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Este ali sentado na varanda, às três e quarenta e cinco da manhã é Zé Walter.

Zé Walter está fumando um cigarro, usando apenas o short do pijama e olhando para a noite escura e sem lua. Zé Walter pensa no trabalho, como sempre faz. Ele era arquiteto, mas levou um calote de uma empresa, projeto grande, coisa pra acabar de montar o escritório e acabou perdendo tudo. Vendeu a sala, demitiu a secretária, mandou doar a mesa de desenho Arquimedes e trouxe o frigobar cheio de latas de cerveja pra casa.

Desde então ele meio que desbundou e vem ganhando o necessário para sobreviver de bicos. Faz um webdesign aqui, ajuda um colega num freela ali.  E segue a vida. Além de tudo ele é juri popular. Volta e meia é convocado para sessões intermináveis de julgamentos diversos. Já viu de tudo: Mãe que esquerteja bebê, pai que dá veneno de rato pro filho, candidatos políticos atirando em opositores, pedreiro matar mulher porque sonhou que ela estava traindo.

Nessas horas de santa paz, quando a Gisela dorme no quarto escuro, Zé Walter vai fumar na varanda e pensar na vida. Zé pensa na vida e em olhos pretos.

Ele esta pensando num julgamento de um ex-gerente do bicho, dono de milícia que era famoso por degolar seus desafetos lá pros lados de Desembargador Soares. Foi condenado por quatro votos a três. Zé Walter deu o voto de Minerva, desempatando o lance e mandando o “Lion” pro xadrez. O cara havia negado que pertencia a milícia e de fato, a maior prova que recaía sobre ele era uma tatuagem dos Thundercats no braço. Inúmeras testemunhas convocadas pela defesa foram taxativas em dizer que aquele não era o tal Lion. O próprio Lion chorou ao dizer que havia confessado para parar de apanhar na delegacia. Dizia que era motorista de van, que estava cobrindo um amigo de uma cooperativa que foi embora pra Salvador e endividado, sem poder cumprir com o pagamento da caixinha dos PMs, acabou preso num jogo de poder que o levou a parar no banco dos réus.

Segundo o motorista, ele não era o Lion, mas sim o “bucha”, um cara escolhido pelo próprio Lion para ir preso no lugar dele. Lion teria então tirado o time de campo, recuado para o interior até a poeira baixar. Esta era a linha de argumentação da defesa. No total seriam cerca de 45 defuntos sem cabeça nas costas do Lion e a pressão popular para uma punição exemplar era forte. Os jornais adoram degoladores.

Zé Walter lembrou que esteve na dúvida se de fato aquele era um bandido muito bem articulado, quase um ator ou se aquele homem era o tal Lion. As provas diretas, digitais, etc não batiam, pois o sujeito não tinha digitais. A polícia sabia que Lion também não as tinha. Aquilo era uma puta evidência de que o chorão da van poderia ser de fato o Lion. Afinal, quantas pessoas você conhece que de nascença não tem digitais?

Papiloscopistas foram convocados pelo Juiz para falar sobre as estatísticas de pessoas sem digitais. De fato, elas existem, mas são muito poucas.

Tinha que ter muito azar para um sujeito como aquele estar no lugar errado, na hora errada, parecer fisicamente com a descrição do Lion, possuir uma tatuagem e também não ter digitais.

Zé estava acostumado a essas coisas de julgamento. Não era a primeira e nem seria a última vez que apostou no escuro, baseado apenas no seu sentimento e dizer que o cara era culpado.

Quando o sujeito pegou a pena, levantou e olhou um a um do juri. No Zé Walter o homem chorão da van, ou Lion, deteve-se por dois ou três segundos. Segundos que pareceram-lhe uma eternidade.

Aqueles olhos escuros nunca mais saíram da cabeça de Zé Walter. E era por causa deles que ele fumava na varanda. A noite estava quente e Zé Walter olhou para o pouco de horizonte que aparecia entre a miríade de prédios.

Pensou no calor. Imaginou a cela imunda, cheia de bandidos fedorentos em que Lion estava naquela hora.

Ouviu um gemido. Uma mão quente o abraçou por trás. Zé Walter levou um susto mas logo relaxou ao levar as mãos para se proteger e sentir a pele macia da mulher.

-Vem dormir Zé. Larga esse cigarro.-Sussurrou Gizela, nua em pelo na varanda.

Zé Walter levantou-se. Jogou a guimba de cigarro pela varanda. A brasinha rodopiou no ar até sumir na escuridão.

Os dois foram para o quarto onde fizeram amor e depois dormiram.

No dia seguinte, Zé acordou com Gisela gritando da cozinha. O café estava pronto.

Zé Walter cambaleou até o banheiro onde escovou os dentes e tomou um banho frio, como era sua tradição. Sentou-se com a mulher na mesinha da sala. Conversaram amenidades sobre parentes e viagens. Ela contava sobre o trabalho dela numa fundação educacional e ele contou um pouco sobre o trabalho que estava tocando com o cunhado. Projeto de um clube do subúrbio. Reforma total. Não daria muito, mas quebrava um galho e daria pra fazer as contas da casa respirar no azul por mais dois ou três meses.

