Os aventureiros da torre proibida

Os aventureiros da torre proibida. – Uma história REAL.

Relaxa. Senta aí, abre uma coca-cola que nós vamos voltar no tempo.

Vamos voltar ao ano de 1992. Eu tenho agora dezesseis aninhos recém completados e sou ainda tão idiota quanto era com quinze. Eu estou sentindo um frio do cacete, porque já é junho e o inverno se aproxima à galope.

Estou caminhando com meu passo de urubu cansado indo para o colégio Pio XI onde tenho a primeira aula de Matemática. Eu odeio Matemática, apesar de ser amigo do Luiz, meu professor que é um cara gente boa e tomamos umas geladas de vez em quando. Eu vou feliz pra aula de matemática porque sei que vou escrever algum conto novo na aula dele. Faz tempo que eu nem sequer sei do que ele está falando lá na frente. Não me parece importante. Ao menos não tanto quanto a meta de escrever uma redação por dia por pelo menos um ano. 365 redações de no mínimo 30 linhas. Uma meta e tanto, que se tudo der certo, me fará escrever um pouco melhor. Vai que dá, né?

Eu chego na aula tradicionalmente as sete e meia, bem na hora que bate o sinal. Estou na oitava série do segundo grau e a minha turma é um caso curioso. Se cobrir vira circo. Se cercar, vira hospício. Tem de tudo, punk, louras gordas taradas, gostosas pervertidas, maluco-beleza, nerds, e tem também ninguém menos que o PÃO COM OVO! ( pra quem não sabe quem é o Pão com ovo, leia os posts aí em baixo pra descobrir.)

Eu termino a minha redação e a aula está acabando. O Nelson, meu amigo me chama. Quer falar algo sobre a feira de ciências.

Mas antes deixa eu explicar o sistema de castas do colégio: Lá funciona assim. No primeiro nível estão os caras bonitões e as gostosas ricas. Eles parecem só conversar entre si e é como se houvesse uma parede invisível que separa o mundo deles do nosso. ( o resto)

Eu estou no meio do resto. Bem, não necessariamente no meio. Na verdade eu tô mais na periferia do resto, porque sou da classe dos Nerds.

Porém, sou um nerd meio defeituoso, porque nem nota boa eu tiro. Mas com o lance de escrever e desenhar eu meio que consegui um lugar à parte e é quase como ter uma casta própria: O artista maluco. Aliás, o maluco artista.

Sou amigão de um punk e isso gera olhares curiosos das pessoas no recreio, porque é muito estranho um nerd estar associado indelevelmente a um punk fedorento de moicano e tudo porque parecem estar em graus opostos do sistema de classe escolar.

Voltando ao Nelson. Nelson é meu amigo nerd. Mas o Nelson é um nerd oficial, daqueles de exposição. Se tivesse pedigree pra nerd como tem pra cachorro, Nelson seria um reprodutor. Ele é magrelo, CDF até não caber mais, tem letrinha bonita e nessa altura do campeonato, em junho, já passou de ano e vai ao colégio só por esporte. Não pelos esportes, que fique bem claro, porque de esporte o Nelson – como manda o mandamento nerd,- é uma negação. Nelson me chama porque quer debater o assunto da feira de ciências.

A feira de ciências na estrutura escolar do ano de 1992 é uma espécie de redenção, purgatório para as almas deficientes de nota em Física, Química ou Biologia, darem um tapa e subirem de nível para um grau mais “aprovável”. É o meu caso. Mas não o do Nelson. Ele está nessa pelo prazer. Um tarado.

No meu grupo está também o Hugo. Já apresentei? Não?

Pois aqui vai. O Hugo está numa fronteira estranha. Um triângulo das bermudas entre um nerd, um playboy e um esportista. Não é nenhum dos três, e é os três ao mesmo tempo. O cara corre pra dedéu. Hugo é quase que um figurante na sala, porque fala pouco. Fala quando deve. Queria eu ser assim. Ele ainda é boa pinta e se relaciona bem em todos os círculos. È um cara legal, mas nesse quesito de feira de ciências, ele não apita. Quem apita somos eu e o Nelson. Ele vai no vácuo.

