Moranbong: A banda dedicada a enaltecer o líder norte coreano

É impressionante demais o poderoso culto à personalidade que se faz presente na Coreia do Norte. Este é talvez um dos mais marcantes traços culturais deste país.

Sabe-se que o culto à personalidade dos líderes supremos na Coreia do Norte existe há décadas e pode ser encontrado em muitos exemplos, alguns beirando a histeria coletiva. Embora não seja reconhecido oficialmente pelo governo norte-coreano, muitos desertores e visitantes ocidentais afirmam que há duras penas para aqueles que criticam ou não tratam o regime com o “respeito adequado”. – Em outras palavras, devoção suprema e irracional.

O culto à personalidade começou logo após Kim Il-sung tomar o poder em 1948 e foi grandemente ampliado após sua morte, em 1994 como um mecanismo planejado de propaganda e controle interno.

É claro que eu não sou idiota de achar que isso é algo que somente a Coreia do Norte tem. O culto à personalidade é um instrumento poderoso de controle social, e por isso já surgiu diversas vezes no mundo, predominantemente com os Faraós, os César de Roma, Papas e diversos reis. Em tempos mais modernos, outros países tiveram cultos à personalidade em vários graus como o de Joseph Stalin, na União Soviética.

Juche e a cultura do líder supremo e o Songun

Entretanto, eu acredito que nada conseguiu se comprar com o grau histérico com o qual o culto à personalidade na Coreia do Norte foi levada à cabo. O culto também é marcado pela intensidade dos sentimentos das pessoas e de sua devoção a seus líderes, e o papel-chave desempenhado por uma ideologia confucionista do “familismo”, tanto na manutenção do culto e, portanto, na manutenção do próprio regime. O culto norte-coreano à personalidade é uma grande parte do totalitarismo e do socialismo norte-coreano. Kim Il-sung desenvolveu a ideologia política da ideia “Juche”, geralmente entendida como “autossuficiência”, e a desenvolveu ainda entre as décadas de 1950 e 1970.

Juche tornou-se o principal guia de todas as formas de pensamento, educação, cultura e vida em toda a nação até Kim Jong-il introduzir a política Songun (militares em primeiro lugar) que aumenta a filosofia Juche e tem um grande impacto nas políticas econômicas nacionais.

De acordo com Suh Dae-sook, o culto à personalidade em torno da família Kim requer total lealdade e subjugação e estabelece o país como uma ditadura de um homem só através de sucessivas gerações. De uma certa perspectiva a mecânica opera de modo similar as dinastias egípcias.

A constituição de 1972 da Coreia do Norte incorpora as ideias de Kim Il-sung como o único princípio orientador do Estado e suas atividades como a única herança cultural do povo. Segundo a New Focus International, o culto à personalidade, particularmente em torno de Kim Il-sung, tem sido crucial para legitimar a sucessão hereditária da família, e Park Yong-soo disse na Australian Journal of International Affairs que o “prestígio do Suryong (líder supremo) recebeu a mais alta prioridade, sobre tudo na Coreia do Norte”.

Kim Jong-un seria um ditador? Enquanto seus apoiadores dizem que não, afinal ele disputou e ganhou eleições limpas. Fontes de notícia da própria Coreia do Norte mostram que ele levou o pleito com 100% dos votos para ele, hahahaha (serião!).

Um universo em órbita de uma única família

A Coreia do Norte está saturada de propaganda estatal num nível distópico . Os sinais de rádio externos estão bloqueados, enquanto os rádios que tocam mensagens de estado são instalados em todas as casas e impossíveis de desligar. Desligar o radio que só fala bem do líder é pode ser visto como um ato criminoso.

Máquinas de fax e acesso à internet são ilegais, exceto por um pequeno grupo de elite confiável. Os computadores devem ser registrados na polícia como se fossem rifles de caça. As escolas funcionam também como centros de doutrinação; as crianças aprendem canções com títulos como “Não temos nada a invejar no mundo” assim que podem falar. Muitas cidades da Coreia do Norte não têm carros ou pouca comida além da farinha de milho, mas todas têm uma sala de cinema , onde os 40 filmes produzidos todos os anos por estúdios estatais retratam a grandeza da família Kim e o horror do mundo exterior.

