Kássia

Marcelo fechou o telefone. Era a terceira vez que aquela porcaria falhava com ele. Só havia um único traço de bateria que se esvaía.
-Merda vagabunda! – Ele berrou no carro, jogando o aparelho sem bateria para o banco de trás.
Marcelo estava com raiva, porque havia viajado quase 200Km até uma cidade do interior para encontrar seus primos Renato e Luiz. Mas agora não conseguia contato com eles para saber onde era a tal festa que eles estavam combinando de ir.

Agora ele estava sozinho na estrada, dirigindo na companhia de Lulu Santos, que tocava no rádio do carro, cada vez mais fora do ar em função dos morros distantes.
Fazia um tempo que ele não sabia o que era sair sozinho. Marcelo havia terminado seu relacionamento de três anos com a Priscilla, e ele sentia como se tivesse “perdido o jeito” com as mulheres. MArcelo esperava que reencontrar os primos talvez funcionasse como uma espécie de reciclagem da paquera.
Mas por mais que ele tentasse se convencer de que a noite prometia, Marcelo não conseguia tirar Priscilla da cabeça. A dor de cotovelo causada pelo pé na bunda, doía fundo em seu coração.
Dirigia o Fiat Uno 98 em silêncio, tentando se concentrar na musica para não lembrar das palavras duras da Priscilla. Mas era impossível. Elas ecoavam e queimavam como brasa no coração de Marcelo.

“Você é um babaca! Estou farta de você. Some da minha vida. Não me liga, não me procura, Marcelo. Eu não existo mais! Some daqui. Sai!”

Já tinham se passado quase seis meses desde aquele dia da discussão, mas era como se fosse ontem. Marcelo tentou conter a lágrima que teimava em embaçar sua visão. Pra espantar a tristeza, tentou cantar com Lulu. Mas a musica começava a fazer um trágico sentido e então ele mudou desesperadamente de estação. Foi parar numa estação de MPB, onde Lupcínio cantava uma tragédia romântica que parecia ter sido escrita para ele.
-Caralho! – Marcelo desligou o radio.
Por sorte, já estava chegando na cidade. Era sábado a noite, e ele sabia que a boate devia ser nas proximidades da praça da matriz. Rodou com o carro pelas ruas escuras e cheias de paralelepípedos até encontrar a igreja. Defronte, estava a praça. Marcelo se embananou um pouco com a confusão de ruas estreitas e pracinhas que pareciam perdidas no tempo. Finalmente chegou numa rua larga, que parecia uma avenida. No final dela, perto da rua do cemitério, achou uma fila interminável de carros. Dois bêbados balançavam flanelas no meio da rua, indicando onde parar.
-A boate é aqui, tio? – Perguntou Marcelo, baixando o vidro.
-No final da rua ali. Pode deixar que nóis toma conta aí. – Disse o velho, com barba desgrenhada e dentes faltando na boca.

Marcelo parou, pagou o flanelinha a extorsão de dez reais e foi caminhando pela rua fria até a entrada da boate, onde já havia uma fila de pessoas que aguardavam para entrar. Marcelo passou pela fila, olhando com cuidado para tentar localizar sues primos. Mas eles não estavam lá. Talvez tivessem entrado. Marcelo pagou o convite na portaria e após alguns minutos de fila, finalmente entrou.
No interior da boate, as pessoas dançavam. Era muito escuro e havia um misto de cheiro de fumaça artificial e cigarro. A boate estava cheia.
Ele andou pelo lugar, tentando ver os primos. Mas estava muito cheio. Era impossível ver alguém em meio aos fachos de luz colorida, laser, estroboscópicas para todo lado.
Não encontrou nem sinal de Renato nem de Luiz. Talvez fosse outra boate. Talvez fosse um clube.
-Droga. Isso que dá marcar evento bêbado. – Ele falou sozinho. Sua voz se perdia em meio ao poderoso sistema de som da boate. O som industrial massificava as batidas ritmadas.

