Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on email
Email
Share on whatsapp
WhatsApp

David agarrou com força o cabo do machado e olhou para trás.

Do outro lado da rua, na porta do cinema, estava um sujeito desconhecido, parado, em silêncio. O sujeito trajava um par de óculos escuros grandes e tinha um cachecol vermelho a cobrir-lhe o rosto. Usava uma jaqueta de couro preta larga e calças escuras de couro sintético e coturnos. David se levantou e olhou para ele.

-Puta que pariu, fudeu! – Ele gemeu ao perceber que David estava coberto de sangue seco, e saiu correndo, desesperado. David correu atrás dele.

O sujeito entrou no cinema, e esgueirou-se entre os bancos. Estava tudo escuro. David entrou atrás e ficou parado no meio da fila de acesso às poltronas na esperança de ver alguma coisa. Mas estava tudo silencioso dentro do cinema. Cadáveres espalhados pelo chão exalavam um cheiro de decomposição muito forte naquele local.

David ouviu um barulho ecoar no interior do cinema. Reconheceu prontamente o som de uma porta batendo.

“Ele vai sair pela porta dos fundos!” – Pensou.

David saiu pela frente do cinema e correu pelo beco lateral, na esperança de interceptar o sujeito na estreita rua de trás.

Quando David virou a esquina, deu de cara com o estranho, saltando o muro do cinema.

O homem caiu bem na frente de David. E apavorado, escorregou numa poça de lama, caindo sentado no chão.

-Calma… Calma… Quietinho… Shhhhh! – Ele fazia. David se aproximou devagar, com o machado na mão.

David olhou no chão e viu um caco de tijolo. Abaixou-se pegou o caco e escreveu na parede:

Eu não sou um cachorro!

O sujeito reagiu com espanto. Ergueu-se de modo curioso. Riu apressado. E começou a se limpar.

-Promete que não vai me morder? – Ele perguntou assustado.

David moveu a cabeça, negativamente.

David olhou ao redor e notou que os zumbis que zanzavam pelas proximidades não pareciam se interessar por ele.

Era magro, alto, usava uma bandana na cabeça e portava óculos escuros no melhor estilo “astro de hollywood”. Então ele vaio na direção de David, com seu andar que lembrava o de um cowboy bêbado. David não havia reconhecido no início, mas agora aquele andar, tão próprio quanto uma impressão digital, denunciava: Era o Magrelo.

David andou até ele e os dois se encontraram no centro do beco.

-David! Quanto tempo, meu chapa! – Disse Magrelo dando um soquinho peculiar no ombro de David.

David Carlyle tentou falar alguma coisa, mas só saiu um grunhido macabro e incompreensível.

-Puta que pariu, David… Quer dizer que você também virou um monte de merda que anda e come gente? – Riu Magrelo.

David meteu a mão no casaco e sacou o bloco de papel. Pegou a caneta e rabiscou:

Fui mordido. Desde então não consigo falar. Mas eu ainda penso normalmente, viu seu puto?

David estendeu a Magrelo o papel. Virou-se e caminhou para fora do beco, indo em direção à praça. Magrelo foi atrás, em silêncio. David voltou a sentar-se no banco da pracinha.

Após ler a curta missiva, Magrelo sorriu com os dentes amarelos e cariados.

– Calma, David. Calma… Mas que tesão de mulher é essa aí pelada do seu lado, companheiro? É tua? Tá pegando?

Novamente, David escreveu:

Tira o olho e nem pense em por a sua mão suja nela. Essa é Alice. A mulher que eu amei. Ela ficou assim por minha causa.

-Hummmm. Porra, mas ela é bem gostosa mesmo, cara. Quer dizer que você conseguiu esse material aí antes mesmo dela virar defunta? Parabéns, brother. É melhor que aquela gostosa tatuada lá do Mister Big, que a gente sonhava em comer, lembra? Só que ela precisa de um banho, cara. Tá fedendo a defunto. E essa sangueira toda no corpo dela?

David voltou a escrever.

Ela comeu o cara que queria comer ela. Mas vamos deixar de conversa fiada, Magrelo. Como você consegue falar e eu não?

Enquanto David escrevia, Magrelo empurrou com a bota a menina loura do balanço. Ela foi lá na frente e voltou, sem reação alguma.

David estendeu o papel e Magrelo leu.

-Cara, sua caligrafia está uma bosta hein? Quando a gente fazia letra de musica era bem melhor… Quer dizer, no tempo em que você ainda estava vivo, né? – Disse ele, soltando uma sonora gargalhada no final.

David apenas ficou olhando para Magrelo com os olhos vazios de sempre.

-Ok… Ok. Cara, a resposta pra sua pergunta é: Eu não sei. Não sei. Não sei, não sei. Tipo, eu tô vivo, meu. Eu não sou zumbi, mas por alguma razão bizarra, eu nem virei zumbi… E eles não conseguem me ver! Por isso que quando você me viu eu me desesperei, cara.

David pegou o papel novamente.

Como assim não conseguem te ver? Eu consigo ver perfeitamente.

-Cara… Minha esperança é que isso também tivesse acontecido com você, cara. Sei lá que porra foi essa, mas quando tudo ficou desse jeito, as pessoas passaram a comer gente viva, só que nenhuma dessas… Coisas, nada pessoal, ok? …Me via nem corria atrás de mim. Isso é estranho, mas tipo, eu passo perto deles e eles não estão nem aí. Eu já fiz de tudo, cara, passei banda neles, dei paulada neles, tiro, tudo. Eles até me escutam, mas chegam perto e não fazem nada.  Eu acho que sou imune, David. Mas se você consegue me ver, é porque tem algo errado com você, meu chapa. Aliás, que eu saiba, eles não usam armas e nem escrevem. Como que você ficou assim, meu? E ela? Você mordeu a moça?

Um deles me mordeu. Eu fiquei sem manifestar o sintoma por um tempo, e quando vi, já não conseguia mais falar. Ela tratou de mim, cuidou e me ajudou muito. Eu achava que a doença não podia se espalhar, porque ela tinha me beijado muitas vezes. E não virava zumbi. Mas então, um dia fizemos sexo e ela amanheceu assim. Mas o que você tem feito?

-Porra, que barra, cara.  Eu sinto muito mesmo. Eu tenho andado por aí, entrando em lojas e pegando as coisas que me interessam. O mundo surtou bonito, David. As pessoas que sobraram estão todas piradas. Os maiores riscos que passei foram com gente viva. Desde então, tenho frequentado as cidades e ando por aí, em busca de coisas para passar o tempo. No início, como eles não conseguiam me ver, eu me divertia com eles. Matei tanto zumbi que enjoei. Hoje eu vivo como se estivesse num videogame sem final. Tudo é meio sem graça… Já pensei em suicídio diversas vezes… Mas então me liguei que se isso aconteceu comigo, só comigo, é porque tem alguma razão, cara.

Pra piorar, as drogas não fazem mais efeito em mim. Nada. A heroína é igual água. Eu não sei o que aconteceu. Mas acredite ou não, estou mais careta hoje do que quando eu nasci.  Tem uns dois dias que eu resolvi que ia dar um relax num lugar legal… Uma ilha ou coisa do tipo. Então estou dando um rolé por aqui pra achar uma moto legal e pegar a rodovia vinte para Hilton Head Island.

A droga parou de fazer efeito em mim também.

Escreveu David.

Magrelo leu aquilo, embolou o papel numa pequena bolinha e jogou na cabeça da menina no balanço.

-Cara eu acho que foram aquelas injeções que a gente tomava, meu… Lembra? Aquele troço era muito estranho. Dava umas reações doidas, febre, vômitos…

Eu também acho. Boa sorte.

– Ei David. Não acredito que você vai preferir ficar aqui parado do lado dessa mulher pelada vendo essa…. Coisa pra lá e pra cá nesta porcaria de balanço. Bora comigo, meu!

David sacou outra vez o bloquinho de papel e tornou a escrever.

Antes só que mal acompanhado. Seja bem ido.

Magrelo leu aquilo e começou a rir.

-Ah, David, David. Ainda não me perdoou por aquela babaquice, né? Foi mal, cara. Sei que passei dos limites, mas qual é? Todo mundo tem direito a perdão. Até um boçal como eu.- Ele disse.

