O correspondente – Parte 3

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Alguém batia insistentemente na porta.
Jéssica apontou o banheiro. Daniel correu pra lá e já estava prestes a trancar a porta, quando se lembrou do diário. Voltou para pegar.
A porta do quarto continuava a ser esmurrada. Jéssica empurrou Daniel pra dentro do banheiro e em seguida verificou, se estava bem trancado, enquanto gritava um: “Já vai”.
Quando ela abriu a porta do quarto, a primeira coisa que viu foi um canudo preto apontado na cara dela.
Era o cano de um fuzil.

Não houve tempo para que ela parasse para pensar de que maneira aqueles homens haviam conseguido descobrir que os dois estavam no hotel em frente. Empurraram Jéssica na cama e fecharam a porta do quarto. Eram três homens. Dois estavam portando pistolas automáticas e um que parecia o chefe estava segurando o fuzil. Enquanto os dois posicionavam Jéssica com as mãos para trás, sentada na beira da cama de casal, o homem armado foi direto:

-Cadê o Daniel, porra?

-Quem? – Ela perguntou, tentando ganhar tempo.
Os homens se entreolharam. O cara virou o fuzil e deu uma coronhada bem na testa dela.
Jéssica me disse naquela noite, que a coronhada quase a fez desmaiar. Ela ficou tonta, e os homens começaram a sacudi-la, perguntando do Daniel. Sem que pudesse evitar, Jéssica olhou para o banheiro.
Um dos homens correu até a porta.
-Trancada. – Ele disse.
-Ele está aí? – Perguntou o cara do fuzil para Jéssica. Ela não disse nada, apenas moveu a cabeça negativamente.
Os dois homens armados com pistolas começaram a desferir chutes na porta. Mas ela não cedia. O homem do fuzil se aproximou e os dois abriram espaço. Ele apontou a arma para a maçaneta e disparou. A Maçaneta estourou e o cheiro da pólvora se espalhou pelo quarto. O homem deu dois tiros na maçaneta. Depois os outros dois meteram o pé com vigor, até que a fechadura se despedaçou e a porta finalmente cedeu, escancarando-se para um banheiro aparentemente vazio.
A própria Jéssica se espantou ao constatar que Daniel havia simplesmente desaparecido.
Os homens entraram no banheiro. A cortina plastica do chuveiro estava fechada sobre a banheira. Os homens se entreolharam com a certeza de que Daniel estava ali.
O homem do fuzil entrou e puxou a cortina, revelando uma parede de azulejos imaculadamente brancos.
Não havia sinal dele. Os homens pareciam confusos. Mas o sujeito mais velho que segurava o fuzil se aproximou do basculante na parede oposta ao chuveiro. Havia restos de massa seca na banheira.
-This way! – Disse, puxando a janelinha. Ela saiu inteira na mão dele.
O basculante dava para um escuro e estreito duto de respiração do edifício.
Os homens pegaram lanternas e olharam pelo buraco.
-There!- Gritou um.

Daniel estava uns dois andares abaixo, encolhido, com os pés e as costas apoiados nas paredes estreitas do duto. Ele estava chutando desesperado a janela dois andares abaixo.
-Pode parar aí Daniel! – Gritou o cara do fuzil. A janela era estreita e só um dos homens conseguia enfiar a cabeça no buraco por vez.
Daniel meteu o pé e um buraco luminoso se abriu na frente dele.
-Shoot!- Gritou o chefe, que portava o fuzil. A arma era grande demais para passar pelo buraco.
O homem mais alto e pálido enfiou o braço pelo buraco e disparou.

Daniel ouviu uma bala passar zunindo perto dele.
Mas não houve tempo para o sujeito fazer a mira e disparar novamente. Daniel já havia se jogado de qualquer maneira para dentro do buraco.
-Porra! Ele desceu! Go! Go motherfuckers! Second floor! Now! – Gritou o chefe. Os dois sujeitos saíram correndo pelo corredor do hotel, indo a direção das escadas.
O homem voltou-se para Jéssica, que estava chorando, muito assustada.
-Quem são vocês? -Ela perguntou. Mas o homem não respondeu.
-Você vem com a gente! – Ele disse.
Jéssica pensou que aquela seria a última vez que veria Daniel.

