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– Cabelinho? – Perguntei incrédulo. A voz soava meio diferente, devido a parede. Talvez ele estivesse muito debilitado.

-Anderson! – Ele disse do outro lado. – Onde você andou, cara? Que lugar é este, meu?

-É você Cabelinho? – Tornei a perguntar. Se ele estava morto… Eu não conseguia entender. Tive medo que não fosse ele. E se fosse o Mungo se passando pelo meu amigo? Daquele monstro eu esperava qualquer coisa.

Então deu um silêncio. Ele não respondeu nada. Eu fiquei esperando que ele me dissesse alguma coisa. Tudo parecia meio confuso.

Comecei a me perguntar se eu na verdade não havia morrido na igreja.

-Eu… Eu não sei onde que eu estou. É tudo confuso. – Ele disse finalmente.

-Cabelinho, escuta, você lembra o que aconteceu? Você enfiou a fíbula na mão, tava jogando lembra?

-Eu… Eu não lembro. Não sei. Lembro de você. E então acordei aqui, no escuro. Que lugar é este?

Agora quem ficava em silêncio era eu. Achei estranho o Cabelinho não lembrar como havia ido parar na caixa, mas me lembrei também que quando sofri o acidente com o caminhão, eu não me lembrava dele…

-Anderson? Como vamos sair daqui? – Ele perguntava.

-Cara… Escuta. Deixa eu te falar uma coisa.

-Fala.

-Você lembra da caixa? Do que eu te contei?

-Lembro. A caixa… Um lugar escuro que você estava quando estava em coma.

-Você está na caixa agora, junto comigo eu vim te salvar. – Eu disse, tentando não transparecer minha incredulidade com meus próprios argumentos.

-Hum… – Ele gemeu do outro lado.

-Cara… Eu não sei como que eu vou te falar isso, mas…

-Fala cara. – Ele disse. Eu achei estranho, porque o Cabelinho estava parecendo mais formal do que de costume.

-Você morreu, cara.

-O que?

-Então, você se furou com o alfinete que a bruxa me deu…

-Do que você está falando, porra? – Ele parecia estar bem irritado.

-Cara, não sei porque isso apagou da sua memória, mas, escuta, uma bruxa me deu um alfinete. Ela me disse que era pra eu espetar duas pessoas com ele e elas vinham pra cá. Você pegou o alfinete e se espetou.

-Eu me espetei?

-Sim. Foi.

-Porra… E agora?

-Calma, a parada não acaba aí. Você veio parar aqui, e lá do outro lado, no mundo, você caiu duro, em coma. Te levamos para o hospital, você ficou em estado grave…

-Sei… Continua.

-E então… Você morreu, cara.

-Eu estou vivo, Anderson.

-Aqui sim… Mas lá… – Eu respondi.

Houve um breve minuto de silêncio.

-Meu… Tu me viu morto lá?

-Não. Foi no hospital. Perguntei a uma faxineira.

-Ah, porra! A mulher te falou errado, meu.

-É… Pode ser.  – Eu disse. – Quanto tempo você está aqui?

-Ah, meu… Tô andando aqui tem umas seis horas, eu acho.  – Ele respondeu.

Aquela frase comprovava minha teoria de que o tempo do lado de fora era diferente do tempo da caixa.

-Lá fora já passaram alguns dias. Você sabe da Mara? – Perguntei.

-Mara?

-A Mara é uma moça que eu conheci aqui na caixa. Ela está presa aqui. Você não lembra? Nós vimos ela no hospital.

– Não sei. Estou meio confuso. – Ele respondeu.

Aquilo me frustrou. Imaginei que os dois estivessem juntos na caixa. Descobrir que Cabelinho estava vivo tinha sido uma grata surpresa.

-… Eu conheci sua tia.

-Ela veio?

-Veio.

-Porra, então foi grave o lance. – Ele disse, lacônico. – Como vamos sair dessa caixa?

-Um cara… Um amigo… Ele esta me ajudando. Ele vai tirar a gente dessa.  – Eu disse, torcendo para que aquilo fosse mesmo verdade.

– Cara…

-Fala.

-Meu pai e minha mãe não tão sabendo né? -Ele perguntou. Me senti estranho ao ouvir aquilo, pois eu não sabia como ia lidar com aquele fato, então não quis piorar mais as coisas para meu amigo.

-Não. Eu pedi pra sua tia manter segredo, mas sabe como é. Com o lance lá de dizerem que você morreu, vai saber no que vai dar.

-Antes disso a gente sai, com certeza. – Ele disse, com uma confiança que talvez fosse a mesma confiança falsa que eu tentava demonstrar pra ele.

Então fizemos uma longa pausa silenciosa, que vários minutos depois, foi quebrada com a voz abafada de Cabelinho do outro lado da parede.

-Cara… Que saco esse lugar aqui. 

-Pode crer.

Novamente o silêncio nos envolveu.

Então eu ouvi um som baixo. Era quase inaudível.

-Quê? – Eu sussurrei.