– Vamos fazer de Aids! – Diz o Nelson já empolgado. Os olhos brilhando só de imaginar explicar as cadeiras de proteína que revestem o vírus.

– Póparar! – Digo eu jogando areia no sonho dele. – Todo mundo sempre faz essa merdinha de Aids. Além do mais, eu preciso de ponto é com o Pery. To ferrado em Física e não em Biologia. Biologia pra mim é mole. O Sávio explica bem e tal…

– Mas vamos fazer o que então? – Interrompe o Hugo.

– Bora fazer de… ENERGIA ELÉTRICA! – E ante o olhar espantado do Nelson e do Hugo, explico:

– Vamos mostrar o arco voltaico, como ele salta gerando uma fagulha elétrica no espaço. – E em seguida passo a explicar detalhadamente meu plano cabuloso de roubar o acendedor elétrico do fogão da minha mãe e ligar nele uns fios, uns arames, de modo a fazer um raio saltar bem na frente da pessoa. Descobri que dava pra fazer isso ao ver um programa na tv Manchete: Acredite se quiser, que mostrou a vida do cientista Nikola Tesla. Continuo a explicar até o final.

– Beleza então. Vai ser show. Vai causar impacto. – Comenta o Hugo já animado, esfregando as mãos.

– Se não causar, pelo menos me dá ponto. – Digo eu.

– Bora então. – Resigna-se o Nelson

Marcamos um encontro para debater e comprar algumas coisas necessárias ao nosso experimento. O encontro é após a aula do dia seguinte, uma sexta-feira.

Na sexta vou animado pra escola, encontrar a galera. Com sono, mas animado, pois passara a noite anterior inteira desmontando o acendedor elétrico do fogão e tudo indicava que ia dar certo. Daria início ao nosso projeto. Só um nerd legítimo se anima ante a dificuldade de gerar um arco voltaico.

Acaba a última aula e encontro meus companheiros. Saímos para o Plaza Shopping. Almoçamos no Mc Donald´s e ficamos a olhar as menininhas. Em seguida rumamos para Rua da Conceição, onde tem aquelas lojas de produtos médicos. Eu tenho uma listinha de bagulhos a comprar: Magnésio em pó. Luvas cirúrgicas e elásticas cirúrgicos para isolar os fios eletrificados com os tubos de borracha. E também uma seringa hipodérmica para colocar tinta nas minhas canetas de nankim.

Boto os meninos para pagar a conta. Pego o pacotinho e enfio no bolso.

Em seguida olhamos para aquela enorme torre do Niterói Shopping. Um de nós comenta:

– Porra como é alto.

– É mesmo.

– A paisagem lá deve ser do cacete! – Digo eu.

– Dá pra ir lá? – Pergunta Nelson intrigado.

– Acho que dá. – Diz o Hugo.

– Então vamos, ué! – Digo eu já saindo em direção a torre. Os nerds vão atrás.

Lá estou eu subindo de elevador 31 andares acompanhado de um nerd legítimo e um garoto caladão. Chegamos enfim ao trigésimo primeiro andar. Sigo decidido para as escadas. Eles vão atrás. Ao subirmos, começamos a ver que as escadas são cobertas de pixações, jornais velhos e sujeira. O ambiente é meio duvidoso.

– Galera, vamos tirar os relógios que aqui ta parecendo que é boca de fumo. – Comento eu guardando meu relógio de camelô. Eles fazem o mesmo. E já vejo uma certa expressão de medo na cara do Nelson. Mas ele finge não perceber isso.

Continuamos a subir em direção ao imenso platô que conduz a uma ampla caixa dágua. Uma caixa d´água gigante. Descomunal. Vamos circundando a caixa d´água até que nos deparamos com dois caras. Ambos de camisa florida e pochetão.

Meu cérebro rapidamente liga tudo. A equação é simples:

Pochetão = REVÓLVER = FUDEU!

