Não é um viajante do tempo

Eu nem sei dizer quantas pessoas me mandaram links para a história (de novo) do viajante do tempo. Pela quantidade de emails, dicas no twitter, e sugestões aqui mesmo no blog, deve dar umas trinta pessoas indicando a mesma coisa. Então, me vejo na obrigação de tentar esclarecer mais este mistério da internet. Depois daquele último post do viajante do tempo na fotografia, acho que o pessoal curtiu a ideia e quando surgiu um novo video, dessa vez uma filmagem de bastidores de uma produção de Charles Chaplin, datado de 1928, onde surge pela lateral direita uma mulher com o que parece ser um celular. A bizarrice começa porque vemos a mulher falando exatamente como hoje as pessoas falam ao celular, andando e falando.

O detalhe curioso foi descoberto num extra do filme “O circo” de Chaplin por um britânico chamado George Clarke.
Como qualquer retardado pode perceber, um celular em 1928 só poderia ser explicado pela viagem no tempo.

Antes de debater o que é e o que não é, vamos ver o video:

Mas aqui está a questão: è um registro de uma viagem no tempo?

Algumas pessoas levantaram inúmeras suspeitas sobre o tal vídeo. A mais comum é que a mulher estaria ouvindo um radio. O problema dessa afirmativa é que rádios compactos não existiam nesta época. Um radio comum de 1928 era mais ou menos desse tamanho:
Não é um viajante do tempo
E pouco antes desta data, os rádios eram grandes móveis, cheios de válvulas, que mais pareciam com uma cômoda do que com um radinho de porteiro ouvir jogo na AM.
A explicação disso é que o radio usava válvula pois ainda não havia sido inventado o transistor, que foi a peça chave da miniaturização de todo o mundo.Obviamente que em 1928 já surgiam as primeiras tentativas de miniaturizar o radio. Mas ainda não era um dispositivo que pudesse embarcar numa só peça o alto falante e as baterias, que na tecnologia da época e a ineficiências dos processos tecnológicos envolvidos na construção, deveria ser do tamanho de uma maleta. Comparado a um radio de bolso moderno ou um celular, era um trambolho que estaria mais para um Ipad:

Não é um viajante do tempo
Então, o que a mulher segura? Radio não era.

Agora vamos examinar a hipótese do celular. Vamos abrir uma licença poética aqui e imaginar que uma mulher voltou no tempo. Ok. Então ela iria comprar roupas daquela época e andar por aí falando num celular?

Esta é uma ideia incongruente. Se um viajante do tempo precisa se vestir como as pessoas da época em que visita (algo realmente provável), ele demonstra ter claro o objetivo de não despertar suspeitas. Seria o famoso “mimetismo social”. Mas se ele fala num celular, todo seu esforço de discrição foi pro saco. Ela chamaria tanta atenção como se aparecesse usando uma roupa prateada como o viajante do tempo do humorístico Zorra Total.

Não é um viajante do tempo
Nelson Freitas é o Viajante do Tempo no Zorra Total

Outra coisa que não faz o menor sentido é como ela ia andar falando num celular se não existiam antenas de celular em 1928? Embora 90% das pessoas ignorem que elas existam, sem antenas de celular não tem área de cobertura, logo, não tem jeito de um celular funcionar. Isso torna a alegação da “viajante no tempo” ainda mais bizarramente cômica.
Claro que sempre vai ter um pra alegar que não sabemos em que ponto do futuro a pessoa proveio e que desta época o celular dispensa o uso das antenas de rádio, usando alguma tecnologia rocambolesca suficiente para atravessar o contínuo do espaço-tempo.

Mas vamos tentar abstrair este fato e imaginar com que motivação bizarra uma pessoa dispõe da tecnologia de voltar no tempo e ao invés de fazer alguma coisa útil, como impedir um assassinato, salvar uma preciosidade raríssima de um incêndio, matar um ditador genocida, ou mesmo descobrir o número da loteria, esta pessoa desperdiçaria tamanha tecnologia para fazer uma figuração certamente não remunerada num filme do Chaplin?