Do outro lado, escutei a resposta, era baixo, mas consegui ouvir colando a orelha na chapa de metal.

-Tem alguma coisa aqui comigo! – Ele disse, baixinho. Devia estar quase com a boca na chapa, pois era muito baixa a sua voz.

Eu não dei resposta. Peguei a lanterna e posicionei meu dedo sobre seu interruptor. Os músculos retesados. Algo estava para acontecer.

Esperei em silêncio algum sinal do Mungo. A tal “alguma coisa” poderia ser o Mungo, mas poderia ser a Mara.

-Tá aí?

-Tô.

-Não, porra, a coisa, caralho!

-Passou aqui perto. Eu fiquei quieto… Ela passou e acho que foi embora.  – Ele sussurrou de lá.

-Puta merda, Cabelinho. Será que era a Mara?

-Não sei. Passou alguma coisa aqui, com certeza. Senti o ventinho.

-Ventinho?

-É… Opa!

-Que foi?

-Shhhh! – Foi o que eu ouvi do outro lado.

Então, tudo se fez silêncio novamente. Passaram-se um dois minutos. Nada.

-Cabelinho? – Eu sussurrei. Mas não obtive resposta. Insisti. -Cabelinhooo?

Foi em vão. Nada de resposta.

Então eu peguei o cabo da lanterna e dei três batidinhas na chapa, enquanto chamava meu amigo: -Porra Cabelinhooo! Responde!

O que eu ouvi do outro lado foi o grito aterrador do monstro, seguido de uma pancada surda na chapa que me jogou longe.  Era o Mungo, em toda sua fúria.

Na queda, a lanterna caiu da minha mão e rolou no escuro.

Senti o trompaço do bicho atravessando o aço gelado da caixa. Uma pisada poderosa atingiu o chão onde eu estava caído de costas, tateando desesperadamente em busca da lanterna.

Senti mais uma vez aquela mão horrível e forte me agarrar pela perna e me levantar no ar. O som que saía daquele bicho parecia uma turbina de avião. E senti o hálito desgraçado daquela criatura me atingir como uma lufada de vento apodrecido.

A mão me esmagava a perna e eu somente consegui gritar por socorro.  Após ser sacolejado no ar como um bebê faz com seus brinquedos, percebi que não duraria inteiro até o terceiro sacolejo seguido.

“Agora fodeu! Morri!” – Foi o que eu pensei no desespero. As coisas não tinham como ficar piores.

CONTINUA

 

A caixa – Parte 29

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– Cabelinho? – Perguntei incrédulo. A voz soava meio diferente, devido a parede. Talvez ele estivesse muito debilitado.

-Anderson! – Ele disse do outro lado. – Onde você andou, cara? Que lugar é este, meu?

-É você Cabelinho? – Tornei a perguntar. Se ele estava morto… Eu não conseguia entender. Tive medo que não fosse ele. E se fosse o Mungo se passando pelo meu amigo? Daquele monstro eu esperava qualquer coisa.

Então deu um silêncio. Ele não respondeu nada. Eu fiquei esperando que ele me dissesse alguma coisa. Tudo parecia meio confuso.

Comecei a me perguntar se eu na verdade não havia morrido na igreja.

-Eu… Eu não sei onde que eu estou. É tudo confuso. – Ele disse finalmente.

-Cabelinho, escuta, você lembra o que aconteceu? Você enfiou a fíbula na mão, tava jogando lembra?

-Eu… Eu não lembro. Não sei. Lembro de você. E então acordei aqui, no escuro. Que lugar é este?

Agora quem ficava em silêncio era eu. Achei estranho o Cabelinho não lembrar como havia ido parar na caixa, mas me lembrei também que quando sofri o acidente com o caminhão, eu não me lembrava dele…

-Anderson? Como vamos sair daqui? – Ele perguntava.

-Cara… Escuta. Deixa eu te falar uma coisa.

-Fala.

-Você lembra da caixa? Do que eu te contei?

-Lembro. A caixa… Um lugar escuro que você estava quando estava em coma.

-Você está na caixa agora, junto comigo eu vim te salvar. – Eu disse, tentando não transparecer minha incredulidade com meus próprios argumentos.

-Hum… – Ele gemeu do outro lado.

-Cara… Eu não sei como que eu vou te falar isso, mas…

-Fala cara. – Ele disse. Eu achei estranho, porque o Cabelinho estava parecendo mais formal do que de costume.

-Você morreu, cara.

-O que?

-Então, você se furou com o alfinete que a bruxa me deu…

-Do que você está falando, porra? – Ele parecia estar bem irritado.

-Cara, não sei porque isso apagou da sua memória, mas, escuta, uma bruxa me deu um alfinete. Ela me disse que era pra eu espetar duas pessoas com ele e elas vinham pra cá. Você pegou o alfinete e se espetou.

-Eu me espetei?

-Sim. Foi.

-Porra… E agora?

