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Regina ficou sem ação. A mãozinha a puxava  pela escuridão. Em seu braço estava a mão de Carlão.

Ela não sabia o que fazer. Subitamente, Carlão largou.

-Carlão? Carlão? Martina? Cadê vocês?

Mas eles não respondiam. Apenas a pequena mão gelada puxava Regina. Ela tentou soltar o braço, queria voltar para seus amigos, mas a pequena não não facilitou. Ela apertava com força. Apesar de pequena, era forte.

Então quem quer que fosse que a estivesse puxando pela escuridão fria daquele porão, subitamente estancou. Parou ali mesmo.

Regina continuava a gritar seus amigos, mas era como se eles tivessem sumido. Ninguém respondia.

Regina reuniu toda sua coragem. E, sem soltar aquela pequena mão gelada que a segurava, foi com a outra mão para tatear. Sentiu uma coisa estranha, que identificou como um laço de fita. Cabelos embaraçados. Ela foi tateando como uma cega. Ali estava uma menina. Uma menina fria. Era quase como que tatear um manequim. Estava com um vestido de um tecido estranho ao tato, com linhas soltas.

-Que-quem está aí? -Ela perguntou, trêmula.

Sentia claramente o pequeno corpo. Pela posição, apesar da escuridão, ela sabia que estava sendo observada. Ms tudo que restava era um tremendo e assustador silêncio.

Ela sentiu um toque na barriga. O bebê ficou frenético, começou a se mexer loucamente. Regina pensou que certamente Luma estava sentindo alguma coisa.

A mãozinha puxou o braço Regina para baixo, como que indicando alguma coisa. Ela tateou o chão de madeira.

-Que foi? O que é? O que está acontecendo aqui? Quem é você?

Então a mão dela tocou em alguma coisa fria. Metálica. Era o lampião. Ela sentiu suas bordas de latão. A pequena proteção de vidro. Mas não achou fósforos nem outra forma de acendê-lo.

Um novo puxão em sua mão a trouxe mais perto da menina do escuro. Ela sentiu a aproximação. A menina falou em seu ouvido, com uma voz assustadora e mecânica, que parecia ter um sotaque estranho.

-Ela está vindo para pegar o neném!

-Ela? Quem é ela? Quem é você?

-Shhhh! Regina ouviu a menina soprando.

-Me… O meu nome é Regina. E o seu?

-Ana Belle. -Ela disse.

A menina do escuro começava a se abrir. Parecia arredia. Regina tentou tocá-la, mas ela evitou.

Regina percebeu que o cheiro do lugar estava diferente. Não era mais o cheiro do porão.

-Ana Belle, que lugar é esse?

-Aqui é a passagem. Ela está vindo encontrar você, Regina.

-Ela quem, Ana? A menina da porta?

Mas a pequena criança de mãos frias não respondeu. Regina se deu conta que estava conversando com um fantasma.

Então, a escuridão gradualmente começou a clarear. Uma fresta no chão, bem longe de onde ela estava, surgiu. Assim que a fraca luminosidade apareceu, a menina largou a mão de Regina. Ela ouviu os passos apressados da menina correndo no assoalho de madeira.

-Ana Belle? Volte aqui! Que isso? Que está acontecendo?

Então, Regina viu se abrir um alçapão, a cerca de uns vinte metros de onde ela estava. Entrava luz por ali. Uma luz fraca, amarelada, bruxuleante.

Gradualmente, cabelos desgrenhados e brancos começaram a aparecer. A imagem era assustadora. Lentamente, uma cabeça de velha, coberta com um véu apareceu.

-Deus me livre! Que isso? – Gemeu Regina na escuridão.

A velha subiu as escadas. Ela segurava um candelabro. A velha não disse nada. Subiu como um soldado e se prostrou ao lado do quadrado no chão. Regina estava atormentada com aquela visão. A velha vestia uma roupa antiquada e um xale preto. Olhava diretamente para ela, mas sem demonstrar nenhuma reação.

-Socorro. -Gemeu Regina.

-Você está aí? -Sussurrou a velha e o som tenebroso da voz dela ecoou no ambiente.

-Socorro. Eu… Eu estou aqui. Que lugar é este?

A velha começou a rir. Um riso discreto, nada espalhafatoso, mas que mataria de medo qualquer um.

-Você é nova, fantasma? – Disse a velha. Ela levantou o candelabro. E o lugar se iluminou fracamente. Era um galpão grande, o sótão de uma casa antiga. Acima dela, Regina viu as vigas de sustentação do telhado.

-Não senhora. Não sou fantasma! Eu… eu estava presa no porão. Estava presa com dois amigos… E tinha uma menina na minha porta.

-Silêncio! – A velha berrou.  – Você está atrapalhando o contato! Não perturbe.

Regina percebeu que talvez a velha fosse louca. A velha falou coisas que ela não entendia. Parecia estar conversando com alguém, mas não havia ninguém ali naquele lugar escuro e poeirento. Só ela num canto, junto a parede de pedras empilhadas e a velha, lá no meio. A luz não iluminava tudo e uma mancha escura ocultava o fim do sótão.

