Um Caravaggio no sótão

Volta e meia surgem histórias curiosas sobre algumas pinturas. Essa é uma delas, e talvez uma das mais gump.

Anos depois de comprar uma casa em Toulouse, na França, o proprietário foi dar uma verificada no imóvel e ao conseguir acessar o sótão que há muito estava trancado, descobriu algo curioso.

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Entre caixas de madeira empoeiradas, cadeiras velhas e cacarecos mais diversos, esquecidos pelo tempo, havia uma pintura antiga guardada no sótão. Ela estava coberta de poeira e manchada por um vazamento de água, então parecia improvável que valesse alguma coisa. Mas sabe como é… por “via das dúvidas”, o proprietário resolveu chamar um avaliador de arte, Eric Turquin, baseado em Paris.

Demorou vários anos para obter o relatório, e quando chegou, a notícia foi surpreendente:

O cara tinha acabado de ganhar na loteria sem jogar!  A pintura é “Judith and Holofernes”, que se acredita ter sido pintada em 1607. Era nada menos que uma obra-prima perdida de Caravaggio. Diante da notícia bombástica, a  França colocou uma proibição de exportação na pintura para impedi-la de sair do país enquanto outras investigações são realizadas.

Em uma coletiva de imprensa, foi anunciado que a pintura após restaurada será leiloada em Toulouse, onde deverá ser vendida por valores estimados em  € 150 milhões, ou US $ 171 milhões.

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Caravaggio, Judith Beheading Holofernes (c. 1598-1599)

Especialistas estimam que a tela, notavelmente bem preservada, retrata a decapitação do Holofernes por Judite, do livro apócrifo de Judite, que teria sido pintada entre 1600 e 1610.  Essa cena  descreve uma passagem do Livro de Judite que existem em versões católica romana e ortodoxa oriental do Antigo Testamento, em que Judite seduz um general inimigo em sua tenda antes de decapitá-lo.

“Esta é a maior pintura que já encontrei”, disse Turquin à CNN. “É muito violenta. É quase insuportável. Mas ele é um artista que encarna o texto – ele faz o texto viver ”.

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Judite com a cabeça de Holofernes por Carlo Francesco Nuvolone, segunda metade do século XVII

Turquin também disse que a pintura tem “a luz, a energia típica de Caravaggio, sem erros, feita com uma mão segura e um estilo pictórico que a torna autêntica”.

A existência da pintura era conhecida antes de sua descoberta devido a menções a ela em duas cartas datadas de 1607 para o duque de Mântua; uma declaração de 1617 do negociante de arte e pintor Louis Finson; e um inventário imobiliário de Abraham Vinck, da Antuérpia, em 1619, de acordo com o relatório Robb. “Acredita-se que ele tenha sido exposto em algum momento na Antuérpia em 1689, mas desde então não houve nenhuma menção à pintura até sua recente descoberta, escondida nesse pequeno sótão francês empoeirado.”

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Auto-retrato, por Louis Finson

Turquin recebeu o apoio do criador da pintura de um dos principais especialistas em Caravaggio, incluindo nicola Spinoza, ex-diretor do museu de Nápoles.

“O terceiro especialista que conheci me disse que não era apenas um Caravaggio, mas também uma obra-prima”, disse Turquin. “Judite degolando Holofernes deve ser considerada a pintura mais importante, de longe, ter surgido nos últimos 20 anos por um dos grandes mestres.”
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O Sepultamento de Cristo (1602) de Caravaggio | Tela para

As pinturas de Caravaggio tem características únicas de uma luz teatral dramática.  A proibição de exportação significa que esta pintura não pode deixar o país por 30 meses enquanto é estudada, e permitirá que museus nacionais franceses tenham tempo suficiente para comprá-la. O Museu do Louvre já passou três semanas estudando essa obra. A pintura aparece em um inventário da propriedade de um homem chamado Abraham Vinck, realizado na Antuérpia em 1619. Depois de 1619, o destino da pintura se tornou um mistério, embora de acordo com a galeria Colnaghi, poderia ter sido mostrada ma Antuérpia novamente anos depois, em 1689. “Não sabemos para onde foi depois de 1689”, disse Turquin.

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A obra foi intensamente analisada por especialistas do Museu do Louvre, Paris, França

O próprio Caravaggio levou uma vida violenta e notória. Quando o artista morreu com a idade de 39 anos em 1610, alguns disseram que era de malária, outros sífilis, outros ainda que ele foi envenenado por seus inimigos.

O artista era particularmente apaixonado por lutar. Um cronista escreveu:

Depois de uma quinzena de trabalho, ele se arrogará por um ou dois meses com uma espada ao seu lado e um servo seguindo-o, de uma quadra para a outra, sempre pronto a entrar em uma briga ou discussão, de modo que é muito difícil se dar bem com ele.

As pinturas de Caravaggio revolucionaram a arte com sua atraente combinação de anatomia humana realista e intenso uso da luz.

Caravaggio é talvez por isso, mas não apenas,  considerado o maior representante do estilo barroco. Grande mestre na arte de manipular o jogo de luz e sombra, que confere um enorme grau de complexidade à sua obra. O grande valor dessa descoberta do sótão em parte se traduz por serem poucos os quadros de Caravaggio que sobreviveram até os dias de hoje. Por segurança, não é permitido transportar mais de dois Caravaggios num mesmo avião. Em terra, as obras viajam também em duplas, sempre sob escolta armada. Existem 62 ao todo, e alguns deles ainda passam por avaliação de especialistas para que o período de produção e as condições em que foram realizados sejam comprovados. A obra Medusa Murtola, por exemplo, era considerada uma cópia até recentemente. Só ao fim de trabalhos que duraram 20 anos – com sofisticadas análises em infravermelho – é que sua autenticidade foi enfim, comprovada.

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Enfim, uma dica preciosa para quem compra imoveis antigos, sempre dê uma olhada, pois pode haver um tesouro bem debaixo do seus pés. Ou como neste caso, sobre a sua cabeça.

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3 comentários em “Um Caravaggio no sótão”

  1. Tenho um tio com um violino “strativarios” SIC no seu sótão, herdou de uma tia alemã que não teve filhos.

    O detalhe é que ele não quer vender, não se sente à vontade de exibi-lo e ainda, não sabe tocar o instrumento. Kkk

    • É preciso autenticar, dizer que tem stradivarius tem um monte de gente que alega, mas é que no século XIX fizeram um porrilhão de falsificações dele.

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