Ela não sabe como Daniel conseguiu escapar daqueles homens fortemente armados e aparentemente treinados. A explicação para isso estava numa das paginas arrancadas do diário, que ele escondeu em casa, sob o sofá. A comissão achava que tudo fazia parte de um delírio, que se tornava cada vez mais megalomaníaco, então aquelas paginas achadas pela polícia, e que aparentemente não faziam sentido, só passaram a fazer quando ela me contou do incidente naquele hotel.

Ele conseguiu sair pela janela de um dos quartos, pulando para a marquise do prédio do lado, onde correu atrás do letreiro de um restaurante e conseguiu descer num beco que dava na rua de trás, onde pegou o primeiro ônibus que passava. Há uma lacuna de algumas horas. Esta parte do que aconteceu talvez esteja registrada em páginas que ate hoje não localizamos.

Daniel havia sumido.

A próxima aparição do taxista ocorreu quando ele bateu na porta do meu gabinete aqui no instituto. Estava muito nervoso.
Eu conhecia o Daniel do táxi, já que como alguns dos senhores sabem, não gosto de dirigir. Tenho medo e receio. Não por mim, obviamente, mas pelos outros! – Disse o professor. As pessoas da plateia riram.
Andreas retomou a narrativa dos passos de Daniel.
-Era o fim do expediente. Quase todo mundo já tinha ido embora quando ele apareceu.
Me lembro que ele surgiu com um cabelo pintado, umas roupas estranhas, e estava bem assustado, falando rápido um monte de coisas confusas, desconexas. Mas era um dia complicado, eu estava com meu cachorro doente, no veterinário. Não tinha cabeça para lidar com malucos. Me arrependo de não ter dado a atenção que devia. Ele me pediu dinheiro.
Confesso que desconfiei que Daniel havia se embrenhado em algum tipo de vício. Ele parecia mesmo doente. Tive pena dele. Emprestei algum dinheiro. Disse que ele precisava de ajuda.
Ele ficou agressivo. Disse que eu não entendia. Que não estava brincando. Era uma coisa séria, que uns homens iam matar ele. Primeiro pensei que ele devia a traficantes. Mas o jeito afobado, a forma de correr para a janela e ficar olhando escondido no cantinho da parede… Era muito estranho. Desconfiei que ele havia surtado.
Daniel falou um monte de coisas que meses depois fiz muito esforço para me lembrar, mas não consegui. Uma delas dizia respeito ao mapa que orientaria a localização de algumas paginas do diário. Ele parecia saber que cedo ou tarde os homens iriam localizá-lo, capturá-lo e que seu destino seria talvez a morte. Segundo ele, o diário serviria para provar o que ele havia testemunhado naquela madrugada. Caso “os homens maus” me pegassem também, outras paginas, com copias do que se passou estavam ocultas em diversos lugares.
Mas um diário ensebado e despedaçado de um taxista e atendente de locadora não me pareceu, a princípio, uma boa literatura. Aceitei para que ele fosse embora.

Mas a forma como ele descreveu os homens… Aquilo, vocês sabem, parecia coisa de filme. E ele trabalhava numa locadora… Pensei que ele talvez tivesse consumido drogas, assistido a um dos filmes da locadora e surtado, pensando viver uma aventura de cinema no mundo real. Ele disse que entraria em contato. Que eu não devia chamar a polícia. Ele estava certo de que eles estavam envolvidos.
Daniel saiu do meu gabinete e tudo que eu conseguia pensar era quem iria me levar até a clínica veterinária, já que o motorista de táxi que fazia corridas pra mim tinha pirado na batatinha.
Foi a última vez que eu o vi.

Só um belo tempo depois, quando a notícia do desaparecimento se confirmou, quando o detetive Jaime apareceu para me fazer perguntas, eu percebi a gravidade do caso. Entreguei para o investigador o diário que ele havia confiado a mim, e a investigação finalmente teve início. Antes de entregar o diário, eu já havia lido algumas paginas aleatórias. Minha impressão era que ele estava fazendo um romance. Depois que eu soube que Daniel havia realmente sumido, comecei a me interessar mais sobre o caso. Auxiliei o detetive em tudo que foi possível. Como a polícia havia avançado muito pouco, com apenas algumas paginas novas sendo descobertas em lugares estranhos, percebi que eles estavam num beco sem saída. Eu solicitei que a comissão psiquiátrica da junta examinasse as evidências do caso. Todos tinham a mesma opinião: Surto esquizofrênico acompanhado de delírios e fantasias persecutórias.

