Shampoo caseiro amazônico promete fazer nascer cabelo. Será?

Charlatanismo. A origem da palavra charlatanismo remonta ao tempo em que os primeiros farmacêuticos eram pessoas curiosas que misturavam materiais naturais em caldeirões e depois engarrafavam vendendo pelo interior como tônicos para curar de tudo, de espinhela caída a cãibra no sangue. Na França medieval havia um homem chamado Latain que fazia esses medicamentos fajutos e vendia pelas cidades do interior.

Quando a carroça do Latain chegava, as pessoas que conheciam o sujeito e sabiam que de nada valiam seus “Tônicos que curavam tudo”, começaram a se referir a todo tipo de curandeirismo fajuto como Charre du Latain, com o tempo a palavra começou a ser simplificada gerando como resultado a palavra charlatão.

Há ainda uma segunda origem, mais provável para o termo, que dessa vez remonta ao italiano da renascença, quando o azougue ou mercúrio era um remédio popular contra a sífilis. Mascates, conhecidos como “ciarlatani”, vendiam ungüentos à base de mercúrio. Afirmavam que seus preparados curavam qualquer doença. O termo deu origem a “charlatães”, que se tornaram símbolo de prática médica nociva. Os dicionários geralmente definem “charlatão” como “pessoa que finge possuir habilidade médica especial”. Esta definição implica intento de logro, o que não abrange os divulgadores de métodos não comprovados que acreditam no que fazem. Em 1984, o falecido congressista Claude Pepper e sua equipe definiram “charlatão” como “qualquer um que divulgue, com o propósito de lucro, procedimentos médicos ou remédios sabidamente falsos, ou que não sejam comprovados”. Esta definição elimina a questão da intencionalidade.

Seja charlatanismo ou não, o fato é que o programa Globo Repórter deu o maior gás para um shampoo feito de cascas de árvores e ervas diversas descoberto por um ex-seringueiro de nome Carlos Pinto, 51 anos, pai de quatro filhos e que mora em sua colônia às margens do igarapé Esperança, em Tarauacá. O shampoo continua chamando a atenção de carecas de todo o mundo por haver criado uma combinação de nove ervas que faz nascer cabelos em suas calvas.

Na fábrica construída às pressas na Vila Corcovado ele comanda uma equipe de nove pessoas que trabalham diariamente para produzir cinco mil frascos de 250 miligramas do shampoo Esperança.

Quando foi documentado pelo programa da Globo, eram apenas 500 frascos fabricados no quintal da casa dele. Os negócios prosperaram rapidamente.

“Nunca esperei descobrir uma coisa dessas, é um sonho, quanto a gente produz é o quanto vende e nem dá para atender todos os pedidos, por isso mesmo, a partir de janeiro vamos dobrar nossa produção para dez mil frascos de shampoo, por mês”. – Diz Carlos Pinto.

Mais do que comerciante, Carlos Pinto que um dia já foi careca e começou a recuperar sua cabeleira, que ainda nem está completa, afirma:

“As vendas vão muito bem, com dois dias da flora compraram tudo, tive de pedir uns frascos emprestados para não ficar sem nada. Mas minha satisfação mesmo é quando as pessoas chegam contando que a caspa sumiu, que os cabelos deixaram de cair e outros animados com os cabelos que estão nascendo. Gosto de saber que estou deixando as pessoas mais felizes”.

Ele recorda que para cada pessoa o shampoo parece funcionar de modo diferente.

“No meu caso, o pessoal começou a notar a diferença quando já fazia uns seis meses que eu estava usando. Sempre passo shampoo na cabeça e espero uns dez minutos antes de tomar banho para tirar o excesso”.

Carlos Pinto terceirizou a venda dos frascos e decidiu que vai cuidar da produção, até porque não contou a fórmula do produto nem mesmo para a esposa. O sucesso do mesmo atraiu a atenção de vários empresários de todo o Brasil, a maioria deles querendo comprar a formula e, em alguns casos, surgiram propondo sociedade para montar a fábrica de shampoo.

“Muitos ligaram com conversa mole, mas cinco deles foram até Tarauacá a fim de comprar a fórmula do shampoo. Eu respondi pra eles que quem vende fórmula morre de fome. Vou trabalhando do meu jeitinho porque sei que chego lá”.

É o primeiro produto acreano a ser vendidos para todo o Brasil, Japão, Portugal, Estados Unidos e até para Israel.

“A partir de janeiro estaremos produzindo dez mil fracos por mês, preciso juntar os R$ 325 mil necessários para montar a minha fábrica. Quando ela estiver pronta vamos dar 12 empregos. O governador Jorge Viana e o senador Siba prometeram me ajudar, mas enquanto a ajuda não chega eu vou trabalhando como sempre fiz na vida”.

Embora muita gente torça o nariz para a possibilidade de um sujeito nas margens de um rio descobrir a solução para algo que centros de pesquisa do mundo todo com os maiores especialistas em diversas áreas e equipamentos milionários não conseguem, isso é possível sim. A explicação para isso está no fato de que muitos medicamentos são feitos com base em essências naturais obtidos de plantas da Floresta amazônica, a maior fonte de biodiversidade do planeta. Hoje um dos maiores problemas na amazônia além do desmatamento é justamente a exploração internacional das riquezas biologicas. Não preciso lembrar que uma companhia do japão registrou como marca a palavra “açaí”. Foi uma briga na justiça internacional que levou alguns anos para finalmente recuperarmos a posse do nome da fruta nacional. Fonte

Os índios que estavam aqui desde tempos imemoriais sabem usar milhares de plantas em combinações muitas vezes bizarras como medicamento para um sem número de doenças. Muitas delas carregam princípios ativos que podem curar e se forem mal usadas, até matar.

