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Arnaldo, o homem que queria demais

Arnaldo era um velho professor de Geografia aposentado. Vivia sozinho. Bem, não exatamente sozinho, uma vez que estava sempre acompanhado de um gato, vulgo Mimi e um papagaio de estimação mudo, cujo nome ridículo era Bozó.
Tenho pena dos papagaios. Nomes ridículos sempre lhes caem bem. Ainda mais quando são mudos.
Arnaldo tinha uma bela biblioteca.
Na falta de uma mulher, um homem não deve deixar de possuir uma bela e vistosa biblioteca, com volumes clássicos e obscuros. Leitura amena, densa, e mesmo eventualmente, uma ou outra enciclopédia. E ali, espremida milimétricamente entre dois livros de Geologia pré-cambriana, uma revistinha de sacanagem.
Na escrivaninha, Arnaldo mantinha com extremo capricho uma velha máquina de escrever do princípio do século XX, onde escrevia seus poemas. Sim, Arnaldo era um poeta.
Poeta dos bons. Só lido por si mesmo.
Omisso, humilde, Arnaldo assinava Alfredo.
Quando um homem chega ao ponto de inventar um pseudônimo para si mesmo, ainda mais quando se é todo e absoluto público de suas próprias peças, ele é um solitário.
Por natureza o escritor é um só. Mesmo que na companhia dos outros, observa o mundo com os olhos de quem narra os fatos. Narra para si mesmo e com isso rouba de si parte da experiência vivida. Isso pode soar estranho, mas quem escreve, entenderá.
Arnaldo via o mundo com os melancólicos olhos da poesia. Mas secretamennte, desejava ser conhecido, embora o medo lhe impedisse de mostrar seus textos ao mundo.
Não era medo de não ser compreendido. No início até era. Porém, conforme o tempo varreu a vida de Arnaldo, ele acabou sozinho. Por dentro e por fora.
O medo maior era da certeza de se descobrir em meio ao inexorável fato de que agora ele era um solitário total.
Certas pessoas sofrem da falta de complacência da vida. Arnaldo era um deles.
Certa noite, acordou e ficou a olhar para o teto, pensando na vida. Resolveu se matar.
Eu nunca entendi porque Arnaldo decidiu dar cabo de sua própria vida apenas olhando para uma sanca no teto de um apartamento pequeno em Copacabana.
A vida é cheia de mistérios, mas o tempo se encarrega de revelá-los ou enterrá-los no esquecimento da eternidade.
Arnaldo pegou o jornal e arrumou cuidadosamente sobre a mesa da cozinha. Escreveu uma meia dúzia de versos metrificados, como convinha a uma solene decisão de colocar um ponto final na própria vida. Queimou seus escritos no banheiro. Todos. Menos o que deixou na máquina. Nele, Alfredo dedicou sua morte a um amigo desconhecido. O vizinho. Arnaldo queria ser um poeta famoso. Queria ter um apartamento novo. Queria sair com belas mulheres. Queria ser reconhecido pela sua arte. Queria ser imortalizado na poesia, e desejo supremo, na música.
Ele queria ser amigo de um sujeito do apartamento do lado. Era um outro velho, muito esperto, que quando não estava viajando cercado de mulheres lindas, estava cheio de birita na TV. O vizinho era um gênio. Também poeta. Porém, famoso.
Várias vezes Arnaldo desejou bater naquela porta escura do apartamento ao lado e mostrar os versos que escrevia. Mas não tinha peito para tal, visto que sentia-se muito aquém do vizinho. Arnaldo colocou um remédio na água de Mimi. Trancou as janelas, pegou Bozó na área e colocou delicadamente sobre a pia.
Caminhou pesadamente até o antiquado fogão e ligou o gás.
Sentou-se na cadeira da cozinha, abriu o jornal e dentro dele havia uma página arrancada de um livro.
Era uma poesia. Do vizinho. Leu e releu. Leu novamente.
O gás tomou conta da cozinha. Arnaldo respirou fundo o gás e viu as letras dançarem.
Morreu sobre o soneto da felicidade.
Arnaldo era um homem chamado Alfredo. Um homem que queria demais.

