.

-Você tá falando sério?

-Como nunca falei em toda minha vida, seu porra.

-Me leva lá pra ver?

-Vamos! – Ele disse, me pegando pelo braço.

CONTINUA

 

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17 comentários em “A cadeira Obscura – Parte 21”

  1. Parabéns Philipe ,estou esperando a próxima parte,e o Leonard como sempre aparecendo para salvar o dia;agora fiquei curioso,nessa sociedade de caçadores de bruxas que o Leonard é membro,você já pensou em escrever sobre outros caçadores ?

  2. aaahh jurava que você ia finalizar a historia aqui, tava a dias sem postar nenhum capitulo e no decorrer parecia que estava caminhando pra um desfecho meio apressado, mas não. continua assim que ta muito boa.

  3. Já estava eu aqui preparando as foices e as tochas achando que era o último capítulo, tenho essa maravilhosa surpresa. Continua, que esse conto fica cada vez melhor a cada capítulo. Curioso demais para saber o que aconteceu com o Leonard e também para saber quem é o Chi, no começo, achei que fosse aquela entidade lá que o Wilson via quando pegava a Kuran em A Busca de Kuran.

  4. Como fico muito ansiosa pelos capítulos de “A cadeira obscura” e tendo visto comentários sobre o Leonard aparecer em outro conto teu, me joguei na leitura de “A Caixa”. Devorei a história em duas madrugadas!
    Philipe, tu escreve muito bem! Não pensa em lançar um livro? Se fizer, eu quero, mas autografado, hein?!
    Abraço!

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