Pelo que parece, meus amigos também fizeram a mesma conexão. Pois o cara da camisa florida gritou:

– Pára aí mane! – E eu só vi o cabo da coronha saindo da pochetão. Nelson e Hugo tinham saído vazados pelas escadas e eu corri pra outro lado, me escondendo atrás de uma pilastra.

PARA O TEMPO. Agora o que eu conto a seguir ocorre simultâneamente:

Hugo desce as escadas saltando de seis em seis degraus. Com a agilidade que lhe é peculiar, ele vence sem grandes problemas vários andares em uma questão se segundos e pára só no 12 andar. Ao lado de um velhinho. Hugo prende a respiração e tenta parecer estar ali há horas. O elevador chega. Ele entra com o velho e no tempo da descida que parece nunca ter fim, Hugo pensa desesperado no destino de seus amigos. Ele sabe que é o único que sabe sobre nós e os traficantes e sente que deve fazer alguma coisa. Quando o elevador chega no andar final, Hugo sabe o que deve fazer.

Nelson vendo Hugo virar o primeiro andar de escadas resolve correr pro mesmo lado. O maluco com a arma na mão vai correndo atrás dele. ( imagine em câmera lenta)

Nelson tenta fazer como viu Hugo fazer, saltar os degraus, mas não tem a agilidade necessária e é mais lento. O maluco que corre atrás de Nelson consegue aproximar-se a ponto de lhe acertar um tapão estilo “delegado” no meio das costas. Nelson faz uma volta no ar e vê desesperado que não vai acertar o chão e sim a parede.

Nelson se choca em slow motion com o concreto e volta pra trás bem na direção do revólver do traficante. Nessa hora ele toma o segundo tapinha estilo “delegado”, mas dessa vez na cara. Ainda pode ouvir os sons de Hugo jogando-se pelos andares como o Homem aranha.

Corta pra mim. Estou atrás da porra da pilastra minúscula onde acredito, não serei visto. O medo afeta nossa percepção do ridículo. Percebo isso quando sinto um geladinho encostar na minha têmpora. Evito olhar, pois sei que é o cano do trabuco.

– Queitinho aí. – Diz a voz que segura firmemente uma pistola Walter 9mm preta grudada na minha cabeça.

-…- Eu não respondo nada, afinal não convém desobedecer alguém com tamanha vantagem.

AGORA O TEMPO VOLTA AO NORMAL.

O cara da arma manda-me levantar devagar e olhar pra pilastra. Eu ouço a gritaria nas escadas. O cara começa a me torturar.

-Sabe o que eu vou fazer com você, malandro? Vou te apagar aqui mesmo. Depois vou te jogar lá em baixo… – Dizia ele passando o revólver na minha cabeça e apontando às vezes no meu olho. Eu não chorei. Não por dar uma de machão, não. Acho que o perrengue era tamanho que isso “broxou” meu choro. Era cagaço demais e isso em deixou meio que semi-consciente. Meio que acordado-dormindo, ausente, sabe?

Nisso, o outro traficante chega com o Nelson. Coitado.

Deu pena de ver o Nelson. Cansado, mancando num balé “To raso, tô fundo” que só não era mais patético porque o tapão que levara na cara deixara uma marcona roxa igual a que o Tim Maia tinha. Nelson era meio mulato e como seria de se imaginar, apanhou mais que eu porcausa disso. Chegou chorando. Os braços para trás, segurados pelo traficante. A arma na cabeça.

Os traficantes nos levam para as infectas escadas. Eu pensei: – È agora que eu vou morrer.

Senta aí. – Disse ele apontando pra um canto com a arma. Eu obedeci.

Os nossos dois captores eram figuras estranhas. Camisa florida calça jeans, pochetão pendurado na camisa. Um era alto e fortão. O outro um baixote magricela. Mas o grandão e ameaçador era mais relax. Era o que me torturou. Já o magrelo era ignorante pra caramba. Batia atôa na gente. Não tinha paciência. O rompante de violência era facilmente identificado nele. Compensação por sua compleição frágil. Imaginei que eles eram parceiros do crime. Fred e Barney…

Nesse momento, notei que o Nelson ainda com as mãos para trás estava… Algemado.