David não esboçou nenhuma reação, e então Magrelo levantou-se do banco.

Bem, David. Se é assim, vou embora então. Um abraço, cara. Foi bom te reencontrar. – Ele disse, estendendo a mão para David.

David hesitou mas apertou a mão do Magrelo.

-Tchau David. A gente se vê… Ou não! – Ele disse.

David emitiu um grunhido baixo. Limitou-se a acenar um discreto sinal de adeus para Magrelo.

O sujeito ajeitou o cachecol vermelho e a jaqueta de couro preta. Recolocou os óculos escuros saiu andando com o passo de bucaneiro bêbado. David Carlyle acompanhou o amigo com o olhar até ele dobrar uma esquina e sumir no final da rua.

Agora só lhe restava o vento gelado do fim da tarde que agitava a copa das árvores, a menina loura do balanço e Alice, a zumbi voluptuosamente nua, coberta de sangue.

Quando começou a anoitecer, a dor de cabeça e a tremedeira sinalizaram a David que se aproximava a hora de comer. Ele levantou-se do banco da pracinha e agarrando Alice e a menina loura pela mão, foram para o prédio. David notou que havia alguma coisa errada quando chegaram ao prédio e ele estava tomado por uma multidão de mortos que se acotovelavam em sanha frenética na tentativa de subir as escadas.

“Ah, não…” – Pensou David quando viu aquilo.

Ele agarrou a moça e a menina e caminhou apressado pela calçada. Viu que eram tantos os mortos tentando subir as escadas que tornava impossível a entrada pelo caminho principal.

David então pegou a rua paralela e andou por ela até achar uma van esmagada num poste. David abriu a porta traseira da van e jogou Alice e a menina lá dentro.  Depois usando um pedaço de pau que estava no chão, ele travou a porta da van.

“Elas ficarão seguras aqui” – Pensou.

David verificou se as outras portas do veículo abriam, mas estava trancado.

David correu para o prédio, e vendo que seria impossível entrar pela passagem tradicional, saltou a barreira da rua estreita, e correu por ela até chegar no beco que levava à saída de emergência. Ele precisou empurrar alguns zumbis que se agrupavam por ali, de modo a entrar sozinho no pequeno depósito de material de limpeza.

Com o machado ele empurrou a tampa de acesso ao forro e a mangueira de incêndio caiu. Ele usou a mangueira para escalar   a parede e alcançar as escadas chumbadas na parede.

David subiu pelas escadas até chegar ao quinto andar. Na passagem da porta corta-fogo ele já podia ouvir a multidão de mortos tropeçando e colidindo nas escadas e portas do prédio.

David saiu para o corredor do quinto andar e viu zumbis por todos os lados. Ele correu para as escadas e à medida em que subia, mais e mais mortos ia encontrando.

“Tem alguma coisa errada acontecendo aqui.” – Pensou.

Quando David finalmente chegou no último andar, viu bolos de mortos andando de um lado para o outro.

“Parecem peixes num aquário.”

David correu para o heliporto e notou que a “casa” de Paul havia sido invadida. Os mortos haviam descoberto a geladeira e comeram toda a carne.

O lugar estava uma enorme bagunça, com as coisas reviradas. Fios espalhados para todos os lados, a Tv estava emborcada no chão, e as geladeiras tombadas estavam sujas de restos de sangue, carne e lama.  David ficou irado.

“Carniceiros malditos!”

Ele trancou a porta de acesso ao heliporto. Viu alguns zumbis andando por ali. David correu e começou a jogar um a um do alto do prédio. Escutou os ecos dos corpos espatifando contra o asfalto muitos metros abaixo.

Quando finalmente ficou sozinho, David contemplou a necessidade de sair em busca de comida novamente.

Foi aí que ele começou a escutar um curioso chiado baixo, que era entremeado com um assobio fino. David estranhou aquilo. Pensou que o som viesse da televisão destruída no frenesi alimentar dos mortos, mas percebeu que o som vinha de trás de uma caixa. Ele puxou a caixa e encontrou ali o radio de ondas curtas. Estava ligado.

David pegou o radio e começou a mexer no dial. O radio gemeu em frequências de chiados diferentes até que subitamente, uma fraca voz humana chamou sua atenção. Era uma transmissão real, porém, muito cheia de chiados e interferências. David não entendeu absolutamente nada do que ela dizia. O zumbi ficou escutando. Tornou a mexer no dial e o marcador de sintonia passou de frequência em frequência, mas todas elas estavam em branco.  Então, ele retornou o dial para a frequência em que havia escutado o sinal. Mas ainda havia muito ruído.

Ele percebeu que havia dois fios saindo do aparelho. Um deles, de cor amarela, estava soldado na antena do aparelho. O outro, azul, entrava por um orifício cortado na lateral do aparelho.

David sabia que certamente aquela era uma transmissão de fora dos Estados Unidos, porque a transmissão de ondas curtas viaja pela ionosfera em saltos. E do alto do predio mais alto da cidade, ele tinha uma melhor recepção do sinal. David notou que o fio  do radio estava enrolado em um enorme novelo. Aquilo só poderia indicar uma coisa.

Ele agarrou o radio e correu com ele, para as escadas. Levou o radio até o platô do heliporto, no ponto mais alto do edifício. A transmissão melhorou um pouco, mas ainda chiava muito. David olhou ao redor em busca de alguma pista. Foi quando seus olhos viram dois fios nas cores dos que saíam do radio pendendo da comprida haste do pára raios do alto do prédio.

“Só pode ser isso!” – Ele pensou. David correu até o canto do heliporto, onde havia um tipo de quadro de luz. Atrás dele, havia uma escada metálica que levava até o pára-raios.

Ali David encontrou os fios compridos.

“Então era assim que ele obtinha informações.” – Pensou enquanto emendava os fios.

Após alguns minutos de trabalho, o sinal ficou bem mais nítido e David Carlyle ouviu a transmissão. Inicialmente parecia uma pessoa falando alguma coisa, mas em uma língua desconhecida. David sentou-se no chão perto do radio e ficou escutando.

Após um tempo, a língua que parecia francês mudou para japonês. E depois, para espanhol, e finalmente falou em inglês:

… Esta é uma transmissão automática na frequência 6.127 kHz…

(pausa)

Atenção, se você está ouvindo esta transmissão, saiba que ainda existe esperança. Somos um grupo de pesquisadores no Brasil. Estamos na cidade do Rio de Janeiro. No centro de pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz. Estamos trabalhando na cura. Estamos com as pesquisas adiantadas e já obtivemos um sucesso relativo na cura dos contaminados. Estamos isolando uma área da cidade para tratar dos doentes. Gupos de sobreviventes são bem vindos. Temos um posto de triagem instalado na ilha de Paquetá para tratar dos doentes. Estamos alocando grupos de sobreviventes nas ilhas do litoral de Angra dos Reis. Se você pertence a um grupo de sobreviventes, dirija-se para o Brasil, costa do Rio de Janeiro. A triagem será feita em Paquetá e as famílias serão encaminhadas para as ilhas.

As ilhas estão livres da contaminação! Repetindo: As ilhas estão livres da contaminação!

Mas é proibido dirigir-se diretamente para as ilhas. Estamos recebendo refugiados de varias partes do mundo. Embarcações que não se identificarem na triagem serão sumariamente afundadas. As coordenadas para a triagem são: 22°45’30″S 43°06’33″W

Temos comida, água alimentos e remédios.

Este aviso será repetido em 64 línguas.

(pausa)

Si tratta di una trasmissione automatica sulla frequenza di 6.127 kHz

David anotou correndo as coordenadas no bloco. Enquanto a mensagem se repetia em italiano, David tentava conter a excitação. Havia uma cura! Aquela notícia era um pequeno flash de esperança em meio a escuridão do caos. Mas o Brasil parecia uma floresta distante e perigosa. Como chegar lá?

David desconectou o radio e guardou-o em um lugar abrigado da chuva. Ele sabia que precisaria obter alguma comida para iniciar a jornada.

Pegou o machado e desceu pelas escadas do prédio.

Ganhou as ruas. Estava escuro e ele precisava obter comida. A dor de cabeça começava a latejar. David notou que estava precisando comer carne em intervalos cada vez menores. Temeu que aquilo fosse um sinal de que a doença estava gradualmente avançando em seu organismo.