Enfim, a ideia do viajante do tempo é divertida mas completamente improvável. Eu fico impressionado com o fusuê que esta ideia – que não resiste a dois segundos de reflexão – obteve na rede.
Pessoalmente a minha impressão é que o meu amigo Kentaro Mori, editor do site Ceticismo Aberto está certo. Deve ser uma corneta auditiva. Naquele tempo, sem os recursos tecnológicos de ampliação do som, as pessoas que tinham dificuldade de ouvir ampliavam sua capacidade auditiva usando essas cornetas que eram encaixadas no ouvido, e precisavam ser seguradas o tempo todo, como as fotos abaixo ilustram bem:
Não é um viajante do tempo

Para ler a análise do Mori e entender melhor a pataquada do novo viajante do tempo, dá um confere aqui.

Aproveito para agradecer a todos os que sugeriram este post.

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23 comentários em “Não é um viajante do tempo”

  1. Meu, que bom que voce não passo a bola adiante e deu uma explicação logica para essa coisa. Eu nem tinha me ligado do lance das cornetas de ouvido. Ufa! Até que enfim existe um post que dá para responder ao povo que tá entulhando minha caixa postal com o mesmo vídeo. Valeu brigadão!

  2. Era um relógio, a velha tava tentando ouvir o “TIC-TAC” prá ver se precisava dar corda ou nao. Falar sózinho é um costume que nao apareceu somente na atualidade, portanto…

  3. Tá, eu sei que essa história de “Viajante do tempo” já deve ter dado no saco… (No meu ainda não ahaahaha)…
    Porém, Philipe, no seu post anterior sobre a antiga fotografia no qual aparece um cara com vestimentas e acessórios totalmente fora do comum pra época… um leitor postou um comentário sobre uma outra história de viajante do tempo… não lembro o nome do leitor… mas ele não falou nada demais, só disse que existe tmb a história de John Titor… OK…
    De curioso fui ler sobre o caso… e digo, esse sim… é MUITO ESQUISITO… é um caso muito particular e estranho… e por mais falsa que possa ser a história dele, devo admitir que é fascinante!

    Até agora ninguém conseguiu provar que ele mentia… e convenhamos, o cara manja muito sobre fisica…

    Ele não só alegava ser um viajante do tempo no fórum de um site chamado artbell (Que por acaso não existe mais, mas porém é possível localizá-lo através do http://www.archive.org) como ele deu detalhes do funcionamento de sua máquina, incluíndo desenhos tecnicos e diagramas dos campos magneticos gerados pela mesma. Chegou a postar algumas fotos da máquina e explicou o funcionamento da viagem no tempo…

    Ok, não sou fisico para rebatê-lo… mas a forma de explicar as coisas eram convincentes…
    Eu queria muito saber a opinião de um físico formado sobre essas postagens dele que forma de novembro de 1999 até março de 2001.

    Eu não terminei de ler todas as suas postagens, mas é curioso como ele fala sobre coisas que aconteceriam no futuro e realmente aconteceram, como a invasão dos EUA no iraque e a doença da vaca louca….
    É muito legal ler as postagens dele…
    Tem um site que coletou todas as coisas sobre ele que é http://www.johntitor.com
    E eu achei um site que pegou não só as postagens dele…ams o tópico inteiro com os comentários dos participantes do fórum…
    O cara era Trolado o tempo todo, normal… mas o que ele dizia era muito curioso…
    Vale a pena ler, Philipe….
    Demora pq ele postou MUITA informação…mas é legal..

    (OBS: O link com o tópico dele não está no ar nesse momento…mas vou deixar aki assim mesmo pq talvéz volte ao ar depois…
    http://anomalies.net/object/titororiginalpost.html)

    • …correção:
      As postagens dele vão de novembro de 2000 à março de 2001… depois disso, ele simplesmente desapareceu e nunca mais foi localizado…

      no site http://www.johntitor.com o link “post bay date” cataloga em ordem cronológica todas as psotagens dele….
      Achei interessante já ir direto lá do que ler os resumos que o site posta sobre varios temas que ele abordou.