Peraí. Algemas? Bandidos não usam algemas. Foi quando caí na real de que não eram traficantes. Eram da polícia civil. Aí sim eu me caguei de medo.

Eles achavam que NÓS éramos os traficantes. E começaram a quere saber tudo. Quem nós éramos e principalmente, onde estava o baseado!

Infelizmente, eu nessa época era tão nerd, tão alienado que – acredite se quiser – não sabia o que era um baseado.

A tese dos policiais era de que nós tínhamos ido lá usar drogas ou vender. E ao encontrar com eles, fugimos escondendo a droga ou mesmo deixando ela com o nosso amigo, que – nas palavras deles – “evadiu-se do local”.

Toda vez que eles perguntavam o que nós tínhamos ido fazer lá era a mesma coisa:

– Ver a paisagem.

Porra! Ta achando que eu sou burro, seu FDP! – E lá vinha tapinha na cara. Agarrão no pescoço. Revólver na cabeça. Cadê o baseado porraaaaaaaaa?

E ficamos nessa droga o que pareceu ser um dia todo, mas na verdade, foi uma hora.

Agora corta pra minha casa. Sexta feira, meu pai chega mais cedo do trabalho, pega as malas. Minha mãe deixa um bilhete e dinheiro sobre a mesa. Eles vão viajar. Estão indo para a casa de Cabo Frio e só voltarão na segunda bem cedo. Eu ficarei em casa sozinho o fim de semana todo. Minha mãe pega meus irmãos, as malas e vai pro elevador. Meu pai está fechando a porta quando o telefone lá dentro toca. Ele hesita em reabrir a tranca e atender ao telefone, mas achando que posso ser eu querendo ir com eles, resolve ir atender.

Ao pegar o telefone e ouvir os primeiros cinco segundos, meu pai faz a expressão característica de “fodeu!”.

Minha mãe já desespera. A expressão que meu pai só faz em momentos de pânico total, como quando quase se afogou na lagoa de Araruama tentando desvirar nosso barquinho, ou quando meu irmão capotou o carro na serra na beira do precipício e ele viu pelo retrovisor.

Minha mãe vem correndo e fica aflita dando pulinhos ao lado do meu pai.

Do outro lado do telefone, está mãe histérica do Hugo, avisando que os traficantes me pegaram, e que vão me executar. Aliás, nessa altura do campeonato, eu já morri. Pânico na minha casa.

Corta de volta para o interrogatório nas escadas imundas.

Lá estou eu com a arma apontada na testa. O cara já tá perdendo a paciência. Quer saber que droga era e onde nós escondemos. Eu reafirmo que não tem droga. O Nelson só chora e balança a cabeça confirmando. Ele parece estar meio em estado de choque. Aliás, estado de choro.

Eu estou rígido em afirmar que não tinha porra de droga alguma e que tínhamos ido olhar a da paisagem. O cara dá uma última chance:

– Não vai falar não? È a última chance que eu dou!

– Mas não tinha droga, policial. – Falo eu em tom de súplica.

– Então tá. Se eu achar alguma droga com vocês vou apagar os dois e jogar aqui de cima, ouviu?

O cara grandão, o Fred, resolve nos revistar. O Barney quer logo “matar um pro outro abrir o bico”. E pelo que eu vejo, vai ser o Nelson. Ele chora mais ainda. A coisa tá mesmo ficando preta.

O Fred resolve revistar o Nelson. Agarra o Nelson pelos cabelos, levanta o coitado pelos cabelos e econsta com aquela delicadeza peculiar da polícia o infeliz na parede.

Na cabeça dele, se a droga ta com alguém tá com o neguinho. Até porque eu não corri. Só entrei atrás de uma pilastra. O Nelson correu e ainda por cima é mulato. Deve ter culpa no cartório.

Ele investiga o Nelson. Apalpa todo. Acha a carteira. Abre, cheira. Olha cada detalhe, cada compartimento. Eu percebo que o Nelson olha fixamente pra mim.

Os olhos injetados de choro, inchados. Mas é um olhar de pena. Um olhar que diz alguma coisa.

