O dia em que os Ets falaram conosco e outras histórias

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A nave gigantesca paira sobre uma Washington petrificada pelo pânico. Com seu brilho prateado e som que lembra um theremin, a enorme nave desce lentamente, diante do Capitólio, onde uma guarnição armada até os dentes com tanques e soldados aguarda as ordens superiores para atacar aquela estranha forma de vida provinda do inescrutável espaço.
Minutos passam arrastados. Os canais de Tv, limitados a uma área distante do epicentro do contato transmitem o momento histórico em todas as línguas para os mais distantes rincões do planeta.
É o dia do contato final. Em alguns lugares há festa, em outros há o medo. Na maioria das cidades não há ninguém nas ruas. Todos estão em casa, com comida estocada, olhos fixos nos monitores, temendo o pior. As crianças não tiveram aula e poucos funcionários públicos tiveram a coragem de ir para o trabalho quando estamos na iminência de conhecer seres de outro planeta de verdade.

Num estrondo que ecoa até os ouvidos dos soldados, armados com fuzis pesados, mas que não disfarçam sua tremedeira, uma porta se abre. Há o som de gás escapando, e uma luz potente emana do interior da astronave. Gradualmente, num compasso quase marcial, uma enorme figura surge diante da porta. Ele é estranho, veste uma roupa prateada que parece endurecida. É um misto de robô e ser biológico. Ele fica algum tempo parado diante da porta contemplando os tanques e as centenas de fuzileiros armados até os dentes. Todos os canos apontam para ele. Há até bazucas, e cerca de cem metros dali, dois caminhões lançadores de mísseis terra-ar aguardam a ordem de disparar.

Ninguém fala nada. Há uma tensão suprema que eletrifica o ar. Somente o vento continua a rugir diante do macabro espetáculo daquele contato definitivo.
Quando o estrangeiro finalmente fala, ninguém entende. O que sai da criatura é um misto de ruídos enigmáticos que lembram os sons das baleias e uma rádio fora do ar, que parece misturar num enorme numero de canais de áudio uma mensagem Matemática.

Atrás das linhas de defesa, grandes caminhões cujos contêineres estão repletos de cientistas, engenheiros e matemáticos da NSA trabalham para decodificar aquele sinal. Descobre-se finalmente que a matriz do sinal é realmente matemática de base oito. Não por acaso a criatura tem quatro dedos em cada mão.
Quando o misterioso sinal de áudio é finalmente resolvido ele resulta numa frase simples e direta:

-Quem é o líder deste planeta?

Prontamente a junta militar que assiste a tudo por grandes monitores do centro de Defesa no Pentágono decide apresentar o Presidente dos Estados Unidos ao visitante. Mas aquilo imediatamente produz um conflito internacional: Assim que o resultado da mensagem é enviado aos jornalistas, centenas de telefonemas de todas as partes do mundo estouram na Casa Branca. A maioria dessas mensagens tem o mesmo teor:

O presidente dos Estados Unidos não é o chefe do mundo!

Uma grande reunião com todos os representantes dos países do mundo é convocada às pressas. Por sorte, grande parte deles já estava em Nova York para um painel da ONU, e o restante compareceu por videoconferência.
Diplomatas de todos os países começam uma frenética batalha para determinar quem, de fato, é a pessoa que vai falar com o visitante, e representar o planeta.
Enquanto a crise diplomática pega fogo, os cientistas da NSA tentam fazer a operação reversa no sinal, convertendo-o para uma fórmula matemática complexa de base oito e dividí-la em 24 canais diferentes entre 3 oscilações de frequência e blips eletrônicos.
A resposta humana à pergunta do estrangeiro foi:

-Temos muitos líderes. Espere enquanto escolhemos um deles para falar.

O alien espera… Espera… Espera, impávido, parado diante da porta, e durante todo este tempo, as reuniões de cúpula do G20, Mercosul, OTAN, BRICS e tantos outros grupos não encontram um meio termo. A União Europeia propõe por videoconferência que um representante da Alemanha seja indicado para representar os governos da Terra, uma vez que a UE representa um grande bloco econômico de diversos países. Mas os Estados Unidos discordam. Os diplomatas americanos enfatizam que o alien escolheu Washington, e não Berlin para descer e portanto está pré-disposto a ver o presidente dos Estados Unidos. Além do mais, diz um chefe de gabinete: – “Somos a maior potência bélica do planeta”.
Diante disso o líder russo dá um soco na mesa e aponta o dedo em riste para o monitor:
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Velhas mágoas eclodem. O cônsul do Japão lembra que embora os russos tenham arsenal militar, somente os Americanos usaram o seu sobre pessoas inocentes, e por isso não é “digno” da honra de representar a Terra diante do cosmos.

