O primeiro anúncio do Brasil

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Hoje quando eu voltava pra casa depois e um dia cansativo, notei que meu radio-tevê-celular havia ficado sem bateria. Eu tive que voltar andando até a praça XV como faço sempre para pegar as barcas pra nikity city quando percebi o quanto o percurso parece mais chato e cansativo quando não estou ouvindo rádio. Porém, na falta do rádio para ocupar minha atenção, pude observar mais as coisas ao meu redor. A primeira constatação que fiz foi a quantidade de publicidade por todos os lados. Existiam dezenas, talvez centenas de folhetos pelo chão no caminho que percorri até as Barcas.

Enquanto eu andava, via pelas paredes cartazes anunciando shows, pagodes e festas. Passei por um sujeito que me entregou um papelzinho de desbloqueio de celular e “compro ouro”. Ao chegar na estação das barcas, uma moça dava folhetos de uma loja de roupas, nas paredes havia uns anúncios de imóveis em são Gonçalo. Ao entrar na barca, eu percebi que naquelas televisões de bordo passavam muitas propagandas também.

De fato, estamos num mundo que briga por nossa atenção 24 horas por dia. Veja você que neste post mesmo, tem propaganda bem aí abaixo do título. Você liga a televisão e vê o que? Propaganda. Você entra na net e vê o que? Propaganda. Você abre seu email e vê o que? Propaganda de “aumente seu pênis”. Abre uma revista, abre um jornal. É publicidade atrás de publicidade. Anúncio atrás de anúncio.

Existem pessoas que atacam este estilo de vida embrenhado em anúncios diversos, dizendo que isso é ruim. E quando a barca saiu, eu estava pensando justamente nisso. Será assim tão ruim viver cercado de publicidade? Eu não sei, porque já nasci neste mundo e não conheço a outra opção, que é o mundo utópico sem anunciantes. Mas eu penso que num mundo assim, onde ninguém anuncia nada, como as pessoas ficam sabendo onde as coisas são vendidas? Ou mesmo o que existe para comprar? Então eu comecei a refletir se o que causa o mal estar social na questão da publicidade é a publicidade invasiva. Aquela que te agarra pelo braço, que te coage onde quer que você vá. Que salta na sua frente de calcinha e sutiã bem na curva da serra de Friburgo. E daí eu me peguei pensando em como isso chegou ao ponto que chegou. Quer dizer, houve um tempo, lá atrás, em algum lugar do passado em que simplesmente não existia anúncio, pelo simples fato de que ninguém sabia que poderia ser feito. E esta idéia meio louca me levou a imaginar quem teria sido a pessoa genial a bolar o primeiro anúncio da história do Brasil.

Comecei a imaginar em que época mais ou menos teria se dado a primeira publicidade brasileira. O meu primeiro palpite foi logo que se colonizou o Brasil. Algo como 1550 a 1600, já que antes disso só haviam os índios, e os índios (os daquela época, já que hoje alguns índios tem até tv de plasma) não tinham uma economia baseada no capital, e sim na troca e compartilhamento socialista de bens e serviços, o que implica no fato de que anúncios não existem por não terem necessidade de existir. Então, se foi digamos lá pra 1600, o que poderia ter sido anunciado? E como tal produto ou serviço foi anunciado? Daí comecei a pensar que o mais lógico deveria ser que o produto anunciado fosse algo de grande valia num perído de colonização. Talvez armas, talvez animais de transporte, como cavalos ou tração, como os bois. Temi que o primeiro anuncio brasileiro pudesse ter sido de escravos.

Mas então me vi com uma questão complicada, que é determinar se uma anunciação de venda deveria ou não ser considerada como um anúncio. Isso porque, se pensarmos bem, o mais provável é que no passado do nosso país, com 99% de analfabetos, o comércio devia ser feito de forma bem similar ao que hoje temos com os camelôs. Os camelôs divulgam seus produtos aos berros, como na feira. Mas podemos considerar berros como anúncios? Eu acho que sim. Mas isso implica em aceitar que algo fugaz como uma fala, seja considerada como algo comprovável. E isso é obviamente impossível (até que alguém invente a viagem no tempo).