Sim, eu entendo. O Nelson viu que eu vou me foder. O cara vai achar o arsenal de bagulhos no bolso de trás da minha calça. Seringa, pó branco em saquinho, elásticos, luvas. Tô ferrado.

Fred se vira pra mim. Não achar nada no Nelson o deixou seco pra procurar e encontrar alguma coisa. Senão ele faria papel de palhaço. Queria provar a si mesmo que estava certo, que era um bom policial, que seu faro era tão apurado quanto ele queria que fosse.

Veio na minha direção. Aproveito da minha prerrogativa de branco, de não estar algemado. Levanto-me e fico de frente pra ele. Ele não me vira pra parede. (que sorte) Começa a apalpar. Enfia a mão nos bolsos da frente. Um Halls, chave de casa, dados de RPG, elástico e mil moedinhas. Então ele apalpa os bolsos de trás. Vai direto no pacote maldito.

– Que isso? – Ele diz já pegando a arma.

Então, numa atuação digna de David Blaine que nem eu mesmo acredito e entendo como se deu até hoje, eu enfio a mão pra trás e tiro DO OUTRO BOLSO a minha carteira e o policial NÂO PERCEBE!

Aproveito o tempo que ele leva pra cheirar e chafurdar dentro dela para sentar-me deixando bem longe dele a possibilidade de olhar o pacote que seria minha sentença de morte.

Ele abre a carteira e logo de cara acha uma camisinha.

Eu era virgem, mas achava bonito ter uma camisinha na carteira, afinal, sabe-se lá se pode aparecer uma gostosa tipo a Sharon Stone querendo dar, né? Aos 16 anos você fantasia mil situações. Além do mais, pros amigos impressiona, parece que você já não é mais virgem… Dá uma de experiente, sabe como?

O Fred pega a camisinha… FIca olhando. Olha pra mim, pro Nelson…

– Huuuuummmmm… To entendendo. – Olha pro Barney e ri. Cara de safado. Eu caio na real. Ele ta achando que somos bichas.

– Quem vai comer quem aí? – Pergunta o Barney. – Ferrou. Como se não bastasse tudo que passamos, eles vão querer comer a gente antes de resolverem matar e jogar a gente do alto da torre.

– Não, não. Calmaí. Nós não somos viados não. – Já adianto eu. O Nelson está chorando ainda. Mas o cara acha a minha carteirinha de sócio do CCBA.

CBBA é o seleto “Clube dos Comedores de Buceta Anônimos”. Uma babaquice que eu inventei com 14 anos, para aparecer. Coisa idiota e infantil de um demente como eu. Mas graças a Deus salvou a gente. O cara cai na real que somos estúpidos, mas boiolas nós não somos e me devolve a carteira.

Fred e Barney confabulam e resolvem nos levar pra sala da segurança. Fred Saca a algema e resolve me algemar. Eu interpelo:

– Calma… Você vai me algemar?

– Vou.

– Você acha que eu vou correr de você armado?

– Seu amigo correu.

– Mas ele achou que vocês eram traficantes.

-… – Fred fica pensando. Manda Barney tirar a algema de Nelson e vamos sem algemas lá pra baixo.

Descemos os degraus da escada e chegamos ao anel dos elevadores. Ao entrar no elevador e ver a ascensorista, eu já sinto um alívio tremendo. É como ser um náufrago e ver um navio. Pelo menos na frente de uma outra pessoa seria difícil levar um tiro à queima-roupa.

Chegamos no andar térreo. Vamos seguindo o Fred. O Barney atrás, segurando o pochetão. Passamos por um longo corredor. O corredor vai estreitando, passa uma porta, duas, três. O corredor é apertadinho e leva a uma sala. Eu entro na sala e constato que ela é toda de azulejos. Azulejos azuis. Isso é um mau sinal. Azulejos são bons para tirar mancha de sangue. Estamos na sala com Fred e Barney. Estamos esperando alguém. Barney sai e vai chamar. O tempo passa… Passa… Começa a incomodar o silêncio. Nelson está cabisbaixo. Sabe que é melhor ficar quieto, pois ele é o lado mais fraco na corrente. Ele reflete e percebe como é inútil ser o CDF fodão. Onde estão as medalhas e boas notas agora para protegê-lo?

