A cadeira obscura – Parte 16

-Mas é só ir lá e pegar a cadeira de volta, não?  – Perguntou Renato.

-Eu gostaria muito que as coisas fossem simples assim. Vocês profanos e suas visões limitadas… São uns ignorantes mesmo.

-Ei, calma aí. Não precisa me esculachar, seu Leonard! Eu vou lá, falo com o cara, você vai lá e negocia com ele.

-Rá! – Leonard deu uma enorme gargalhada. Olhou com desdém para Renato. – Você não tem a mínima noção mesmo… Que horas são aí nesse lixo vagabundo do teu braço?

-Dez para as sete. Esse relógio não é lixo não. Esse é um Swatch legítimo, pô. Comprei lá em Munique!

-Esse é um Swatch legítimo… Comprei lá em Munique… – Leonard o imitou, fazendo uma voz de bicha e trejeitos com os braços.

Renato sentiu muita raiva do velho. Chegou a ter a sensação de que estava numa pegadinha. Tudo parecia tão irreal e aquele sujeito era tão insuportável que só podia ser um personagem da turma do Ivo Holanda.

-Vai à merda, velho babaca!  – Disse Renato, virando as costas na direção da rua.

-Ei! – gemeu o velho, com as duas mãos abertas.

Renato o ignorou e foi entrando no carro.

-Onde você pensa que vai, fedelho?

-Te trouxe onde deixei a cadeira. Agora é com você. – Disse Renato.

-Você não vai a lugar nenhum! – Disse Leonard.

O velho parecia bem sério. Renato temeu que ele estivesse armado. Mas diante de tão insuportável figura, resolveu peitar mesmo assim. Virou a chave na ignição, e acelerou.

O carro andou meio metro e desligou. Morreu.

Renato virou a chave novamente. Mas o carro parecia morto.

-Vai caralho! Pega, porra!

O carro não reagia.

Renato estava tentando bombar o acelerador para tentar dar a partida, quando ouviu três batidinhas no vidro. Era o velho sorrindo. Aquilo deixou Renato ainda mais irado. Sua vontade era de pegar o vovozinho de porrada.

-Pode descer. Ele não vai pegar! – Disse Leonard sorrindo.

-Filho da puta!  – Gemeu Renato, descendo da caminhonete.

-O que foi que você fez?

O velho apenas riu e cruzou os braços, mexendo com a cabeça negativamente. Sua boca se contorceu dos lados, como se esticasse e ele semicerrou os olhos, numa careta engraçada.

-Você colocou água na gasolina? Foi isso?

Diante daquela pergunta, o velho deu nova gargalhada. – Não se preocupe, garoto. O carro vai funcionar assim que você for até lá e chamar aquele verme careca até à porta pra mim.

-Por que o senhor mesmo não faz isso?

-Porque estou há quase quarenta anos tentando matar esse maldito.

-Hã?

-Acredite, guri. Sei que parece estranho, mas não estou pedindo muito. Você fez a merda. Você deu a cadeira para o sujeito. Agora você vai me ajudar a recuperar essa cagada.

-Mas o que o senhor quer com a cadeira? O senhor é um colecionador?

-Ora, francamente. Olha bem na minha cara, rapaz. Eu pareço um daqueles boçais que compram coisas superfaturadas na sua loja? Você sabe muito bem que essa cadeira não é um móvel qualquer. Sabe ou não sabe?

Renato baixou os olhos.  – Sei sim senhor.Eu nem queria vender, mas…

-Tudo bem, tudo bem. Você sabe. Aquele bicho preto que quase te quebrou em dois no Hotel Bretas… É por causa dela. Você sabe.

-Hã? Mas como o senhor sabe que… Quem é o senhor?

-Vamos deixar a conversa fiada para outra hora. Vai lá e coloca seu dedinho naquela merda de campainha, faz favor.

Renato obedeceu, achando aquilo tudo muito estranho. Sua vontade era de sair correndo. Mas aguentou firme. Atravessou a rua, andou uns vinte metros e chegando diante da casa, apertou a campainha.

Não houve resposta. A câmera não se moveu. Nem sequer ele ouviu a campainha soando como na última vez.

Do outro lado da rua, encostado no carro com os braços no bolso do paletó surrado, o velho olhava fixamente para ele. Quem seria aquele homem? Por que ele era tão agressivo? Como ele sabia da criatura do hotel? Era só um velho, com ar cansado de um idoso de quase oitenta anos, apesar de sua compleição ainda forte. Mas o olhar dele dava medo. Era um olhar penetrante. Tão penetrante quanto o do tal Seraph, que havia ficado dentro daquela casa. Aliás, soava bem estranho que um velho assim, quase na “tábua da beirada” ainda quisesse matar alguém; ainda mais um que parecia bem mais forte do que ele.