-Venha, menina. Venha pra vovó! – Ela disse. E começou a cantarolar a musica. Regina reconheceu de imediato. Era a musiquinha que ela tinha escutado a menina cantar no porão.

Mas o salão estava vazio. Isso não impediu a velha de continuar chamando. -Veeeenham. Veeeenham pra vovó! – Ela chamava.

O coração de regina parecia que ia parar, quando ela viu surgir movimento na massa escura do fundo do sótão. Gradualmente cerca de sete crianças começaram a aparecer como que vindos de lugar nenhum. Elas caminhavam na direção da velha.

Todos eles pararam em frente a mulher com o candelabro.

Regina se levantou e foi até lá.

Nenhuma das crianças se virou nem olhou pra ela. Regina sentia como se estivesse invisível. Todas as crianças tinham a aparência esquisita da menina da porta. Os cabelos desgrenhados, o corpo esquálido, pálido, e os olhos pretos, completamente pretos e com olheiras. As roupas eram antiquadas. Pareciam do século XIX.

A velha, por sua vez, não apresentava boa aparência. De perto, ela era muito mais assustadora.  Os dentes eram podres e amarelados, e avelha parecia ser cega. Provavelmente só enxergava vultos, dada duas severas cataratas em seus olhos. Aquela velha parecia ter quase cem anos de idade.

A velha estendeu a mão para a frente, e continuou a conclamar.

-Venham. Venham todos. Vocês estão aí?

Então, uma menina pequena saiu de dentro do grupinho e dando dois passos, segurou na mão da velha.

-Ah! Meu Deus! Graças a Deus! Vocês estão aí! – Gemeu a velha, caindo de joelhos. Parecia aliviada.

Enquanto todas as outras crianças estavam paradas como estátuas de mármore assustadoras, a pequena menina falou. Regina reconheceu a voz. Era Ana Belle.

-Nós trouxemos a mãe, Vovó.

-A mulher? Vocês trouxeram? Então a faladeira é ela?

Todas as crianças sinistras se viraram para Regina.

-Não… Não…

-Tragam ela pra vovó!  -Disse a velha horrível levantando o candelabro de prata no ar.

-Não, não, nããããão! – Regina gritava enquanto as crianças avançavam para cima dela com passadas lentas.

CONTINUA

 

 

As crianças da noite – Parte 8

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Regina ficou sem ação. A mãozinha a puxava  pela escuridão. Em seu braço estava a mão de Carlão.

Ela não sabia o que fazer. Subitamente, Carlão largou.

-Carlão? Carlão? Martina? Cadê vocês?

Mas eles não respondiam. Apenas a pequena mão gelada puxava Regina. Ela tentou soltar o braço, queria voltar para seus amigos, mas a pequena não não facilitou. Ela apertava com força. Apesar de pequena, era forte.

Então quem quer que fosse que a estivesse puxando pela escuridão fria daquele porão, subitamente estancou. Parou ali mesmo.

Regina continuava a gritar seus amigos, mas era como se eles tivessem sumido. Ninguém respondia.

Regina reuniu toda sua coragem. E, sem soltar aquela pequena mão gelada que a segurava, foi com a outra mão para tatear. Sentiu uma coisa estranha, que identificou como um laço de fita. Cabelos embaraçados. Ela foi tateando como uma cega. Ali estava uma menina. Uma menina fria. Era quase como que tatear um manequim. Estava com um vestido de um tecido estranho ao tato, com linhas soltas.

-Que-quem está aí? -Ela perguntou, trêmula.

Sentia claramente o pequeno corpo. Pela posição, apesar da escuridão, ela sabia que estava sendo observada. Ms tudo que restava era um tremendo e assustador silêncio.

Ela sentiu um toque na barriga. O bebê ficou frenético, começou a se mexer loucamente. Regina pensou que certamente Luma estava sentindo alguma coisa.

A mãozinha puxou o braço Regina para baixo, como que indicando alguma coisa. Ela tateou o chão de madeira.

-Que foi? O que é? O que está acontecendo aqui? Quem é você?

Então a mão dela tocou em alguma coisa fria. Metálica. Era o lampião. Ela sentiu suas bordas de latão. A pequena proteção de vidro. Mas não achou fósforos nem outra forma de acendê-lo.

Um novo puxão em sua mão a trouxe mais perto da menina do escuro. Ela sentiu a aproximação. A menina falou em seu ouvido, com uma voz assustadora e mecânica, que parecia ter um sotaque estranho.

-Ela está vindo para pegar o neném!

-Ela? Quem é ela? Quem é você?

-Shhhh! Regina ouviu a menina soprando.

-Me… O meu nome é Regina. E o seu?

-Ana Belle. -Ela disse.

A menina do escuro começava a se abrir. Parecia arredia. Regina tentou tocá-la, mas ela evitou.

Regina percebeu que o cheiro do lugar estava diferente. Não era mais o cheiro do porão.

-Ana Belle, que lugar é esse?

-Aqui é a passagem. Ela está vindo encontrar você, Regina.

-Ela quem, Ana? A menina da porta?

