Tragédia cigana – Parte 2

(Continuação da parte 1)

Foi quando uma mão forte agarrou seu braço. Alexander olhou para cima. Era Dimitri, o primo dele.

-Chega de descanso, seu maluco! – Brincou Dimitri, içando Alexander para cima da rocha.

-Ah, bem agora que eu tava quase pegando no sono, você aparece! – Fingiu reclamar Alexander.

Os dois sorriram e sentaram-se na beira do penhasco.

Alexander ficou em silêncio olhando o vazio.

-Quase morri.

-Sua sorte é que o cavalo voltou correndo. Quando o velho viu o cavalo vazio percebeu que algo havia acontecido e me mandou ir atrás. Eu vi a marca de sangue na árvore e segui os rastros até aqui.-Disse Dimitri. – Agora vamos embora. Temos que cortar muita lenha. Está quase escuro.

-Você está louco. Olha só pra mim. Estou um lixo!

-Para de reclamar, seu chato. Ou te faço voltar andando até as carroças.

Alexander concordou com a cabeça. Os dois ciganos continuaram a subir o terreno íngreme, cheio de pedras e limo em direção à trilha, lá em cima. Subiam em silêncio, agarrando-se em galhos, raízes e árvores. Quando finalmente alcançaram a trilha, Alexander virou-se para o primo.

-Dimitri?

-Fala matraca.

-Obrigado. – Disse ele abraçando o primo.

-Sai pra lá, rapaz. Deixa de frescuragem. Sobe aí no  pangaré e vamos embora.

Os dois subiram no cavalo e iniciaram uma marcha lenta pela floresta de volta ao acampamento.

No caminho, Alexander lembrava-se de seu primo. Dimitri era um cara estranho. Em alguns dias ele era super interessante e atencioso. Mas do nada o tempo virava e Dimitri tornava-se cruel. Dimitri também era órfão. Sua história nunca foi claramente explicada. Tudo que eles sabiam era que Dimitri foi encontrado enrolado numa manta numa estrada. Quando os ciganos o encontraram, ele estava roxo e prestes a morrer de frio.

Crescer sabendo daquela rejeição nunca fez bem pra ele. Gradualmente Dimitri se desenvolveu e passou a se engajar nos trabalhos mais árduos dentro do grupo. Ferrava cavalos, cortava lenha, carregava pedras. Ele era um homem grande e forte. Massa bruta. Sentado atrás do primo, Alexander pode ver as marcas das cicatrizes no pescoço de Dimitri.

-Nossa, Dimitri. cCmo está o pescoço? Cicatrizes feias, hein?

-Tô bem. – Disse lacônico o Cigano.

Alexander sabia que aquelas cicatrizes haviam sido produzidas por uma luta feroz com lobos. Dimitri era meio selvagem. Ele passava pouco tempo com os ciganos, pois diversas vezes dormia sozinho na floresta. Era um caçador. Não raro ele trazia a comida. Porcos do mato, javalis, filhotes de lobo, cobras, veados, tudo que tivesse pelo e se mexesse, ele era capaz de matar. Rastreador nato, Dimitri perseguia sem piedade os animais durante dias até vencê-los pelo cansaço e pelos golpes de punhal. Dessas caçadas restavam grandes e profundas feridas. Cortes e cicatrizes que gradualmente desfiguraram bastante o grande cigano. Ele tinha pelo menos três cortes fundos no rosto, que tornaram-se marcas que o deixaram meio feio. Sua aparência com as cicatrizes era mais ameaçadora do que de fato ele era como pessoa.  Exímio lutador, Dimitri já havia tirado a vida de pelo menos quatro em combate.

A maioria não-ciganos. Quando a caravana passava pelos vilarejos, não raro eles eram atacados brutalmente pelos asseclas de senhores feudais. Numa dessas vezes, Dimitri revidou. Acabou matando dois homens. Os outros dois, Alexander só sabia de ouvir falar, mas nunca tivera coragem de perguntar ao “primo.” A relação de parentesco dos dois  era afetiva apenas, já que Dimitri acabou sendo criado pelo Velho Ephraim. Cresceram de certa forma como irmãos, embora Dimitri sempre tivesse nutrido algum ressentimento por Ephraim dar mais atenção ao pequeno, como chamou durante anos Alexander. Quatro anos mais velho que Alexander, e dez vezes mais forte e desenvolvido, o grande cigano tinha um temperamento extremamente instável.