Renato tocou mais uma vez, e outra, e mais uma outra. Em vão. Nada aconteceu.

-Nada? – Gritou Leonard, lá do outro lado da rua.

-Nada! – Renato berrou de volta.

Renato pensou que talvez o segurança já tivesse visto o tal velho. Quem sabe o vovozinho era só um maluco que perseguia o colecionador Seraph. Certamente ele estava na casa, havia se passado muito pouco tempo, e Renato se lembrou de ver os outros velhos la dentro, certamente que com convidados em casa, talvez Seraph não fosse mesmo atender à porta.

Leonard atravessou a rua e veio caminhando, com um passo lento que lhe conferia um ar cansado.

-Eu toquei várias vezes, mas parece que não querem atender o senhor.

-É… Sei como é isso. Desde que eu matei a mulher dele, ele não gosta muito de mim.

-Ma-ma-matou? Quem?

-A tal Esplendor. A mulher dele.

-Mas… Eu… Eu a vi. Ela estava viva.

-Isso é o que você pensa, moleque. Agora vigia aí para ninguém ver que nós vamos entrar.

-Hã? – Indagou Renato, perplexo. O velho era realmente um maluco. Só podia ser. Como ele teria matado alguém que estava viva? E como ele iria entrar naquele casarão cheio de segurança com uma porta de ferro enorme diante deles?

Renato olhou para a rua, e tirando uma mulher que andava com um cachorro no outro quarteirão, não havia ninguém.

Leonard estava parado diante da porta, com uma mão espalmada na direção do metal.

-A barra está limpa, mas o senhor não vai conseguir entrar, essa porta aí está trancada. Ela abre automaticamente lá de dentro. A segurança aí é enorme e…

PLEC! – Surgiu um estalo vindo da porta.

-Eu… Não… Acredito! – Gemeu Renato ao ver a porta se abrindo.

Renato e Leonard entraram na casa. A primeira coisa que Renato notou é que o jardim parecia diferente. Antes era lindo, bem cuidado. E agora só restavam centenas de folhas amareladas e secas pelo chão. O gramado estava alto e queimado. As plantas que minutos antes vicejavam estavam retorcidas em galhos queimados.

Eles avançaram pelo caminho de pedras até o casarão neoclássico. Renato notou outra coisa curiosa, a grande porta de carvalho estava entreaberta. E a casa residia em completa escuridão.

Lá dentro já não se enxergava mais nada.

-Está aberta? – Perguntou Renato.

Mas Leonard não disse nada. Entrou na casa escura, seguido de Renato, que parecia querer falar o tempo todo, talvez por causa do medo.

-Não dá pra ver nada.

-Calma. – Foi só o que Leonard disse.

Renato meteu a mão no bolso e pegou o isqueiro. Ele puxou a tampa metálica do isqueiro e a luz tênue da chama iluminou o interior da sala gigantesca. Assim que conseguiu enxergar, Renato sentiu um calafrio na espinha:

Estava completamente vazia. Não havia pintura nas paredes, nem o candelabro de cristal, a mesa decorada de mármore, nem os móveis caros, ou o espelho de cristal. O interior completo da casa havia sido removido.

-Chegamos tarde. – Disse Leonard, escarrando no chão.

-Mas, mas, mas não é possível! Eu estive aqui não tem nem uma hora! E essa sala era toda cheia de…

-Cheia de presepadas, quadros espelhos, e deixa eu adivinhar: Tinha umas pinturas meio rococós na parede? Não é?

-Barrocas. Eram pinturas barrocas.

-Mas que merda! – Disse Leonard, saindo da sala na direção do jardim.

-Ei, espere! Esse negócio. Não é possível! Não faz sentido.

-A casa do Seraph não é física. Ela migra, para evitar que eu o encontre. Essa casa só existe nesse endereço às seis da tarde. Igual a essa ele tem mais de vinte pelo mundo. E cada  hora a casa está num lugar…

-Eu não entendi.

-Não? Deve ser porque você é burro!

– Ei! Calma aí!

-Só pode ser burro, porra. Eu acabei de te falar: A casa só existe durante uma hora nesse endereço. Depois ela está em outro endereço. O que tem nessa frase para você não entender, ô burro?

-Eu não sou burro. Só não sei como que pode uma casa desse tamanho não estar aqui mais. Ele fez uma mudança express?

