O pacto

O nome dele era Raul Oliveira de Castro, mas seus amigos apenas o conheciam como “Castrinho”.
Não vou perder o nosso tempo aqui dizendo a história da vida dele. Basta dizer que Castrinho cresceu órfão, criado por uma tia carola, que trabalhava na Igreja da matriz de uma cidade que já me esqueci o nome, mas que fica ali no sul da Bahia. Ele passou a infância vendo televisão. Sonhava em ser um astro da música sertaneja ou algo que o valha. A tia de Castrinho morreu quando ele entrava na adolescência. A morte da Tia, enquanto varria o altar foi o que deu nele a vontade de viajar. Sumir. Cair no mundo. Roubou o dinheiro da caixinha da igreja e fugiu num ônibus carcomido para o sul. Cresceu sozinho, penou para arranjar emprego. O primeiro foi de vigia noturno.
Os dias passavam de forma igual. Até que a empresa faliu e ele foi demitido. Castrinho viveu na rua da amargura, sem emprego, sem comida, sem dinheiro. Mendigou.
Estava na fase mendigo, sentado no banco de uma praça quando conheceu um paraibano que estava indo para o Rio com três filhos, tentar a carreira de violeiro.
Castrinho não tardou a obter os trocados que dariam para seguir o retirante em busca de seus sonhos.
Mas no meio da estrada o caminhão que os transportava ilegalmente sofreu um acidente e quase todos morreram. Castrinho ficou muito machucado. Levado para um hospital público, recebeu os cuidados médicos que lhe salvaram a vida. Quando finalmente se recuperou, ele chegou ao Rio de Janeiro, com uma mão na frente e outra atrás. Ficou embasbacado com a beleza daquela cidade. Mas tão logo a estupefação passou, a realidade cobrou seu preço. A cidade estava loteada. Não havia local em que ele pudesse se encostar para tirar uma soneca que não houvesse mendigos. Assim, ele virou um tipo de andarilho, um mendigo maltrapilho que andava de um lugar a outro da cidade, esmolando, pedindo e comendo os restos de sanduíche que os bacanas jogavam nas lixeiras das lanchonetes da zona sul.
Um dia, ele encontrou uma revista velha no chão e parou para folheá-la.
Era uma antiga revista de celebridades. Castrinho o andarilho sujo, mendicante, estava vendo o que gostaria de ser mas não era. A revista mostrava aquele monte de gente bonita e famosa, passeando em lugares paradisíacos, praias maravilhosas de águas verdinhas, outros em banheiras de espuma, repletos de pétalas de rosas. Mulheres bonitas, festas e encontros nas casas luxuosas e em palácios.
Ele olhava as fotos e pensava em estar ali, desfrutando daquela felicidade, daquele prazer. Imaginava o sabor da carne, o aroma do vinho e até o frio das montanhas nevadas onde uma família de bacanas esquiava.
Alguns ele reconhecia das novelas na Tv. Outros não. Mesmo andarilho, Castrinho nunca havia deixado de ver as novelas da televisão. Na falta de um aparelho, ele corria para as portas das lojas de eletrodomésticos, onde sempre havia uma boa alma para deixar um aparelho ligado na vitrine.
Naquele dia, após ver e rever a revista velha até decorá-la, ele resolveu seguir caminho para a loja. O comércio começava a fechar as portas e os camelôs já se retiravam para a direção do trem quando Castrinho chegou na porta da loja. Mas neste dia fatídico, ao contrário de todos os outros, não havia Tv ligada.
Isso o obrigou a sair em caminhada apressada, em busca de algum lugar que tivesse uma Tv.
Chegou a um boteco. Ali ele filou a televisão por alguns minutos, até que foi expulso pelo português, dono do bar sob a desculpa de que ele espantava a freguesia. Sem dinheiro para consumir e comprar sua permanência no local, baixou a cabeça e saiu, sentindo-se o fracasso em pessoa.
Andou alguns metros quando uma mão pesada bateu no ombro dele. Castrinho se assustou. Era um velho, que havia visto o dono do bar maltratá-lo.
-Calma, meu rapaz.
-Hã? Que foi?
-Eu vi o que o babaca fez com você. Injustiça eu não aguento.
-…
-Venha, venha comigo. Você gosta de ver televisão?
-Ah, gosto sim senhor. Eu adoro. Vejo todo dia.