O esquadrão do prazer

Segundo este livro de um espião que deu no pé, existe um “esquadrão do prazer” criado pelo pai de Kim Jong-un.
A TIL North Korea alista cerca de 2.000 mulheres como parte de um ‘Esquadrão do Prazer’. Estas são mulheres atraentes que fornecem entretenimento e serviços sexuais para altos funcionários. Um desertor diz que Kim Jong-il era “sentimental quando bêbado e até derramou lágrimas”

Os norte-coreanos geralmente se referem a garotas bonitas como “garotas da Seção 5”, pois provavelmente eram levadas ao serviço pela Seção 5 do Departamento de Organização e Orientação, responsável pela vida privada de Kim Jong-il. A Seção 5 mantém suas pousadas e vilas, e mantém a comida e o “entretenimento” lá.

As meninas são selecionadas aos 13 anos, passam por exames anuais até os 16 anos para a seleção final, fazem um ano de treinamento e ficam estacionadas dos 17 aos 24 anos em diferentes casas de férias e retiros de Kim.

 

Quando o inimigo mora com você, mas a grande ameaça é o outro

A expressão é tão limitada que mesmo certas cores estão fora dos limites para uso pessoal. Sem exposição a quaisquer ideias ou versões de eventos de fora da Coreia do Norte ou mesmo de colegas norte-coreanos não diretamente envolvidos na divulgação de propaganda, as pessoas não têm motivos para duvidar da versão oficial: elas estão vivendo no país mais feliz e rico da Terra

Eles são constantemente assediados por uma ameaça externa que pode acabar com tudo se não estiverem vigilantes. A ameaça americana é retratada na Coreia do Norte como sempre presente e horrível. Mesmo que você tenha dúvidas sobre o governo da família Kim, certamente eles são preferíveis aos monstros americanos que, os murais e as transmissões lembram os norte-coreanos em todas as oportunidades, cometerão crimes indescritíveis se o regime baixar a guarda. Por exemplo, jornalistas são um perigo pois podem abordar a tremenda crise de desvalorização da moeda de 2009 que fez a maioria dos norte-coreanos perder todas as suas economias da noite para o dia.

O instrumento de controle mais poderoso do regime não é a propaganda, no entanto, mas a lealdade, muitas vezes involuntária, que meticulosamente incutiu em todos os níveis da sociedade. Todos os cidadãos são divididos em três classes — o “núcleo” de uma elite de juízes e legisladores no topo, a classe média ou classe “vacilante” e a classe inferior ou como chamam, “hostil” — e daí em 51 subclasses.

À menor deslealdade (muitos são trabalhados até a morte em campos por não terem impedido um parente de desertar) e podem ser promovidos ao serviço do Estado, por exemplo, denunciando um vizinho ou membro da família. Isso produziu uma esquizofrênica máquina de denúncias, o que gerou um perene estado de medo.

Poucas coisas são pequenas demais ou básicas demais ser retido como “privilégios” para certas classes: fubá suficiente para alimentar sua família, uma panela de arroz se você prosperar no governo…

Trabalhos forçados

Os campos de trabalho forçado da Coreia do Norte se espalham por áreas do tamanho de São Paulo e abrigam cerca de 200.000 prisioneiros, ou um por cento da população norte-coreana, embora ninguém possa saber com certeza. Muitos nunca são informados por que foram presos, embora uma causa comum seja ter um parente que deserta; alguns nascem nos campos e lá morrerão. A vida nos campos é uma metáfora exagerada para a vida lá fora. As pessoas são aprisionadas com suas famílias, mas viradas umas contra as outras pela competição implacável por comida; informar é a forma mais segura de moeda. Os presos são informados de que seus únicos aliados são seus carcereiros, que, embora brutais, são os únicos fornecedores confiáveis ​​de comida e abrigo. Se um preso comete uma ofensa, todos os associados a ele serão punidos severamente. Segundo informações de espionagem, há uma prisão subterrânea sob pelo menos um dos campos, onde os presos passam fome e são torturados por pequenos delitos ou para forçar confissões contra a família.

Gradual perda de interesse

De acordo com um relatório de 2013 da New Focus International, as duas principais agências de notícias coreanas (Rodong Sinmun e Agência Central de Notícias da Coreia) publicam cerca de 300 artigos por mês apenas relacionados ao “culto de Kim”. O relatório sugere ainda que, com a morte de Kim Jong-il, o cidadão norte-coreano está cada vez mais cansado da grande quantidade de propaganda que envolve os Kims. Mas mesmo assim, o plano é massificar o Líder o máximo que puder.

O Daily NK também publicou em 2015 que a geração mais jovem está mais interessada no mundo exterior e que o governo está encontrando dificuldades para garantir a lealdade da geração “jangmadang” (mercado) e promover a idolatria do atual líder Kim Jong-un. Obviamente que se perguntado, o governo norte-coreano afirma que não há culto à personalidade, mas sim “adoração genuína ao herói”.