Gisela saiu apressada, cheia de recomendações como sempre.

-Amor tenho que ir. Não esquece de ligar pra sua tia. É o aniversário dela. Coloca o frango pra descongelar e não deixa de olhar a correspondência. Aquela conta do celular ainda não chegou e já tá pra vencer.

-Ahã. – Respondeu Zé, tomando mais uma xícara de café. Daquele monte de coisas havia registrado apenas a palavra “frango”, que lhe pareceu sem sentido à primeira vista. Também guardou em algum lugar da mente que ele tinha que olhar a correspondência.

Dali a umas duas horas, depois que leu todo o jornal, Zé Walter desceu para pegar a corresponência. Ao abrir a caixa, ali estava a carta da conta do celular e um envelope sem nada escrito. Lacrado.

Zé achou aquilo curioso. Pegou o elevador de volta para o apartamento com o troço na mão. Sem remetente e nem destinatário.  Olhou contra a luz do elevador, mas não se via nada, apenas um papel dentro. Papel grosso, que impedia a luz de passar.

Zé Walter abriu o envelope com cuidado, rasgando pela lateral. Dali tirou com os dedos a folha dobrada em quatro. Desdobrou com cuidado para ver um pequeno parágrafo escrito à máquina, no meio da folha.

“Filho da puta. Eu sei o que você fez. A culpa é sua. Isso não vai ficar assim. Você vai morrer. Até terça-feira a noite você vai cair. Não vai ter perdão.”

O coração disparou. Zé Walter engoliu em seco. Encostou na parede do elevador. Leu e releu o papel várias vezes. Era aquilo mesmo. Ele estava jurado de morte.

Os pêlos de sua nuca se arrepiaram e ele sentiu um gosto amargo na boca. Olhou o relógio. Daquela hora até a noite de terça feira eram dois dias e umas poucas horas.

CONTINUA…

Jurado de morte

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Este ali sentado na varanda, às três e quarenta e cinco da manhã é Zé Walter.

Zé Walter está fumando um cigarro, usando apenas o short do pijama e olhando para a noite escura e sem lua. Zé Walter pensa no trabalho, como sempre faz. Ele era arquiteto, mas levou um calote de uma empresa, projeto grande, coisa pra acabar de montar o escritório e acabou perdendo tudo. Vendeu a sala, demitiu a secretária, mandou doar a mesa de desenho Arquimedes e trouxe o frigobar cheio de latas de cerveja pra casa.

Desde então ele meio que desbundou e vem ganhando o necessário para sobreviver de bicos. Faz um webdesign aqui, ajuda um colega num freela ali.  E segue a vida. Além de tudo ele é juri popular. Volta e meia é convocado para sessões intermináveis de julgamentos diversos. Já viu de tudo: Mãe que esquerteja bebê, pai que dá veneno de rato pro filho, candidatos políticos atirando em opositores, pedreiro matar mulher porque sonhou que ela estava traindo.

Nessas horas de santa paz, quando a Gisela dorme no quarto escuro, Zé Walter vai fumar na varanda e pensar na vida. Zé pensa na vida e em olhos pretos.

Ele esta pensando num julgamento de um ex-gerente do bicho, dono de milícia que era famoso por degolar seus desafetos lá pros lados de Desembargador Soares. Foi condenado por quatro votos a três. Zé Walter deu o voto de Minerva, desempatando o lance e mandando o “Lion” pro xadrez. O cara havia negado que pertencia a milícia e de fato, a maior prova que recaía sobre ele era uma tatuagem dos Thundercats no braço. Inúmeras testemunhas convocadas pela defesa foram taxativas em dizer que aquele não era o tal Lion. O próprio Lion chorou ao dizer que havia confessado para parar de apanhar na delegacia. Dizia que era motorista de van, que estava cobrindo um amigo de uma cooperativa que foi embora pra Salvador e endividado, sem poder cumprir com o pagamento da caixinha dos PMs, acabou preso num jogo de poder que o levou a parar no banco dos réus.

Segundo o motorista, ele não era o Lion, mas sim o “bucha”, um cara escolhido pelo próprio Lion para ir preso no lugar dele. Lion teria então tirado o time de campo, recuado para o interior até a poeira baixar. Esta era a linha de argumentação da defesa. No total seriam cerca de 45 defuntos sem cabeça nas costas do Lion e a pressão popular para uma punição exemplar era forte. Os jornais adoram degoladores.

Zé Walter lembrou que esteve na dúvida se de fato aquele era um bandido muito bem articulado, quase um ator ou se aquele homem era o tal Lion. As provas diretas, digitais, etc não batiam, pois o sujeito não tinha digitais. A polícia sabia que Lion também não as tinha. Aquilo era uma puta evidência de que o chorão da van poderia ser de fato o Lion. Afinal, quantas pessoas você conhece que de nascença não tem digitais?

Papiloscopistas foram convocados pelo Juiz para falar sobre as estatísticas de pessoas sem digitais. De fato, elas existem, mas são muito poucas.