A porta abre violentamente e entra um sujeito enorme. Parece até o Golias. Se minha vida fosse um game, ali estaria o chefão da primeira fase.

Ele entra, senta-se numa cadeira cheia de espuma para fora, semi-recoberta por um estofado rasgado e puído. Coloca os pés sobre a mesa velha de madeira. Está quieto.

Ele olha pra nós. Olha pro Nelson depois pra mim. Na porta está Barney. Cara de prazer. Está se deliciando a cada segundo de suspense incômodo que o Golias magistralmente comanda.

– PUTAQUIPARIU! – Berra socando a mesa. Eu me assusto. Até o Zé do Caixão se assutaria. Ele continua, berrando: – Eu tava tirando a minha soneca e agora vem dois moleques filhos de uma cadela atrapalhar.

O linguajar mostra que o gigante é mesmo o chefe da segurança. Ele saca de uma gaveta um livro. No meio dele, escreve algumas coisas e manda eu e o Nelson assinarmos. Nós obedecemos. Os policiais vão embora. O Golias diz que vai ficar sozinho conosco. Quer saber direitinho a história.

Eu começo a amarelar novamente. Parecia ter saído da panela e caído no fogo. O Golias pega o telefone de mil novescentos e antigamente e disca uns números. Em poucos segundos, abre-se a porta e entra um negão forte.

Golias manda o negão levar Nelson para outra sala. Vai interrogar os dois separadamente.

Começo a ter certeza de que aquele definitivamente não era o meu dia.

Agora estou sozinho na sala de azulejos que mais parece uma cela de tortura do DOPS com um brutamontes anabolizado. Pra piorar, ele abre uma gaveta. Gavetas me dão medo. Não dá pra imaginar o que vai sair.

Sai um porrete. Um porrete pouco maior que um cacetete de policial, porém bem mais grosso. O cara dá um porradão com ele na mesa e eu subo no ar uns dois centímetros. O cagaço aumentando… Então Golias começa:

– Eu vou perguntar uma vez só. Depois vou ligar e vou mandar perguntar pro seu amigo. Se a história não bater ó! – Diz ele metendo umas três varetadas na mesa. Cada um tem o som de um morteiro. A cada um eu subo no ar um centímetro.

Começo a imaginar que pela lei de Murphy, a porra do Nelson vai resolver inventar alguma coisa agora que soe mais plausível que “ver a paisagem”.

Duas horas depois, o cara cai na real e Nelson que por sorte não é criativo, confirma da outra sala a história. Estamos livres.

Saímos meio que sem rumo. Sem saber o que fazer, para onde ir. Eu me tranqüilizo mentalmente imaginando que meus pais nunca saberão deste pequeno incidente pois estão tranquilos, curtindo a vida lá em Cabo Frio…

Saio com o Nelson e ao olhar o reflexo numa vitrine, vejo que o negão que tava com o Nelson ta seguindo a gente. Naturalmente ele acha que encontraremos com o nosso amigo que “evadiu-se”. Lêdo engano. Ele não percebe que eu sei que estamos sendo seguidos. Eu comento com o Nelson e vamos direitinho sem demonstrar nada para fora do shopping. Saímos e vamos andando para casa. O cara segue a gente por uns três quarteirões e parece desistir.

Quando eu chego no meu prédio, à cena que vejo é digna de um Globo Repórter. Minha mãe está transtornada, desesperada andando de um lado para outro. Ao ver a cena, já na portaria do prédio, eu caio na real que o Hugo avisou lá em casa.

Minha mãe ao me ver, vem correndo e me atropela abraçando forte. Quase morro sem ar.

Ela e meu pai já estavam indo no IML reconhecer o meu corpo. Meus pais desistem de viajar. Minha mãe sobe pra tomar uns calmantes e desmaiar. E eu desço pro play para contar mais uma incrível aventura aos meus amigos.