David andou pela cidade em busca de alimento. Olhava os mortos vagando em suas permanentes e contínuas migrações na eterna caça da carne dos vivos. Agora que ele sabia que havia uma cura, a ideia de comer um ser humano lhe parecia mais repugnante. Mas a dor nos músculos, articulações, e a absurda cefaléia lhe impeliam a buscar a carne para fazer aquela dor maldita parar.

David andou sem rumo pelas ruas escuras da cidade. Sabia que Alice ainda não estava com os sintomas dele, pois ela havia se empanturrado da carne do tarado mexicano.

Enquanto andava, David escutou o som dos gritos desesperados da horda. Ele sabia o que aquilo significava: Comida.

David correu na direção dos gritos e viu passar perto de um viaduto uma multidão de zumbis que avançava por um terreno baldio em direção a um velho estacionamento.

Forçando a visão na escuridão da cidade, David viu um jovem saltar um alambrado em direção ao estacionamento. A massa insana de zumbis vinha correndo atrás dele.

David percebeu que havia uma entrada para o pátio fechada com uma não muito grossa corrente de ferro e um cadeado.

Foram necessárias duas machadadas para partir a corrente. David esgueirou-se pelos carros para se aproximar do garoto. Quando chegou perto o suficiente, viu a multidão de corpos forçando o alambrado. David notou que estava a ponto de quase perder o jantar quando viu um zumbi se aproximar do menino, acuado entre dois carros.

Mas bastou uma machadada bem colocada co cocuruto do morto para tirar o zumbi do colar dourado da reta. David estava preparado para dar uma segunda machadada no menino, mas para seu espanto, ele correu assustado e o abraçou. Por um breve instante que seria difícil de mensurar, David pensou em não matar o moleque. Mas a dor era muito forte e estava corroendo-lhe as entranhas. Além disso, seroa impossível escapar da horda com o menino à tira-colo. O que aconteceu a seguir envergonharia para sempre David Carlyle, caso alguém tivesse testemunhado a cena.

David rapidamente agarrou o moleque pelo braço e meteu uma bela dentada no pescoço dele.
Os dentes de David Carlyle afundaram na carne macia e quente e  o sangue jorrou em profusão.
O moleque ficou se debatendo, na tentativa vã de se libertar do abraço mortal de David Carlyle,  mas rapidamente perdeu as forças e tombou sem vida nos pés dele. David notou que o alambrado estava prestes a ceder e mordeu o mais que ele pôde aquela carne quente. Ele engolia grandes pedaços e com força repuxava os músculos e artérias do pescoço do garoto. Quando chegou ao coração do menino, ele ainda batia e esguichava sangue para todo lado.

David arrancou grandes nacos de carne e escondeu os pedaços no bolso. PLanejava levar para Alice e para a menina do balanço.

“Preciso arrumar um nome para ela”. – Ele pensou.

Nisso, o alambrado caiu e a horda pisoteou os da frente. David largou a carcaça mais que depressa e correu para o canto do estacionamento, ocultando-se discretamente na escuridão. Em meio a sombra, ele viu o grupo saltar sobre o que ainda restava do garoto.
Com o estômago cheio, e sem a dor a esmagar-lhe as juntas, David partiu para o centro. Precisava correr, pois assim que os mortos comessem toda a carne do menino iriam sentir o cheiro do sangue fresco nos bolsos de David e viriam atrás dele como cães.

David correu pelas ruas escuras até passar em frente a um supermercado. Ele sabia que à aquela altura, os supermercados eram locais perigosos. Quando o apocalipse tomou conta das cidades as primeiras coisas que as pessoas sadias fizeram foi iniciar uma violenta onda de saques e ataques a lojas e mercados.  Incendiavam casas, roubaram carros. A confusão do pânico nas cidades provocou um êxodo na população que buscava fugir das zonas de conflito. Isso levou mais gente às ruas e facilitou o trabalho dos mortos. Com muita oferta de alimento, os zumbis eram sujeitos dos seus instintos primitivos, e apenas mordiam as pessoas, não focalizando o ataque em alvos. No início, as pessoas mordidas isolavam-se com as sadias em pequenos abrigos e em poucas horas após a mordida,  já manifestavam os primeiros sintomas.

Enquanto havia muita comida, os zumbis comportavam-se como os dragões de Komodo. Eles mordiam as pessoas e passavam a segui-las, farejando o rastro de sangue. Em menos de um dia, o rastro os levavam invariavelmente à carcaça. Se o zumbi demorasse a achar o corpo, ele encontraria outro zumbi. Mas isso era algo raro, na medida em que no início, as pessoas não tinham coragem de se desfazer de seus entes queridos contaminados e apenas os isolavam em quartos, veículos e coisas do tipo.  Como os zumbis eram lentos, isso provocou uma explosão demográfica de defuntos cambaleantes.

O que os humanos ainda não sabiam é que ao detectar a carne, os zumbis começavam a urrar de um modo específico que atraía outros zumbis. E sempre que eram mantidos confinados, eles logo atraiam as hordas. Foi assim que as grandes cidades se viram abarrotadas de mortos.

David entrou no mercado em busca de sacos plásticos. Os sacos eram um eficiente método  para ocultar o cheiro da carne fresca.

No mercado, ele conseguiu arranjar sacos plasticos para colocar a carne. Derramou detergente nos bolsos na esperança de ocultar o cheiro do sangue do garoto e dificultar os rastros.

David correu pela cidade, mas percebeu que sua tentativa de dissimular o cheiro do sangue tinha sido em vão. Ao olhar para trás, ele viu uma multidão de mortos vindo em seu encalço.

“Merda!”

David Carlyle correu o quanto pôde, mas à medida em que corria, mais e mais mortos se incorporavam ao grupo, em uma maratona maníaca atrás dele. Ele sabia que o sangue do garoto havia encharcado seu sobretudo e ao correr David espalhava o delicioso aroma da morte pela cidade. Os mortos vinham pra cima dele como moscas.

Os zumbis estavam chegando perigosamente perto. David  pensou que talvez não conseguiria escapar.

Subitamente, uma moto de corrida surgiu na frente dele.

-Pula David! – Gritou Magrelo.

David saltou na garupa da moto. Era uma Honda CBR 1000 RR preta, de mil cilindradas. Magrelo acelerou a moto e os zumbis focaram para trás.

Enquanto a moto esguelava em alta velocidade pelas ruas repletas de detritos, Willy Magrelo gritava:

-Porra, tu é maluco, cara! Eles quase te pegaram!

David não dizia nada. Apenas agarrava-se à cintura do amigo. O vento chicoteava seu rosto.

Algum tempo depois, os dois pararam com a moto num estacionamento.

-Acho que tá tranquilo aqui. – Disse Magrelo desligando a moto. – Nenhum sinal de zumbi além de você, meu chapa.

David desceu da moto. Meteu a mão no bolso e tirou a caderneta, toda suja de sangue e detergente.

-Puta, que nojo, cara! Não vai dizer que é sangue de gente? É?

Iluminando com o farol da moto, David escreveu no papel:

É! Por isso que me perseguiam. Preciso levar comida para as meninas.

Depois estendeu para Magrelo. Ele leu e ficou pensativo.

– Caralho, cara. Você está em apuros.

David assentiu com a cabeça e pegou o bloco de volta, tornando a escrever.

Descobriram a cura. Há um grupo, no Brasil. Eles estão no Rio de Janeiro.

-Que? Cê tá de sacanagem!

David moveu a cabeça negativamente.

-É verdade mesmo, David?- Magrelo estava incrédulo.

David assentiu com a cabeça.

-Porra, cara. Então temos que ir pro Brasil, mané!

David tornou a escrever:

Eles estão colocando as pessoas curadas em ilhas. Vão repovoar o planeta.

-Precisamos entrar nessa, cara. Brasil? Tem certeza?

David assentiu com a cabeça.

-Porra eu pensei que lá só tinha macaco e bandido. Bora, cara! Vamos que eu quero chegar a tempo de pegar o carnaval! – Disse Magrelo, fingindo sacudir maracas no ar.  David voltou a escrever:

Temos que levar as meninas.

