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O coração de Zé Walter parecia querer sair pela boca, e só voltou a bater normal quando se deu conta de que o soco que ouviu na porta era da mulher dele, preocupada.
-Zé? Abre essa porta, Zé! – Gritou Gizela.
Zé abriu a porta e viu a mulher. Ela estava preocupada. Havia ligado pra ele diversas vezes naquele dia, mas ele não atendeu.
-Porra… Eu dormi. – Disse ele, sentando na cama. Zé já ia contar o seu pesadelo com o bigodudo do opala preto quando Gizela o interrompeu.
-Ligou pra polícia, Zé?
-Não.
-Porra, Zé!
-Calma, Gi. Olha só, eu acho que a polícia tá envolvida. Não vai adiantar eu ligar pra lá, Gi. O cara mandou na careta, ele sabia que eu ou qualquer um que recebesse uma ameaça dessas ia procurar a polícia. Se ainda assim ele mandou a carta, é porque ele sabe que não vai adiantar lhufas ligar pra polícia.
-Humm. Isso é. -Disse Gizela sentando na cama.
-Mas e agora? O que vamos fazer, Zé?
– Não sei, Gi… Olha, vem cá. Tem um carro. Opala. Eu acho que o cara tá…-Zé Walter puxava Gizela para a janela afim de mostrar o opala preto. Mas o carro não estava lá. A vaga esta vazia.
-Carro? O que? -Gizela não etendia.
-Tava ali… Agora saiu, Gi. Um Opala preto. Carro de assassino. Eu vi o carro hoje cedo. Ele tava parado ali naquela vaga onde está a kombi. Tá vendo? Perto da banca. Depois o carro saiu e o vidro abriu. Tinha um homem sinistro dentro.
-Homem sinistro, Zé?
-Isso. Um homem de bigode grisalho. Cara de uns 50, 60 anos. Tava usando um óculos escuro. Ele abriu a janela e olhou pra mim, Gi. Aqui pra cima!
-Porra que estranho, Zé. Mas isso não significa que…
-Gi, quantas vezes você olha pelo vidro do carro para prédios de apartamento? Sobretudo andares altos?
-Nenhuma.
-Viu? Acho que o cara tá envolvido, Gi. Além disso é um opala e opala você sabe…
-Ah, Zé. Porra para com essas fantasias. Isso é só em filme de máfia.
-Ah, mas filme de máfia é inspirado em que? Na realidade, Gi. Na realidade!
-Zé, me escuta. Eu andei o dia todo pensando na tal carta. Eu acho que isso é brincadeira, cara.
-Que isso Gi? Porra quem vai brincar assim com os outros? Isso dá cadeia, meu.
-Ah, sei lá. Vai que é um desses seus amigos sem noção, Zé. Pode ser, por que não?
-… – Zé estava quieto. De fato aquilo poderia se tratar de uma mera brincadeira de mau gosto. Amigos sem noção ele de fato os tinha. E tantos que havia perdido as contas.
-Zé, tu dormiu a tarde inteira, hein? Eu tô ligando desde as duas da tarde aqui pra casa e nada…
-Pois é, mas… Não sei. Acho que é efeito psicológico. Essas coisas de fuga. Se bem que nem dormindo eu escapei da morte.
-Hã?
-É, tive um pesadelo.
-Mas não ouviu o telefone tocar, Zé?
-Não… – Disse Zé Walter, pegando o telefone sem fio. Colocou no ouvido e descobriu:
-Ué. Tá sem linha.
-Sem linha?
-É, olha só…
-Ué…Será que pifou?
Zé Walter e Gizela se entreolharam. Nisso tocou o interfone.
Os dois arregalaram os olhos.
-Tá esperando alguém? -Perguntou Gizela.
-Não, e você?
-Também não. – Disse ela correndo para atender.
Zé Walter correu para a janela, mas não havia sinal do opala preto.
-Alô? Sim? – Gizela falava com o Porteiro no interfone da cozinha.
Zé Walter correu até lá. Ficou gesticulando, afobado, querendo saber do que se tratava. Gizela tirou o telefone do ouvido sussurrou para Zé.