Fim.

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50 comentários em “Os aventureiros da torre proibida”

  1. Oi Philipe,
    Fui buscar seu site no google 9pra variar, minha memória falhou), mas acabei encontrando seu blog.
    kakakaka, ri muito com a história, aventura mesmo. a recordação que eu tenho de uma feira de ciências foi o vulcão que meu grupo fez..na hora H esqueceram o gelo seco, então , pra dar uma incrementada, colocaram tinta guache vermelha com Sonrisal..mas colocaram muito…Era lava espumante pela sala toda. Ridículo :p

    abs

  2. huahuahuahuahauhauhauhauha

    MUITO BOM!!!!!!

    Algumas cenas merecem destaque:
    “UTAQUIPARIU! – Berra socando a mesa. Eu me assusto. Até o Zé do Caixão se assutaria.”

    “Começo a imaginar que pela lei de Murphy, a porra do Nelson vai resolver inventar alguma coisa agora que soe mais plausível que “ver a paisagem”. “

    EXCELENTE, PHILIPE! :o)

  3. hehehehehehehe
    Philipe, já pensou em juntar os textos e escrever um livro? As histórias são sensacionais! Fico imaginando as cenas!!!
    Muito bom!!!

  4. Essa história você me contou, o incrivel é que você consegue escrever com a mesma perfeição que conta, da para sentir a cena, muito boa Philipe!
    Parabéns pelo blog!
    Um abraço.

  5. oi philipe

    Eu recebi o telefonema de uma mulher que foi falando assim voce nao me conhece mas meu filho estava com o seu na torre do niteroi shopping e os traficantes pegaram ele e um coleguinha. E melhor voces irem atras de seu filho. Quase morri de aflicao entao passei o telefone branca feito folha de papel para seu pai. M”ae sofre …

  6. hahahahahaha
    “O cara vai achar o arsenal de bagulhos no bolso de trás da minha calça. Seringa, pó branco em saquinho, elásticos, luvas. Tô ferrado.
    Puta merda quase dei um enfarte agora!!”

  7. Plim-plim!
    Esta foi mais uma das famosas Aventuras do Mundo Gump. Patrocínio clínica de cirurgia vascular Dr. Neira.
    Sua artéria entupiu? Chama o Dr. Neira que ele resolve. (entra o jingle do Dr. neira)

  8. Amigão, caí no seu blog por acidente, procurando informações para um trabalho sobre Nikola Tesla e não consegui parar até chegar ao fim. Que sufoco, hein? Tua narrativa é boa, já pensou em escrever um livro? T+

  9. VAMOS POR PARTES…

    cara..eu trabalho em um escritorio fechado, com mais 5 pessoas..só se ouve o som dos “teclados” do pessoal aqui…lendo essa sua “experiencia” nao resisti e largeui algumas gargalhadas…

    muuito bom…

    ri muito das colocações abaixo;

    “Nelson é um nerd oficial, daqueles de exposição. Se tivesse pedigree pra nerd como tem pra cachorro, Nelson seria um reprodutor”

    “Nelson tenta fazer como viu Hugo fazer, saltar os degraus, mas não tem a agilidade necessária e é mais lento. O maluco que corre atrás de Nelson consegue aproximar-se a ponto de lhe acertar um tapão estilo “delegado” no meio das costas”

    “Deu pena de ver o Nelson. Cansado, mancando num balé “To raso, tô fundo” que só não era mais patético porque o tapão que levara na cara deixara uma marcona roxa igual a que o Tim Maia tinha”

    “O Fred pega a camisinha… FIca olhando. Olha pra mim, pro Nelson…

    – Huuuuummmmm… To entendendo. – Olha pro Barney e ri. Cara de safado. Eu caio na real. Ele ta achando que somos bichas.

    – Quem vai comer quem aí? – Pergunta o Barney. – Ferrou. Como se não bastasse tudo que passamos, eles vão querer comer a gente antes de resolverem matar e jogar a gente do alto da torre.