Leonard não disse nada. Apenas abanou a cabeça negativamente. Foi na direção do carro.

-O carro está quebrado. Nem adianta, seu Leonard.

-Estava. Agora ele está bom!

-Mas ele nem…

-Entra aí e liga essa merda logo que eu estou com fome. – Disse o velho já dentro do carro, batendo a porta do carona.

Renato entrou no carro meio contrariado. Virou a chave na ignição e o motor ligou perfeitamente.

-Viu?

-Mas… Como? Não é possível!

-Nhénhénhé… Não é possível! – Leonard o imitou com a voz fininha.

-Tudo bem. Foda-se. Para onde o senhor quer ir?

-Vou para um restaurante, claro! Preciso encher logo a pança, porque odeio ficar com fome.

-Mas para onde?

-Sabe a Praça Espanha? Toca pro Bigorrilho. Vou te levar num lugar.

 

….

 

Minutos depois, Leonard e Renato estavam no belo restaurante, montado numa casa antiga com aparência mediterrânea, com paredes brancas cobertas de hera.

Escolheram uma mesa do canto, perto da lareira. Bem atrás deles, um homem louro de terno escuro tocava um piano antigo e diversos garçons passavam pelas poucas mesas ocupadas. O ambiente era requintado, com meia luz, onde se destacavam sofás de veludo vermelho em meio ao salão do restaurante. Um dos garçons vinha trazendo o vinho.

Renato testemunhou o belo ritual em que Leonard cheirou a rolha e bebericou um pouco do vinho antes de ordenar que ele pudesse ser servido. Era um vinho caríssimo, tão exclusivo que nem sequer constava na carta de vinhos do estabelecimento. Em silêncio, Renato apenas observava os modos do Velho. Ele tinha grande intimidade com a taça. Girou e cheirou antes de sorver um pouco da bebida escarlate.

Renato olhou ao redor e sua atenção foi subitamente deslocada para a cabeça de um bode esculpida em madeira pintada ou talvez fosse metal. Ela ficava bem acima da lareira e não parecia estar ali por coincidência.

-Belos chifres, hein garoto?

-Hã? Sim, sim. – Riu o jovem sem tirar os olhos do cabrito.

-Tem certeza que não quer um vinhozinho? – Perguntou Leonard.

Renato negou com a cabeça. Estava pensativo. Na verdade seu temor maior é que o velho louco dissesse ao final daquela brincadeira caríssima que não tinha dinheiro. POr isso Renato observava os modos do homem, que parecia bem à vontade. Um dos garçons inclusive parecia conhecê-lo e acenou de longe.

Renato enfim rompeu o silêncio com uma pergunta. Pegando o gancho do aceno ao garçom, lançou a indagação: -O senhor já veio aqui?

-Venho sempre que posso. – Disse Leonard.

-Eu nunca vim. É muito caro para o meu bico.

-Bem… Na verdade, é caro para o meu bico também. É caro para o bico de todo mundo. Veja os preços.

-Eu já vi.

-Mas pode ficar sossegado. Aqui eu nunca pago.

-Hã?

-Eu sou o dono dessa merda aqui.

-Sério?

-Eu pareço um palhaço por acaso? Tá vendo um nariz de palhaço aqui na minha fuça? Por que tudo que eu digo você fica: “Não é possível, não acredito, sério?” – Disse ele, imitando a voz afeminada.

-Tudo bem, desculpe. É que…

-Você é muito bom em perder tempo. Veja, estamos aqui há vários minutos, você não bebeu nem o vinho, e sequer conseguiu se decidir se vai beber refrigerante ou cerveja. Peça cerveja. Tenho uma seleção especial de cervejas artesanais. Uma inclusive que é feita num convento de Minas Gerais por um amigo, com receita de um monge da Holanda…

-Bom, tudo bem. Pode ser essa.

Leonard fez um sinal com os dedos e pronunciou em silêncio um nome para um garçom que estava longe. Minutos depois, o garçom trazia um copo gelado e a cerveja, com rótulo marrom e antigo, quase desbotado, mas onde ainda se podia ler: “Hofbauer”.

O velho aproveitou para pedir, sem olhar sequer o cardápio. Renato se espantou ao ver aquele homem bronco dizer o prato em detalhes ao garçom.

– Traz a paleta de cordeiro de 12 horas com aquela polenta Branca e lascas do Grana Padano no molho. Mas capricha no Grana que o moleque ali tá com fome. São dois.

-Sim senhor. – Disse o Garçom, retirando-se de modo solene.