E então no caminho de volta para o bar, Castrinho contou ao velho que via novela todos os dias, desde criança. O velho se intrigou.
-Mas você não é um mendigo então?
-Não, não senhor. Eu sou apenas um desempregado. Eu tento, mas não tenho como me virar sem dinheiro. Até pra vender bala no sinal é preciso de dinheiro inicial.
-Mas você nunca tentou por exemplo, ser flanelinha? É uma forma de conseguir algum dinheiro.
-É, sim senhor. Mas o problema é que não dá pra ser flanelinha aqui no Rio, porque toda rua já tem um. E eles me expulsam. Até me ameaçaram de morte outro dia ali na avenida. Como resultado, só sobram as ruas ruins, onde para pouco carro. Nessas eu trabalhei e faço isso sempre que posso, mas o resultado não chega a cinco reais. A maioria também dá calote no flanelinha. Diz que vai pagar depois e não paga.
-Ah, entendo.

Os dois entraram no bar. O português bateu no balcão.
-Mas que porra é essa? Não mandei…
-Ele é meu convidado, seu Mário!
-Convidado o caramba. Ele é um mendigo, pô!
-Né nada, seu Mário.
-Não quero nem saber. Vão embora os dois daqui então. -Disse o portuga apontando pra rua com um abridor na mão. O povo do bar riu.
E os dois saíram.

-Putaquepariu. -reclamou o velho.
-Desculpa, moço. Eu não queria fazer o senhor passar vexame. -Disse Castrinho.
-Ah, garoto, Eu conheço o seu Mário desde moleque. Esse cara tá ficando esclerosado. Não esquenta. Olha, quer saber? Vamos lá pro meu estabelecimento, que lá tem televisão. Não é boa como a do bar, mas serve pra ver a novela e o jornal.