-Quê? Ah, cê tá maluco, David. Porra, cara! Levar como? A mulher é gata e tudo mais, só que ela é um zumbi, mermão. Se liga! Ela é um defunto, meu!

David estava resolvido. Pegou o bloco da mão de Magrelo e riscou uma linha abaixo do que já havia escrito:

Temos que levar as meninas.

-Tá. Ok, ok. Não precisa brigar. Vamos pensar, David. Pensa desgramado! Pensa! Como vamos fazer pra levar elas duas pro Brasil com a gente? – Magrão perguntou, alisando o tanque de combustível da moto.

David deu de ombros, indicando que não sabia.

-Como que você soube desse lance no Rio?

Eu ouvi no radio de ondas curtas.

-Radio? Que radio? Não tem luz, maluco. Como que você ouviu radio sem luz?

Um cara adaptou um esquema de painel solar. Fez um radio alimentado com baterias.

-Ah. Tô ligado. Ondas curtas… Aquela parada que ninguém nunca escuta, né?

O radio está repetindo a mensagem. Disseram que tem pessoas indo para a cidade, saindo do mundo todo.

-Avião?

Acho que não. Navio. Os sistemas de vôo e suporte aéreo não devem estar funcionando.

-Hummm. Pode crer, brother. É navio mesmo. Bom, eu acho que o mais provável é que as pessoas acabem pegando esta transmissão e cedo ou tarde, migrem para as regiões costeiras, para pegar os navios e ir pro Brasil. Tudo que temos que fazer é achar um porto, entrar num navio desses e dar no pé com eles.

Só que eu sou zumbi. E a Alice também.

– Isso é apenas… Um detalhe. Vem, vamos nessa. Onde que está a tal Alice?

David pegou o papel e escreveu.

Estão trancadas numa van, perto do prédio onde está o radio, mas a área está lotada de zumbis.

-Sobe aí, rapá! – Disse Magrelo. David subiu na garupa novamente e ele acelerou a moto para fora do estacionamento.

Minutos depois os dois passavam perto do predio.

David apontou o dedo e Magrelo viu a van engastalhada no poste. O lugar estava repleto de zumbis que correram atrás da moto ao sentir o cheiro das roupas de David.

-Cara não vai dar pra parar aqui. Vamos mais à frente. – Gritou Magrelo, acelerando a moto.

Eles avançaram cerca de duzentos metros. E Magrelo finalmente parou a moto.

-David, eles estão sentindo o cheiro da carne aí na tua roupa, cara. Vamos fazer o seguinte. Em vez de você ir lá, eu vou lá. Tu fica aqui perto da moto e eu trago as meninas. Teremos que arrumar outro veículo. Essa belezinha aqui não vai ser útil para levar uma cabeçada com a gente.  Eu tenho uma coisa para dar pra aqueles caras mastigarem! – Disse, tirando uma granada do bolso da jaqueta.

David concordou em silencio. Enfiou a mão no bolso e em vez de tirar o bloco pegou o saco com as carnes do menino.

-Eca! – Magrelo fez uma cara de nojo.

David estendeu o saco para o amigo.

-Deus queira que eles não sintam o cheiro dessa porra! – Ele disse. Em seguida, viu uma poça de água imunda na sarjeta. Passou o saco com a carne na água pútrida.- Tomara que isso ajude.

Magrelo correu na direção dos zumbis.

Enquanto corria ele pensava no risco que estava correndo. E isso o animava. Magrelo estava sentindo uma adrenalina correndo em suas veias como há muito não sentia. A vida de um invisível aos mortos era sem graça. O medo da morte dava a pitada de emoção na medida exata em que ele vinha buscando.

Ao passar pelos primeiros zumbis, Magrelo viu que estava realmente invisível aos mortos.

“Eu acho que tenho cheiro de defunto” – Pensou.

Ao chegar na van batida, Magrelo viu a porta presa com a madeira.

Ele precisou chutar com força para tirar a madeira do lugar e liberar a porta traseira da van.

Ali dentro, encolhidas e com o olhar perdido, estavam as duas. Alice estava agachada de cócoras, segurando na mão da menina que tremia miseravelmente, e olhava pra ela sem expressão.

Magrelo entrou na van e fechou a porta.

-Olha, meninas. Tenho um presente, mas vocês terão que ser rápidas! – Ele disse, rasgando o saco.

As duas pareciam congeladas e subitamente saltaram sobre o saco, comendo com vontade. A criancinha est5ava muito mais afoita que a mulher.

-Cruzes! Vão se engasgar! Calma! – Magrelo pedia assustado.

Nisso, começaram as pancadas na van.

“Eles sentiram o cheiro” – Pensou.

As duas comiam os últimos pedaços de carne com avidez. A van começava a ser sacudida. Do lado de dentro, Magrelo se esforçava para segurar a porta, na tentativa desesperada de impedir que os mortos invadissem o veículo.

“Porra por que o idiota do David não deixou para alimentar os bichinhos dele depois?” – Magrelo Pensava. -“Não vou conseguir segurar muito tempo!”

– Comam logo esta porra! – Gritou.

A van balançava de um lado para o outro.

-Desculpa o mau jeito aí! – Magrelo empurrou a menina com o pé e deu um murro na cara de Alice, que caiu para trás. Ele agarrou o saco com os últimos pedaços de carne e sangue. Lançou na direção do banco do motorista.  Ele viu o saco cair sob o painel, perto do pedal. Um segundo depois, a porta se abriu numa paulada. Um monte de mortos pulou dentro da van.

Magrelo agarrou a mão de Alice e puxou as duas para fora, tentando vencer a correnteza de zumbis. A multidão de mortos vivos se acotovelava dentro da van tentando chegar no banco do motorista.

-Bora porra! – Gritou Magrelo, puxando Alice pelo braço. Ela por sua vez, estava de mãos dadas com a menina loirinha, e uma puxava a outra. As duas queriam também entrar pela van adentro para comer os restos do saco plastico, mas Magrelo se esforçou em arrancá-las dali. Meteu a mão no bolso e tirou a granada de fragmentação. Com os dentes arrancou o pino de segurança e lançou pra dentro da Van.

-Vem, porra! Ung! – Magrelo gemia, usando toda força que tinha para arrastar as duas.

Quando os três se afastaram o suficiente, David veio correndo, sem o casacão.

A van explodiu, lançando pedaços de zumbi para todos os lados.

Todos caíram no chão.

David agarrou na mão de Alice e ficou na duvida se estava vendo coisas quando notou um frágil sorriso brotar no rosto da mulher nua.

-Vem, vamos sair daqui! – Gritou Magrelo, apontando na direção da rua de cima.

Enquanto o carro ardia em chamas e corpos cambaleavam pegando fogo, os quatro correram em direção a outra rua. Ali havia uma concessionária de veículos de luxo.

-Fica aí!- Gritou Magrelo apontando o chão. David segurou as duas, seguindo as orientações do amigo.

Minutos depois surgiu um carro esporte branco, conversível.

-Bora!  – Gritou Magrelo.

David empurrou as meninas para o banco de trás. Saltou no panco do carona e viu pelo retrovisor a cidade de Atlanta ficando cada vez mais para trás.

Magrelo dirigia como um louco. O carro, uma Mazerati gran Cabrio branca, fazia barulho como um avião.

-Uhuuuuu! Sempre quis pilotar uma belezinha dessas, mermão! – Gritava satisfeito. David olhou para o céu e viu as estrelas. O vento da noite chicoteou seu rosto. Ele olhou para trás e viu Alice, ainda de mão dada com a menina.

“Espero que ainda haja esperança pra elas.”

-Segure-se, David! Vai ser um longo caminho até o porto de Savannah!

O carro de Willy Magrelo sumiu na imensidão da estrada, deixando para trás a cidade dos mortos. Os grilos, morcegos e animais da noite marcaram sua presença sombria enquanto corpos abjetos cambaleavam na escuridão.

Fim da primeira temporada

Zumbi – Parte 20

Comments

comments

David agarrou com força o cabo do machado e olhou para trás.