Fim

Arnaldo, o homem que queria demais

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Arnaldo, o homem que queria demais

Arnaldo era um velho professor de Geografia aposentado. Vivia sozinho. Bem, não exatamente sozinho, uma vez que estava sempre acompanhado de um gato, vulgo Mimi e um papagaio de estimação mudo, cujo nome ridículo era Bozó.
Tenho pena dos papagaios. Nomes ridículos sempre lhes caem bem. Ainda mais quando são mudos.
Arnaldo tinha uma bela biblioteca.
Na falta de uma mulher, um homem não deve deixar de possuir uma bela e vistosa biblioteca, com volumes clássicos e obscuros. Leitura amena, densa, e mesmo eventualmente, uma ou outra enciclopédia. E ali, espremida milimétricamente entre dois livros de Geologia pré-cambriana, uma revistinha de sacanagem.
Na escrivaninha, Arnaldo mantinha com extremo capricho uma velha máquina de escrever do princípio do século XX, onde escrevia seus poemas. Sim, Arnaldo era um poeta.
Poeta dos bons. Só lido por si mesmo.
Omisso, humilde, Arnaldo assinava Alfredo.
Quando um homem chega ao ponto de inventar um pseudônimo para si mesmo, ainda mais quando se é todo e absoluto público de suas próprias peças, ele é um solitário.
Por natureza o escritor é um só. Mesmo que na companhia dos outros, observa o mundo com os olhos de quem narra os fatos. Narra para si mesmo e com isso rouba de si parte da experiência vivida. Isso pode soar estranho, mas quem escreve, entenderá.
Arnaldo via o mundo com os melancólicos olhos da poesia. Mas secretamennte, desejava ser conhecido, embora o medo lhe impedisse de mostrar seus textos ao mundo.
Não era medo de não ser compreendido. No início até era. Porém, conforme o tempo varreu a vida de Arnaldo, ele acabou sozinho. Por dentro e por fora.
O medo maior era da certeza de se descobrir em meio ao inexorável fato de que agora ele era um solitário total.
Certas pessoas sofrem da falta de complacência da vida. Arnaldo era um deles.
Certa noite, acordou e ficou a olhar para o teto, pensando na vida. Resolveu se matar.
Eu nunca entendi porque Arnaldo decidiu dar cabo de sua própria vida apenas olhando para uma sanca no teto de um apartamento pequeno em Copacabana.
A vida é cheia de mistérios, mas o tempo se encarrega de revelá-los ou enterrá-los no esquecimento da eternidade.
Arnaldo pegou o jornal e arrumou cuidadosamente sobre a mesa da cozinha. Escreveu uma meia dúzia de versos metrificados, como convinha a uma solene decisão de colocar um ponto final na própria vida. Queimou seus escritos no banheiro. Todos. Menos o que deixou na máquina. Nele, Alfredo dedicou sua morte a um amigo desconhecido. O vizinho. Arnaldo queria ser um poeta famoso. Queria ter um apartamento novo. Queria sair com belas mulheres. Queria ser reconhecido pela sua arte. Queria ser imortalizado na poesia, e desejo supremo, na música.
Ele queria ser amigo de um sujeito do apartamento do lado. Era um outro velho, muito esperto, que quando não estava viajando cercado de mulheres lindas, estava cheio de birita na TV. O vizinho era um gênio. Também poeta. Porém, famoso.
Várias vezes Arnaldo desejou bater naquela porta escura do apartamento ao lado e mostrar os versos que escrevia. Mas não tinha peito para tal, visto que sentia-se muito aquém do vizinho. Arnaldo colocou um remédio na água de Mimi. Trancou as janelas, pegou Bozó na área e colocou delicadamente sobre a pia.
Caminhou pesadamente até o antiquado fogão e ligou o gás.
Sentou-se na cadeira da cozinha, abriu o jornal e dentro dele havia uma página arrancada de um livro.
Era uma poesia. Do vizinho. Leu e releu. Leu novamente.
O gás tomou conta da cozinha. Arnaldo respirou fundo o gás e viu as letras dançarem.
Morreu sobre o soneto da felicidade.
Arnaldo era um homem chamado Alfredo. Um homem que queria demais.

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