Entre goles da cerveja, que Renato achou bem ruim, mas optou por não desagradar o velho, ele voltou ao assunto da cadeira.

-Posso fazer uma pergunta para o senhor?

-Humhum! – Gemeu Leonard com a boca na taça.

-Como o senhor sabia do monstro do hotel? O senhor estava me seguindo?

-Não exatamente seguindo. – Disse Leonard, servindo-se de mais vinho. – Eu soube que você esteve na casa onde a cadeira estava. É uma longa história. E aquela merda toda no hotel deu bastante bandeira. Primeiro eu soube que você conseguiu o prodígio de sobreviver ao Ognuum. Aquilo que você chama profanamente de “monstro”.  E para esse guardião sair da caixa, devia haver um motivo muito bom, e aí eu fui atrás e fiz o caminho inverso, até chegar na cadeira. Mas demorei a descobrir para onde vocês tinham vindo… Enfim, é uma longa história.

-Mas o senhor disse que o cordeiro que pediu iria demorar…

-Certo. Eu conto desde que você prometa não dar esses chiliques idiotas. E desde que você me prometa acreditar sinceramente no que eu vou contar.

-Prometo.

-Vamos ao caso. Vou começar do princípio. Era uma vez um demônio… Ele não era um demônio muito importante. Era um demônio fraco, limitado e habitava o sexto círculo do inferno. Seu nome é Aubut. Aubut conseguiu, até pouco tempo atrás, ninguém sabia como, sair de onde ele estava preso e vir parar na Terra. Na verdade, hoje eu sei como ele veio. Ele foi invocado por um bruxo do século XV, chamado Urbain Grandier, que por acaso era um padre. Ele tentava, em vão, trazer seu pai morto de volta dos mortos. Aubut habilmente enganou o padre-bruxo, que devido à sua falta de preparo foi arrastado para fora do círculo e caiu sob domínio de Aubut. Esse homem morreu instantaneamente, e sua alma foi trocada por Aubut. Assim, o bruxo ficou preso no sexto círculo do inferno, e Aubut ficou livre, ocupando o corpo do homem. Qual melhor lugar para um demônio se esconder que não o corpo de um padre?

Mas isso não durou muito. Eu consegui encontrar uns registros da Igreja que mostram que em 1634 Aubut fez tanta merda que a Igreja descobriu que seu membro era um dos inimigos do Clero.

-Mas o que ele fez? – Indagou Renato.

-Só um minuto…- Disse Leonard, vendo que o garçom se aproximava com a bandeja com dois pratos muito bonitos e finamente decorados.

Após serem regiamente servidos, e o garçom se afastar, Leonard continuou:

-Durante os primeiros anos, Aubut ficou na dele e teria até ido longe se não fosse um demônio de quinta categoria, deveras fraco e imperfeito. Aubut é o típico caso de alguém que dá a sorte suprema sem estar preparado para ela. Ele conseguira sair do inferno, mas logo depois, começou a cortejar as freiras. Teve caso com varias delas, e com algumas, quase deixou que elas descobrissem a verdade. Aubut era descuidado, e numa das noites negras, quando as bruxas buscam pelos encontros sexuais com os seres das trevas, o padre não resistiu. Ele participou ativamente de uma das festas e na volta para o convento, foi surpreendido. Acabou descoberto por uma freira. Desesperado, tentou matá-la. No entanto, essa mulher escapou com vida. Ela o acusou ao clero, de ter invocado o demônio Asmodeus. Era mentira, mas todos acreditaram. Eu sei que é mentira, porque se Aubut invocasse Asmodeus ele teria sérios problemas para se explicar sobre como um demônio tão medíocre veio a estar desse lado aqui. O inferno não é uma escola de samba. Não é oba-oba.  O problema de Urbain controlado por Aubut é que ele havia ficado anos tendo diversos casos com um grande numero de mulheres. Muitas estavam iradas com ele, sobretudo as que ele havia roubado, porque esse demônio tem um fraco tremendo pelo dinheiro. Não satisfeita, a religiosa ainda acusou o padre de ter feito pacto com Lúcifer, em troca do “amor de mulheres, a flor das virgens, o respeito dos monarcas, honras, desejos e poder”. Na inquisição era foda, e assim, todas as freiras que haviam trepado com o padre passaram a acusá-lo, mais para livrar a própria pele do risco de entrarem para o rol como bruxas. Outras freiras seguiram a primeira, e as acusações ganharam corpo.

Condenado pela Inquisição, ele foi queimado vivo em Loudun, na França.