-Você pediu pizza?
-Não.
-Seu Limair? Olha, não pedimos pizza não. Pede pra verificar aí, porque não foi aqui não. Hã? O que? Como assim já subiu? Mas não pediu daqui. Hã? Tá, tá. Tá bom. Boa noite. – Ela se apressou em desligar.
-Ah, não. Vai tomar no cu, Gi! – Disse Zé Walter já andando para trás.
-O babaca mandou subir antes de ligar pra cá. O entregador já tá subindo.
-Fudeu. É o assassino!
-Caralho, e agora, Zé?
-Não sei.
-E agora Zé?
-Não sei, porra. Vamos fazer alguma coisa.
-Mas o que?
-Sei lá. Calma aí. Porra… Caceta… Deixa eu pensar. Putaquepariu, porteiro burro do caralho…
-Pensa logo, Zé. Ele ta subindo.
-Ai caralho, ai caralho…
-Zé, A tv porteiro!
-Isso! Rápido. – Disse Zé correndo para a sala e ligando a Tv. A “Tv porteiro” era um canal da antena coletiva que mostrava as câmeras de segurança do prédio.
A Tv mostrava a garagem. Depois veio o corredor, a portaria, a frente do prédio e finalmente o elevador.
Ali dentro, visto de cima, numa imagem borrada e em preto e branco, estava um homem, usando um capacete preto e… Jaqueta de motoqueiro.
Zé Walter sentiu um arrepio na espinha.
-Zé acho que é um entregador comum. – Disse Gizela.
-Hummm. Não sei. Olha o volume da embalagem. Não parece estufado?
-É. Parece. Quem tá lá com ele? Dá pra ver?
-Acho que é a dona Isolda do 504.
O elevador para no cinco e a velha desce. Fica só o homem de capacete no elevador. Nisso, o homem da pizza olha na direção da câmera. Ele usa óculos escuros do tipo aviador e Zé Walter pôde notar até um pedaço de bigode aparecendo dentro do capacete.
-Caralho, fudeu!
-Que foi? Que foi?
-É ele! O cara do Opala. Que andar que tá? Olha ali no reflexo do espelho. Tá no seis?
-Agora sete.
-Rapido Gi. Vem! – Diz Zé Walter, agarrando Gizela pelo braço e saindo correndo. Eles correm para fora do apartamento.
-Pra onde Zé?
-Por aqui. – Sussurra ele, apontando para as escadas. Os dois enfiam-se nas escadas.
Assim que a porta corta-fogo se fecha eles ouvem o barulho do elevador chegando no andar.
Os dois observam a cena pela greta da porta.
O homem de jaqueta e capacete chega no andar. Ele vai com a caixa da pizza e um papel na mão. Olha cada uma das portas. Mexe no bolso.
Zé Walter e Gizela se entreolham no escuro.
No fim do corredor o homem da pizza tira um papel do bolso. Ele vai até o apartamento deles. Toca a campainha. Como niguém responde, o homem toca duas, três, seis, dez vezes. Nada. Nenhum sinal. Ele então começa a socar a porta. Bate com força três ou quatro vezes, até que ela se abre.
Zé olha para Gizela na escuridão e sussurra:
-Porra, Gi…Você não trancou?
-Vá a merda, Zé. Eu tava pensando que ia morrer. Cê acha que eu ia ter cabeça de trancar a porta? Não deu tempo.
O homem da pizza entra no apartamento e não há mais sinal de vida no corredor.
Na escuridão da porta corta-fogo, Zé Walter e Gizela estão tensos. A respiração presa. O medo é cada vez maior.
O homem da pizza finalmente sai, ainda com a pizza na mão. Vira as costas e chama o elevador. Parece uma eternidade o tempo que leva para que o elevador chegue.
Nisso, o homem da pizza olha para a escada.
O cagaço de Zé Walter atinge proporções bíblicas.
-Fudeu, Gi. ele vai vir pra cá. Ele viu a gente!
-Calma Zé. Calma… -Gizela tenta acalmar.
