A segunda vez que eu matei alguém

Uma vez eu estava parado, contemplando uns limões no meu limoeiro quando tive uma ideia literariamente interessante (que nada tinha a ver com limões).

“Algumas pessoas são como praias”.

Tem vezes que você vai numa praia linda, belíssima e após alguns minutos ali você se dá conta que não é divertida, que tem problemas de frequentadores, que está suja, ou que fede por alguma razão incompreensível. Há muitas pessoas assim, que são atrativas de longe, mas fique perto e descubra que são insuportáveis. Do mesmo modo, ainda nessa linha de pensamento, existem praias que são rasas e calmas. Mas que do nada o tempo vira e o que era uma praia dos sonhos se torna um pesadelo de vagas colossais colidindo com pedras afiadas como navalhas.  Há ainda um outro tipo de praia ainda pior: As que parecem tranquilas, oferecem água quentinha e calma… Sua tranquilidade, no entanto, esconde sua real vocação: Sob as calmas águas superficiais, peixes venenosos imprevisíveis querem te ferrar, correntezas te arrastam para o fundo, valas tiram a areia debaixo dos seus pés, e eventualmente, há um permanente risco de morte oculto, e convenientemente à espreita do mais puro inconsequente. A morte habita na invisibilidade, sob a pacata aparência de uma lagoa calma e estável.
Eu sou este tipo de praia, e não me orgulho disso.

Isso ficou cada vez mais claro pra mim à medida em que comecei a matar pessoas. A primeira eu já contei aqui, foi o vagabundo safado que era editor da Fantastic2000, por volta de 1998. 

Você mata um, e depois acaba esperando que nunca mais vai ter que fazer isso. Até que você começa a se esquecer do que fez e volta à sua rotina normal, esquece. E aí um dia… Pá. Eu sou um cara calmo. Você pode me encher o saco, pode me aporrinhar pra caralho, e eu seguro. Eu fico puto, lógico… Quem não fica? Eu sou normal. Fico puto como qualquer um. Mas tem gente que nasce abusado e morre assim. Não sou tipo o Charles Bronson que sai matando friamente, passando o rodo em geral. Não é meu estilo e toda noite eu rezo para não quer que matar ninguém. Mas um dia a praia calma vira na maré.

A segunda morte que trago nas costas não foi tão espetacular nem glamourosa. E foi por um motivo meio escroto. Tão escroto que me dá até uma certa vergonha de assumir, mas vou contar fiel como ocorreu, afinal, eu sou o cara que conta para o mundo até como foi ter um tumor no brioco…

Eu estava morando no Ingá quando um belo dia chega uma carta do tipo “ponha-se daí pra fora”, da imobiliária, dizendo que o proprietário resolvera vender o apt. E como eu era o inquilino, tinha a prioridade de compra. Coisa linda, mas eu não tinha dinheiro. Eu era duro, bolsista do CNPq. Durão mesmo. Então o jeito foi dar o fora do apartamento que eu adorava na Rua Tiradentes 111. Nesse meio tempo, eu já até havia comprado um apartamento, mas comprei na planta, de modo que ia levar um tempo para poder morar lá. Eu precisava arrumar outro aluguel, só que o problema se resumia a dindim. Eis que a solução dos meus problemas surgiu na forma de dois amigos da minha sogra, que moravam perto da casa dela num bairro chamado Monan Grande, que fica atrás da Hayasa concessionária da Honda em Niterói.

Esses caras estavam se mudando para o interior, porque ele tinha sido transferido, e estavam com o problema de alugar uma casa gigantesca, de esquina, que ele havia acabado de construir, porque ainda não tinham documentação, e tal, e tinham medo de deixar ela fechada. Assim, minha sogra sabendo das duas necessidades nos apresentou e um resolveu o problema do outro. O cara foi tão maneiro que na hora de acertar o aluguel ele imitou o maluquinho das Casas Bahia: – “Quer pagar quanto?”
Ele não precisava de dinheiro, era funcionário da Petrobrás e ganhava bem. Assim, ficou por uma bagatela um aluguel duma casa gigantesca que ate hoje tenho saudades, porque hoje ela seria perfeita para meu trabalho…
Fiquei morando lá. A casa era ótima, muito espaçosa, tão espaçosa que dava pra andar de Bike nela. Em cima ela tinha um salão coberto de 200 metros quadrados! Tirando uns gatos que gostavam de fazer ela de Motel, o resto era sossegado.
Plantei limões, flores, fiz um jardim, e comecei a cuidar da casa do cara, ajudando na finalização dela.
Mas logo descobri que ali nem tudo eram flores. No tal do Monan Grande morava uma porrada de pessoas legais, mas tinha um e outro, uma meia dúzia de cinco, que eram detestáveis ao ponto de que o verbete “detestável” deveria ter o nome deles nos dicionários.
Eu nunca nem soube o nome daquele puto, por isso vou usar o apelido, mas um dia eu estava no jardim trabalhando e ele bateu no meu portão. Veio com um papo estranho de que se oferecia para fazer gato de luz pra mim. Ele era “especialista” em tv gato, a famosa “gato net”, gato de luz e gato de água, e que “já havia feito gato pra todo mundo ali”.