Sem esperanças de encontrar com os primos, Marcelo resolveu ir para a pista de dança. Uma tentativa vã de não se sentir tão avulso no ambiente.
Ficou dançando sozinho, se sentindo ainda mais avulso na pista de dança. Enquanto sacudia o esqueleto, tentando distrair sua mente, o pensamento de quão solitário pode ser um lugar com tantas pessoas juntas não lhe saía da cabeça.
Viu uma menina baixinha, de cabelo liso e olhar sensual que numa fração de segundo lhe encheu de esperanças. Ela olhou pra ele e sorriu. Marcelo se aproximou e dançou perto dela. Mas antes que pudesse nutrir qualquer esperança mais aprofundada, uma outra menina, provavelmente a namorada da moreninha,  se aproximou pela lateral e as duas começaram a dançar juntas, sensualmente, de costas para ele. Novamente, Marcelo tornava a se sentir avulso e rejeitado.
Olhou a hora. Uma e meia da manhã. Decidiu abandonar a pista.

Foi até o bar onde pediu uma vodka.
Marcelo tomou a primeira vodka, a segunda, a terceira, sozinho no bar. Em meio ao inebriante poder etílico da vodka russa, ele começou a adquirir mais confiança.

“Talvez seja bom que não encontrei Luiz nem o Renato” – Pensou. – “Assim eu fico mais livre para armar”
Marcelo viu duas garotas sentadas numa mesa, batendo papo. Ele ficou do bar, apenas observando. Notou como uma delas, uma ruiva linda, parecia dramaticamente avulsa. Minutos depois, um cara chegou na mesa e sentou do outro lado de onde ela estava. Acendeu um cigarro. Os três conversavam. Então o cara beijou a garota do lado dele, deixando a ruiva com a pior expressão de seguradora de vela da face da Terra.
-É agora! – Marcelo disse para si mesmo.

Não havia erro. Aquele era o momento de agir. Marcelo sabia que fragilizada por estar sozinha com um casal, desesperada para não permanecer na incômoda situação perante a amiga, a ruiva iria aceitar até o tiozinho sem dentes lá do estacionamento.
Ele foi até lá.
-Oi. – Ele disse, estendendo a mão para a ruiva. – Prazer, Marcelo.
Ela olhou pra ele e não sorriu. Nem apertou sua mão, deixando-o no vácuo. A ruivinha parecia atordoada… Pálida.
Marcelo se espantou ao ver a moça praticamente cair ao lado da mesa. Ela se abaixou e vomitou copiosamente, perto do sapato dele.
“Ah, merda! Tarde demais. Essa já afogou o mal estar no goró” – Pensou.

Pediu desculpas ao casal, que praticamente não parou de se atracar para lhe dar atenção e abandonou a ruiva que vomitava no canto da boate, largada  à sua própria sorte.

Marcelo voltou para o bar. Olhou as horas. Duas e vinte. O som estava cada vez mais enjoativo.
Pediu um uísque com energético. Enquanto o cara do bar fazia o drink, Marcelo cruzou os olhos com duas bolotas inacreditavelmente azuis. Era uma mulher linda. Ela estava olhando fixamente para ele.
Marcelo mal podia acreditar. Era uma mulher muito bonita. Parecia até saída de um comercial de shampoo. O cabelo preto brilhava na luz da boate, contrastando com a cor imaculada do vestido branco, que levemente transparente, permitia a ele antever – ou talvez alucinar – a perfeição escultural dos seios dela, que despontavam provocantemente através da fenda do decote.
O cara do bar serviu o uísque. Marcelo bebeu um gole. A mulher olhando pra ele.
“Puta merda! É o meu dia de sorte!” – Pensou.
Marcelo levantou o drinque no ar, como um brinde. Do outro lado do bar, a mulher moveu sedutoramente a sobrancelha cuidadosamente desenhada e ergueu discretamente a taça de Martini, correspondendo o gesto.
Eles continuaram se olhando por alguns segundos, até que… Não! Outro cara chegou junto.

Era um homem mais velho. Ele sentou do lado dela e falou alguma coisa no ouvido da moça.
Marcelo baixou a cabeça. – Looser! Looser!- Murmurou com o copo na boca.

Se sentia um completo idiota. Viajara 178 Km para fazer papel de panaca no interior.
Ele olhou para os dois. O cara falando no ouvido da mulher, mas foi então que Marcelo viu a moça empurrar o coroa discretamente, e em seguida ela apontou na direção de Marcelo. O coroa olhou para ele com uma expressão de raiva. Marcelo baixou os olhos. Talvez fosse o marido.
-“Oh shit!”