O homem da pizza começa a vir na direção deles. Parece decidido, como se tivesse visto alguma coisa.
-Fudeu, fudeu…
-Pai nosso que estás no céu… -Os dois sussurravam.
Nisso, o elevador chegou. O homem da pizza ouviu o barulho do elevador e voltou.
Finalmente a porta se abre e o homem da pizza vai embora.
Zé e Gizela se olham, aliviados.
-Ah, meu Deus. Aleluia. Ufa!
-Putaquepariu, caralho, buceta! -Geme Zé. Agira eles estão com a certeza de que o cara da pizza é o assassino.
-E agora? Voltamos? – Pergunta Gizela.
-Não sei. Melhor que ficar aqui deve ser.
Zé e Gisela saem da porta de acesso às escadas com o pé ante pé. Vão rapidamente para o apartamento. Entram e trancam a porta.
Logo que entram percebem que tudo está como deixaram, com a excessão de um detalhe: A tv está desligada.
-Gi você desligou a Televisão?
-Não lembro. Eu acho que não…
-Então foi ele.
-Porra, ele sacou que a gente viu ele.
-É. Veja aí se ele não mexeu em mais nada. -Diz Zé Walter.
Gisela vai até o quarto. Depois até a cozinha.
-Parece que está tudo em ordem.
-Que porra estranha…
-Não tá faltando nada… Calmaí.
-Que foi?
– A carta.
-Tava em cima da cama.
-Não tá.
-Caralho, ele pegou. Ele pegou a carta. Puta que…
-Zé, ele pegou a carta. Ele acabou com a prova. Ele veio aqui para pegar a carta. É isso.
-…Pariu, Gi e agora? Nem se a gente quiser ir na polícia… Ninguém vai acreditar.
-Zé, eu tô com medo.
-Eu também, Gi.
Nisso, o interfone toca. Os dois se entreolham assustados.
Gizela corre para atender.
-Seu Limair? Pode falar, seu Limair.
-…
-Hã? Ah, tá. Tá. Tá certo. Tudo bem. Olha seu Limair, não deixa mais ninguém subir sem a nossa autorização não, viu? Senão vou reclamar com o seu Joel. Ah, e olha, o telefone aqui em casa tá com problema. Se o senhor puder, fala com o seu Waldicley pra ele pedir o reparo, tá? Ok… Boa noite. Té manhã.
-E aí? -Perguntou Zé aflito.
-O cara foi embora. Disse pro seu Limair que foi engano da pizzaria. Que saiu o endereço de entrega errado.
-Porteiro débil mental filho duma vaca! Porra, esse tal Limair não faz nada direito, meu. Vive deixando entrar tudo que é otário, faz confusão com morador, entrega a minha Veja pro cara do andar de cima, é um incompetente. Não sei como deixam uma porra dessas ser porteiro. Ainda mais com o que a gente paga de condomínio. Agora, sobre o que o cara disse, pra mim é caô.
-Pra mim também. Se fosse mesmo o cara da pizzaria, ele ia entrar aqui em casa? Desligar a TV?
-E digo mais… Eu acho que ele que fodeu o telefone.
-Humm. Faz sentido, Zé.
-Certamente ele veio aqui já de caso pensado, para pegar a carta. A carta é a única prova do crime. Ele pegou a carta e saiu fora.
-Mas e agora?
-Agora nada. Agora vamos dormir. Eu acho que eles não vão fazer mais nada hoje. Ainda me resta mais um dia e algumas horas…
-Zé, não fala assim.
-Tá bom, Gi. Tá bom. Vamos dormir.
Os dois tomam um Toddynho cada, depois um banho e vão dormir.
A noite passa arrastada. Nenhum dos dois consegue dormir bem. Zé Porque passou a manhã e tarde dormindo. Gizela porque está abalada com aquilo tudo.
No dia seguinte, Zé acorda com Gizela chamando para tomar café.
Ele vai até a janela. Olha lá para baixo… Nada do opala preto.
Os dois tomam café quase sem dizer uma palavra. Apenas se olham. Os olhares dizem tudo.
-Tenho que trabalhar. -Finalmente Gizela rompe o silêncio.