E assim Castrinho prosseguiu com aquele senhor até um restaurante, que não era muito ruim, mas também não era grande coisa. Cerca de vinte mesas e uma cozinha apertada.
Ali os dois sentaram-se numa mesa, o velho pegou uma garrafa de cerveja, que Castrinho prontamente recusou, dizendo que não bebia. O velho sorriu, serviu a cerveja só pra ele mesmo e ambos assistiram ao Jornal Nacional e à novela.
Quando acabou a sessão de TV, Castrinho levantou-se para ir embora.
O velho o interpelou, dizendo.
-Escuta, rapaz. Eu fui com a sua cara.
-Ah, o senhor é muito generoso, disse o jovem. Agora preciso ir embora, porque amanhã eu tenho que…
-Olha, você tá morando onde?
-Sabe o viaduto que tem ali perto da praça…
-Viaduto? Você tá morando debaixo de um viaduto?
-Pois é…
-Olha, eu não estou acostumado a fazer isso, mas se você quiser, eu posso te empregar. E deixo você dormir aqui no Restaurante. Você trabalha como vigia aqui pra mim, faz uma limpeza no salão, e eu te ajudo, pagando aí um troco. Já adianto que não posso pagar muito, pois o ponto aqui é uma desgraça. Mas já é alguma coisa, e você pode ver televisão o quanto quiser. O que me diz?
Castrinho apenas abriu um sorriso e estendeu a mão suja para o velho.
-Ah, rapaz, vamos começar com um banho e um corte nessa barba e cabelo. Que tal?
Castrinho assentiu com a cabeça e os dois saíram para a barbearia do seu Nicolau, que ficava ligada à casa dele e funcionava 24 horas.
Passaram-se alguns meses e agora Castrinho era uma espécie de garçom-faxineiro-faz-tudo-vigia do restaurante.
Não ganhava bem. Na verdade ganhava muito mal. Muitas noites passava limpando a sujeira. Levou algum tempo para que ele percebesse que o homem generoso que lhe oferecera uma chance na vida estava capitalizando em cima dele. O velho em pouco tempo despediu o garçom, o servente, o vigia e a faxineira. Pelo preço da metade do salário dela tinha um homem que fazia tudo aquilo.
Castrinho começou a sentir-se como um passarinho preso numa gaiola.
Com o pouco que recebia ele comprava a revista de celebridades e passava as noites assistindo a novelas e filmes, aos quais sabia de cor o nome de cada um dos atores.
Numa noite, houve um blecaute na região. Sem tv só restou-lhe acender uma vela e folhear uma revista no salão vazio do restaurante já fechado. Lá estavam aquelas pessoas felizes, desfrutando a vida que lhe foi duramente negada.
Castrinho tinha no coração o desejo de ser famoso, ser rico, poderoso como aquela gente. Sucesso, fama.
Aquilo acontecia com tantas pessoas, porque justamente com ele nada dava certo?
Fechou os olhos e odiou a própria vida. Sentiu uma estranha raiva crescer dentro de si e subitamente teve um insight que poderia fazer tudo aquilo se resolver. Estava decidido.
Ele ia vender a alma para o diabo.
O dia seguinte, quando o restaurante fechou, Castrinho saiu em busca de uma forma de realizar seu plano de vida. à medida em que andava pelas ruas do Centro, pensava no pacto. Estava claro pra ele que se fosse para ficar famoso por meios naturais não haveria muitas chances. Apenas o poder de um pacto com Belzebú poderia colocá-lo no universo dos bacanas, dos bem de vida.
Então Castrinho tratou de buscar uma forma de contatar Satã. Comprou na banca de revistas usadas um livro de São Cipriano que prometia o contato com o capeta. Tentou fazer todo aquele rapapé de invocação, mas falhou miseravelmente. Nem satã, nem espírito ou qualquer outra aparição surgiu e só restou a ele limpar a sujeirada de pentagrama de sal no chão do salão do restaurante.
Deprimido, mas ainda assim decidido que apenas Satã poderia tirá-lo daquela vida invisível e desgraçada, tentou outra alternativa. Certamente que haveria uma forma de contatar o príncipe das trevas. Mas como fazer isso? O diabo não ficava dando plantão na calçada. Seria necessário fazer alguma coisa. Tão logo conseguiu fechar o restaurante, correu para uma lan house que havia na esquina e no Google descobriu tudo que podia sobre pacto com o Diabo. Viu trechos de obras clássicas que referenciavam estes pactos e notou que na ampla maioria das vezes, o pacto com o coisa ruim se dava por interesse deste último. Nunca a partir do interesse do dono da alma.
Voltou para o restaurante mais triste do que nunca.
Então naquela noite acordou com uma idéia na cabeça. Basicamente, tudo que ele viu sobre pactos com o demônio e venda de almas para o capeta envolviam o diabo aparecer para a pessoa, mas em lugar algum ele leu que o processo inverso não fosse possível.
-Se ninguém tentou, não significa que não seja possível. Significa apenas que ninguém tentou. -Ele disse em voz alta no salão escuro do restaurante. E tornou a dormir, dessa vez, mais feliz.