Eu agradeci e disse que não topava. Que a casa em era minha e tal. Não me interessei.
Foi o que bastou para o vagabundo pegar uma implicância fodida para com a minha pessoa. Não cumprimentava mais, olhava sempre de lado, e passou a estacionar um carro todo leproso que ele tinha no meu portão. Era um Corsa branco com as lanternas queimadas. Bastava eu querer sair, estava o Corsa do safado no portão impedindo. Ele morava uns 30 metros dali. Notei que era de pura sacanagem mesmo, porque sempre tinha espaço diante da casa dele. No incio eu ia la e pedia pra ele tirar, ele demorava mas tirava. Um dia, eu pedi e ele demorou pra caralho pra vir atender. Chegou com a cara amassada, aqueles dentes amarelos e aquela barba por fazer. Maior pinta de pinguço.  Disse que estava dormindo. Tirou o carro com má vontade.
Um dia cheguei em casa e meio que “pressenti”. Ele ia botar a carroça branca dele de novo no meu portão. Então eu tirei meu carro da garagem e parei na rua, no lugar onde ele estava parando o carro dele. Eu estava na varanda, sentado na rede quando notei ele chegando. Fez uma puta duma cara feia e foi parar la mais em frente, perto dum monte de areia duma obra da outra vizinha.

Aquela insubordinação ao cara foi como declarar guerra. Ele claramente iria se vingar. Nós o apelidamos de “Juninho Portugal”. O nome dele logicamente não era esse, e eu nunca soube como era. Nós demos esse apelido pra ele, porque um dia ele chegou em casa com uma porra duma Jukebox gigantesca. Plugou na varanda da casa virada pra minha. E ligou aquela porra numa musica tipo um calypso, que tocava sem parar. Ele só tinha aquele disco, sei lá. Aquela merda tocava sem parar, dia e noite.  E entre as musicas falava assim “DJ Juninho Portugalllllllll….” E começava novamente. Era um In-fer-no.

O que me dava mais raiva é que nenhum vizinho reclamava daquela porra. Nego parecia maluco. Ninguém ousava reclamar. E o Juninho Portugal tocando sem parar.
Aquela porra começou a me incomodar terrivelmente.
Um dia eu não aguentei. Fui la na casa dele. Bati no portão, bati, soquei a merda do portão e ninguém abriu. O Juninho Portugal em loop não deixava ninguém ouvir nada. Assim, comecei a dar bicudas no portão do cara para ver se ele ouvia. No intervalo duma musica finalmente alguém ouviu. Ele veio. A mesma cara de cachaça de sempre.

Educadamente perguntei se ele poderia baixar aquele som. Ele se desculpou e disse que iria abaixar o volume da musica. Agradeci e voltei pra casa. A musica baixou. Passou dez minutos e voltou MAIS ALTA AINDA.
Cheguei na janela e olhei pra casa dele. Ele estava dentro de casa, olhando pra mim com um sorriso sacana. E então fechou a janela. O som parecia como ter a marques de sapucaí dentro do quarto, só que tocando a mesma musica sem parar. Concluí que alguém disse a ele que eu estava dando bicudas no portão, e ele se emputeceu e resolveu revidar.
A Nivea ficou desesperada, porque ela tinha dor de cabeça todo dia com aquilo. E o cara não parava. Era todo santo dia, o mesmo disco, em loop. Alto pra caralho. Um baixo nível de dar inveja ao mais pobre dos favelados. Nem uns doidos que estavam fazendo uma boca de fumo no final da rua não reclamavam.