-Professor? – alguém levantou o braço na plateia. Todos olharam para um jovem, que fazia sinal. – Aqui.
-Sim?
-E o que aconteceu com a moça?
-Ah, sim… Bem, eu ia falar disso bem agora. Perdão.

Jéssica foi levada pelos homens até um carro e jogada no banco de trás com os dois, que segundo ela, eram americanos. O chefe do ao lado do motorista, no banco da frente. Eles falavam num inglês rápido, e como Jéssica entendia muito pouco a língua, ela só entendia fragmentos da conversa. Num momento, o chefe dos homens pegou um rádio e trocou informações. Ela entendeu quando ele disse, meio envergonhado, que havia perdido a pista de Daniel no hotel. Do outro lado, a voz parecia muito irritada e começou a gritar com eles.
Ela também entendeu quando o homem disse que estava com ela e que eles a usariam para localizar Daniel.
Eles a levaram até um edifício comercial de alto padrão, no coração da cidade. Pegaram o elevador na garagem e subiram com ela até o último andar. Enquanto passavam pelos corredores do predio, ela viu uma grande porta de vidro escuro, com um letreiro bonito em aço escovado em cima, que dizia: “Santos & Monserrat – Advogados Associados”. Várias câmeras de segurança estavam instaladas para todos os lados. A porta se abriu num estalo.
Ficou óbvio que era uma firma de fachada.
Uma vez dentro do complexo, ela foi levada até uma sala sem móveis. Só havia uma cadeira, no qual um dos gringos a colocou sentada. Ele saiu sem dizer uma palavra. Trancaram a porta.

Jéssica contou que ficou naquela sala sem janelas ou móveis por quase duas horas. Só então ela ouviu o som de uma chave girar na fechadura e entraram dois homens. Um era o homem do fuzil. Ele estava sério. Acompanhava um outro, ainda mais velho. O velho parecia ter uns setenta anos, talvez mais.
Ele só falava em inglês, mas o outro fazia o papel de tradutor.

-Ele perguntou como a senhora está.
-Estou bem. – Ela disse.
-Ele disse que está aqui para responder suas perguntas. – Falou o tradutor. O idoso se sentou no chão, em frente a ela, com as costas na parede. Jéssica notou que para sua idade aparente, ele era bastante ágil.
Jéssica ficou em silêncio.
-Não tem perguntas? – Questionou o tradutor.
-Quem são vocês? O que querem comigo e com o Daniel? Que lugar é esse? – Jéssica disparou a perguntar. O velho começou a rir. Pediu calma. Gradualmente começou a falar, pausadamente, para que o homem de bigode pudesse traduzir. Eu tomei notas enquanto Jéssica me contava o que viveu naquela sala. Ela tinha uma memória esplêndida.

Andreas Jacob pegou suas anotações. Recolocando os óculos de leitura, começou a detalhar o que Jéssica o havia contado.