-Gi, andei pensando. Acho que tenho que sair fora.
-Sair fora?
-Sim. Os caras querem a minha cabeça tal qual um São João Batista.
-Mas pra onde, Zé?
-Gi… Sei lá… Vou ter que dar um “vazari”. Sair de circulação por uns dias. -Diz Zé Waler.
Gizela faz uma cara de choro.
-Calma, Gi. Eu volto Eu prometo. Eu vou dar um tempo. Acho que vou pra casa do Amarildo. Na chácara. Lá naquele buraco, os caras não vão me achar.
-Mas como você vai falar com ele?
-Gi, eu não vou. Deve estar tudo grampeado. Não dá pra confiar. Eu sei onde o Amarildo guarda a chave reserva. Eu pego ela e entro lá. Preciso colocar a cabeça no lugar. Espairecer. Pensar no que fazer. Daí, de lá eu ligo pra ele.
-Tá bom. Mas Zé…
-Oi Gi.
-Cuidado hein? Eu te amo.
-Eu também te amo Gi.
Os dois se beijam de forma agressiva. É o medo. Eles temem não se encontrarem mais.
Gizela sai para o trabalho na fundação com o coração apertado, deixando para trás o marido.
Zé Walter vai para o quarto arrumar uma mochila. Enquanto arruma, ele pensa em uma forma de fugir sem ser visto nem seguido.
Zé tranca a casa, pega o elevador de serviço e desce no playground. Ali ele corre até as palmeiras que enfeitam a parte da frente do prédio. Olha lá de cima. Nem sinal do Opala. Zé estuda meticulosamente o caminho que fará na rua. Ele planeja correr até a rua de trás, onde passará por um beco e chegará a outra rua, onde há uma estação do Metrô.
Do play, Zé desce pelas escadas até o térreo. Ele já se encaminha para a portaria quando vê, do outro lado da rua, o Opala preto estacionando perto da banca.
-Fudeu! -É só o que ele consegue falar.

CONTINUA…

Jurado de morte – parte 4

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O coração de Zé Walter parecia querer sair pela boca, e só voltou a bater normal quando se deu conta de que o soco que ouviu na porta era da mulher dele, preocupada.
-Zé? Abre essa porta, Zé! – Gritou Gizela.
Zé abriu a porta e viu a mulher. Ela estava preocupada. Havia ligado pra ele diversas vezes naquele dia, mas ele não atendeu.
-Porra… Eu dormi. – Disse ele, sentando na cama. Zé já ia contar o seu pesadelo com o bigodudo do opala preto quando Gizela o interrompeu.
-Ligou pra polícia, Zé?
-Não.
-Porra, Zé!
-Calma, Gi. Olha só, eu acho que a polícia tá envolvida. Não vai adiantar eu ligar pra lá, Gi. O cara mandou na careta, ele sabia que eu ou qualquer um que recebesse uma ameaça dessas ia procurar a polícia. Se ainda assim ele mandou a carta, é porque ele sabe que não vai adiantar lhufas ligar pra polícia.
-Humm. Isso é. -Disse Gizela sentando na cama.
-Mas e agora? O que vamos fazer, Zé?
– Não sei, Gi… Olha, vem cá. Tem um carro. Opala. Eu acho que o cara tá…-Zé Walter puxava Gizela para a janela afim de mostrar o opala preto. Mas o carro não estava lá. A vaga esta vazia.
-Carro? O que? -Gizela não etendia.
-Tava ali… Agora saiu, Gi. Um Opala preto. Carro de assassino. Eu vi o carro hoje cedo. Ele tava parado ali naquela vaga onde está a kombi. Tá vendo? Perto da banca. Depois o carro saiu e o vidro abriu. Tinha um homem sinistro dentro.
-Homem sinistro, Zé?
-Isso. Um homem de bigode grisalho. Cara de uns 50, 60 anos. Tava usando um óculos escuro. Ele abriu a janela e olhou pra mim, Gi. Aqui pra cima!
-Porra que estranho, Zé. Mas isso não significa que…
-Gi, quantas vezes você olha pelo vidro do carro para prédios de apartamento? Sobretudo andares altos?