Cidade do interior é foda. Todo mundo sabe disso. Qualquer coisinha nego mata.
O cara então se levantou e veio dando a volta no balcão. O cagaço de Marcelo crescia exponencialmente. O sujeito chegou peto dele e se aproximou. Bateu a mão pesada nas costas de Marcelo e puxou ele para poder falar alguma coisa perto do ouvido. Marcelo sentiu o hálito de pinga no coroa.
-Aí, mermão! A garota ali disse que está afim de você, companheiro. Vai lá.
-E-Eu? De mim? – Perguntou ressabiado.
-Isso mesmo, chapa. Vai que é tua! Vou tentar a sorte com aquelas três tchutchuquinhas ali. – Disse o coroa, saindo para o meio da pista de dança na busca de alguma outra mulher.
Marcelo tornou a olhar a morena. Ela tinha os olhos fixos nele. E sorria sedutoramente.

Marcelo fez sinal, girando o indicador no ar na frente da boca, perguntando se ele poderia falar com ela. Ela acenou positivamente com a cabeça.
Marcelo respirou fundo, levantou-se e foi até lá.

-Oi.
-Oi. – Ela respondeu, passando a mão no cabelo.
-Meu nome é Marcelo. E o seu?
-O meu é Kássia. – Ela disse.
-Kássia de que? – Ele perguntou.
-Apenas Kássia. – Ela disse sorrindo.
-Ah, tudo bem. Ok. Entendi. – Ele respondeu sem graça. Mal tinha chegado na moça e já estava dando uma de delegado. Típica coisa de lammer na arte da paquera.
Vendo que o rapaz ficou sem graça, Kássia emendou:
-E você? É Marcelo de que?
-Marcelo… Marcelo25. – Ele disse, com um sorriso sacana no canto da boca.
-Nickname? – Perguntou ela, com um olhar malicioso.
-Sim. Ele disse.
-Pois pra mim, você é Marcelo22. – Ela respondeu sorrindo.

Marcelo ficou meio puto, pois parecia que ela estava querendo dizer que ele era criança… Ou pior… Maluco.
E então, deu uma espécie de vácuo entre os dois. Kássia apenas bebia, olhando pra ele. Com as duas bolotas inacreditavelmente azuis fitando-o. Marcelo não sabia o que fazer. Sentia que tinha ganhado na loteria, mas não sabia como retirar o prêmio.
Kássia era uma mulher de mais ou menos um metro e setenta, com um corpo perfeito, a pele lisa e branca. Os cabelos inacreditavelmente lisos e negros. Os olhos azuis. Os lábios carnudos, e os dentes incrivelmente brancos. Apesar de linda, ela aparentava ser mais velha que ele. Talvez uns quatro ou cinco anos mais velha. Vendo que Marcelo não tinha lá muita bossa, Kássia tomou a dianteira na conversa.
-Nunca te vi aqui antes. – Ela disse.
-Ah, é. É que eu… Eu sou de Campinas. – Disse ele.
-Ah. Então é isso. – Ela sorri. – Chegou hoje forasteiro?
-É, vim encontrar meus primos, mas nos desencontramos.
-Primos? Quem? – Perguntou ela.
-Luiz e Renato. – Ele disse. Tentou descrever os primos, mas ela não sabia deles.
Marcelo e Kássia conversaram durante um bom tempo. O papo engrenou finalmente quando Marcelo relaxou. Não demorou para que Kássia se insinuasse para ele.
– E então, Marcelo22…
-Que foi?
-Vai demorar muito para me beijar? – Ela disse, olhando para os lábios dele.

Aquela foi a senha para o primeiro de uma série de longos e tórridos beijos. Marcelo sentiu o gosto do Martini no beijo dela.
Algumas tequilas e outros beijos depois, Kássia disse que precisava ir embora.
-Eu te levo. – Disse Marcelo.
-Não, não precisa. – Ela respondeu.
-Ah, mas eu faço questão! – Ele disse, todo cavalheiro. (apesar de estar bem tonto)
-Mas você nem conhece a cidade… – Ela respondeu.
-Ah, mas você conhece. Você indica e eu te levo. Depois me viro.
-Não, eu chamo um táxi. Pode deixar, senhor vinte e dois.