Voltei lá. A Nivea tentou me impedir, me agarrou pelo braço. Disse que ia junto. Eu não deixei. Fui novamente la e torei a dar bicos no portão até ele aparecer. O sujeito que mais parecia um neandertal apareceu. Eu reclamei. Ele não disse nada. Ouviu e bateu a porra do portão na minha cara.
Isso me deixou muito, muito puto mesmo. Me senti um otário e sabia que varias pessoas estavam me olhando. Então eu não quis dar as costas e parecer um fraco. Eu precisava me impor ate porque eu estava morando na melhor casa daquela travessa, e tinha medo que os vizinhos começassem a ser folgados comigo. Então eu comecei a dar bicudas no portão dele sem parar até amassar aquela merda. Eu dei umas cinco bicas violentas e então ele abriu o portão de supetão e me deu um puta dum soco na cara e eu caí no chão como uma jaca podre.

Maluco, eu nunca tinha levado um soco na cara depois dos nove anos em diante. Nem lembrava mais como que era ruim e humilhante. Me lembro de estar no chão de areia da rua. Meu nariz sangrava. Ouvi a Nivea gritar ao longe, mas eu estava zonzo. Eu ouvi um grito estridente de “Pára, pára!” e não sabia bem o que estava acontecendo até que tomei um chute nas costelas. O filho duma puta não obstante a me dar um cruzado do Mike Tyson, ainda me chutou no chão. Já nocauteado. Veja que calhorda! Tomei um “tiro de meta” na peita, que quase me fez vomitar. Ele voltou para dentro do portão e bateu. O som do Juninho Portugal não parava e a Nivea veio me ajudar chorando, coitada. Tentei me levantar mas estava sem ar, levantei e engatinhei completamente humilhado pelo chão, amparado por ela.

Minha mulher me arrastou para casa e meu nariz sangrava (mas não quebrou) meu dente estava mole. Na porrada ele cortou meu lábio por dentro e minha boca parecia enorme de inchada. O gosto de sangue… O chute deixou um roxão feio debaixo do meu sovaco que ficou um mês ali me lembrando dele. Naquela noite ela me disse que tínhamos que mudar dali. Que o nível era muito baixo. Eu queria ir na polícia, mas ela não deixou. Não sabíamos quem era o tal Juninho Portugal e como ele havia demonstrado, não era exatamente o tipo de cidadão exemplar que “arrega” pra polícia. A Nivea custou a dormir e estava visivelmente traumatizada com o vizinho da idade da Pedra. Eu fingi que estava dormindo, mas mentalmente eu ainda estava ali… Eu sentia crescer dentro de mim aquele fractal do ódio. Era crescente, eu podia sentir suas ramificações espinhosas crescendo no meu espirito como tinha acontecido com “o pagamento em socos” de Adalberto.
Mas agora era ainda pior, porque tinha ao mesmo tempo a dor física, a vergonha diante da vizinhança, a vergonha de apanhar na frente da minha esposa como uma criança fraca… Eu sabia que seria tema de debates no botequim da esquina e pior, minha vergonha suprema tinha até trilha sonora. A cada meia hora eu ouvia “DJ Juninho Portugalllllllll” e o ódio aumentava mais um pouquinho.

Não ia ficar assim.

Passaram-se varias dias. Tentei retomar minha vida. Eu agora era um pária que evitava olhar os vizinhos. Alguns também evitavam me olhar, talvez constrangidos, pois o remix do “Juninho Portugal” ainda tocava sem parar. Agora eram dois caras que paravam na porta da minha garagem. Vi aquilo como um recado das selvas: Eu era um macaco desgraçado. Nenhum outro macho na área iria me respeitar.
E de fato, eles estavam certos, porque eu simplesmente ia de ônibus para não ter que pedir ninguém pra sair da frente da minha garagem.
O ódio ainda queimava dentro do meu peito como brasas. De vez em quando eu passava a mão nas costelas  sentia a dor. Eu apertava pra sentir a dor. Porque parecia que meu ódio se alimentava daquela dor e eu já estava apegado ao meu ódio, que cultivava com o mesmo capricho dos meus limões taiti.