No dia seguinte, serviu os pratos, lavou a louça e limpou o restaurante. O trabalho era árduo e isso o cansava muito. Os clientes eram grosseiros e não raro, metidos. Mas ele enfrentava aquilo tudo com esperanças de ser bem sucedido na venda de seu mais precioso bem, a alma.
A idéia de anunciar sua alma no jornal foi uma consequência de ver um senhor que tomava o café após o almoço lendo os classificados.
Quando ele finalmente conseguiu fechar o restaurante, correu até o telefone público e ligou para o departamento de anúncios, onde colocou um anuncio, que dizia apenas:
Vendo a minha alma. Tratar com Castrinho.
Não colocou telefone nem endereço, porque obviamente o príncipe das trevas teria o poder de localizá-lo fosse onde fosse.
Mas não surtiu efeito. Castrinho pagou para o anuncio aparecer no jornal de domingo, mas nem isso teve efeito. Sentiu-se o mais burro de todos os mortais. Certamente que o capeta não lia jornais.
Passaram-se alguns dias até que uma nova idéia surgiu na mente de Castrinho. A idéia surgiu quando ele procurava para ver se o anuncio estava saindo direito no jornal. Logo abaixo do anuncio dele estava o anuncio de um tal “Chiquinho Belzebú”, que se dizia encarregado das artes demoníacas na Terra.
Aquilo lhe pareceu ser viável, na medida em que alguém importante como o diabo não perderia seu tempo trabalhando em pessoa na compra e venda de almas.
Juntou algum dinheiro, suas parcas economias e procurou o Chiquinho Belzebu. Seguiu o endereço e foi dar numa casa muito bonita, toda pintada de preto, com uma estrela vermelha na porta. Não havia letreiro ou coisa do tipo. Ele entrou e tocou a campainha. Da porta surgiu uma menina magrinha.
-Pois não?
-Eu queria falar com o Chiquinho…
-Ah, tá. – A menina deu-lhe às costas e gritou lá pra dentro: -Ô paaaaaaaai! Mais um!
Surgiu na porta um homem negro, careca, com um bigodão. A aparência era assustadora. Ele usava uma camisa de cetim vermelho e uma capa preta. O homem veio solenemente até a porta.
-Pois não?
-O senhor é…
-Sou.
-Eu queria… Bem, o senhor sabe, eu queria vender minha alma.
O homem negro ficou ali, olhando pra ele, com uma expressão enigmática. Balançou a cabeça positivamente. -Vai custar cem reais.
Castrinho apanhou todo o dinheiro que tinha.
-Só tenho oitenta e cinco. Dá pra fazer?
O homem acenou com a cabeça. Pegou o bolo de notas da mão dele e enfiou no próprio bolso sem contar.
Pegou uma moeda do outro bolso e passou na cabeça dele sete vezes sussurrando uma coisa qualquer que Castrinho não ouviu direito. Então o Chiquinho Belzebú falou:
Agora pode entrar.
Castrinho entrou e foi direto segundo o homem, que ia entrando pela casa adentro. Subiu umas escadas de madeira. Castrinho sentia medo e p medo só aumentou quando ele entrou numa sala toda pintada de preto, com uma estrela vermelha no chão. Ali Chiquinho apontou para o centro da estrela e disse: Deita ali.
Castrinho obedeceu.
Então o tal Chiquinho falou um monte de coisa, invocou o Satã, o capeta, Lucifer e mais uns trinta nomes diferentes. Acendeu uma tocha e circulou com ela ao redor da estrela. Mas o capeta não apareceu.
Castrinho esperava algum tipo de reação mágica, uma atividade sobrenatural qualquer, e de decepcionou quando o homem apenas disse.
-Pronto, acabou.
Ele vestiu-se. Agradeceu e saiu dali puto da vida, sabendo que foi engrupido em oitenta e cinco preciosos reais.
Voltou a trabalhar no restaurante. Entre um prato e outro, um pedido e outro, começou a pensar no destino e naquele monte de trapalhada que se metera tentando em vão vender a alma para o demônio e se tornar rico e famoso.
Foi num dia de chuva que Castrinho percebeu que só poderia realmente se aproximar se Satã se fizesse por onde. Maldades. Ele deveria ser maligno, agir com desprezo pela alma e pela vida humana e talvez assim atraísse a atenção de Lúcifer para si.
Então Castrinho começou sua vida de diabruras, cuspindo na comida, molhando os bifes na água da privada.
Fez toda sorte de maldades que pode fazer sem correr o risco de ser preso. O ápice de sua maldade foi colocar detergente no molho de pimenta.
No fim do dia ele saía para chutar animais e praticar vandalismos. Passou por uma rua onde crianças jogavam bola e bicou a bola dos moleques, quebrando uma janela. Saiu correndo deixando os garotos levarem a culpa.
Arranhou carros com um parafuso. Passou a atravessar a rua toda vez que via uma igreja.
Mas por mais maligno e diabrurento que fosse, Castrinho nunca obteve sucesso em atrair o capeta.
Um dia decidiu que faria a maior maldade que poderia fazer. Comprou remédio para rato e estava decidido a matar um velhinho que comia sempre no restaurante. Sim, a morte, a violação do sexto sagrado mandamento. O desprezo para com a vida humana. Se aquilo não atraísse a atenção de Satã, nada mais o faria.
