Um telefone no meio do deserto

Pode parecer esquisito, e é. No meio do deserto de Mojave, havia um telefone público. A história desse curioso ícone civilizatório num lugar tão inesperado é o tema do meu post de hoje.

A descoberta do Telefone

Inicialmente, suspeitaram que o telefone tenha sido instalado no meio do deserto em algum ponto dos anos setenta. Qual a razão disso permaneceu mistério por anos, e eu poderia criar mil conjecturas bizarras para justificar um telefone num lugar onde costumeiramente não há ninguém além de cascavéis, cactus e corujas. Décadas passaram e o telefone ficou lá, até que chegou o ano de 1997. Por alguma razão dessas que escapa ao conhecimento de qualquer um, um homem chamado “Senhor N.” estava olhando um mapa. N era um morador anônimo de Los Angeles, e sabe-se lá porque, estava digitalizando aquele mapa do deserto quando ficou surpreso ao se deparar com uma anomalia no mapa. Inicialmente ele pensou que era algum defeito da gráfica. Em pleno deserto do Mojave, longe de ruas, estradas ou qualquer sinal civilizatório havia um minúsculo símbolo e a palavra: “telefone”.

É claro que o “Senhor N.” poderia simplesmente ignorar aquela merdinha no mapa e continuar seu trabalho. Mas uma ideia o perturbou: “E se houvesse mesmo um telefone lá?”
N largou tudo que estava fazendo, pegou seu jipe e partiu em busca do local misterioso. Com o veículo, ele trafegou pelas estradas até o ponto mais próximo que lugar, que ficava a 15 milhas de distância. Em seguida, fez uma curva em meio a estrada e começou a sessão interminável de solavancos e poeira 24 km em meio ao deserto torrado pelo sol. Surpreendentemente, como que numa visão mágica e surreal, em meio ao nada, lá estava ele: O telefone existia mesmo!

Ele encontrou a cabine com o telefone público dentro, e agora só restava uma coisa a fazer: decidiu testá-lo.

Funciona!

Completamente pasmo, o senhor N descobriu que o telefone funcionava lindamente, apesar de estar coberto de poeira. Assim, N. voltou para casa, e escreveu sobre a descoberta em uma carta a uma revista que ele assinava  (suspeito que era a Seleções do Reader Digest). Ele escreveu o texto, intitulado apropriadamente de “funciona”. O senhor N também fez a gentileza de incluir o número do orelhão para que qualquer pessoa pudesse ligar para o deserto.
O número era (760) 733-9969.
Apesar de toda a improbabilidade e do número minúsculo de pessoas que poderiam estar em pleno deserto para atender, a companhia telefônica havia deixado a linha operacional. Felizmente para a empresa de telefonia, muito mais pessoas começaram a usá-lo. Alguns usaram mais do que outros.

Em 26 de Maio de 1997, Godfrey Daniels leu aquele artigo e tornou-se obcecado pela ideia de um telefone tocando sem parar no meio do deserto. Provavelmente o cara não batia muito bem do pino, uma vez que espalhou bilhetes pela casa para lembrá-lo de ligar para o orelhão do deserto. “Você se lembrou de ligar para o deserto de Mojave hoje?”

Era o que dizia o pequeno p=bilhetinho no espelho do banheiro. Godfrey então, passou a ligar todo santo dia para o telefone do deserto. Mas aquilo estava ficando muito trabalhoso. Gradualmente, ligar para o deserto foi ocupando mais e mais espaço em sua vida, ao ponto em que ele já não conseguia fazer nada senão ficar ligando para aquele número. Então Godfrey mudou sua metodologia. Ele tinha o equipamento que precisava. O cara se gravou repetindo a hora e a data da chamada e um simplório aparelho eletrônico ficava ligando para o telefone do deserto.
Godfrey ainda estava na compulsão pelo telefone e por isso fazia todos os que fossem visitá-lo, ligarem pelo menos uma vez para o deserto. Ele disse que estava “preparado para chamar por anos.”