A China intervém. O representante chinês ri dos dois blocos e da mágoa do japonês. O Chinês vai direto ao ponto e ameaça se retirar das rodada de negociações paralelas.

– Hoje, o que é o mundo sem a China?

Ele ameaça com sanções comerciais e diz que está insatisfeito de ser relegado a um segundo plano na discussão uma vez que a maior população do planeta está lá.

– Da perspectiva de uma inteligência externa, os donos do planeta somos nós! – Diz ele.

Todos riem, menos os indianos que integram o chamado “bloco populacional” com os chineses.

O Irã e o bloco muçulmano prefere não se posicionar e aguardam uma reunião dos mulás, que decidem numa cúpula própria e com conflitos próprios, a postura a ser adotada diante da ameaça externa. Os maiores especialistas do Alcorão estão em dúvida sobre o que as escrituras recomendam.

-Maomé diz que Alá deseja que todos os infiéis queimem! – Sugere um dos barbudos da cúpula.

-Mas não sabemos se ele crê el Alá! O estrangeiro pode ser tão puro quanto uma criança que não conhece as escrituras! – Diz outro. E complementa: – Não matamos as crianças.

Todos os mulás concordam que “um ignorante não é um infiel”…

Um telefonema interrompe a reunião. É uma ligação do representante do Vaticano que diz que o Papa se oferece para representar o governo da Terra, afinal ele se diz o representante de Deus neste planeta.

A notícia vaza e começam os conflitos. Explosões na Irlanda, ataques à mesquitas. Conflitos armados na África.

Enquanto isso, o alien espera diante da porta da nave, visivelmente irritado.

Segundo os diplomatas russos, eles tem armamento nuclear suficiente para acabar com este planeta diversas vezes. O clima esquenta. Brasil e Austrália integram a turma do deixa-disso.

Surgem propostas de criação de um comando geral, sob a égide da ONU, mas alguns  não concordam:

-A ONU não representa todas as nações! – Diz o líder de Taiwan, imediatamente apoiado pelo representante do Timor Leste e também pelo representante do Gabinete de Relações Exteriores do Vaticano.

O líder chinês também concorda e lembra que Taiwan deveria concordar com ele, uma vez que sob sua ótica Taiwan é parte da China. O homem de Taiwan diz alguma coisa que ninguém entende e que os tradutores simplesmente não traduzem, mas a julgar pelo ódio nos olhos do representante do governo chinês a coisa é séria. Começam os gritos. dedos em riste.

Todos falam ao mesmo tempo. Campainhas tocam tentando manter o controle da reunião.

O presidente da Venezuela grita que aquilo é um golpe, uma ameaça criada por Hollywood para que os EUA virem líderes supremos do mundo:

-É no quintal deles! No quintal deles! – Brada o bigodudo. Brasil e Argentina aplaudem a intervenção da Venezuela no meio do fusuê.

Os ingleses cochicham entre si e com os representantes dos Estados Unidos. Estão prestes a formar um novo bloco.

Discussões ocorrem nos bastidores. O clima é cada vez mais quente. Um presidente Africano diz que precisa almoçar. Todos concordam em interromper as negociações para o almoço e retomar às três da tarde, “em prol das alianças” – Dizem à imprensa. O mundo em suspenso, aguarda, bem como o alien, na porta da nave.

Duas horas depois, o alien está sentado diante da porta da nave. Os militares já nem apontam suas armas. Todos estão em pé, conversando… Esperando. Os jornais rodam boletins especiais. As Tvs sem notícias, passam trechos de documentários e entrevistam professores de aparência estranha que teorizam de onde o alien vem. Em algum lugar do Rio, um sujeito de bermuda e chinelo compõe o “funk do etê”.