Do outro lado da rua, na porta do cinema, estava um sujeito desconhecido, parado, em silêncio. O sujeito trajava um par de óculos escuros grandes e tinha um cachecol vermelho a cobrir-lhe o rosto. Usava uma jaqueta de couro preta larga e calças escuras de couro sintético e coturnos. David se levantou e olhou para ele.

-Puta que pariu, fudeu! – Ele gemeu ao perceber que David estava coberto de sangue seco, e saiu correndo, desesperado. David correu atrás dele.

O sujeito entrou no cinema, e esgueirou-se entre os bancos. Estava tudo escuro. David entrou atrás e ficou parado no meio da fila de acesso às poltronas na esperança de ver alguma coisa. Mas estava tudo silencioso dentro do cinema. Cadáveres espalhados pelo chão exalavam um cheiro de decomposição muito forte naquele local.

David ouviu um barulho ecoar no interior do cinema. Reconheceu prontamente o som de uma porta batendo.

“Ele vai sair pela porta dos fundos!” – Pensou.

David saiu pela frente do cinema e correu pelo beco lateral, na esperança de interceptar o sujeito na estreita rua de trás.

Quando David virou a esquina, deu de cara com o estranho, saltando o muro do cinema.

O homem caiu bem na frente de David. E apavorado, escorregou numa poça de lama, caindo sentado no chão.

-Calma… Calma… Quietinho… Shhhhh! – Ele fazia. David se aproximou devagar, com o machado na mão.

David olhou no chão e viu um caco de tijolo. Abaixou-se pegou o caco e escreveu na parede:

Eu não sou um cachorro!

O sujeito reagiu com espanto. Ergueu-se de modo curioso. Riu apressado. E começou a se limpar.

-Promete que não vai me morder? – Ele perguntou assustado.

David moveu a cabeça, negativamente.

David olhou ao redor e notou que os zumbis que zanzavam pelas proximidades não pareciam se interessar por ele.

Era magro, alto, usava uma bandana na cabeça e portava óculos escuros no melhor estilo “astro de hollywood”. Então ele vaio na direção de David, com seu andar que lembrava o de um cowboy bêbado. David não havia reconhecido no início, mas agora aquele andar, tão próprio quanto uma impressão digital, denunciava: Era o Magrelo.

David andou até ele e os dois se encontraram no centro do beco.

-David! Quanto tempo, meu chapa! – Disse Magrelo dando um soquinho peculiar no ombro de David.

David Carlyle tentou falar alguma coisa, mas só saiu um grunhido macabro e incompreensível.

-Puta que pariu, David… Quer dizer que você também virou um monte de merda que anda e come gente? – Riu Magrelo.

David meteu a mão no casaco e sacou o bloco de papel. Pegou a caneta e rabiscou:

Fui mordido. Desde então não consigo falar. Mas eu ainda penso normalmente, viu seu puto?

David estendeu a Magrelo o papel. Virou-se e caminhou para fora do beco, indo em direção à praça. Magrelo foi atrás, em silêncio. David voltou a sentar-se no banco da pracinha.

Após ler a curta missiva, Magrelo sorriu com os dentes amarelos e cariados.

– Calma, David. Calma… Mas que tesão de mulher é essa aí pelada do seu lado, companheiro? É tua? Tá pegando?

Novamente, David escreveu:

Tira o olho e nem pense em por a sua mão suja nela. Essa é Alice. A mulher que eu amei. Ela ficou assim por minha causa.

-Hummmm. Porra, mas ela é bem gostosa mesmo, cara. Quer dizer que você conseguiu esse material aí antes mesmo dela virar defunta? Parabéns, brother. É melhor que aquela gostosa tatuada lá do Mister Big, que a gente sonhava em comer, lembra? Só que ela precisa de um banho, cara. Tá fedendo a defunto. E essa sangueira toda no corpo dela?

David voltou a escrever.

Ela comeu o cara que queria comer ela. Mas vamos deixar de conversa fiada, Magrelo. Como você consegue falar e eu não?

Enquanto David escrevia, Magrelo empurrou com a bota a menina loura do balanço. Ela foi lá na frente e voltou, sem reação alguma.

David estendeu o papel e Magrelo leu.

-Cara, sua caligrafia está uma bosta hein? Quando a gente fazia letra de musica era bem melhor… Quer dizer, no tempo em que você ainda estava vivo, né? – Disse ele, soltando uma sonora gargalhada no final.

David apenas ficou olhando para Magrelo com os olhos vazios de sempre.

-Ok… Ok. Cara, a resposta pra sua pergunta é: Eu não sei. Não sei. Não sei, não sei. Tipo, eu tô vivo, meu. Eu não sou zumbi, mas por alguma razão bizarra, eu nem virei zumbi… E eles não conseguem me ver! Por isso que quando você me viu eu me desesperei, cara.

David pegou o papel novamente.

Como assim não conseguem te ver? Eu consigo ver perfeitamente.

-Cara… Minha esperança é que isso também tivesse acontecido com você, cara. Sei lá que porra foi essa, mas quando tudo ficou desse jeito, as pessoas passaram a comer gente viva, só que nenhuma dessas… Coisas, nada pessoal, ok? …Me via nem corria atrás de mim. Isso é estranho, mas tipo, eu passo perto deles e eles não estão nem aí. Eu já fiz de tudo, cara, passei banda neles, dei paulada neles, tiro, tudo. Eles até me escutam, mas chegam perto e não fazem nada.  Eu acho que sou imune, David. Mas se você consegue me ver, é porque tem algo errado com você, meu chapa. Aliás, que eu saiba, eles não usam armas e nem escrevem. Como que você ficou assim, meu? E ela? Você mordeu a moça?

Um deles me mordeu. Eu fiquei sem manifestar o sintoma por um tempo, e quando vi, já não conseguia mais falar. Ela tratou de mim, cuidou e me ajudou muito. Eu achava que a doença não podia se espalhar, porque ela tinha me beijado muitas vezes. E não virava zumbi. Mas então, um dia fizemos sexo e ela amanheceu assim. Mas o que você tem feito?

-Porra, que barra, cara.  Eu sinto muito mesmo. Eu tenho andado por aí, entrando em lojas e pegando as coisas que me interessam. O mundo surtou bonito, David. As pessoas que sobraram estão todas piradas. Os maiores riscos que passei foram com gente viva. Desde então, tenho frequentado as cidades e ando por aí, em busca de coisas para passar o tempo. No início, como eles não conseguiam me ver, eu me divertia com eles. Matei tanto zumbi que enjoei. Hoje eu vivo como se estivesse num videogame sem final. Tudo é meio sem graça… Já pensei em suicídio diversas vezes… Mas então me liguei que se isso aconteceu comigo, só comigo, é porque tem alguma razão, cara.

Pra piorar, as drogas não fazem mais efeito em mim. Nada. A heroína é igual água. Eu não sei o que aconteceu. Mas acredite ou não, estou mais careta hoje do que quando eu nasci.  Tem uns dois dias que eu resolvi que ia dar um relax num lugar legal… Uma ilha ou coisa do tipo. Então estou dando um rolé por aqui pra achar uma moto legal e pegar a rodovia vinte para Hilton Head Island.

A droga parou de fazer efeito em mim também.

Escreveu David.

Magrelo leu aquilo, embolou o papel numa pequena bolinha e jogou na cabeça da menina no balanço.

-Cara eu acho que foram aquelas injeções que a gente tomava, meu… Lembra? Aquele troço era muito estranho. Dava umas reações doidas, febre, vômitos…

Eu também acho. Boa sorte.

– Ei David. Não acredito que você vai preferir ficar aqui parado do lado dessa mulher pelada vendo essa…. Coisa pra lá e pra cá nesta porcaria de balanço. Bora comigo, meu!

David sacou outra vez o bloquinho de papel e tornou a escrever.

Antes só que mal acompanhado. Seja bem ido.

Magrelo leu aquilo e começou a rir.

-Ah, David, David. Ainda não me perdoou por aquela babaquice, né? Foi mal, cara. Sei que passei dos limites, mas qual é? Todo mundo tem direito a perdão. Até um boçal como eu.- Ele disse.

David não esboçou nenhuma reação, e então Magrelo levantou-se do banco.

Bem, David. Se é assim, vou embora então. Um abraço, cara. Foi bom te reencontrar. – Ele disse, estendendo a mão para David.

David hesitou mas apertou a mão do Magrelo.