No cavalo, aos trancos e barrancos, voltaram até o grupo. Quando chegaram lá, já estava tudo escuro.

Ephraim veio correndo.

-Olha só pra você Alexander! O que aconteceu?

Depois de explicar tudo e espantar seus amigos, Alexander teve as feridas limpas com uma solução de água e ervas. Minutos depois os homens partiram para a área do acampamento e iluminando a escuridão com tochas e archotes, começaram a desferir machadadas para abrir a clareira do acampamento. As toras foram empilhadas num canto e dali a poucas horas as carroças chegaram na clareira. Uma grande fogueira central foi construída e um grande número de tochas acesas. O acampamento foi montado.

Ephraim reuniu o povo e conclamou a todos a comemorar a vida de Alexander. O povo cigano saudou a idéia e os preparativos de uma festa se iniciaram.

As mulheres começaram a preparar a comida. Alguns homens pegaram seus instrumentos musicais. Outros montavam bancos improvisados com troncos de árvores ao redor da fogueira.

Enquanto algumas mulheres dançavam, crianças brincavam e velhos confabulavam, a maioria dos ciganos estavam reunidos ao redor da fogueira, conversando e comendo. Ao fundo, na preparação das comidas, estava Mikaela. Ela olhava fixamente para Alexander, que evitava seus olharas ao máximo que podia.

Eles escutaram um barulho de trotes.

Os ciganos lançaram olhares uns para os outros. Rapidamente os homens se uniram na entrada da clareira. Os mais fortes guerreiros sacaram seus punhais e as mulheres correram com as crianças para dentro das carroças.

Surgiun na  escuridão um cavalo preto com um homem em cima. Ele vinha com uma tocha. Ninguém conseguiu distinguir direito o que ou quem era. O homem viu o acampamento cigano e manobrou o cavalo de volta para o interior da mata.

Os ciganos estavam preparados para este tipo de coisa. Não raro eram atacados durante as noites. Tidos como feiticeiris e ameaças, eles eram acusados de coisas tão irreais como talhar o leite e sequestrar crianças para fazer sabão, quanto de coisas reais, como roubar vegetais de plantações e vender produtos de segunda mão de origens obscuras.

Os ciganos ficaram esperando que algo acontecesse. Depois de alguns minutos, mais cavalos puderam ser ouvidos. Foi quando surgiu por entre a trilha uma grande carroça. Era a primeira de um comboio de outro grupo cigano.

Ephraim olhou para Alexander o seu lado.

-Calma. Era um batedor. -Disse o velho.

A porta da carroça se abriu e um enorme homem de barba surgiu.

Ephraim correu para cumprimentar o homem grande e forte, de cabelos brancos compridos, amarrados em um rabo de cavalo que já descia da carroça. O homem aparentava uns cinqüenta anos de idade. Talvez um pouco mais.

-Zaid! – Gritou Ephraim iluminado por uma tocha.

-Ephraim! – Falou Zaid, abrindo os braços para o velho cigano.

Os dois se abraçaram.

-Ung! Minhas costas. – Gemeu Ephraim. – Não sou mais o mesmo. Estou velho.

-Pra mim você ainda parece forte, Ephraim. Como estão as coisas? Quanto tempo faz? Dez anos?

-Vinte e dois.

-Nossa. Muito tempo…

-Sim, sim, meu amigo. Venha, junte-se a nós. Vamos comemorar nosso encontro.

Ephraim pediu que alguns homens fortes pegassem os machados e abrissem mais espaço, derrubando pequenas árvores. Os homens de Zaid também empunharam machados e em pouco tempo, uma grande área circular foi aberta no meio da floresta, ao sopé da montanha.

Enquanto a maioria das pessoas dos dois grupos de ciganos se cumprimentavam ao redor da fogueira, alguns homens rearrumavam a disposição das carroças, formando um único círculo, onde a fogueira fazia de praça central.