-Nenhuma.
-Viu? Acho que o cara tá envolvido, Gi. Além disso é um opala e opala você sabe…
-Ah, Zé. Porra para com essas fantasias. Isso é só em filme de máfia.
-Ah, mas filme de máfia é inspirado em que? Na realidade, Gi. Na realidade!
-Zé, me escuta. Eu andei o dia todo pensando na tal carta. Eu acho que isso é brincadeira, cara.
-Que isso Gi? Porra quem vai brincar assim com os outros? Isso dá cadeia, meu.
-Ah, sei lá. Vai que é um desses seus amigos sem noção, Zé. Pode ser, por que não?
-… – Zé estava quieto. De fato aquilo poderia se tratar de uma mera brincadeira de mau gosto. Amigos sem noção ele de fato os tinha. E tantos que havia perdido as contas.
-Zé, tu dormiu a tarde inteira, hein? Eu tô ligando desde as duas da tarde aqui pra casa e nada…
-Pois é, mas… Não sei. Acho que é efeito psicológico. Essas coisas de fuga. Se bem que nem dormindo eu escapei da morte.
-Hã?
-É, tive um pesadelo.
-Mas não ouviu o telefone tocar, Zé?
-Não… – Disse Zé Walter, pegando o telefone sem fio. Colocou no ouvido e descobriu:
-Ué. Tá sem linha.
-Sem linha?
-É, olha só…
-Ué…Será que pifou?
Zé Walter e Gizela se entreolharam. Nisso tocou o interfone.
Os dois arregalaram os olhos.
-Tá esperando alguém? -Perguntou Gizela.
-Não, e você?
-Também não. – Disse ela correndo para atender.
Zé Walter correu para a janela, mas não havia sinal do opala preto.
-Alô? Sim? – Gizela falava com o Porteiro no interfone da cozinha.
Zé Walter correu até lá. Ficou gesticulando, afobado, querendo saber do que se tratava. Gizela tirou o telefone do ouvido sussurrou para Zé.
-Você pediu pizza?
-Não.
-Seu Limair? Olha, não pedimos pizza não. Pede pra verificar aí, porque não foi aqui não. Hã? O que? Como assim já subiu? Mas não pediu daqui. Hã? Tá, tá. Tá bom. Boa noite. – Ela se apressou em desligar.
-Ah, não. Vai tomar no cu, Gi! – Disse Zé Walter já andando para trás.
-O babaca mandou subir antes de ligar pra cá. O entregador já tá subindo.
-Fudeu. É o assassino!
-Caralho, e agora, Zé?
-Não sei.
-E agora Zé?
-Não sei, porra. Vamos fazer alguma coisa.
-Mas o que?
-Sei lá. Calma aí. Porra… Caceta… Deixa eu pensar. Putaquepariu, porteiro burro do caralho…
-Pensa logo, Zé. Ele ta subindo.
-Ai caralho, ai caralho…
-Zé, A tv porteiro!
-Isso! Rápido. – Disse Zé correndo para a sala e ligando a Tv. A “Tv porteiro” era um canal da antena coletiva que mostrava as câmeras de segurança do prédio.
A Tv mostrava a garagem. Depois veio o corredor, a portaria, a frente do prédio e finalmente o elevador.
Ali dentro, visto de cima, numa imagem borrada e em preto e branco, estava um homem, usando um capacete preto e… Jaqueta de motoqueiro.
Zé Walter sentiu um arrepio na espinha.
-Zé acho que é um entregador comum. – Disse Gizela.
-Hummm. Não sei. Olha o volume da embalagem. Não parece estufado?
-É. Parece. Quem tá lá com ele? Dá pra ver?
-Acho que é a dona Isolda do 504.
O elevador para no cinco e a velha desce. Fica só o homem de capacete no elevador. Nisso, o homem da pizza olha na direção da câmera. Ele usa óculos escuros do tipo aviador e Zé Walter pôde notar até um pedaço de bigode aparecendo dentro do capacete.
-Caralho, fudeu!
-Que foi? Que foi?