Agora vamos pensar. O que faz um laboratório farmacêutico? A grosso modo, ele paga altas somas em pesquisas, que se resumem a obter no mundo natural ou sintético, novos princípios ativos. O laboratório reduz os princípios ativos e realiza testes para determinar seu funcionamento. Vendo que a coisa funciona ele entra em fase de testes em animais, depois humanos e corre a papelada de patente, registro nos órgãos fiscalizadores e depois de aprovado o remédio vai par a fabricação onde é feito aos milhares e segue de lá para as farmácias. É um processo lento, caro que envolve somas vultuosas em marketing e promoção. No fundo, um remédio não é diferente de um iogurte. A diferença é que o iogurte o cliente escolhe o que quer. O remédio o cliente compra o que o medico manda. Não é atôa que laboratórios dão passeios, livros, brindes, pagam congressos nacionais e internacionais, oferecem casas de praia e se bobear dão até carro para certos médicos. A indústria do lobby farmacêutico é uma das maiores do planeta, quase do tamanho da indústria armamentista.

Algo natural, pois a humanidade nunca consumiu tanto medicamento na história como agora. E um volume incalculável de medicamentos disponíveis hoje provém de plantinhas e raízes da nossa floresta. Em alguns casos, o princípio ativo sai do Brasil, vai pro exterior é beneficiado e volta pra cá, custando uma fortuna.

Se os caras de grandes laboratórios mundiais vem aqui em busca de novos componentes e compostos naturais para criar medicamentos com eles, qual seria o empecilho para alguém usando as folhas certas acabar acertando num composto que funciona?

Então, possível é, mas será que aconteceu isso? Será que esse treco aí funciona mesmo?

Se o produto funciona realmente ou não, ninguém pode afirmar, pois ele nunca passou por testes controlados para verificar sua eficácia. Isso significa que o Shampoo esperança está na linha cinza que separa um medicamento tópico revolucionário para os homens, talvez superior até ao próprio Viagra, do mais puro charlatanismo. De acordo com a matéria da Globo, ele parece funcionar mesmo*. Confira:

Seja como for, real ou não, a revista digital Papo de Homem tem uma ótima matéria sobre a calvície. Recomendo aos carecas e para meus leitores com mais entradas do que o maracanã.

* – NOTA : Um tempo depois de publicar este post, o Brunno me enviou um link de um forum onde médicos e pacientes discutem os tratamentos para a calvície. Lá, há um médico que afirma com todas as letras que o tal Shampoo é picaretagem. Se há algo nele que funciona, e bem, é o nome: “Esperança”.

Aqui está o comentário do Dr. Milton Peruzzo sobre o tal shampoo amazônico:

NÃO ADIANTA!!
QUEM NASCE PICARETA SERÁ PICARETA SEMPRE!!!!
EM 18/6 FUI SURPREENDIDO AO VER EM ALGUMAS COMUNIDADES DO ORKUT UM LINK QUE LEVAVA PARA UM PORTAL DO PARÁ COM PROPAGANDA DESTA MERDA!!!!AO VERIFICAR REPAREI QUE USARAM A FOTO DE UM PACIENTE MEU PARA MOSTRAR O RESULTADO DO USO DO “SHAMPOO”…MANDEI E MAIL DE PRONTO A ELES E AO PROVEDOR…
O PROVEDOR QUE HOSPEDA O SITE DESTE SHAMPOO TABAJARA RETIROU DE PRONTO A FOTO USADA DE FORMA INDEVIDA ….HOJE RECEBO UMA REVISTA VOLTADA PARA PROFISSIONAIS DA ÁREA DE CABELOS:’PROFISSÃO BELEZA’ ,N 43 ANO VIII E QUE NA PG 65 O MESMO SHAMPOO SEM VERGONHA E PODRE USANDO DE NOVO A MESMA FOTO,MAS DESTA VEZ NÃO FICARÁ BARATO.
MEU ADVOGADO IRÁ ACIONÁ-LOS JURIDICAMENTE.
É PROVÁVEL QUE TUDO O QUE GANHARAM DOS INCAUTOS ELES PERCAM AGORA NESTE PROCESSO!!!
NUNCA COMPREM ESTA PICARETAGEM!!! (…)

Vejam até onde chega a cara de pau desse povinho…
no site deles: http://www.shampooesperancadaamazonia.com.br/ a foto que ilustra o “resultado” é do meu paciente que fez 2 megasessões para atingir aquele resultado e logo abaixo a foto do ilustre cidadão foi roubada do site da Toppik: http://www.toppik.com.br/site/fotos.asp
É MOLE OU QUEREM MAIS????????

PROVA MAIS DO QUE CABAL DA FALTA DE HONESTIDADE !!
PARA NÃO FALAR MAIS…….

Como nas linhas que iniciam o post, o shampoo esperança é o puro charlatanismo. Ao que tudo indica, não só um charlatanismo inocente baseado na ignorância mas uma bem orquestrada organização que tirou proveito da divulgação e penetração da Rede Globo, gerando mais um 171 nesse país lotado disso, onde os malandros não cansam de faturar em cima das pessoas com “esperança”.

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