-Tchau David. A gente se vê… Ou não! – Ele disse.

David emitiu um grunhido baixo. Limitou-se a acenar um discreto sinal de adeus para Magrelo.

O sujeito ajeitou o cachecol vermelho e a jaqueta de couro preta. Recolocou os óculos escuros saiu andando com o passo de bucaneiro bêbado. David Carlyle acompanhou o amigo com o olhar até ele dobrar uma esquina e sumir no final da rua.

Agora só lhe restava o vento gelado do fim da tarde que agitava a copa das árvores, a menina loura do balanço e Alice, a zumbi voluptuosamente nua, coberta de sangue.

Quando começou a anoitecer, a dor de cabeça e a tremedeira sinalizaram a David que se aproximava a hora de comer. Ele levantou-se do banco da pracinha e agarrando Alice e a menina loura pela mão, foram para o prédio. David notou que havia alguma coisa errada quando chegaram ao prédio e ele estava tomado por uma multidão de mortos que se acotovelavam em sanha frenética na tentativa de subir as escadas.

“Ah, não…” – Pensou David quando viu aquilo.

Ele agarrou a moça e a menina e caminhou apressado pela calçada. Viu que eram tantos os mortos tentando subir as escadas que tornava impossível a entrada pelo caminho principal.

David então pegou a rua paralela e andou por ela até achar uma van esmagada num poste. David abriu a porta traseira da van e jogou Alice e a menina lá dentro.  Depois usando um pedaço de pau que estava no chão, ele travou a porta da van.

“Elas ficarão seguras aqui” – Pensou.

David verificou se as outras portas do veículo abriam, mas estava trancado.

David correu para o prédio, e vendo que seria impossível entrar pela passagem tradicional, saltou a barreira da rua estreita, e correu por ela até chegar no beco que levava à saída de emergência. Ele precisou empurrar alguns zumbis que se agrupavam por ali, de modo a entrar sozinho no pequeno depósito de material de limpeza.

Com o machado ele empurrou a tampa de acesso ao forro e a mangueira de incêndio caiu. Ele usou a mangueira para escalar   a parede e alcançar as escadas chumbadas na parede.

David subiu pelas escadas até chegar ao quinto andar. Na passagem da porta corta-fogo ele já podia ouvir a multidão de mortos tropeçando e colidindo nas escadas e portas do prédio.

David saiu para o corredor do quinto andar e viu zumbis por todos os lados. Ele correu para as escadas e à medida em que subia, mais e mais mortos ia encontrando.

“Tem alguma coisa errada acontecendo aqui.” – Pensou.

Quando David finalmente chegou no último andar, viu bolos de mortos andando de um lado para o outro.

“Parecem peixes num aquário.”

David correu para o heliporto e notou que a “casa” de Paul havia sido invadida. Os mortos haviam descoberto a geladeira e comeram toda a carne.

O lugar estava uma enorme bagunça, com as coisas reviradas. Fios espalhados para todos os lados, a Tv estava emborcada no chão, e as geladeiras tombadas estavam sujas de restos de sangue, carne e lama.  David ficou irado.

“Carniceiros malditos!”

Ele trancou a porta de acesso ao heliporto. Viu alguns zumbis andando por ali. David correu e começou a jogar um a um do alto do prédio. Escutou os ecos dos corpos espatifando contra o asfalto muitos metros abaixo.

Quando finalmente ficou sozinho, David contemplou a necessidade de sair em busca de comida novamente.

Foi aí que ele começou a escutar um curioso chiado baixo, que era entremeado com um assobio fino. David estranhou aquilo. Pensou que o som viesse da televisão destruída no frenesi alimentar dos mortos, mas percebeu que o som vinha de trás de uma caixa. Ele puxou a caixa e encontrou ali o radio de ondas curtas. Estava ligado.

David pegou o radio e começou a mexer no dial. O radio gemeu em frequências de chiados diferentes até que subitamente, uma fraca voz humana chamou sua atenção. Era uma transmissão real, porém, muito cheia de chiados e interferências. David não entendeu absolutamente nada do que ela dizia. O zumbi ficou escutando. Tornou a mexer no dial e o marcador de sintonia passou de frequência em frequência, mas todas elas estavam em branco.  Então, ele retornou o dial para a frequência em que havia escutado o sinal. Mas ainda havia muito ruído.

Ele percebeu que havia dois fios saindo do aparelho. Um deles, de cor amarela, estava soldado na antena do aparelho. O outro, azul, entrava por um orifício cortado na lateral do aparelho.

David sabia que certamente aquela era uma transmissão de fora dos Estados Unidos, porque a transmissão de ondas curtas viaja pela ionosfera em saltos. E do alto do predio mais alto da cidade, ele tinha uma melhor recepção do sinal. David notou que o fio  do radio estava enrolado em um enorme novelo. Aquilo só poderia indicar uma coisa.

Ele agarrou o radio e correu com ele, para as escadas. Levou o radio até o platô do heliporto, no ponto mais alto do edifício. A transmissão melhorou um pouco, mas ainda chiava muito. David olhou ao redor em busca de alguma pista. Foi quando seus olhos viram dois fios nas cores dos que saíam do radio pendendo da comprida haste do pára raios do alto do prédio.

“Só pode ser isso!” – Ele pensou. David correu até o canto do heliporto, onde havia um tipo de quadro de luz. Atrás dele, havia uma escada metálica que levava até o pára-raios.

Ali David encontrou os fios compridos.

“Então era assim que ele obtinha informações.” – Pensou enquanto emendava os fios.

Após alguns minutos de trabalho, o sinal ficou bem mais nítido e David Carlyle ouviu a transmissão. Inicialmente parecia uma pessoa falando alguma coisa, mas em uma língua desconhecida. David sentou-se no chão perto do radio e ficou escutando.

Após um tempo, a língua que parecia francês mudou para japonês. E depois, para espanhol, e finalmente falou em inglês:

… Esta é uma transmissão automática na frequência 6.127 kHz…

(pausa)

Atenção, se você está ouvindo esta transmissão, saiba que ainda existe esperança. Somos um grupo de pesquisadores no Brasil. Estamos na cidade do Rio de Janeiro. No centro de pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz. Estamos trabalhando na cura. Estamos com as pesquisas adiantadas e já obtivemos um sucesso relativo na cura dos contaminados. Estamos isolando uma área da cidade para tratar dos doentes. Gupos de sobreviventes são bem vindos. Temos um posto de triagem instalado na ilha de Paquetá para tratar dos doentes. Estamos alocando grupos de sobreviventes nas ilhas do litoral de Angra dos Reis. Se você pertence a um grupo de sobreviventes, dirija-se para o Brasil, costa do Rio de Janeiro. A triagem será feita em Paquetá e as famílias serão encaminhadas para as ilhas.

As ilhas estão livres da contaminação! Repetindo: As ilhas estão livres da contaminação!

Mas é proibido dirigir-se diretamente para as ilhas. Estamos recebendo refugiados de varias partes do mundo. Embarcações que não se identificarem na triagem serão sumariamente afundadas. As coordenadas para a triagem são: 22°45’30″S 43°06’33″W

Temos comida, água alimentos e remédios.

Este aviso será repetido em 64 línguas.

(pausa)

Si tratta di una trasmissione automatica sulla frequenza di 6.127 kHz

David anotou correndo as coordenadas no bloco. Enquanto a mensagem se repetia em italiano, David tentava conter a excitação. Havia uma cura! Aquela notícia era um pequeno flash de esperança em meio a escuridão do caos. Mas o Brasil parecia uma floresta distante e perigosa. Como chegar lá?

David desconectou o radio e guardou-o em um lugar abrigado da chuva. Ele sabia que precisaria obter alguma comida para iniciar a jornada.

Pegou o machado e desceu pelas escadas do prédio.

Ganhou as ruas. Estava escuro e ele precisava obter comida. A dor de cabeça começava a latejar. David notou que estava precisando comer carne em intervalos cada vez menores. Temeu que aquilo fosse um sinal de que a doença estava gradualmente avançando em seu organismo.