Colocou o chumbinho sob o queijo do filé a parmegiana que o velho comia todo santo dia. Levou até a mesa. Ficou ali, parado, vendo o velho partir o bife. O velho estava prestes a levar o bife até a boca, a saborear o primeiro e talvez o último pedaço de carne de sua refeição, quando o velho teve um ataque. Caiu para trás, se remexendo freneticamente.
Castrinho se assustou. O velho espumava pelo canto da boca. Ele esperava por aquela morte, mas não imaginava que ela fosse acontecer sem mesmo que o velho colocasse a comida envenenada na boca.
As pessoas cahamaram a ambulância, mas quando o SAMU chegou, mais de quarenta minutos depois, o velho já havia morrido. Antes que Castrinho pudesse assassiná-lo.
derrame cerebral, disseram os médicos.
Um fracasso em pessoa. Era o que Castrinho sentia de si mesmo. Nem mesmo para matar um velho estúpido ele servia. Estava claro pra ele que este era o motivo pelo qual o capeta nunca iria querer sua alma.
Voltou a se deprimir.
Começou a pensar em tudo em toda aquele monte de besteiras que fez buscando a fama e fortuna. Nada dera certo. Então percebeu que estava cometendo um erro terrível. Na busca por aproximar-se do diabo, ele estava na verdade desvalorizando seu principal produto, a sua alma.
Afinal de contas, pensando racionalmente na relação de oferta e procura, qual seria a vantagem para o dêmo de ter uma alma de um praticante de maldades como ele? A arte do malefício já o tornara um servo de Satã. E dessa forma, para que Satã iria pagar algum favor por uma alma que já o pertencia?
Neste dia, Castrinho percebeu o quão era idiota e resolveu mudar.
Torou-se uma boa pessoa. Buscou o caminho da luz. Passou a frequentar a igreja, confessou e se arrependeu de seus pecados. Mas nunca, em nenhum momento fraquejou com relação ao seu objetivo primordial, que era a venda da própria alma ao Satã. Caiu na esteira de dizer isso ao pároco quando se confessava e acabou expulso da igreja.
Comprou uma bíblia de segunda mão e buscou nos ensinamentos tudo o que podia para se tornar uma pessoa boa e valorizar sua alma. Fundou com amigos garçons uma igreja. O restaurante tão logo começou a se encher de fiéis. O velho abriu uma filial, e convidou-o para ser gerente.
Mas ele durou pouco no emprego de gerente do restaurante, porque a igreja ia de vento em popa. Os fiéis aumentavam a cada dia.
E ele investia cada vez mais tempo, esforço e dinheiro em fazer o bem, em trazer as pessoas do fundo do poço para a luz divina de Deus.
Comprou carros, rádios, jornais e diversas casas. Abriu filiais da igreja em países pobres da África e da Ìndia. Apareceu na Tv em horário nobre, pregando a multidões que o exultavam: Aleluia Pastor!
Castrinho já não era mais o mesmo. Agora ele era apenas o pastor Castro, o homem de Deus.
Trabalhou com os fracos, os pobres, os viciados e recuperou os enfermos. Fez paralíticos andarem, expulsou o coisa ruim das pessoas e escreveu livros com seus pensamentos sobre uma vida pura e ímpia.
Casou-se, constituiu família, teve uma filha com a esposa e comprou uma casa de luxo em Miami.
Certa noite, Castrinho, digo, pastor Castro, estava a contar dinheiro, como sempre fazia no fim do expediente da Igreja quando uma pessoa bateu à porta. Era normal que os assistentes sociais da igreja trouxessem pessoas doentes e fracas para conversar com ele e se confessar. Guardou os bolos de notas no cofre sob a mesa de carvalho antiga. Ao abrir a porta, tudo que viu foi um homem baixinho, com a cara enrugada, os olhos fundos e avermelhados que pareciam estar embebidos na cachaça.
-Pois não, irmão?
-Pastor Castro?
-Isso mesmo. Em pessoa. E sua graça?
-Não tenho graça. Eu sou sem graça mesmo. – Sorriu em dentes amarelados o homem. -Posso entrar?
-Sim, fique à vontade. -Disse Castrinho, apontando uma cadeira de espaldar alto com o símbolo da igreja talhado no formão.
O homem sentou-se e foi direto ao assunto.
-Vim tratar de negócios.
-Negócios?
-Sim senhor.
-Que negócios? Alguma rádio?
-Não, não senhor. Eu vim negociar sua alma. -Disse o homem, sorrindo.
Castrinho achou aquilo estranho. Naquela altura da vida, já havia se esquecido da vida medíocre, do pacto com o diabo, do desejo da fama e fortuna.
-O que?
-Sim, o pacto, pastor Castro. O pacto.
-Que pacto?
-O pacto que o senhor fez.
Então Castrinho olhou no fundo dos olhos avermelhados daquele homem e se lembrou. E um frio lhe percorreu a espinha.
-Mas… Mas… O Chiquinho Belzebu… Quer dizer que…
O homem apenas assentiu com a cabeça. Abriu sua boca marcada por rugas e sorriu com os dentes amarelados.
-Funcionou.

