Ontem eu testemunhei a morte

Ontem, eu estava almoçando. Já era quase quatro horas da tarde, e devido a um trabalho mais enrolado que o normal, acabei perdendo a hora do almoço. Me restou fazer um saduba hot-pocket no microondas. Enquanto eu comia aquele sanduíche onde o pão estava quente e o miolo frio, observei uma mosca que entrou pela porta da varanda. Ela fez um vôo rasante bem perto do meu sanduba, e eu tratei de enfiar o bagulho todo na boca antes que a maldita pousasse no meu rango.
A mosca continuou a voar, mas algo no vôo dela me chamou a atenção. Ela fez vários círculos concêntricos no ar e num vôo que mais parecia uma órbita, desceu no chão da minha sala. Achei aquilo estranho e corri para pegar a câmera. Por sorte ela estava já com a lente certa então foi votar para a sala e começar a registrar.
A mosca não pareceu nem um pouco incomodada com a minha presença. Pelo contrário, ela passeou e andou sempre na direção da câmera.

Ontem eu testemunhei a morte
Em alguns momentos, ela chegou a ficar parada, me olhando fixamente. Eu movi a lente e ela moveu a cabeça, acompanhando tudo. Estava mesmo me olhando!

A mosca deixou que eu chegasse perto para fotografar o detalhe de suas asas.

Ontem eu testemunhei a morte

Ontem eu testemunhei a morte
Ontem eu testemunhei a morte
Ontem eu testemunhei a morte

Ontem eu testemunhei a morte

-Caraca, ela está posando para a foto! – Pensei bolado.

Ontem eu testemunhei a morte
Aquela era a primeira vez que eu via um inseto se comportando quase como se fosse gente. Não era simples coincidência, a mosca parecia realmente a vontade ali comigo, e até um pouco curiosa.
Comecei a fotografá-la seguidamente, de frente, e lado, perfil, close… A mosca se sentindo a top model.
Foi aí que vi que ela pareceu estranha. Havia alguma coisa errada. Foi quando eu mirei o macro bem na cara dela que eu vi. Você pode pensar que eu estou ficando maluco, mas o inseto me olhou com aquele monte de olhinhos vermelhos e eu vi que ela parecia aflita. Parecia pedir socorro.

Ontem eu testemunhei a morte
A mosca então começou a cambalear.
Nessa hora eu só soquei o dedo no botão sem piedade, tentando entender o que diabos estaria acontecendo com aquela mosca.
E foi aí que eu testemunhei a morte. A mosca teve um espasmo, um espasmo só.

Ontem eu testemunhei a morte

Foi um troço instantâneo, como um “pã do windows”. A mosca deu tela azul e capotou. Suas patas assumiram a forma de uma estrela.

Ontem eu testemunhei a morte
Eu sabia que a existência adulta das moscas só dura 24 horas dias, mas em toda minha vida, nunca pude testemunhar os momentos finais de um inseto. Aquela era a primeira vez que eu via uma mosca morrer de causas naturais. Num segundo ela estava viva, zanzando pelo chão, e no outro estava mortinha da Silva. Como já fui ludibriado por uma barata, eu até cheguei a me perguntar se a sacana não estava fingindo, representando um falecimento pra mim, mas aí já seria coisa para ganhar o Oscar.

Ontem eu testemunhei a morte

Ela estava morta mesmo, e eu senti uma pena enorme daquele bichinho. Fiquei um tempo pensando sobre ela. Será que a mosca aproveitou a vida? Será que ela conseguiu se reproduzir nessas parcas horas de existência? Talvez a proximidade da morte tivesse feito com que ela perdesse seu medo. Ela me encarou, aproximou-se da lente sem pestanejar. Se eu fosse um predador, já não fazia mais diferença alguma. Acho que ela sabia que sua hora derradeira se aproximava.