Mas Marcelo estava resoluto. Ele era assim. Quando enfiava uma coisa na cabeça, nada era capaz de fazê-lo mudar de ideia. Até porque, ele tinha quase certeza que iria conseguir convencer aquela mulher a dormir com ele. Os dois de pilequinho. Ele tanto insistiu, que ela acabou topando.
Marcelo saiu com ela da boate. Foram até o carro dele.
-Olha, não repara a sujeira não, beleza?
-No estado que eu estou, eu não reparo nada, senhor vinte e dois.
-Então, por favor,  entre aí, senhora vinte e dois. – Disse ele, todo galante, abrindo a porta do carro pra ela.

-Obrigada.

Então minutos depois, os dois estavam andando pelas ruas escuras da cidade, em direção a casa dela.
-E agora? – Ele perguntava de vez em quando. Ela se limitava a dar as coordenadas.

“Vai reto, pega a esquerda, sobe a ladeira. É essa estradinha…  Lá no final. Ali a casa, ó.”
Então eles chegaram, finalmente. Era uma casa antiga, no alto de uma colina, com o muro alto, de pedra.
-Que bonita- Disse Marcelo.
-Pois é. É bem antiga. – Ela disse.
-Bom, está entregue. – Ele riu.
Os dois se beijaram longamente.
-Obrigado pela noite. – Ela falou.
-Claro. O prazer foi todo meu, senhora vinte e dois. – Ele disse.
Ela soltou uma gostosa gargalhada.
-Tchau, tá? – Ela disse, se despedindo com um beijo.
-Não vai me convidar para entrar? Tomar um café?
-Não, senhor 22.
-Mas veja, isso é uma temeridade! Eu estou meio bêbado. E se alguma coisa me acontecer? Você não vai se perdoar, hein?- Marcelo apelou.
-O senhor está bem. Boa noite. – Ela disse, com um último beijo antes de sair do carro.

Kássia parou na frente do portão e mexeu na bolsa em busca da chave. Enquanto ela procurava, Marcelo se convencia que era um banana. Ia perder a chance de ouro bem ali, na cara do gol!

Kássia enfim achou a chave. Em seguida, abriu o portão. Mas à aquela altura, Marcelo já tinha um plano. Ele colocou o carro em ponto morto e acelerou. O carro fez barulho mas não saiu do lugar. Então ele desligou o motor e fingiu que o carro pifou.

-Ah, não! – Ele disse.
-Que foi?
-O carro. Acho que pifou.
-Ah, você está de brincadeira. Pifou? Aqui?
-Puts! Que droga, meu. Olha, ele nem liga. – Disse Marcelo. Em seguida, já emendou: – Tem celular aí?
-Celular? Não. Pra que?
-Pra chamar o reboque, ué… O carro tá dando essas falhadas de vez em quando. Acho que é vela.
-Só tem telefone lá em casa. – Ela disse. Mas em seguida pareceu se arrepender.
-Calma, olha só. Eu vou só ligar. Fica tranquila. Não sou nenhum maluco não. Eu ligo e vou embora, tá?
Kássia hesitou. Mas enfim, concordou.

-Tá, senhor vinte e dois. – Ela riu.
Eles entraram na casa.
-Onde que fica o telefone? – Perguntou ele, sussurrando.
-Por que você ta falando assim? – Ela perguntou.
-Sei lá… Tá tarde, né? Não quero acordar ninguém. – Ele disse.
Kássia deu uma gargalhada. – Não tem ninguém pra você acordar, senhor vinte e dois.
-Não?
-Não.
-E o telefone? – Ele perguntou.
-Tá ali. – Ela disse, apontando na direção do sofá.
Marcelo foi até a sala. Kássia acendeu a luz e ele viu um belíssimo lustre de cristal francês pendendo do teto da casa antiga. Parecia até um palácio. Ou um museu.