Mas a pequena criança de mãos frias não respondeu. Regina se deu conta que estava conversando com um fantasma.

Então, a escuridão gradualmente começou a clarear. Uma fresta no chão, bem longe de onde ela estava, surgiu. Assim que a fraca luminosidade apareceu, a menina largou a mão de Regina. Ela ouviu os passos apressados da menina correndo no assoalho de madeira.

-Ana Belle? Volte aqui! Que isso? Que está acontecendo?

Então, Regina viu se abrir um alçapão, a cerca de uns vinte metros de onde ela estava. Entrava luz por ali. Uma luz fraca, amarelada, bruxuleante.

Gradualmente, cabelos desgrenhados e brancos começaram a aparecer. A imagem era assustadora. Lentamente, uma cabeça de velha, coberta com um véu apareceu.

-Deus me livre! Que isso? – Gemeu Regina na escuridão.

A velha subiu as escadas. Ela segurava um candelabro. A velha não disse nada. Subiu como um soldado e se prostrou ao lado do quadrado no chão. Regina estava atormentada com aquela visão. A velha vestia uma roupa antiquada e um xale preto. Olhava diretamente para ela, mas sem demonstrar nenhuma reação.

-Socorro. -Gemeu Regina.

-Você está aí? -Sussurrou a velha e o som tenebroso da voz dela ecoou no ambiente.

-Socorro. Eu… Eu estou aqui. Que lugar é este?

A velha começou a rir. Um riso discreto, nada espalhafatoso, mas que mataria de medo qualquer um.

-Você é nova, fantasma? – Disse a velha. Ela levantou o candelabro. E o lugar se iluminou fracamente. Era um galpão grande, o sótão de uma casa antiga. Acima dela, Regina viu as vigas de sustentação do telhado.

-Não senhora. Não sou fantasma! Eu… eu estava presa no porão. Estava presa com dois amigos… E tinha uma menina na minha porta.

-Silêncio! – A velha berrou.  – Você está atrapalhando o contato! Não perturbe.

Regina percebeu que talvez a velha fosse louca. A velha falou coisas que ela não entendia. Parecia estar conversando com alguém, mas não havia ninguém ali naquele lugar escuro e poeirento. Só ela num canto, junto a parede de pedras empilhadas e a velha, lá no meio. A luz não iluminava tudo e uma mancha escura ocultava o fim do sótão.

-Venha, menina. Venha pra vovó! – Ela disse. E começou a cantarolar a musica. Regina reconheceu de imediato. Era a musiquinha que ela tinha escutado a menina cantar no porão.

Mas o salão estava vazio. Isso não impediu a velha de continuar chamando. -Veeeenham. Veeeenham pra vovó! – Ela chamava.

O coração de regina parecia que ia parar, quando ela viu surgir movimento na massa escura do fundo do sótão. Gradualmente cerca de sete crianças começaram a aparecer como que vindos de lugar nenhum. Elas caminhavam na direção da velha.

Todos eles pararam em frente a mulher com o candelabro.

Regina se levantou e foi até lá.

Nenhuma das crianças se virou nem olhou pra ela. Regina sentia como se estivesse invisível. Todas as crianças tinham a aparência esquisita da menina da porta. Os cabelos desgrenhados, o corpo esquálido, pálido, e os olhos pretos, completamente pretos e com olheiras. As roupas eram antiquadas. Pareciam do século XIX.

A velha, por sua vez, não apresentava boa aparência. De perto, ela era muito mais assustadora.  Os dentes eram podres e amarelados, e avelha parecia ser cega. Provavelmente só enxergava vultos, dada duas severas cataratas em seus olhos. Aquela velha parecia ter quase cem anos de idade.

A velha estendeu a mão para a frente, e continuou a conclamar.

-Venham. Venham todos. Vocês estão aí?

Então, uma menina pequena saiu de dentro do grupinho e dando dois passos, segurou na mão da velha.

-Ah! Meu Deus! Graças a Deus! Vocês estão aí! – Gemeu a velha, caindo de joelhos. Parecia aliviada.

Enquanto todas as outras crianças estavam paradas como estátuas de mármore assustadoras, a pequena menina falou. Regina reconheceu a voz. Era Ana Belle.

-Nós trouxemos a mãe, Vovó.

-A mulher? Vocês trouxeram? Então a faladeira é ela?

Todas as crianças sinistras se viraram para Regina.

-Não… Não…

-Tragam ela pra vovó!  -Disse a velha horrível levantando o candelabro de prata no ar.

-Não, não, nããããão! – Regina gritava enquanto as crianças avançavam para cima dela com passadas lentas.

CONTINUA

 

 

As crianças da noite – Parte 8

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Com 15 anos de sangue suor e lágrimas, eu me esforcei para fazer um dos blogs mais antigos e legais do Brasil. Mis de 5000 artigos, mais de 100.000 comentários, mais de 20 livros, canal, programa de rádio, esculturas... Manter isso, você pode imaginar, não é barato. Talvez você considere me apoiar no Patreon e ajudar o Mundo Gump a não sair do ar.
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