“Meu nome não vem ao caso. Mas como a senhora já pode perceber, eu não sou um soldado. Essas pessoas, senhora Jéssica, são agentes da CIA. Eu sou um cientista. Nasci na Polônia e emigrei ainda jovem para a Rússia, onde estudei, me formei, me doutorei fui integrado a um departamento da KGB… Eu 1967 chefiei o departamento de Pesquisas psíquicas. Nosso trabalho envolvia selecionar, instrumentar e preparar pessoas para um projeto que nomeamos de Pandora. Eu sei que pode parecer engraçado uma agência de espionagem estudando paranormalidade, mas na União Soviética este assunto foi tratado com muita seriedade. E testemunhei coisas que certamente a senhora não seria capaz de imaginar. Quando me integrei no departamento de pesquisas psíquicas da KGB, a instituição já trabalhava com isso desde o fim da Segunda Guerra. A Rússia obteve um farto material do espólio do terceiro Reich, que colocou a KGB no lugar de mais avançada e poderosa agência de inteligência do mundo. Durante décadas fizemos experimentos secretos na Alemanha Oriental. Como a senhora certamente sabe, a polaridade do mundo entre oriente e ocidente produziu uma corrida não apenas ideológica, mas também armamentista e tecnológica, culminando com o homem andado na Lua, o raio laser, os computadores…
Nesse universo de disputas ferrenhas pela dominação, a espionagem se tornou fundamental. Grandes somas, vidas e investimentos das mais diversas ordens foram feitos dos dois lados. Conhecer seu inimigo era um imperativo. Enquanto os americanos, com apoio dos cientistas de Israel investiam grandes somas em espionagem tecnológica, nós estávamos um passo a frente, estudando e experimentando coisas que só Hoje a Física Quântica dá os primeiros e vacilantes passos afim de compreender. Muitas dessas coisas já vieram detalhadas das pesquisas nazistas. Outras provinham de diferentes laboratórios, espalhados por toda União Soviética. Havia rumores de que certas habilidades vinham sendo treinadas por pessoas com… Por favor, senhora, não ria… Pessoas com contatos com seres de outros planetas.
Se aqueles conhecimentos vinham de extraterrestres ou das pesquisas do Mengele, não fazia a menor diferença para a KGB. Tínhamos laboratórios, tínhamos cientistas, tínhamos dinheiro e também muito poder.
Durante minha carreira, estudei e treinei diversos jovens afim de expandirem possibilidades inatas. Mengele havia dado um significativo passo para a compreensão das capacidades psiquicas humanas, através de seus experimentos eugenistas que visavam apurar a raça ariana.

Na Alemanha Oriental, tive acesso a muitos documentos secretos do Reich. Diziam os relatórios que foi por um simples acidente que Mengele percebeu o potencial do planejamento racial. Um casal devia ser escolhido apenas por suas bases genéticas. Mengele foi instruído a produzir as matrizes que dariam origem a pessoas 100% arianas, mas numa linhagem ainda mais pura daquela que Hitler sempre desejou. Eram os Super Arianos.
Há aqui um detalhe: Um dos relatórios menciona que a mulher, cujo nome código de Holga Kruv foi dado pelos nazistas, foi encontrada ainda menina, desacordada em meio aos destroços de uma aeronave sem asas, atingida durante um combate aéreo nos arredores de Dresden.
A senhora já deve estar a par de uma série de fenômenos desta época, aos quais tanto os aliados quanto os nazistas chamaram de foo fighters. Segundo uma das fontes documentais secretas do Reich, esta menina estava no interior de num dos foo fighters. Ela foi enviada para o hospital da GESTAPO afim de ser investigada sua origem. Sem falar uma palavra em qualquer língua conhecida, e aparentemente sem memórias, ela foi severamente torturada pelos melhores especialistas da GESTAPO. Mas não se obteve uma única informação.

Quando o problema subiu os degraus da Hierarquia, Himmler em pessoa interviu. Olga foi pessoalmente enviada para Mengele por Himmler, para que ele a estudasse. Os exames mostraram uma mulher que atendia perfeitamente aos preceitos de pureza racial máxima. Foi Mengele que a batizou de Olga Kruv. Estranhamente, ao longo das varias induções de reprodução, todas as descendentes de Olga Kruv, eram mulheres. Hitler estava ficando irritado com a demora nas pesquisas. Hitler acreditava que a culpa de gerar apenas meninas era do reprodutor macho selecionado. Assim ele ordenou que uma varredura em todas as tropas do Reich encontrasse o ariano perfeito. Mas antes que o processo terminasse, Olga deu origem a um único menino. Mas ele era cego.

Mengele escondeu esta informação do Reich. O Jovem foi levado para uma cidade rural, e criado sob uma intensa vigilância de pessoas de confiança de Mengele. O objetivo de Mengele era realizar o cruzamento dos descendentes de Olga Kruv, gerando a raça perfeita. Mas a guerra se aproximou do final antes que a experiência pudesse ser levada a cabo pelos nazistas. O Terceiro Reich desmoronou, Mengele fugiu para a Argentina e quando a Rússia invadiu Berlim, toda a documentação do caso foi parar nos porões da KGB.
Meus antecessores retomaram a pesquisa de Mengele quando Olga Kruv já estava morta. O filho dela não foi localizado. Somente duas das quatro meninas. Essas duas foram conduzidos para a Rússia, onde receberam treinamento. Eu conheci apenas uma das meninas, Monika. Nos apaixonamos, e eu me casei com ela.
Monika foi a pessoa com maiores poderes psíquicos que existiu na face da Terra. Graças a suas habilidades nós fizemos grandes descobertas. Ela nunca soube que sua mãe era de outro planeta. Eu escondi isso dela até o dia de sua morte. Eu temia que minha mulher percebesse que era vista como uma cobaia pela KGB. Por isso, mantive em segredo os documentos. Nunca tivemos filhos. Parece que por uma ironia do destino, todos os descendentes de Olga Kruv eram estéreis. Mesmo que a Alemanha tivesse vencido, os planos de Mengele, Himmler e Hitler em fazer os super arianos teria falhado miseravelmente.