    • Acho que foi eu quem comentou lá sobre o Titor. Acho a história dele realmente muito bem contada. Até as “falhas” de algumas “previsões” dele teriam explicações.
      Como, segundo ele, o tempo não é uma linha única, ao viajar para o passado cria-se uma “bifurcação” nessa linha do tempo e gera uma linha do tempo “paralela” da qual você veio. Então o SEU futuro passa a ficar cada vez mais distante do futuro da linha do tempo em que o viajante está.
      Como segundo a história dele, o Bug do milênio não teve efeito em nossa linha do tempo mas ACONTECEU na dele, os eventos desencadeados poderiam alterar os acontecimentos.
      Aliás, ELE teria sido o motivo do bug do milênio não ter acontecido em nossa linha do tempo (já que a primeira parada da viagem foi em 197x (não me recordo exatamente) para apanhar um IBM), ele pode ter contado o que custaria anos mais tarde aquela economia de 2bytes nos campos de “Ano”…
      Provavelmente a crise econômica que se abateu no mundo em 2008 aconteceu na linha do tempo dele em 2000 com o bug do milênio.
      Enfim… eu ficaria horas discutindo sobre Titor pois acho sensacional a história dele. Estou aguardando até hoje um filme ou seriado. 🙂

      • Exatamente Catu…
        Eu cheguei a ler alguns comentários sobre um cientista sobre as coisas que Titor dizia, e realmente, ele não consegue achar uma brecha que o comprometa…
        Pra mim, definitivamente, é uma estoria fascinante… merece pelomenos um livro…
        Você viu o manual de instruções da maquina dele? Aquilo é fantástico!… se for uma historia fake, o cara levou MUITO a sério a brincadeira…. pois não foi nada fácil criar aqueles desenhos super tecnicos…
        Ouvi dizer que aqueles diagramas de campos magnéticos fazem sentido…

        Acho que o pai do Philipe é engenheiro e certamente manja mto de física…. tá aí um cara que pode dar uma boa opinião sobre as afirmações de Titor hehehehe…
        Brincadeira…
        Abração

  4. Cara, provavelmente é o mais lógico mesmo, mas por um penteléssimo de segundo parece que, quando ela vira, esta falando alguma coisa, então deve adicionar que ela é maluca que fala sozinha com sua corneta. 😛

  5. nem queria comentar esse post, pois concordo que o vídeo não tem nada de viajante do tempo usando celular num filme, porém você falou em voltar no tempo e fazer algo útil, como matar um ditador… Pow Philipe e a regra do Dr. Emmett Brown de não tentar mexer no passado de forma alguma?

    • Pois é. Mas eu tenho uma hipótese que sugere que embora mexer no passado possa gerar situações imprevisíveis no futuro, há em certas alterações comprometimentos pequenos, que não afetam tanto o estado global das coisas. Claro que voltar no passado e matar Hitler, por exemplo, poderia até piorar os problemas da Guerra. Mas imagina um cara voltar no passado e matar aquele ditador africano genocida. Vc acha que isso ia mudar o mundo? Eu creio que não, seria apenas uma mudança local, mas muita gente de lá agradeceria.

  6. rs tb pensei em enviar e acabei desistindo de enviar ha pouco qdo vi que jah enviaram, no momento estou assistindo a serie “Fringe” e tem um episodio a respeito de viagem no tempo e suas implicacoes…

  7. isso me lembra,do fime tempos modernos…quando o engenheiro mostra a maquina que alimenta os funcionarios,e em vez do engenheiro dizer como funciona,é uma especie de “radio,com uma voz gravada” que diz como funciona.
    ele previu o radio?

  8. Pois bem, viagens no tempo são impossíveis, tempo não existe.

    E a história de John Titor era um hoax, bem elaborado (nem tanto) mas mesmo assim, uma mentira. Em 2004 (acho), o autor postou os detalhes e outras fotos de sua famosa maquina( nem tanto elegante como um De Lorean). Só que claro, não foi tao divulgado como a historia em si.

    Mesmo assim, o autor alegava que veio de uma dimensão paralela, e não era ,propriamente, um viajante do tempo.

  9. BOm! todo artista tem que ter a sua assinatura. Provável ela ter voltado no tempo e ter criado a evolução para o cinema ajudando o Chaplin a criar o filme, assim começar com a industria cinematografica. E como ela é espertinha fez papel de figurante com sinal para identifica-la. Tenho a teoria das invenções. Uma invenção surgiu do zero na epoca criada ou alguem do futuro trouxe a ideia para que o invento fosse criado antes e tivesse mais tempo para evoluir o produto?