David andou pela cidade em busca de alimento. Olhava os mortos vagando em suas permanentes e contínuas migrações na eterna caça da carne dos vivos. Agora que ele sabia que havia uma cura, a ideia de comer um ser humano lhe parecia mais repugnante. Mas a dor nos músculos, articulações, e a absurda cefaléia lhe impeliam a buscar a carne para fazer aquela dor maldita parar.

David andou sem rumo pelas ruas escuras da cidade. Sabia que Alice ainda não estava com os sintomas dele, pois ela havia se empanturrado da carne do tarado mexicano.

Enquanto andava, David escutou o som dos gritos desesperados da horda. Ele sabia o que aquilo significava: Comida.

David correu na direção dos gritos e viu passar perto de um viaduto uma multidão de zumbis que avançava por um terreno baldio em direção a um velho estacionamento.

Forçando a visão na escuridão da cidade, David viu um jovem saltar um alambrado em direção ao estacionamento. A massa insana de zumbis vinha correndo atrás dele.

David percebeu que havia uma entrada para o pátio fechada com uma não muito grossa corrente de ferro e um cadeado.

Foram necessárias duas machadadas para partir a corrente. David esgueirou-se pelos carros para se aproximar do garoto. Quando chegou perto o suficiente, viu a multidão de corpos forçando o alambrado. David notou que estava a ponto de quase perder o jantar quando viu um zumbi se aproximar do menino, acuado entre dois carros.

Mas bastou uma machadada bem colocada co cocuruto do morto para tirar o zumbi do colar dourado da reta. David estava preparado para dar uma segunda machadada no menino, mas para seu espanto, ele correu assustado e o abraçou. Por um breve instante que seria difícil de mensurar, David pensou em não matar o moleque. Mas a dor era muito forte e estava corroendo-lhe as entranhas. Além disso, seroa impossível escapar da horda com o menino à tira-colo. O que aconteceu a seguir envergonharia para sempre David Carlyle, caso alguém tivesse testemunhado a cena.

David rapidamente agarrou o moleque pelo braço e meteu uma bela dentada no pescoço dele.
Os dentes de David Carlyle afundaram na carne macia e quente e  o sangue jorrou em profusão.
O moleque ficou se debatendo, na tentativa vã de se libertar do abraço mortal de David Carlyle,  mas rapidamente perdeu as forças e tombou sem vida nos pés dele. David notou que o alambrado estava prestes a ceder e mordeu o mais que ele pôde aquela carne quente. Ele engolia grandes pedaços e com força repuxava os músculos e artérias do pescoço do garoto. Quando chegou ao coração do menino, ele ainda batia e esguichava sangue para todo lado.

David arrancou grandes nacos de carne e escondeu os pedaços no bolso. PLanejava levar para Alice e para a menina do balanço.

“Preciso arrumar um nome para ela”. – Ele pensou.

Nisso, o alambrado caiu e a horda pisoteou os da frente. David largou a carcaça mais que depressa e correu para o canto do estacionamento, ocultando-se discretamente na escuridão. Em meio a sombra, ele viu o grupo saltar sobre o que ainda restava do garoto.
Com o estômago cheio, e sem a dor a esmagar-lhe as juntas, David partiu para o centro. Precisava correr, pois assim que os mortos comessem toda a carne do menino iriam sentir o cheiro do sangue fresco nos bolsos de David e viriam atrás dele como cães.

David correu pelas ruas escuras até passar em frente a um supermercado. Ele sabia que à aquela altura, os supermercados eram locais perigosos. Quando o apocalipse tomou conta das cidades as primeiras coisas que as pessoas sadias fizeram foi iniciar uma violenta onda de saques e ataques a lojas e mercados.  Incendiavam casas, roubaram carros. A confusão do pânico nas cidades provocou um êxodo na população que buscava fugir das zonas de conflito. Isso levou mais gente às ruas e facilitou o trabalho dos mortos. Com muita oferta de alimento, os zumbis eram sujeitos dos seus instintos primitivos, e apenas mordiam as pessoas, não focalizando o ataque em alvos. No início, as pessoas mordidas isolavam-se com as sadias em pequenos abrigos e em poucas horas após a mordida,  já manifestavam os primeiros sintomas.

Enquanto havia muita comida, os zumbis comportavam-se como os dragões de Komodo. Eles mordiam as pessoas e passavam a segui-las, farejando o rastro de sangue. Em menos de um dia, o rastro os levavam invariavelmente à carcaça. Se o zumbi demorasse a achar o corpo, ele encontraria outro zumbi. Mas isso era algo raro, na medida em que no início, as pessoas não tinham coragem de se desfazer de seus entes queridos contaminados e apenas os isolavam em quartos, veículos e coisas do tipo.  Como os zumbis eram lentos, isso provocou uma explosão demográfica de defuntos cambaleantes.

O que os humanos ainda não sabiam é que ao detectar a carne, os zumbis começavam a urrar de um modo específico que atraía outros zumbis. E sempre que eram mantidos confinados, eles logo atraiam as hordas. Foi assim que as grandes cidades se viram abarrotadas de mortos.

David entrou no mercado em busca de sacos plásticos. Os sacos eram um eficiente método  para ocultar o cheiro da carne fresca.

No mercado, ele conseguiu arranjar sacos plasticos para colocar a carne. Derramou detergente nos bolsos na esperança de ocultar o cheiro do sangue do garoto e dificultar os rastros.

David correu pela cidade, mas percebeu que sua tentativa de dissimular o cheiro do sangue tinha sido em vão. Ao olhar para trás, ele viu uma multidão de mortos vindo em seu encalço.

“Merda!”

David Carlyle correu o quanto pôde, mas à medida em que corria, mais e mais mortos se incorporavam ao grupo, em uma maratona maníaca atrás dele. Ele sabia que o sangue do garoto havia encharcado seu sobretudo e ao correr David espalhava o delicioso aroma da morte pela cidade. Os mortos vinham pra cima dele como moscas.

Os zumbis estavam chegando perigosamente perto. David  pensou que talvez não conseguiria escapar.

Subitamente, uma moto de corrida surgiu na frente dele.

-Pula David! – Gritou Magrelo.

David saltou na garupa da moto. Era uma Honda CBR 1000 RR preta, de mil cilindradas. Magrelo acelerou a moto e os zumbis focaram para trás.

Enquanto a moto esguelava em alta velocidade pelas ruas repletas de detritos, Willy Magrelo gritava:

-Porra, tu é maluco, cara! Eles quase te pegaram!

David não dizia nada. Apenas agarrava-se à cintura do amigo. O vento chicoteava seu rosto.

Algum tempo depois, os dois pararam com a moto num estacionamento.

-Acho que tá tranquilo aqui. – Disse Magrelo desligando a moto. – Nenhum sinal de zumbi além de você, meu chapa.

David desceu da moto. Meteu a mão no bolso e tirou a caderneta, toda suja de sangue e detergente.

-Puta, que nojo, cara! Não vai dizer que é sangue de gente? É?

Iluminando com o farol da moto, David escreveu no papel:

É! Por isso que me perseguiam. Preciso levar comida para as meninas.

Depois estendeu para Magrelo. Ele leu e ficou pensativo.

– Caralho, cara. Você está em apuros.

David assentiu com a cabeça e pegou o bloco de volta, tornando a escrever.

Descobriram a cura. Há um grupo, no Brasil. Eles estão no Rio de Janeiro.

-Que? Cê tá de sacanagem!

David moveu a cabeça negativamente.

-É verdade mesmo, David?- Magrelo estava incrédulo.

David assentiu com a cabeça.

-Porra, cara. Então temos que ir pro Brasil, mané!

David tornou a escrever:

Eles estão colocando as pessoas curadas em ilhas. Vão repovoar o planeta.

-Precisamos entrar nessa, cara. Brasil? Tem certeza?

David assentiu com a cabeça.

-Porra eu pensei que lá só tinha macaco e bandido. Bora, cara! Vamos que eu quero chegar a tempo de pegar o carnaval! – Disse Magrelo, fingindo sacudir maracas no ar.  David voltou a escrever:

Temos que levar as meninas.

-Quê? Ah, cê tá maluco, David. Porra, cara! Levar como? A mulher é gata e tudo mais, só que ela é um zumbi, mermão. Se liga! Ela é um defunto, meu!