-É ele! O cara do Opala. Que andar que tá? Olha ali no reflexo do espelho. Tá no seis?
-Agora sete.
-Rapido Gi. Vem! – Diz Zé Walter, agarrando Gizela pelo braço e saindo correndo. Eles correm para fora do apartamento.
-Pra onde Zé?
-Por aqui. – Sussurra ele, apontando para as escadas. Os dois enfiam-se nas escadas.
Assim que a porta corta-fogo se fecha eles ouvem o barulho do elevador chegando no andar.
Os dois observam a cena pela greta da porta.
O homem de jaqueta e capacete chega no andar. Ele vai com a caixa da pizza e um papel na mão. Olha cada uma das portas. Mexe no bolso.
Zé Walter e Gizela se entreolham no escuro.
No fim do corredor o homem da pizza tira um papel do bolso. Ele vai até o apartamento deles. Toca a campainha. Como niguém responde, o homem toca duas, três, seis, dez vezes. Nada. Nenhum sinal. Ele então começa a socar a porta. Bate com força três ou quatro vezes, até que ela se abre.
Zé olha para Gizela na escuridão e sussurra:
-Porra, Gi…Você não trancou?
-Vá a merda, Zé. Eu tava pensando que ia morrer. Cê acha que eu ia ter cabeça de trancar a porta? Não deu tempo.
O homem da pizza entra no apartamento e não há mais sinal de vida no corredor.
Na escuridão da porta corta-fogo, Zé Walter e Gizela estão tensos. A respiração presa. O medo é cada vez maior.
O homem da pizza finalmente sai, ainda com a pizza na mão. Vira as costas e chama o elevador. Parece uma eternidade o tempo que leva para que o elevador chegue.
Nisso, o homem da pizza olha para a escada.
O cagaço de Zé Walter atinge proporções bíblicas.
-Fudeu, Gi. ele vai vir pra cá. Ele viu a gente!
-Calma Zé. Calma… -Gizela tenta acalmar.
O homem da pizza começa a vir na direção deles. Parece decidido, como se tivesse visto alguma coisa.
-Fudeu, fudeu…
-Pai nosso que estás no céu… -Os dois sussurravam.
Nisso, o elevador chegou. O homem da pizza ouviu o barulho do elevador e voltou.
Finalmente a porta se abre e o homem da pizza vai embora.
Zé e Gizela se olham, aliviados.
-Ah, meu Deus. Aleluia. Ufa!
-Putaquepariu, caralho, buceta! -Geme Zé. Agira eles estão com a certeza de que o cara da pizza é o assassino.
-E agora? Voltamos? – Pergunta Gizela.
-Não sei. Melhor que ficar aqui deve ser.
Zé e Gisela saem da porta de acesso às escadas com o pé ante pé. Vão rapidamente para o apartamento. Entram e trancam a porta.
Logo que entram percebem que tudo está como deixaram, com a excessão de um detalhe: A tv está desligada.
-Gi você desligou a Televisão?
-Não lembro. Eu acho que não…
-Então foi ele.
-Porra, ele sacou que a gente viu ele.
-É. Veja aí se ele não mexeu em mais nada. -Diz Zé Walter.
Gisela vai até o quarto. Depois até a cozinha.
-Parece que está tudo em ordem.
-Que porra estranha…
-Não tá faltando nada… Calmaí.
-Que foi?
– A carta.
-Tava em cima da cama.
-Não tá.
-Caralho, ele pegou. Ele pegou a carta. Puta que…
-Zé, ele pegou a carta. Ele acabou com a prova. Ele veio aqui para pegar a carta. É isso.
-…Pariu, Gi e agora? Nem se a gente quiser ir na polícia… Ninguém vai acreditar.
-Zé, eu tô com medo.
-Eu também, Gi.
Nisso, o interfone toca. Os dois se entreolham assustados.
Gizela corre para atender.
-Seu Limair? Pode falar, seu Limair.