    – Não, não. Calmaí. Nós não somos viados não. – Já adianto eu. O Nelson está chorando ainda. Mas o cara acha a minha carteirinha de sócio do CCBA.

    CBBA é o seleto “Clube dos Comedores de Buceta Anônimos”. Uma babaquice que eu inventei com 14 anos, para aparecer”

    Sem mais…

  10. KKKKKKKKKK³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³
    MTOOO BOOMMMM XDDDDD
    KRAAAmbaaa
    escreve um livro q qm maaais vai comprar tah akeee

  11. [quote comment="38924"]KKKKKKKKKK³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³
    MTOOO BOOMMMM XDDDDD
    KRAAAmbaaa
    escreve um livro q qm maaais vai comprar tah akeee[/quote]

    Espero que o livro do Mundo Gump saia para o natal de 2008.

  12. Cara… que acontecimento! HUAHUAHUH!
    Dá até vontade de conhecer o Hugo e o Cdf do Nelson! Parabéns, pelo visto as redações nas aulas de matemática deram certo:)

  13. [quote comment="39998"]Cara… que acontecimento! HUAHUAHUH!
    Dá até vontade de conhecer o Hugo e o Cdf do Nelson! Parabéns, pelo visto as redações nas aulas de matemática deram certo:)[/quote]
    Breno Rocha??? Será que é o mesmo Breno Rocha que eu conheço???
    Breeenuuxinhooo saca o montain bike tb pra tu sentir o drama!! xD

  14. “Espero que o livro do Mundo Gump saia para o natal de 2008.”

    E o livro saiu? Seria divertido ver um seriado dessas aventuras, uma história dessas por semana, já pensou que sucesso?

    • Quem me dera.
      Tive problemas com o livro. O mercado editorial deu uma desaquecida e eu broxei de lançar pro natal de 2008. Acho que sai para o natal de 2009. (talvez)

  15. Philipe

    Acho que você está perdendo uma chance tremenda de lançar suas memorias em um livro! ou quem sabe um seriado de tv!

    Meu chefe perguntou pq eu estava rindo e eu mostrei pra ele este conto, o cara chorou de tanto rir…..

    • Tô não, cara. O livro tá quase pronto. Só não lancei ainda porque estou mega-ultra-fucking ocupado com mil outras doideiras. O livro (que vergonha) tá pronto desde o ano passado.

  16. kkkk, nossa eu não sei nem oq escrever…, “balé to raso, to fundo” quase me matou, Me diz como vc ainda nao escreveu um livro? ou apareceu na globo,no jo soares. Me diz como vc não está escrevendo os programas de comédia lá…
    Achei seu blog por acidente, quando procurava um filme com o Tom Hanks. Passei o dia lendo suas histórias e virei tiete.
    Parabéns.

    • Valeu mesmo, Rebeca. Eu tenho um livro já publicado e outro no forno para sair agora em janeiro. Sobre a globo, bem que eu gostaria, mas acho que não tenho cacife pra isso.

  17. cara
    cada parte que eu ia lendo eu ia pensando
    fudeu
    cara voce conta tão bem a historia que parece que voce esta nela
    eu até reagia com a historia
    acho que essa é a melhor do mundo gump
    e o negocio do livro é verdade?
    ja saiu?
    se for eu compro hoje
    (de preferencia autografado 😉 )

  18. gostaria de que pessoas intelectualizadas,dessem valor a este genio da arquitetura mundial ,o sr:oscar niemayer, merece respeito e toda a nossa credibilidade, se fosse norte americano voces meros tupiniquins, nao o defamavam,mais respeito ele e o genio da arquitetura do seculos 20 e 21 :jay cezar tavares de frança:[email protected] , obrigado.

  19. Puts, Philipe, o livro saiu????????????????????????????????????????? Ó.Ò
    Se saiu, ta vendendo aonde, qual o nome e, por fim: ME DA UM AUTOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOGRAFO??? *¬*

  20. Puts, seus textos são deliciosos, Filipe. Pena que só te conheci agora e nao sei se ainda esta escrevendo. Mas tenho me divertido com suas aventuras inacreditáveis.
    parabens.

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