A mosca optou por deixar um legado para a posteridade com suas fotos, e despediu-se deste mundo na borda da minha lente, com simplicidade, sem pompa nem circunstância. A mosca morreu de forma insignificante para ela, mas aquilo foi um momento cheio de significados para mim.

Related Post

76 comentários em “Ontem eu testemunhei a morte”

  1. Rapaz… oq ser pai não fez com você heim? Acredito que se isso estivesse ocorrido há um ano você provavelmente teria tratado de forma beeem diferente.

  2. legal cara, eu tive a oportinidade de ver uma libélula sair da casca de ninfa, desenvolver o abdomem, antenas, asas e pigmentação e bater asas, dava pra ver até os orgãos internos tomando volume e o exoesqueleto ficando cada vez mais opaco e amarelado. O processo deve ter durado uns 15 minutos, infelizmente eu não pude registrar mas ta na memoria o resto da minha vida. Engraçado que foi em um balneário com um riacho, as pessoas passavam e me viam olhando pra pedra na beira do riacho deviam pensar que eu era retardado uahauhua, mal sabiam que estavam perdendo ali embaixo dos seus narizes o “show da vida” como dizem lá no fantastico.

    e sobre a mosquinha aí se prestar bem atenção você pode ver as bordas das asas já meio roídas, e alguns das capsulas dos olhos dela parece ter estourado, já seria um sinal de velhice?

  3. Mosca pã doWindows ou Mosca Tela Azul… kkkkkk Bem, ela tinha talento pra nado sincronizado… Será que explorou em vida?Se a vida toda dela passou em segundos antes de morrer, deve ter sido uma espécie de Jornal Nacional… 

  4. cara utopias a parte, essa sua câmera é de uma qualidade!!!! cara que detalhes, top mesmo!!! belas fotos.(por mais triste que seja, a morte da mosquinha, snif sinif)

  5. Não fique triste e tampouco se culpe, amigo, a vida é assim mesmo! Pelo menos, você conseguiu salvar o seu podrão!

    Obs: as fotos ficaram ótimas!

  6. “Eu vi coisas que vocês humanos nunca acreditariam. (…) Todos estes momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva: hora de morrer.”

    replicante Roy – Blade Runner

    A paternidade ta te deixando bem sentimental, né, Philipe? Muito querido isso.
     
    : )

  7. Deixa eu acrescentar que as fotos ficaram muito bonitas, e é interessante como, com o teu texto, ganharam todo um significado, a mosca parece que ganhou expressão. Poesia é realmente uma maneira de se ver as coisas.

    Pesquisando sobre moscas, descobri conseguir captar a morte de uma delas é ainda mais dificil do que tu pensava: as moscas adultas duram 25 dias em média.
    fonte: http://mundoestranho.abril.com.br/materia/como-vivem-as-moscas

  8. Eu tb já vi uma mosca morrer quando era criança e é desse jeito mesmo … elas encolhem as patas e capotam de costas… nó cara voltei ao passado agora… eu devia ter uns 7 anos hoje tenho 34… Ver qualquer ser morrer é sempre marcante, não é?

    • Cara eu acho que isso aí é uma crendice que andam falando, pq estou fazendo macro há muito tempo e até agora nenhum bicho nunca desmaiou/morreu em função do flash. Até pq eu uso um difusor que eu mesmo fabriquei.

  9. Bom dia, Philipe!!!
    Acompanho o Mundo Gump desde 2006, no comecinho. Simplesmente adoro o Blog, mas não sou muito de comentar (lembrando que, no meu trabalho, é impossível postar comentário).
    Esse post da mosquinha foi show!!! Ela queria ficar famosa, pelo menos no fim de sua vida, e  conseguiu!!! hahahahaha Ah, e parabéns pela sua sensibilidade!!! Continue assim!!!
    Também fiquei feliz em saber que sua família vai aumentar… Que Deus abençõe você e sua família!!!
    Abração pra você e dê um beijinho na Nivea e na barriguinha dela…