Acaba a hora do almoço. Durante o tempo em que passaram juntos, as autoridades globais traçaram grandes planos de ação conjunta. Negociatas de todos os tipos e trocas de apoio, lobby e tudo mais que já estamos acostumados…

Quando todos retornam para a sala de negociações, o conflito de interesses recomeça. Os árabes da OPEP oferecem apoio ao bloco que garantir que diante de uma nova tecnologia energética oferecida pelo visitante, eles terão prioridade de aquisição. Já os chineses estão se aliando aos indianos, russos e ao Brasil para reivindicar que os BRICS merecem esta chance, afinal, foram explorados até aqui.

O general líder da OTAN sugere que o grupo que ganhar deve ser capaz de prover segurança para todo o planeta, do contrario, “jamais será respeitado”.

O representante de Israel e do Papa insurgem diante disso com o argumento de que “respeitamos mais quem não mata!”, e assim que isso é dito, o representante da autoridade palestina solta uma sonora gargalhada e grita que os Insraelenses vivem da fabricação das máquinas da morte.

O israelense responde: – E vocês explodem crianças!

Não há nem sinal de um acordo.

Diante de uma multidão de soldados e cientistas, cansados de esperar, o alien se levanta.

Todos parecem se assustar quando o enorme alienígena retorna para dentro da nave. A porta se fecha com uma explosão.

Os militares correm para seus postos. Os jornalistas entram em link “ao vivo”. Todos comentando. O medo retorna aos corações do mundo.

-Será que ele vai destruir o mundo? – Pessoas postam no Twitter.

Surgem hashtags: #esculachaetê e #naoqueromorrer

O desespero toma conta quando um som agudo sai da enorme nave prateada.

Ela sobe gradualmente no céu, enquanto é acompanhada por infinitas miras.

A nave decola verticalmente e rapidamente se torna um pontinho luminoso no céu.

Na sala de reuniões, todos os lideres globais acompanham em silêncio a retirada do alienígena.

Quando só resta as estrelas, o líder russo aponta para o representante do Governo dos Estados Unidos:

-Tá vendo? A culpa é sua!

Uma confusão enorme começa. Todos culpando uns aos outros.

Os jornais estampam manchetes. “A culpa é de quem?”

Dias depois, já não se fala mais nisso. As verbas do Projeto SETI de busca de inteligência são cortadas sob a alegação de que “Já sabemos que eles estão lá. Agora não precisamos mais procurá-los.”

O episódio gradualmente é esquecido, e figura em poucas linhas nos livros de História. O mundo, volta-se para suas questões mundanas. Celebridades que se separaram, as roupas da cantora pop e os ídolos do futebol. Novos conflitos eclodem, e as pessoas continuam a sofrer e morrer por suas limitadas condições terrenas.

FIM

 

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18 comentários em “O dia em que os Ets falaram conosco e outras histórias”

  1. Perfeito! Juro que esperei ler:
    " I came here to give you these facts. It is no concern of ours how you run your own planet, but if you threaten to extend your violence, this Earth of yours will be reduced to a burned-out cinder." hehehe

    • Só tu mesmo cara, você deve ser inteligente demais cara, colocou em inglês o que queria ler num texto que está em português, espero que você não gaste muita dessa sua inteligencia agora, resolva primeiro o mistério existencial dos seres humanos.

  2. Foi mais ou menos o que rolou em “O dia que a Terra parou”. Só que o ET deu o recado, tipo papo reto para os cientistas.

    Politico é uma merda em qualquer lugar. Estamos bem fodidos…

  3. Assim a conta de luz voltou pra Alfa Reticuli com um visto no campo “morador não encontrado” e dentro de 3 meses uma espaçonave vem pra desligar o Sol.
    Ops, já chegou:
    http://ovnihoje.com/2014/06/17/ovni-ufo-estacionado-ao-lado-sol

  4. Ótimo texto! Engraçado é que pensei justamente nisso há algum tempo atrás. Com certeza, vai dar problema mesmo se o um ET quiser falar com o líder do planeta…

  5. Philipe, é engraçado a maioria das pessoas afirmam que um acontecimento do tipo ajudaria na organização e união das potências terrenas, mas o texto demonstra justamente o contrário. Estamos a passos de formigas mesmo.
    Ótimo post!

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