Eu não queria que ele passasse. Esperava que ele florescesse. Eu molhava as plantas, eu olhava os limões crescendo, as abelhas nas flores e tudo aquilo agora era um alimento do meu ódio crescente…
Então, finalmente quase dois meses depois,  deu a conjunção de fatores que eu esperava com a calma de um pescador. A Nivea estava num congresso de Pedagogia em Caxambu. Eu estava na rede da varanda, sem nada pra fazer, já que o Cnpq estava atrasando as bolsas e eu estava “de greve”. Foi quando ouvi o indefectível barulho do portão da casa do Juninho Portugal. Era ele. Entrou no Corsa fodido e saiu.
Eu estava com tempo, eu estava sozinho em casa, sem fazer nada… Fui ate a cozinha, peguei uma faca, peguei a garrafa de álcool e a caixa de fósforos, joguei na mochila, entrei no meu Honda Fit e saí atrás. Fiquei seguindo o Juninho Portugal um tempo. Ele foi lá na Leroy Merlin, lá perto da Ponte Rio Niterói.
Fui atrás.
Dali ele saiu e seguiu em direção ao Gradim, em São Gonçalo. Fui atrás.
No Gradim foi foda de seguir o puto, porque ele era ágil no volante daquela tranqueira passava com tudo nos quebra-molas, e porra, como pobre gosta dum quebra-molas!

Eu também não podia ficar perto pra ele não sacar que eu estava seguindo ele.
Finalmente ele parou em frete a uma casa azul com uma bandeira do Brasil toda carcomida pintada no portão. Certamente decoração de alguma copa.
Ele saiu do Corsa e entrou na casa.  Eu parei mais atrás, perto dum terreno baldio cheio de mato. Tinha pernilongo pra caralho porque era janeiro e fazia calor. Ele ficou naquela casa que comecei a elucubrar que seria casa da amante ou da mãe dele por mais ou menos uma meia hora. Então, depois das tantas, eu já estava ali ouvindo “A voz do Brasil”. Certamente eu era o único sujeito que escuta a “voz do Brasil” na face da Terra. E aí ele saiu. Eu podia reconhecer aquela camisa florida dele há quilômetros. Parecia até um cover de Agostinho Carrara. Saí do meu carro me esgueirando pelo mato. Quando ele ia entrar no carro eu dei o bote. Encostei a faca no pescoço dele e Ele congelou. Achava que era assalto. Começou a falar baixinho, todo educado:
– Perdi, perdi, irmão.

-Entra no carro. – Eu disse. Eu não sei se ele não me reconheceu ou se reconheceu e fingiu não reconhecer. Só sei que ele obedeceu. Ele entrou no carro e eu mandei acelerar. A faca no pescoço dele. Ele meteu o carro numas quebradas e comecei a desconfiar que estava me levando para alguma roubada. Mandei parar. Já estava bem escuro, era uma rua deserta de terra, onde só se via mato dos dois lados. Eu mandei ele tirar a chave e me entregar. Ele obedeceu.

Juninho Portugal estava completamente sob meu controle. Saí do carro calmamente, com a mochila. Fui até a direção do carro. Ele tremia e não ousava olhar pra mim.  Então abri a mochila, e quando ele viu que eu peguei o álcool se desesperou. Tentou sair do carro, mas eu joguei álcool nele.  Dei um banho bonito naquele filho da puta e taquei fogo. Quando risquei o fósforo, ele ainda tava com meio corpo dentro do carro. Fez FLOWP! Parecia churrasqueira quando acende. Dei um pulo pra trás. Ele gritava e se debatia, conseguiu ainda sair do carro feito o tocha humana. Mas daí não gritou mais. Esse negocio de pegar fogo gritando é coisa que Hollywood inventou. Em hollywood, o cara bate gritando, apanha gritando, cai gritando, morre gritando… No mundo real, ninguém queima gritando. Ele se sacudia como uma minhoca eletrocutada. E caiu a poucos metros de mim. Ainda tive a oportunidade de devolver o tiro de meta que ele havia me dado. Me afastei e fiquei de longe vendo o corpo queimar até ele parar de se mexer. O corsa a essa altura era uma bola de fogo.

Andei a pé pelas ruas do Gradim até finalmente achar a rua principal e chegar no meu carro. Voltei para casa com o dia amanhecendo.

Naquele dia, não tocou Juninho Portugal. Aliás, não tocou nunca mais. E ninguém mais naquela rua parava na frente da minha casa.  Eu até comprei o Extra e pendurei o recorte da morte do “homem queimado no Gradim” no meu escritório, como um troféu. Mas acabei jogando fora na mudança. Não combinava com a decoração.  Logo depois mudei dali. Uma pena, porque a casa era boa.

Os limões ainda estão lá.

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6 comentários em “A segunda vez que eu matei alguém”

  1. Caro Philipe, seus contos são muito bons, não tinha lido a primeira vez que você matou alguém e fui correndo ler. Agora fiquei curioso pra saber a terceira! E a história do Raiden, vai sair mais capítulo?

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