Felizmente, anos não seriam necessários, o deserto enviou alguns ouvidos.

No dia 20 de junho de 1997 Godfrey estava fazendo sua chamada diária, quase religiosa para o deserto, quando ouviu algo diferente do sinal de chamando. Era um tom de ocupado. Seu coração disparou. Aquilo só podia ser um erro! Devia ter caído em número errado, pensou Godfrey. Assim, ele desligou e tentou novamente. O mesmo tom de ocupado se repetiu. Havia alguém lá!
Ele que estava preparado para ligar por anos, se surpreendeu em ter resultado em menos de um mês.

Ele ligou insistentemente para o telefone. O aparelho deu ocupado direto até que finalmente, CHAMOU!
Em seguida, uma voz feminina atendeu.

Depois de uma desconcertante auto-apresentação, Godfrey perguntou para sua interlocutora misteriosa quem ela era. Seu nome era Lorene Aiken. Durante a conversa, ele descobriu que ela vivia no deserto e trabalhava extraindo cinzas vulcânicas para fazer em blocos de concreto. Além disso, ele descobriu que ela raramente ia até aquela parte do deserto, e que gostava de Las Vegas. Depois de alguns minutos Godfrey terminou a conversa com uma única observação. “Se o telefone voltar a tocar de novo, atenda. Serei eu.”

“Eu vou fazer isso.” Disse Lorene. Em seguida, a linha ficou muda.

Godfrey desligou o telefone com o coração batendo a mil! O sucesso em conseguir falar com alguém no lugar mais improvável da América do Norte só aumentou seu foco na cabine. Ele iria manter sua obsessão, e planejou visitar o lugar quando estivesse a caminho do festival Burning Man (uma festa de rock muito louca que rola no deserto).

Foi Godfrey e sua curiosa história sobre a obsessão e o telefonema para uma desconhecida no deserto que fez a fama da cabine e que também acabou por destruí-la.

O telefone fica famoso

Já escurecia. Era o dia 27 de Agosto de 1997 e Godfrey andava pelo deserto com uma lanterna, seguindo uma linha de postes telefônicos. No final, após andar feito um desgraçado, ele finalmente encontrou a cabine. A sensação foi estranha, ele não queria ir embora. Sentia como se uma parte dele estivesse ali. Começou a chover. Com Godfrey na chuva estava seu amigo Mark e um busto de mármore do século 19 do compositor alemão Richard Wagner. (Não me pergunte o porquê! Esse caso é muito louco.)

Os dois ficaram horas e horas se revezando para fazer suas ligações para cada pessoa que eles conheciam. Quando finalmente não se lembravam de mais ninguém, seguiram seu caminho para o festival Burning Man.

Na volta do festival, Godfrey resolveu passar pela cabine novamente. Ele tinha novos planos. Ele limpou a cabine e, em seguida, parcialmente cobriu a mesma com tinta que brilha no escuro. Em seguida, eles finalmente deixaram o lugar por um bom período de tempo, levaram com eles fotos e um balde cheio de vidro quebrado. Foi isso que levou a cabine remota ao auge de sua fama.

A internet ouviu falar da cabine, e junto com a curiosa e estranha história de Godfrey e sua obsessão, de um dia para o outro, o mundo queria se meter no deserto para conhecer a cabine que brilhava no escuro. O telefone e Godfrey se tornaram celebridades bizarras e improváveis. Logo mais e mais pessoas começaram a entrar em contato com ele. Assim, em 1998 ele voltou para a cabine, desta vez ele iria receber as chamadas, não fazê-las. E como o mundo é Gump, ele decidiu levar a estátua do Wagner junto com ele.