-…
-Hã? Ah, tá. Tá. Tá certo. Tudo bem. Olha seu Limair, não deixa mais ninguém subir sem a nossa autorização não, viu? Senão vou reclamar com o seu Joel. Ah, e olha, o telefone aqui em casa tá com problema. Se o senhor puder, fala com o seu Waldicley pra ele pedir o reparo, tá? Ok… Boa noite. Té manhã.
-E aí? -Perguntou Zé aflito.
-O cara foi embora. Disse pro seu Limair que foi engano da pizzaria. Que saiu o endereço de entrega errado.
-Porteiro débil mental filho duma vaca! Porra, esse tal Limair não faz nada direito, meu. Vive deixando entrar tudo que é otário, faz confusão com morador, entrega a minha Veja pro cara do andar de cima, é um incompetente. Não sei como deixam uma porra dessas ser porteiro. Ainda mais com o que a gente paga de condomínio. Agora, sobre o que o cara disse, pra mim é caô.
-Pra mim também. Se fosse mesmo o cara da pizzaria, ele ia entrar aqui em casa? Desligar a TV?
-E digo mais… Eu acho que ele que fodeu o telefone.
-Humm. Faz sentido, Zé.
-Certamente ele veio aqui já de caso pensado, para pegar a carta. A carta é a única prova do crime. Ele pegou a carta e saiu fora.
-Mas e agora?
-Agora nada. Agora vamos dormir. Eu acho que eles não vão fazer mais nada hoje. Ainda me resta mais um dia e algumas horas…
-Zé, não fala assim.
-Tá bom, Gi. Tá bom. Vamos dormir.
Os dois tomam um Toddynho cada, depois um banho e vão dormir.
A noite passa arrastada. Nenhum dos dois consegue dormir bem. Zé Porque passou a manhã e tarde dormindo. Gizela porque está abalada com aquilo tudo.
No dia seguinte, Zé acorda com Gizela chamando para tomar café.
Ele vai até a janela. Olha lá para baixo… Nada do opala preto.
Os dois tomam café quase sem dizer uma palavra. Apenas se olham. Os olhares dizem tudo.
-Tenho que trabalhar. -Finalmente Gizela rompe o silêncio.
-Gi, andei pensando. Acho que tenho que sair fora.
-Sair fora?
-Sim. Os caras querem a minha cabeça tal qual um São João Batista.
-Mas pra onde, Zé?
-Gi… Sei lá… Vou ter que dar um “vazari”. Sair de circulação por uns dias. -Diz Zé Waler.
Gizela faz uma cara de choro.
-Calma, Gi. Eu volto Eu prometo. Eu vou dar um tempo. Acho que vou pra casa do Amarildo. Na chácara. Lá naquele buraco, os caras não vão me achar.
-Mas como você vai falar com ele?
-Gi, eu não vou. Deve estar tudo grampeado. Não dá pra confiar. Eu sei onde o Amarildo guarda a chave reserva. Eu pego ela e entro lá. Preciso colocar a cabeça no lugar. Espairecer. Pensar no que fazer. Daí, de lá eu ligo pra ele.
-Tá bom. Mas Zé…
-Oi Gi.
-Cuidado hein? Eu te amo.
-Eu também te amo Gi.
Os dois se beijam de forma agressiva. É o medo. Eles temem não se encontrarem mais.
Gizela sai para o trabalho na fundação com o coração apertado, deixando para trás o marido.
Zé Walter vai para o quarto arrumar uma mochila. Enquanto arruma, ele pensa em uma forma de fugir sem ser visto nem seguido.
Zé tranca a casa, pega o elevador de serviço e desce no playground. Ali ele corre até as palmeiras que enfeitam a parte da frente do prédio. Olha lá de cima. Nem sinal do Opala. Zé estuda meticulosamente o caminho que fará na rua. Ele planeja correr até a rua de trás, onde passará por um beco e chegará a outra rua, onde há uma estação do Metrô.
Do play, Zé desce pelas escadas até o térreo. Ele já se encaminha para a portaria quando vê, do outro lado da rua, o Opala preto estacionando perto da banca.
-Fudeu! -É só o que ele consegue falar.

CONTINUA…

Jurado de morte – parte 4

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Eu dei duro aqui

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