Seja como for, a necessidade de embalar a atratividade de um povo que gradualmente perde interesse em cultuar o líder, e está sedento e cada vez mais ameaçado pelo poder midiático dos ídolos sul coreanos, produziu um curioso mecanismo de misturar a musica jovem popular das boybands com o culto ao líder, gerando a Moranbong.

A Moranbong

A banda e o líder

Ela é também conhecida como Orquestra MoranbongOrquestra da Colina Moranbong e, em inglês, Moranbong Band e Moran Hill Orchestra, é uma banda fundada em 2012 composta exclusivamente por mulheres bonitas escolhidas pessoalmente por Kim Jong-un.

Durante as apresentações da Moranbong, não há ninguém nas ruas, parece final de Copa do Mundo. Há, no entanto, uma razão para isso: Além de ser legal de ver, como as musicas são em grande parte enaltecedoras do Líder, estar na rua durante a apresentação delas, pode ser visto socialmente como um “desrespeito ao líder”, e acredite em mim quando digo que você não vai querer saber o que acontece com quem é considerado desrespeitoso ao Kim…

ele também foi o responsável por encomendar instrumentos Yamaha para a banda. O líder esteve presente, na plateia, no show inaugural da banda, em 7 de julho de 2012. No referido show, a banda apresentou diversas músicas ocidentais e até de filmes da Disney, como “Bibbidi-Bobbidi-Boo”, do filme Cinderela, “Once Upon a Dream”, do filme A Bela Adormecida e até o clássico “My Way”, famosas pelas verões do Elvis e do Frank Sinatra, e um clássico eterno que eu amo, “Gonna fly now” do filme Rocky, um lutador, o que mostra que Kim, apesar de tudo, tem bom gosto.

Ao longo dos anos de 2012 a 2016, a Banda Moranbong foi um marco na vida da Coreia do Norte, apresentando-se com frequência para marcar eventos e feriados nacionais importantes.

Desde 2016 a banda tem aparecido com menos frequência, mas ainda faz apresentações ocasionais geralmente ao lado de outras bandas.

Uma curiosidade dessa banda, é que ela não é só feita de rostinhos bonitos. Essas moças tocam mesmo! Em contraste com as bandas femininas sul-coreanas, a integrantes da Banda Moranbong tocam seus próprios instrumentos devido ao fato de a educação musical ser muito valorizada na Coreia de Norte e aspirar por precisão e exatidão, suas habilidades musicais são descritas como “muito talentosas e firmes”. Você não pode fazer ideia do grau de exigência pelo qual cada uma dessas “paquitas do Kim” teve que passar para conseguir estar ali.
A Moranbong é composta apenas por mulheres, que pertencem ao exército do país, o que faz com que pareçam uma mistura de banda militar com grupo feminino.

Algumas músicas da Moranbong

Aqui estão algumas musicas para seu deleite. Espero que goste.  Os arranjos são excelentes. (Mas atente para a felicidade nos olhos do povo)

E esses trajes aqui hein? As meninas do Moranbong são conhecidas também pelo estilo ocidentalizado que apresentaram no início e pelas roupas relativamente ousadas, pelos padrões da Coreia do Norte e ainda que sem violar as regras de vestuário do país.

Aqui está a musica de Rocky: Pena que praticamente NINGUÉM do país saberá do que se trata pois por lei (com pena de morte e os carai) determina que somente o Kim Jong-un pode ver filmes dos EUA lá. Então aquelas imagens do Stallone correndo no telão ali, são a única coisa perto do filme que os coreanos viram.

E pra finalizar essa musica cujo título é: “meu país é o melhor!” – Musicão mesmo!

 

Bem, estamos chegando ao final deste post, espero que tenha sido divertido. Ao mesmo tempo, um ponto de reflexão sobre a necessidade de políticos usarem um sistema mainstream para controle social. Sempre que alguém estiver idolatrando um político para você, mantenha em mente que políticos não são deuses e estão LONGE PRA CARALHO de serem perfeitos. Geralmente, são escroques canalhas usurpando e controlando uma massa de manobra para se perpetuar no poder, de acordo com seus próprios interesses.

Preste especial atenção ao mecanismo do jogo do medo da ameaça externa. Pode ser o imperialismo americano, pode ser a ameaça comunista. Na igreja é o capeta… O medo é um potente instrumento de controle. 

Não confie em político. Nenhum. Nunca.
Sempre duvide.

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.
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