Então, eu acho que só posso considerar mesmo o primeiro anúncio brasileiro em mídia impressa. Pensando nisso, voltei para casa correndo e tão logo cheguei coloquei-me a vasculhar uma série de livros e materiais diversos da Fabulosa Biblioteca da Bat-Gump-Caverna e descobri finalmente que o primeiro anúncio brasileiro não era de armas, nem comida, nem animais e felizmente, nem escravos.

Aqui está o primeiro anúncio brasileiro (o texto está com a grafia original em português antigo):

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ANNUNCIO

Quem quizer comprar huma morada de cazas de sobrado com frente para Santa Rita falle com Anna Jouquina da Silva , que mora nas mesmas cazas , ou com o Capitão Francisco Pereira de Mesquita que tem ordem para as vender.

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Então para minha surpresa o primeiro anuncio brasileiro foi um classificado. Alguém querendo vender imóveis. Este anúncio foi publicado na Impressão Régia em 1808. Antes deste anúncio, toda a publicidade “impressa” que se conhecia no Brasil estava em cartazes escritos à mão e colados nas paredes. O primeiro anúncio brasileiro coincide com a chegada da corte portuguesa ao Rio. O Brasil entrou tardiamente (Ê sina!) no mundo da publicidade. Bem antes, em 1650 os jornais ingleses exibiam propagandas. Neste tempo, um jornal londrino tinha em média seis publicidades por edição. Nos Estados Unidos, o primeiro anúncio foi aparecer em 1704, no jornal Boston Newsletter.

Produto mesmo, como vemos hoje nos anúncios, só foi aparecer por aqui depois da segunda metade do século 19, quando uma era de novidades incríveis surgia no mundo e vinha parar aqui. E sabe porquê? Porque a escravatura fora abolida e com o fim do lucrativo negócio de escravos africanos, os até então traficantes negreiros precisaram encontrar alguma outra coisa que desse lucro e esta coisa foram os produtos de alto valor agregado, que começaram a aportar no país pela mão desses caras. Eram elixires para todo tipo de mal, bebidas, sorvete, charutos, relógios e até curiosidades incríveis, como o gramophone, a “máchina que falla” e uma coisa fenomenal chamada omniographo, que nada mais era que o cinema.

Mas o produto mais cobiçado e símbolo inequívoco de status era o piano. Toda familia que se prezasse na cidade do Rio deveria ter um. Quase todos vindos da França e da Inglaterra, com teclas de marfim.

É isso aí.

Comments

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7 respostas

  1. Muito bom o post! Durante a leitura cheguei a pensar se a carta de Pero Vaz de Caminha pudesse ter sido candidato ao primeiro anúncio do Brasil! Logo de cara já ‘vendendo’ a nova terra ao reino português… 😆

  2. [quote comment=””]Muito bom o post! Durante a leitura cheguei a pensar se a carta de Pero Vaz de Caminha pudesse ter sido candidato ao primeiro anúncio do Brasil! Logo de cara já ‘vendendo’ a nova terra ao reino português… :lol:[/quote]
    POis é, isso faz um certo sentido, mas na carta Caminha não estabelece um preço ou propõe claramente um negócio, apenas usando a mesma para relatar o que viu por aqui. Por isso eu não considero a carta como anúncio.

  3. Imagino que seja de conhecimento nacional a lei Cidade Limpa, que o prefeito Kassab estipulou em SP/Capital. Quando começou a se falar nela, foi uma xingação absurda, que ele era arbritario, insano, inconstitucional, que geraria desemprego, e tudo mais que se pode apregoar.
    Hoje, andando por SP, tenho visão das arquiteturas que ladeiam as avenidas e viadutos. Um exemplo é o minhocão, que atravessa boa parte do centro da cidade.* Têm prédios ali com muito mais de 50 anos. E eu nunca tinha reparado nele.
    Os paulistas, quando vão até campinas, ou santos, que são cidades ‘médias/grandes’ voltam falando que São Paulo é muito mais bonita, mais… visualmente limpa. A publicidade exagerada e sem ordem incomoda. E nem sempre sabemos que isso incomoda.
    Até mesmo em fotos de NY, capital da publicidade outdoor, o incomodo pela poluição visual é nitido.
    Não tô fazendo propagando do Kassab, mas o loirinho acertou…

    * quem não conhece o minhocão, em videos do youtube que mostra o glub-glub da tv cultura ele aparece na abertura. Se eu achar o link, posto aqui.

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