  10. na minha opinião sobre viagem do tempo é que seria meio que impossivel, e vou demostrar em um exemplo pratico:

    joão vai voltar no tempo para matar manuel (eu num so portugus ta 😛 )

    joão consegue matar manuel, porem no futuro manuel estara morto e não avera motivos para joão matar manuel, mas sem motivos para matar manuel joão nunca teria matado manuel, assim manuel estaria vivo, fasendo com que joão tivesse de retornar novamente para matar manuel, e assim por diante…

    por isso q na minha opinião é impossivel se faser um viagem no tempo :*( (talvez em um futuro muito distante onde o ser humano possa manipular o tempo-espaço O_o )

    mas mesmo assim, sobre o caso do celular, mesmo que alguem tenha voltado no tempo o pessoal do futuro ia ver este video e avisar ele e mandaria outra pessoa para falar com ele e retirar o celular sem ter nem um vestigio da viagem 😀
    (minhas opiniões sobre viagem do tempo e esse boato :B )

    • Isso é o paradoxo da viagem no tempo. Porém, o tempo de João (tempo da consciência) é dele. Não é o mesmo tempo para todos. Este que é o problema. Compliquei? Olha só:
      Pra João, Manuel existia, então João voltou no tempo e o matou.
      Ao matar manuel no passado, ele não fez com que o tempo fosse reescrito pra ele. Fez realmente com que o tempo global fosse modificado, mas como a mente do João viajou no tempo, a consciência dela pertence ao tempo original e por isso, ele sabe quem era Manoel e quem ele viria a se tornar. Ao retornar ao tempo de onde partiu, ele não retornou ao mesmo referencial tempo-espacial, mas sim a um outro tempo, onde os rastros de manuel já teriam sumido. Assim, todos pensariam que ele era um louco ao dizer que matou alguém que não existia, mas é como eu disse, a mente do João sempre pertenceu ao ponto de onde ele partiu na viagem. Nesse contexto, a viagem no tempo, mesmo que exista é sem volta, pois ao viajar você altera o tempo. Tudo pode ser igual no seu retorno mas não há garantias de que seja o mesmo tempo realmente.

      Sacou? O seu tempo é diferente do meu tempo da consciência e assim sucessivamente.

      Papo de maluco, né? Só faltou o chopp.

  11. Isso não quer dizer que eu acredito que este fato especificamente seja uma prova de qq coisa que seja, mas,
    alem do detalhe dela estar falando, muito bem observado, (o video do post esta fora do ar, eu vi este aqui: http://www.youtube.com/watch?v=-Avv6QOGWkA), tenho um comentario a fazer sobre a observação do Philipe:
    “Mas vamos tentar abstrair este fato e imaginar com que motivação bizarra uma pessoa dispõe da tecnologia de voltar…”
    -Primeiramente, não sabemos em quais condições e por quais motivos alguem voltaria, então, se vc volta no tempo, e precisa provar, para as geraçoes futuras, quaisquer que sejam, que funcionou! o que vc faz??
    -Não pode aparecer fazendo estardalhaços ou modificar algum fato historico importante, sabe pq? Pq senão vai cair na historinha do Manoel ai pra baixo!
    Então o que faz? – Aparece discretamente, de preferencia em algum fato historico importante(no caso, filmes do chaplin seriam uma boa opção, pois são coisas que “serão vistas e estudadas por muita gente) usando ou fazendo algo que todos saberiam ser impossiveis para a época…

  12. Quem disse que alguns assassinatos de personalidades indesejáveis não foi arquitetado por alguem que viajou ao passado? O nosso “presente ” no caso? Algo muito bem tramado até para parecer casuístico, acidental? Agora sobre falar no celular figura em um filme etc,etc, aí já pode ser especulçação. Mas e se a história de se envolver temporalmente tiver mesmo consequencias no futuro? DAI…. VAI SABER!

  13. Caro Philipe,

    É realmente instigante ler seus posts.
    Um texto que li há alguns dias questionava: Quão infinitamente pequeno é o universo?
    Eu acredito que o suficiente para surgirem infinitas bizarrices e situações inexplicáveis, o que
    alimenta a minha cética opinião de que tudo é possível.

    Gostaria de vê-lo discorrer neste assunto. Procurei nos arquivos do MG, mas não encontrei.
    Sugiro algo como: objetos, fora do contexto, encontrados em escavações (A Corrente de Ouro de Morrisonville (1891)).

    Valeu!

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