-Ué. Mas aí acabou?

-Não. Aubut vendo que seu fim estava próximo, conseguiu transmigrar-se. Uma das bruxas entrou secretamente na prisão, levando consigo uma fêmea de cabra. Aubut então transmigrou-se para o feto no ventre do animal, e lá ficou, preso. O corpo d padre ficou sem alma, e portanto, nem podemos dizer que ele morreu queimado, porque ali estava apenas um boneco, que respirava, o coração batia, mas era só um sarcófago vazio que foi queimado. Levado pela bruxa, quando a cabra enfim pariu o filhote, Aubut estava livre novamente, mas preso num corpo limitado. Daí em diante, ninguém sabe exatamente o que esse demônio aprontou. O fato é que ele estava sendo procurado por entidades do próprio inferno, por ter fugido de sua legião.

-Então ele era um demônio fugido?

-Era. Aubut ficou escondido pelas bruxas durante séculos. Mas ele está limitado a um corpo de animal, porque sem o apoio das divindades do abismo, ele jamais conseguirá se transmigrar novamente para um corpo humano. O que também não significa que ele tenha perdido seus poderes.  Mas eles estão limitados. Aubut, por alguma razão que não sabemos, fugiu da proteção das bruxas. Talvez percebendo que estamos caçando essas malditas e elas estão chegando próximo do fim.

-Estamos? Quem? Você?

-Sim. Eu caço elas. E então, percebendo que ele poderia estar com “o dele na reta”, fugiu. Hoje esse maldito esta sendo perseguido pelas Bruxas, que certamente o estavam usando em rituais.Elas nunca dão ponto sem nó. Ele está sendo perseguido por legiões de demônios e está sendo perseguido, com certeza absoluta pelo T.T.S.

-T.T.S.?
Leonard fez um sinal de pausa com a mão. Precisava engolir o enorme pedaço de carne que tinha na boca. Levou alguns segundos para o velho finalmente falar:

-Tenebris Traditionem Sanguinis, ou como eu poderia dizer, “Tradição do sangue da escuridão”. Uma ordem antiga e secreta. Perigosa, que busca nos demônios a força para seus membros.

-Deixa eu adivinhar: Esse tal Seraph…
-Adivinhou.

-Então fodeu, porque eles já estão com a cadeira.
-Sim, o TTS certamente vai tentar incorporar o Aubut que por enquanto ainda está preso na cadeira a um corpo físico humano.  Acredito que farão isso para tentar religá-lo com os poderes ctônicos. Isso traria Aubut ao mundo dos vivos e ele estaria sob poder do T.T.S.

Mas por enquanto, acho que teremos um tempo, pois você me disse que não havia sentado na cadeira. Acho que eles vão precisar de alguém que sente-se espontaneamente na cadeira para poderem incorporar Aubut nesse corpo… Que? Que foi? Que cara é essa, garoto? Respira devagar!

Renato de fato estava engasgado. Seus olhos arregalados estavam fixos no velho, que segurava no ar a taça do vinho. Leonard fez uma cara estranha quando notou a aflição de Renato. Ele começou a tossir loucamente chamando até a atenção dos outros comensais. Quando se recompôs, Renato finalmente falou:

-O Mark! O Mark sentou!

-Mas por que você não me falou isso antes, seu idiota?

 

CONTINUA

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18 comentários em “A cadeira obscura – Parte 16”

  1. Caraio, vão tentar botar o Aubut no Mark. Adoro quando o Leonard surge na história com sua delicadeza de coice de mula. Philipe, fugindo um pouco do assunto, e aquela boa notícia que você deu dia 2 de abril? Sobre a coleção de livros do blog? A ideia tá de pé ainda?

    • Cara a ideia ainda está em curso, mas deu uma barrigada porque pintou um outro lance no meio, mas eu não posso falar ainda, porque não tem nada certo.

  2. Philipe, eu me lembro de quando eu li uma das várias histórias do Leonard, e algumas fotos contidas estavam corrompidas. Você tem uma maneira de disponibilizá-las?

  3. Já está ficando rotineiro vir aqui elogiar, mas você merece todos os parabéns! É inacreditável como os contos em que o Leonard aparece sempre são cativantes e nos deixam a beira de morrer de ansiedade pelo próximo capítulo! Por favor, mande logo a próxima parte!

  4. Achei sensacional o nome da criatura ser “Ognuum”! Bela sacada!
    Não sei se você pensou nisso na época pra só revelar agora, mas pior é que Ognuum ficou bem sonoro mesmo como nome de criatura sobrenatural…

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