-Calma, a parada não acaba aí. Você veio parar aqui, e lá do outro lado, no mundo, você caiu duro, em coma. Te levamos para o hospital, você ficou em estado grave…

-Sei… Continua.

-E então… Você morreu, cara.

-Eu estou vivo, Anderson.

-Aqui sim… Mas lá… – Eu respondi.

Houve um breve minuto de silêncio.

-Meu… Tu me viu morto lá?

-Não. Foi no hospital. Perguntei a uma faxineira.

-Ah, porra! A mulher te falou errado, meu.

-É… Pode ser.  – Eu disse. – Quanto tempo você está aqui?

-Ah, meu… Tô andando aqui tem umas seis horas, eu acho.  – Ele respondeu.

Aquela frase comprovava minha teoria de que o tempo do lado de fora era diferente do tempo da caixa.

-Lá fora já passaram alguns dias. Você sabe da Mara? – Perguntei.

-Mara?

-A Mara é uma moça que eu conheci aqui na caixa. Ela está presa aqui. Você não lembra? Nós vimos ela no hospital.

– Não sei. Estou meio confuso. – Ele respondeu.

Aquilo me frustrou. Imaginei que os dois estivessem juntos na caixa. Descobrir que Cabelinho estava vivo tinha sido uma grata surpresa.

-… Eu conheci sua tia.

-Ela veio?

-Veio.

-Porra, então foi grave o lance. – Ele disse, lacônico. – Como vamos sair dessa caixa?

-Um cara… Um amigo… Ele esta me ajudando. Ele vai tirar a gente dessa.  – Eu disse, torcendo para que aquilo fosse mesmo verdade.

– Cara…

-Fala.

-Meu pai e minha mãe não tão sabendo né? -Ele perguntou. Me senti estranho ao ouvir aquilo, pois eu não sabia como ia lidar com aquele fato, então não quis piorar mais as coisas para meu amigo.

-Não. Eu pedi pra sua tia manter segredo, mas sabe como é. Com o lance lá de dizerem que você morreu, vai saber no que vai dar.

-Antes disso a gente sai, com certeza. – Ele disse, com uma confiança que talvez fosse a mesma confiança falsa que eu tentava demonstrar pra ele.

Então fizemos uma longa pausa silenciosa, que vários minutos depois, foi quebrada com a voz abafada de Cabelinho do outro lado da parede.

-Cara… Que saco esse lugar aqui. 

-Pode crer.

Novamente o silêncio nos envolveu.

Então eu ouvi um som baixo. Era quase inaudível.

-Quê? – Eu sussurrei.

Do outro lado, escutei a resposta, era baixo, mas consegui ouvir colando a orelha na chapa de metal.

-Tem alguma coisa aqui comigo! – Ele disse, baixinho. Devia estar quase com a boca na chapa, pois era muito baixa a sua voz.

Eu não dei resposta. Peguei a lanterna e posicionei meu dedo sobre seu interruptor. Os músculos retesados. Algo estava para acontecer.

Esperei em silêncio algum sinal do Mungo. A tal “alguma coisa” poderia ser o Mungo, mas poderia ser a Mara.

-Tá aí?

-Tô.

-Não, porra, a coisa, caralho!

-Passou aqui perto. Eu fiquei quieto… Ela passou e acho que foi embora.  – Ele sussurrou de lá.

-Puta merda, Cabelinho. Será que era a Mara?

-Não sei. Passou alguma coisa aqui, com certeza. Senti o ventinho.

-Ventinho?

-É… Opa!

-Que foi?

-Shhhh! – Foi o que eu ouvi do outro lado.

Então, tudo se fez silêncio novamente. Passaram-se um dois minutos. Nada.

-Cabelinho? – Eu sussurrei. Mas não obtive resposta. Insisti. -Cabelinhooo?

Foi em vão. Nada de resposta.

Então eu peguei o cabo da lanterna e dei três batidinhas na chapa, enquanto chamava meu amigo: -Porra Cabelinhooo! Responde!

O que eu ouvi do outro lado foi o grito aterrador do monstro, seguido de uma pancada surda na chapa que me jogou longe.  Era o Mungo, em toda sua fúria.

Na queda, a lanterna caiu da minha mão e rolou no escuro.

Senti o trompaço do bicho atravessando o aço gelado da caixa. Uma pisada poderosa atingiu o chão onde eu estava caído de costas, tateando desesperadamente em busca da lanterna.

Senti mais uma vez aquela mão horrível e forte me agarrar pela perna e me levantar no ar. O som que saía daquele bicho parecia uma turbina de avião. E senti o hálito desgraçado daquela criatura me atingir como uma lufada de vento apodrecido.

A mão me esmagava a perna e eu somente consegui gritar por socorro.  Após ser sacolejado no ar como um bebê faz com seus brinquedos, percebi que não duraria inteiro até o terceiro sacolejo seguido.

“Agora fodeu! Morri!” – Foi o que eu pensei no desespero. As coisas não tinham como ficar piores.

CONTINUA

 

A caixa – Parte 29

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Eu dei duro aqui

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