Mas a senhora deve estar se perguntando porque voltei na época da Segunda Guerra Mundial para explicar o que eu faço aqui, nesta sala, sentado no chão na sua frente, não é mesmo? Pois bem, como a senhora sabe, o final da União Soviética produziu um êxodo de pesquisadores para o lado de lá. Fui integrado à CIA, que obteve todas as nossas pesquisas e passou a conduzi-las, mas com uma fração ridícula do prestígio e dos investimentos que nossos laboratórios russos dispunham.
A coisa começou a mudar de figura depois do incidente de onze de setembro, quando a Al Qaeda realizou sua missão bem sucedida de destruir as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York.
Eu já estava morando em Fort Lauderdale, curtindo minha aposentadoria, quando um general bateu na minha porta com propostas irrecusáveis. Ele havia lido alguns de meus memorandos dos anos 90.

Retomei as pesquisas. A inteligência passou anos sem conseguir localizar o Osama Bin Laden. Agora recorriam a mim afim de reativar o programa de espionagem psíquica e localizá-lo. O governo gastou milhões de dólares sem sucesso no encalço dos terroristas que compunham a cúpula pensante da Al Qaeda. No fim de 2008, quando a notícia de que uma célula da Al Qaeda no Marrocos havia conseguido comprar um dispositivo nuclear, houve um súbito desespero no Pentágono.
Nunca tive tanto dinheiro tanta liberdade de fazer o que quisesse. Nem nos tempos da Guerra Fria.
Investi no laboratório. Iniciamos as triagens. Mas décadas desperdiçadas sem financiamento cobravam um preço caro na hora da necessidade. A pressão por localizar Osama aumentava. A coisa estava grave.
Destaquei um grupamento especial da CIA afim de levantar dados e localizar se haveria alguma cunhada minha viva. A tomada de Berlim havia ceifado muitas vidas. As chances eram pequenas. Mas em dezembro de 2009, uma súbita virada na nossa sorte ocorreu. Os meus homens acharam a pista de um descendente de Olga Kruv. E estava vivo. Era o menino cego. Ele havia se mudado com a família para a Austrália.
Os homens foram até lá e trouxeram o sujeito. Ele se chamava Peter Zold. Usamos Peter para uma série de coisas. Ele conseguia um feito excepcional de localizar coisas. Mas não foi capaz de determinar onde estaria o artefato nuclear. Peter apenas conseguiu sentir que estava ´muito perto´. Houve um súbito pânico quando percebemos que o instrumento já estava nos EUA, escondido em algum lugar.

Tentávamos desesperadamente fazer com que Peter Zold localizasse o artefato nuclear. Cada dia era uma tortura de saber se seria o dia derradeiro em que uma bomba nuclear mataria milhares de cidadãos americanos inocentes. Mas uma outra linha de pesquisa se interpôs no nosso trabalho de visão remota. Esse trabalho foi adaptado de um estudo muito preliminar que fizemos com Monika na KGB antes dela morrer. Chamava-se “teoria da correspondência”.