  10. Cara que legal isso, eu tenho inveja de vc por ter essa camera pra poder registrar essas coisas. Semana passada estava eu de boa na internet quando ouço um grito/miado vindo do terreno baldio aqui do lado. Corri pra ver se era algum gato tendo um enfarto e pra minha surpresa,  uma cena digna de National Geografic estava ocorrendo diante de meus olhos: uma cobra acabara de abocanhar uma rãsinha, e  ela gritava que nem gato trepando de madrugada. Enquanto eu assistia a ransinha azarada sendo engolida viva pela cobra fiquei pensando nas belas fotos que aquela cena renderia, se eu tivesse uma camera como a sua.

    tbm, esses dias entrou um louva-deus aqui, e eu tirei umas fotos dele. Aquele bicho dá medo, vc passa por ele e ele vira a cabeça na sua direção te encarando com aquelas mãozinhas parecendo foices. Pena que a minha camera do paraguai não é tão boa, se não tbm renderia boas fotos.

    • Portapro, usei a lente do kit, a 18-55mm, só que eu uso ela invertida. Eventualmente uso na montagem com duas lentes, sendo uma 50mm 1.8 invertida na frente da lente do kit. Eu vou fazer um post em breve sobre macro, detalhando o que aprendi até agora.

  11. Fugindo do assunto morte, ela me parece estar usando uma máscara de luta livre dourada. Até os cilios cruzados parecem com os cadarços da máscara.

  12. Caramba, um dos momentos que eu jamais imaginei como fosse.

    Parabéns pelas imagens, ficaram ótimas, e o texto passou muito bem o que aconteceu.
    Abraços

  13. postagem muito bacana, Philipe. Também deixo-lhe aqui meus parabéns. Com sua sensibilidade, vc nos agraciou com uma singela história, que é, como sempre, muito bem contada.
    uma vez vi uma mosca pousar perto de mim, também de um jeito estranho, mas esta teve um final bem triste: ela estava servindo, creio eu, de depósito de larvas de algum outro inseto, e para meu espanto, em certo momento ela parou, o abdomen dela abriu e saiu um monte de larvas de dentro dela, muitas mesmo, bem pequenas mas em grande quantidade. fiquei pensando: como este inseto conseguiu ficar vivo e se mexendo até aquele momento com aquela quantidade de larvas naquele estado; incrível. pareciam um “bololô” de cobrinhas miúdas, se contorcendo, pulando tudo para fora do abdômen da coitada, que já não comportava mais tal quantidade e tamanho de larvas, vermes, sei lá, rsrsrs….

  14. Philipe, sempre leio seu blog mas nunca comento. Hoje estou escrevendo só para te dar os parabéns… é o mínimo que posso fazer pelas muitas risadas que já dei com suas histórias. Abraço.

  15. Acompanho o blog faz um tempão, só que não sou muito de comentar. Mas tive que parar pra deixar a minha impressão sobre essa sessão de fotos.
    As imagens ficaram maravilhosas! Impressionante como você conseguiu me sensibilizar com a história da morte de uma mosca, um ser que consideramos tão insignificante… isso sem deixar de lado seu humor característico, claro.

  16. Gostei de suas fotos e do seu texto, e principalmente do respeito pelo presente que este bichinho lhe deu. Nunca pensei que um inseto tão asqueroso poderia despertar em mim alguma compaixão. Obrigado por partilhar conosco este último momento sagrado da vida, que é a morte, de uma forma tão bela.

  17. Já tem algum tempo que acompanho seu blog, e desde o primeiro dia sabia que vc era o cara…Um artista completo de um talento que poucos têm. Parece que Deus te deu muitos dons e o maior deles com certeza é essa tua humildade.Digo e repito você é o cara!

  18. esses passei a observar uma formiga que passava em uma mesa no meu quarto… do nada ela parou, teve espasmos também e morreu.. Creio que me senti igual a ti: surpreendido de ter presenciado a morte natural de um inseto

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

shares