Alexander foi apresentado a Zaid, líder do grupo e sua esposa, Petra. Ela estranhou os ferimentos do rapaz. Ephraim explicou a eles a perigosa aventura que o jovem cigano havia se metido poucas horas antes e todos se espantaram com sua força e coragem.

Os ciganos se sentaram ao redor da grande fogueira e juntaram os alimentos para uma grande celebração.

Zeroth tocou musica e todos conversavam animadamente. Algumas meninas pequenas dançavam ao redor do fogo.

Foi quando Alexander viu surgir da escuridão a mulher mais linda que já havia testemunhado. Era uma morena de cabelos muito negros, alta com olhos profundamente verdes, que trajava um vestido colorido e no cabelo uma rosa vermelha. Seu olhar era penetrante e Alexander sentiu suas tripas dando um nó quando as duas esmeraldas brilhantes cruzaram seu olhar.

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Os olhares se encontraram e foi como uma faísca imediata que se acendeu na alma de ambos. Petra chegou perto da moça e apresentou ao rapaz:

-Alexander, esta é Sandra, minha filha.

Alexander ficou alguns segundos sem fala. A moça percebeu e sorriu. O rapaz ficou vermelho de vergonha.

-Oi, como vai?

-Tudo bem. Eu sou Sandra. Muito prazer.

-Sinta-se em casa. -Disse ele meio sem jeito, apontando um local para que as duas sentassem.

Durante aquela noite, Alexander não conseguiu desviar os olhos daquela mulher. Seu corpo era lindo, perfeito, seu olhar trazia algo de calor, era um olhar sedutor, mas com alguma inocência quase infantil.

Ao fundo, comendo um pedaço de frango, estava Mikaela, agora tomada por um ódio avassalador.

O velho Ephraim conversava animadamente com Zaid, contando casos do passado, do tempo em que os pais de Alexander eram vivos. Alexander estava hipnotizado olhando para Sandra, que conversava com as outras moças do grupo.  Volta e meia ela olhava rapidamente para Alexander e disfarçava.

Dimitri, sentou-se ao lado dele.

– Dia difícil, hein? -Disse ele, puxando conversa.

-Pois é. Devo minha vida a você, primo.

-Ah, para com esta palhaçada. Não fiz mais que minha obrigação. Agora tome. Beba! – Disse ele enchendo uma taça de vinho e entregando a Alexander.

Zeroth tocou uma musica linda no violino e todos aplaudiam no ritmo da musica. Petra, a mulher do líder do grupo sinalizou com as mãos para Sandra.

-Dance, criança. Dance!

Sandra saltou por cima do tronco e iniciou sua dança. O povo cigano cantou alegremente as musicas tradicionais enquanto Sandra bailava divinamente. Ela dançava olhando de um modo sedutor para Alexander.  Ao lado dele, Dimitri estava estupefato. Olhava com cara de bobo vendo aquela deusa que se materializava na luz bruxuleante do fogo. Sandra girava o corpo no ritmo da dança. Movia-se felina, mágica e sorridente. O corpo dançando sem parar. O povo aplaudia e gritava seu nome.

A dança contagiante de Sandra afetava principalmente Alexander, que sentia uma tontura, um certo delírio. Imaginava-se com aquela mulher para sempre. Não sabia como conseguira viver sem ela ao seu lado até aquele dia.

Os cabelos balançavam no ar de maneira que ela parecia mais um anjo, uma coisa de outro mundo. Seu corpo bailava num movimento de intensa sensualidade, mas seu rosto sorria a inocência e pureza de uma menina. Sandra girou à beira do fogo segurando o vestido e num movimento de corpo tirou a rosa do cabelo e jogou aos pés de Alexander.

Minutos depois, quando a dança havia terminado e muitas pessoas já estavam se recolhendo para as cabanas, Alexander tomou coragem e foi falar com Sandra.

-Muito bonito seu jeito de dançar. -Disse ele envergonhado.

-Obrigada. -Falou ela sorrindo.

-Você deixou cair a sua rosa. – Alexander tirou a rosa do cinto e prendeu-a de volta nos cabelos da morena.