Levou décadas para que maturássemos a compreensão de um fato que parece mais uma piada que uma realidade: Alguns seres humanos possuem um correspondente. Não há ordem. Tudo indica que é alguma coisa caótica inexplicável. Mas encontramos pessoas com correspondentes em lugares incomuns. Um índio brasileiro é o correspondente de um Operário na Alemanha. Quando um tem dor de cabeça, o outro também tem. Se um comer uma coisa e passar mal, os dois tem diarréia. Se um passa mal, o outro também passa. Não há explicação genética. São pessoas que não se conhecem, nunca se viram, não há ligação de parentesco ou qualquer outra. Nossa pesquisa com Peter Zold mostrou que ele consegue, com base em algum objeto pessoal de uma pessoa, determinar onde está o seu correspondente.
Mas não é uma coisa perfeita. Muitas pessoas simplesmente não possuem correspondentes. Talvez porque ainda não nasceram. Mas o mais estranho é que quando um correspondente morre, o outro morre junto. Na mesma hora. Quase sempre de causas naturais.
Por exemplo, um correspondente no nepal é assassinado com um tiro no peito. Na mesma hora o coração de uma criança do jardim de infância do Missouri vai parar… – Disse o velho, enquanto o agente da Cia traduzia.

Jéssica ouvia em silêncio.
-Então o senhor acha que eu vou acreditar nisso aí? – ela perguntou, com ar de desdém.
-Pense, senhora. Pense. Aliás, lembre! A senhora certamente já teve surtos misteriosos de alegria, ou melancolia. Já sentiu uma dor súbita sem causa aparente… A senhora já acordou com medo no meio da noite, mesmo sem ter tido um pesadelo. A senhora já teve uma diarréia sem que se lembrasse ter comido algo estragado? Lembre! A senhora já teve uma idéia que surgiu como mágica na sua cabeça? Ou resolveu pensar do nada em alguma coisa? A senhora já ficou com insônia sem ter consumido café ou refrigerantes? Pense… A cada dia somos reféns de um monte de situações que até então não eram explicadas. Como o coração de algumas pessoas simplesmente para? Até de crianças? Como uma pessoa sofre um acidente, tem traumatismo e sai viva e outra escorrega na banheira e morre? E as crises de pânico? De onde surgem? Como alguém pode simplesmente ter um medo inexplicável de altura? Como uma pessoa acorda sentindo que está caindo? Como você come alguma coisa que nunca havia experimentado e tem a certeza que aquele sabor é familiar?

-Reencarnação, ué. – Jéssica disse.

-Vidas passadas? Talvez. Mas como podemos justificar que algumas pessoas com saúde perfeita morrem vitimas de câncer em menos de uma semana? Ou aneurisma cerebral? Ou ainda, os que morrer dormindo…
Hoje a Física reconhece que somos uma ilusão. Não passamos de frequências vibratórias de partículas subatômicas que são também apenas frequências de partículas ainda menores. O que nos mantém ligados enquanto indivíduos possivelmente está ligando diferentes indivíduos entre si. Como o mundo, a ciência e a própria compreensão do universo que nos cerca era limitada, nunca percebemos que de fato, podemos estar inevitavelmente ligados a um correspondente. Uma pessoa com vida, cultura, saúde finanças completamente diferente de nós, mas ainda assim, estamos ligados. Já vimos milionários ligados a mendigos. Não há controle. É o tecido invisível que interliga tudo que existe não somente aqui, mas em todo o universo, e talvez até fora dele. Esta é uma constatação que muda nossa visão do mundo, mas do ponto de vista da interceptação estratégica, nos ensina uma lição. Se você não pode pegar uma ponta, talvez possa pegar a outra.

-Quer dizer que você estão atrás do Daniel…
-Ele é o correspondente do homem que, acreditamos, está encarregado de disparar a ogiva.
-Como vocês sabem?
-Peter. Conseguimos o relógio do árabe num acampamento de treinamento na Tunísia. Peter disse quem era o correspondente. Estamos fechando o círculo ao redor dele gradualmente. MAs uma coisa saiu errado… Tivemos um pequeno contratempo, vamos dizer assim.
-E o que vocês vão fazer com ele?
– É como eu disse, moça. Se ele morrer, o árabe morre…

(continua)

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5 comentários em “O correspondente – Parte 3”

  1. CARAAAAAAAAAAALHO !

    MUITO BOM… mesmo, melhor texto gump até hoje, sempre pensei que mais cedo ou mais tarde alguem iria falar do titio bin laden, agora sobre correspondencia … Incriiiiiiiiiiivelllllllll

  2. Nossa, falando sobre esse negocio de correspondente , as vezes quando faço algo pela primeira vez , como jogar um jogo novo .. SInto que ja fiz akilo , como um Deja-vu

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