Tinha que ter muito azar para um sujeito como aquele estar no lugar errado, na hora errada, parecer fisicamente com a descrição do Lion, possuir uma tatuagem e também não ter digitais.

Zé estava acostumado a essas coisas de julgamento. Não era a primeira e nem seria a última vez que apostou no escuro, baseado apenas no seu sentimento e dizer que o cara era culpado.

Quando o sujeito pegou a pena, levantou e olhou um a um do juri. No Zé Walter o homem chorão da van, ou Lion, deteve-se por dois ou três segundos. Segundos que pareceram-lhe uma eternidade.

Aqueles olhos escuros nunca mais saíram da cabeça de Zé Walter. E era por causa deles que ele fumava na varanda. A noite estava quente e Zé Walter olhou para o pouco de horizonte que aparecia entre a miríade de prédios.

Pensou no calor. Imaginou a cela imunda, cheia de bandidos fedorentos em que Lion estava naquela hora.

Ouviu um gemido. Uma mão quente o abraçou por trás. Zé Walter levou um susto mas logo relaxou ao levar as mãos para se proteger e sentir a pele macia da mulher.

-Vem dormir Zé. Larga esse cigarro.-Sussurrou Gizela, nua em pelo na varanda.

Zé Walter levantou-se. Jogou a guimba de cigarro pela varanda. A brasinha rodopiou no ar até sumir na escuridão.

Os dois foram para o quarto onde fizeram amor e depois dormiram.

No dia seguinte, Zé acordou com Gisela gritando da cozinha. O café estava pronto.

Zé Walter cambaleou até o banheiro onde escovou os dentes e tomou um banho frio, como era sua tradição. Sentou-se com a mulher na mesinha da sala. Conversaram amenidades sobre parentes e viagens. Ela contava sobre o trabalho dela numa fundação educacional e ele contou um pouco sobre o trabalho que estava tocando com o cunhado. Projeto de um clube do subúrbio. Reforma total. Não daria muito, mas quebrava um galho e daria pra fazer as contas da casa respirar no azul por mais dois ou três meses.

Gisela saiu apressada, cheia de recomendações como sempre.

-Amor tenho que ir. Não esquece de ligar pra sua tia. É o aniversário dela. Coloca o frango pra descongelar e não deixa de olhar a correspondência. Aquela conta do celular ainda não chegou e já tá pra vencer.

-Ahã. – Respondeu Zé, tomando mais uma xícara de café. Daquele monte de coisas havia registrado apenas a palavra “frango”, que lhe pareceu sem sentido à primeira vista. Também guardou em algum lugar da mente que ele tinha que olhar a correspondência.

Dali a umas duas horas, depois que leu todo o jornal, Zé Walter desceu para pegar a corresponência. Ao abrir a caixa, ali estava a carta da conta do celular e um envelope sem nada escrito. Lacrado.

Zé achou aquilo curioso. Pegou o elevador de volta para o apartamento com o troço na mão. Sem remetente e nem destinatário.  Olhou contra a luz do elevador, mas não se via nada, apenas um papel dentro. Papel grosso, que impedia a luz de passar.

Zé Walter abriu o envelope com cuidado, rasgando pela lateral. Dali tirou com os dedos a folha dobrada em quatro. Desdobrou com cuidado para ver um pequeno parágrafo escrito à máquina, no meio da folha.

“Filho da puta. Eu sei o que você fez. A culpa é sua. Isso não vai ficar assim. Você vai morrer. Até terça-feira a noite você vai cair. Não vai ter perdão.”

O coração disparou. Zé Walter engoliu em seco. Encostou na parede do elevador. Leu e releu o papel várias vezes. Era aquilo mesmo. Ele estava jurado de morte.

Os pêlos de sua nuca se arrepiaram e ele sentiu um gosto amargo na boca. Olhou o relógio. Daquela hora até a noite de terça feira eram dois dias e umas poucas horas.

CONTINUA…

Jurado de morte

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5 ideias sobre “Jurado de morte

  • 23 de dezembro de 2009 em 4:27
    Permalink

    wooooo muito bom, sinto como um melhor do mundo gump a caminho. A unica coisa que eu mudaria e a quantidade de vezes que vc chama ele de ze walter, passaria a chamalo so de ze para ganhar um pouco mais de dinamismo e velocidade na leitura.
    Continua ai.

    Resposta
  • 23 de dezembro de 2009 em 14:48
    Permalink

    Cara muito bom ! quando vc irá escrever um livro ?! gostei mto daquela história “O CAÇADOR” podia continuar ela !

    Resposta
  • 26 de dezembro de 2009 em 10:30
    Permalink

    Muito bom. Sinto que já vem mais um conto de dar gosto, típico do Mundo Gump. Você é demais Philipe.
    Só uma observação (construtiva, viu). Não tem como um julgamento do Tribunal do Júri ficar 7 a 6, pois são apenas 7 jurados. Para haver voto de minerva, ficaria 4 a 3.
    Um abraço cara.

    Resposta
  • 29 de novembro de 2011 em 20:06
    Permalink

    gostei da parte q vc fala filho da puta 

    Resposta

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