-Foi um presente pra você. -Disse ela, tirando a rosa e devolvendo a Alexander. O rapaz ficou ainda mais encabulado.

-Você, você… É maravilhosa, eu, eu… -Alexander sentia que era o momento certo de se declarar a Sandra. Ele se aproximou e sentiu que era o momento de beijá-la.  Mas foi surpreendido.

-Vem Sandra, vamos dormir. – Falou Zaid. O cigano passou ao lado dos dois e carregou a filha para a barraca.

-Mas pai! -Reclamou a moça.

-Boa noite Alexander. -Gritou Zaid.

Alexander caminhou como se flutuasse. Voltou para a cabana do velho Ephraim em delírio. Tinha vontade de enlouquecer e se entregar a aquela mulher misteriosa.

Naquela noite, Alexander não dormiu. Ficou pensando na moça. Às vezes pensava na situação do rochedo, quando seu corpo balançou para a morte, mas logo esquecia daquilo e voltava a pensar em Sandra. Sua dança mágica. Seu corpo perfeito. O beijo que ele não deu.

Quando o dia amanheceu, Alexander acordou e viu o velho Ephraim olhando pra ele com aquele sorriso cínico.

-Gamou hein? -Riu o velho.

-Hein? Do que está falando?

-Você falou o nome dela várias vezes essa noite.

-Nome? Que nome? – Ele sabia, mas tentou em vão disfarçar.

-Sandra, ora! Na Mikaela que é bom, o senhor não fala dormindo né?

-Só se for em pesadelos. -Disse Alexander.

-Menino, presta atenção. Você está destinado à Mikaela. Não tente mudar o destino. Ele está traçado. Aceite.

-Não! Isso não é justo. Eu não quero. Eu não amo Mikaela.

-Ah, garoto. Você não sabe nada da vida. Você pensa que a Sandra é livre?

-Hã?

-Não, não é. Ela é… Bem, digamos… Quer dizer…

-Fala logo, velho maluco!

-Bom, é melhor ver com seus próprios olhos, garoto. Venha. Vista-se.

Alexander tinha o coração apertado. Levantou-se como um raio da cama. Vestiu-se o mais rápido que pôde e saiu da cabana.

-Vem. É por aqui. – Falou o velho.

Eles foram andando pela lateral do grande acampamento. Passaram diversas carroças e cabanas até chegar nos fundos da enorme clareira. Ali havia uma grande carroça.

-Olha ali atrás. -Falou Ephraim.

Alexander e Ephraim foram se aproximando e ouviram um estranho grunhido.

(Continua amanhã)

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7 comentários em “Tragédia cigana – Parte 2”

  1. Poutz Mr. Gump!
    Agora vai me matar de curiosidade!Isso ta parecendo novela msm q na hora q alguma coisa vai acontecer, acaba!
    Quer saber, percebi que to precisando ler uns romances agua com açúcar pra variar, rsrss!

    Continuo fã diária! Inclusive quando vc fica uns dias sem postar deixa os seus seguidores preocupados pensando em mais uma pedra…
    Bjs!

    • Nem me fale em pedra. Sobre a “novela”, é tipo isso mesmo. Eu pensei o tempo todo em algo bem dramático no estilo das produções da Televisa. Vai dar pra entender melhor no final.
      Não perca a parte de amanhã, pois “o bicho vai pegar”!
      Acabei de acabar a parte final. A história é velha, esbocei ela antes mesmo do despachante da morte, mas tava tão complicado este enredo que eu custei para ter estômago e terminar.

        • Eu ganharia uma bela grana fazendo romances de ficção científica. Era só assinar Philip K. D. (não seria um engodo, é o meu nome real e muita gente compraria achando que é de Philip K. Dick)

  2. E aí Philipe, tudo bem?

    Cara, eu estou doido pra ler esse teu conto, mas o filtro aqui da empresa está bloqueando o mesmo, e eu estou sem internet em casa… teria algum jeito de você me passar ele na íntegra por e-mail? A única parte que está passando pelo filtro é a Parte 2… aí não adianta muita coisa né? heheheh

    Abraço!

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