David estava resolvido. Pegou o bloco da mão de Magrelo e riscou uma linha abaixo do que já havia escrito:

Temos que levar as meninas.

-Tá. Ok, ok. Não precisa brigar. Vamos pensar, David. Pensa desgramado! Pensa! Como vamos fazer pra levar elas duas pro Brasil com a gente? – Magrão perguntou, alisando o tanque de combustível da moto.

David deu de ombros, indicando que não sabia.

-Como que você soube desse lance no Rio?

Eu ouvi no radio de ondas curtas.

-Radio? Que radio? Não tem luz, maluco. Como que você ouviu radio sem luz?

Um cara adaptou um esquema de painel solar. Fez um radio alimentado com baterias.

-Ah. Tô ligado. Ondas curtas… Aquela parada que ninguém nunca escuta, né?

O radio está repetindo a mensagem. Disseram que tem pessoas indo para a cidade, saindo do mundo todo.

-Avião?

Acho que não. Navio. Os sistemas de vôo e suporte aéreo não devem estar funcionando.

-Hummm. Pode crer, brother. É navio mesmo. Bom, eu acho que o mais provável é que as pessoas acabem pegando esta transmissão e cedo ou tarde, migrem para as regiões costeiras, para pegar os navios e ir pro Brasil. Tudo que temos que fazer é achar um porto, entrar num navio desses e dar no pé com eles.

Só que eu sou zumbi. E a Alice também.

– Isso é apenas… Um detalhe. Vem, vamos nessa. Onde que está a tal Alice?

David pegou o papel e escreveu.

Estão trancadas numa van, perto do prédio onde está o radio, mas a área está lotada de zumbis.

-Sobe aí, rapá! – Disse Magrelo. David subiu na garupa novamente e ele acelerou a moto para fora do estacionamento.

Minutos depois os dois passavam perto do predio.

David apontou o dedo e Magrelo viu a van engastalhada no poste. O lugar estava repleto de zumbis que correram atrás da moto ao sentir o cheiro das roupas de David.

-Cara não vai dar pra parar aqui. Vamos mais à frente. – Gritou Magrelo, acelerando a moto.

Eles avançaram cerca de duzentos metros. E Magrelo finalmente parou a moto.

-David, eles estão sentindo o cheiro da carne aí na tua roupa, cara. Vamos fazer o seguinte. Em vez de você ir lá, eu vou lá. Tu fica aqui perto da moto e eu trago as meninas. Teremos que arrumar outro veículo. Essa belezinha aqui não vai ser útil para levar uma cabeçada com a gente.  Eu tenho uma coisa para dar pra aqueles caras mastigarem! – Disse, tirando uma granada do bolso da jaqueta.

David concordou em silencio. Enfiou a mão no bolso e em vez de tirar o bloco pegou o saco com as carnes do menino.

-Eca! – Magrelo fez uma cara de nojo.

David estendeu o saco para o amigo.

-Deus queira que eles não sintam o cheiro dessa porra! – Ele disse. Em seguida, viu uma poça de água imunda na sarjeta. Passou o saco com a carne na água pútrida.- Tomara que isso ajude.

Magrelo correu na direção dos zumbis.

Enquanto corria ele pensava no risco que estava correndo. E isso o animava. Magrelo estava sentindo uma adrenalina correndo em suas veias como há muito não sentia. A vida de um invisível aos mortos era sem graça. O medo da morte dava a pitada de emoção na medida exata em que ele vinha buscando.

Ao passar pelos primeiros zumbis, Magrelo viu que estava realmente invisível aos mortos.

“Eu acho que tenho cheiro de defunto” – Pensou.

Ao chegar na van batida, Magrelo viu a porta presa com a madeira.

Ele precisou chutar com força para tirar a madeira do lugar e liberar a porta traseira da van.

Ali dentro, encolhidas e com o olhar perdido, estavam as duas. Alice estava agachada de cócoras, segurando na mão da menina que tremia miseravelmente, e olhava pra ela sem expressão.

Magrelo entrou na van e fechou a porta.

-Olha, meninas. Tenho um presente, mas vocês terão que ser rápidas! – Ele disse, rasgando o saco.

As duas pareciam congeladas e subitamente saltaram sobre o saco, comendo com vontade. A criancinha est5ava muito mais afoita que a mulher.

-Cruzes! Vão se engasgar! Calma! – Magrelo pedia assustado.

Nisso, começaram as pancadas na van.

“Eles sentiram o cheiro” – Pensou.

As duas comiam os últimos pedaços de carne com avidez. A van começava a ser sacudida. Do lado de dentro, Magrelo se esforçava para segurar a porta, na tentativa desesperada de impedir que os mortos invadissem o veículo.

“Porra por que o idiota do David não deixou para alimentar os bichinhos dele depois?” – Magrelo Pensava. -“Não vou conseguir segurar muito tempo!”

– Comam logo esta porra! – Gritou.

A van balançava de um lado para o outro.

-Desculpa o mau jeito aí! – Magrelo empurrou a menina com o pé e deu um murro na cara de Alice, que caiu para trás. Ele agarrou o saco com os últimos pedaços de carne e sangue. Lançou na direção do banco do motorista.  Ele viu o saco cair sob o painel, perto do pedal. Um segundo depois, a porta se abriu numa paulada. Um monte de mortos pulou dentro da van.

Magrelo agarrou a mão de Alice e puxou as duas para fora, tentando vencer a correnteza de zumbis. A multidão de mortos vivos se acotovelava dentro da van tentando chegar no banco do motorista.

-Bora porra! – Gritou Magrelo, puxando Alice pelo braço. Ela por sua vez, estava de mãos dadas com a menina loirinha, e uma puxava a outra. As duas queriam também entrar pela van adentro para comer os restos do saco plastico, mas Magrelo se esforçou em arrancá-las dali. Meteu a mão no bolso e tirou a granada de fragmentação. Com os dentes arrancou o pino de segurança e lançou pra dentro da Van.

-Vem, porra! Ung! – Magrelo gemia, usando toda força que tinha para arrastar as duas.

Quando os três se afastaram o suficiente, David veio correndo, sem o casacão.

A van explodiu, lançando pedaços de zumbi para todos os lados.

Todos caíram no chão.

David agarrou na mão de Alice e ficou na duvida se estava vendo coisas quando notou um frágil sorriso brotar no rosto da mulher nua.

-Vem, vamos sair daqui! – Gritou Magrelo, apontando na direção da rua de cima.

Enquanto o carro ardia em chamas e corpos cambaleavam pegando fogo, os quatro correram em direção a outra rua. Ali havia uma concessionária de veículos de luxo.

-Fica aí!- Gritou Magrelo apontando o chão. David segurou as duas, seguindo as orientações do amigo.

Minutos depois surgiu um carro esporte branco, conversível.

-Bora!  – Gritou Magrelo.

David empurrou as meninas para o banco de trás. Saltou no panco do carona e viu pelo retrovisor a cidade de Atlanta ficando cada vez mais para trás.

Magrelo dirigia como um louco. O carro, uma Mazerati gran Cabrio branca, fazia barulho como um avião.

-Uhuuuuu! Sempre quis pilotar uma belezinha dessas, mermão! – Gritava satisfeito. David olhou para o céu e viu as estrelas. O vento da noite chicoteou seu rosto. Ele olhou para trás e viu Alice, ainda de mão dada com a menina.

“Espero que ainda haja esperança pra elas.”

-Segure-se, David! Vai ser um longo caminho até o porto de Savannah!

O carro de Willy Magrelo sumiu na imensidão da estrada, deixando para trás a cidade dos mortos. Os grilos, morcegos e animais da noite marcaram sua presença sombria enquanto corpos abjetos cambaleavam na escuridão.

Fim da primeira temporada

Zumbi – Parte 20

Comments

comments

Eu dei duro aqui

Com 15 anos de sangue suor e lágrimas, eu me esforcei para fazer um dos blogs mais antigos e legais do Brasil. Mis de 5000 artigos, mais de 100.000 comentários, mais de 20 livros, canal, programa de rádio, esculturas... Manter isso, você pode imaginar, não é barato. Talvez você considere me apoiar no Patreon e ajudar o Mundo Gump a não sair do ar.
Ajuda aí?

Conheça meus livros

error: Alerta: Conteúdo protegido !!