FIM

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23 comentários em “O pacto”

  1. Realmente alguns homens que se dizem de Deus devem ter vendido suas almas…só pode…não há outra explicação para os absurdos que vemos por aí…
    Ótimo conto!

  2. Pode até parecer maluquice, mas essa história do Castrinho faz todo sentido: veja bem que coisa interessante, Jesus Cristo na Umbanda e Candomblé é Oxalá, e Oxalá na genealogia oculta é Ashtaroth, o chefe supremo dos demônios. Eu não estou inventando isso porque sou maluco, trata-se de uma tradição oculta com milhares de anos, então…logo o Edir Macedo deverá ter uma bela visita, igual o Castrinho do seu folhetim…

  3. Parabéns Philipe!!!

    Outro texto fantástico!!! Cara, você já pensou em escrever um romance? Sei que pode parecer bobagem, mas creio que você leva jeito!!!
    Ah, e de ficção, envolvendo passado, presente e futuro!!!

    Abraços, man…

  4. Vaza fora daqui, seu nanico, d’uma figa. O pacto era quando eu era pobre. Cad? que você apareceu quando eu mais presizava de você? Agora eu já não preciso mais. Já consegui o que queria por minhas proprias custas. E vá ser demorado assim “na puta que o pariu”. E mesmo que a “pajelança”do Chiquinho Belzebu tivesse dado certo… Isso é hora de aparecer? Chô daqui, “SATANAS”. agora eu sou só de “JESUS”. hahahaha!
    This is Other END!rsrs!

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