Ficou cada vez mais comum avistar turistas se aventurando pelo deserto atrás da cabine. E quando a encontravam a diversão era ficar atendendo as ligações que não paravam.
O sucesso foi tanto que a famosa cabine esquecida virou estrela de cinema.
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O evento estranho foi anunciada no jornal LA Times e centenas de pessoas tentaram ligar para o deserto. Quando Godfrey chegou ao local em pleno deserto, se espantou: Outra pessoa estava na cabine recebendo as chamadas das pessoas que achavam que estavam falando com Godfrey. Godfrey aluco poderia ter ficado puto, mas na verdade eles se deram maravilhosamente bem e os dois responderam nada menos que 171 chamadas naquele dia.

Em alto astral, eles usaram pedaços de quartzo para escrever “TELEFONE” em letras gigantes no solo. Em seguida, eles, (com Wagner), celebraram a nevasca anormal que atingiu o deserto.

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Logo, outros doidos desembarcariam no Ímã de pirados que o telefone improvável se transformou.

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Uma das novas figuras alegava ter sido enviado pelo Espírito Santo. Em sua missão pessoal, ele respondeu a 500 chamadas em mais de 32 dias, incluindo ligações repetidas de uma pessoa que tinha certeza absoluta (aquele tipo de certeza inabalável que só os loucos conseguem ter) alegando que eles eram do Pentágono. O cara só parou de encher o saco quando eles disseram que a cabine telefônica era mesmo uma ‘instalação militar’.

A notícia da cabine viajava na velocidade da luz ao redor do globo. O telefone não parava de tocar.

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Uma dona de casa na Nova Zelândia, um adolescente alemão entendiado, e uma mulher cheia de erva na cabeça estavam entre as pessoas que atendiam o chamado irresistível e estranho de ligar para o numero do deserto. A notícia se espalhava mais e mais e a cabine foi debatida pelo New York Times e virou destaque nas redes de televisão NBC e CNN. Foi quando a origem do telefone misterioso foi descoberta: Na década de 60 quando uma empresa de telefonia decidiu instalar uma cabine para que os funcionários de uma mineradora, que funcionava pela região, pudessem falar com seus familiares. Mas o destaque nos grandes jornais não foi bom para o oásis de bizarrice do deserto que era o telefone. Aliás, foi uma merda.

A morte do sonho

Em meio à polêmica, o lufa-lufa, multidões de sequelados começaram a vagar por áreas previamente isoladas do deserto Mojave, pixando a cabine, poluindo-o com sujeira, lixo, mensagens, e ruído. A balburdia estava tamanha, que temendo que alguém acabasse morrendo perdido no deserto na esperança de achar a cabine, a empresa de telefonia anunciou planos para remover a famosa cabine do deserto.

Eles afirmaram que o elevado número de visitantes estava em risco, e também agrediam o meio ambiente. O povo protestou, mas não adiantou.

Em 17 de Maio de 2000 a cabine telefônica do deserto foi removida e destruída. Deixaram apenas alguns blocos de concreto em seu lugar. Logo após uma lápide colorida foi colocado no lugar com o o “nome” e seu “tempo de vida” inscrito na frente.

Godfrey Daniels o cara que se sentia o “pai” da cabine, estava enfurecido mas não havia nada que ele pudesse fazer.

A lápide foi removida logo depois pela empresa de telefonia.

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E assim termina essa história. As pessoas voltaram para suas vidas. A cabine foi destruída e seu número permanentemente encerrado. Ligar para o número agora não leva a resposta alguma.

No deserto, longe de qualquer vestígio humano, o silêncio continua.

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6 comentários em “Um telefone no meio do deserto”

  1. 15 anos depois Richard Loyd encontrou-se perdido no meio do deserto de Mojave após terem aplicado um golpe com boa noite Cinderela em um cassino em Las Vegas, após rodar por quilômetros na noite fria do Mojave ele se deparou com blocos de concretos no chão onde um dia se encontrava o “telefone de Mojave”, mal sabendo ele que se fosse alguns anos antes ele teria como ligar para as autoridades pedindo ajuda… Muito obrigado, Godfrey Daniels, você matou Richard Loyd, seu filho da puta! UAUAUAHUAHHUAUH

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