No canto da sala, finamente decorada com móveis de época, um imponente piano de cauda.
-Casa bonita, hein?
-É.
-Herança?
-É. – Disse ela, pegando uma taça de licor para os dois.
Marcelo fingiu discar os números no antiquado telefone de baquelite.

-Então, vinte e dois? – Ela disse, estendendo a tacinha de licor de menta para ele.
-Hã?
-Esse seu fingimento aí. Vai durar muito ainda?

Kássia era extremamente direta.

Marcelo virou o licor guela abaixo. Colocou o telefone no gancho e abraçou Kássia. Beijaram-se deitados no sofá.
Marcelo lentamente desamarrou o vestido dela, e o tecido caiu, revelando os seios mais lindos e perfeitos que ele jamais havia visto em toda sua vida. Os dois se agarravam com volúpia crescente. Marcelo temia não conseguir conter a excitação.

Kássia apalpou a calça dele e sentiu o membro rijo.
-Vem. Vamos lá pra cima. O sofá é desconfortável. – Ela gemeou, lânguida.
Marcelo concordou de imediato. Subiram as escadas de madeira escura, que estalaram a cada degrau. O quarto, no fim do corredor, era amplo, com uma porta pesada de madeira escura. Na parede, um grande quadro de rosas vermelhas, uma penteadeira antiquada com vidros de perfumes franceses, quase todos vazios. Um velho guarda-roupas com flores de madeira trabalhados ao redor de um belo espelho oval de cristal bisotado.
Marcelo deitou-se na cama, e afundou na maciez do travesseiro de plumas de ganso. Da cama vitoriana de ferro trabalhado, sobre os lençóis de seda, Marcelo viu a mulher mais linda que ele já testemunhara, se despir para ele. Numa dança hipnotizante e sensual. Segura. Dona da situação.

Marcelo tentou aparvalhadamente tirar a roupa.
Já completamente nua, ela enfim deitou-se sobre ele e Marcelo sentiu a maciez de seu corpo lhe tocando. Os dois se abraçaram apaixonadamente, e fizeram amor pela madrugada adentro.
Exausto, exasperante, após o clímax, ainda sentindo tudo rodar, com o sono galopante a engolfar-lhe a consciência, Marcelo dormiu.

Quando Marcelo abriu os olhos, estava sentindo frio. Muito frio. A janela estava aberta e o vento frio da noite agitava as cortinas. Ele estava nu. A luz do poste da rua entrava fracamente pela janela, iluminando o cômodo de forma difusa.

Olhou ao redor, estava sozinho. Nem sinal de Kássia.
Marcelo tentou se levantar, mas não conseguiu. Uma coisa o prendia. Ele viu que estava com os braços abertos, acorrentados à cabeceira da cama. Os pés presos aos pés de ferro da pesada cama antiga.
Marcelo sentiu um calafrio. Tudo que ele pensava era naquele velho email sobre o cara que acordou na banheira de gelo sem os rins.
Mas a casa estava em silêncio. Apenas os grilos lá fora testemunhavam alguma vida naquela área distante de tudo.
Talvez fosse alguma fantasia sexual. Alguma perversão dela…
-Kássia? – Ele chamou.
-Kássia? Kássia? – Ele tornou a chamar, gritando cada vez mais alto. Mas ela não veio.
Marcelo olhou no chão do quarto. Não viu as roupas dela.
Tentou se soltar, mas as correntes estavam apertadas.

A porta enfim rangeu lentamente. E pouco a pouco foi se abrindo.
-Kássia? Kássia, que porra é essa? – Marcelo gemia, agitado.
Ele viu, lentamente, em meio a escuridão, a forma de uma pessoa parada, olhando para ele envolta na penumbra. Ele não conseguia enxergar direito, pois estava ainda muito escuro.
Gradualmente, Marcelo forçou a vista e começou a ver outros vultos atrás daquele. A forma lentamente se aproximou.
Com horror e estupefação, Marcelo viu pessoas magras, que pareciam velhos decrépitos, pálidos. Parcialmente descarnados. Eram praticamente pele e osso, os olhos saltados das órbitas esbugalhados olhando para ele.
-Não. Não! Socorro! Socorro!- Ele começou a gritar.
As formas se aproximaram numa procissão lenta, cambaleantes. As mãos magras e ossudas com unhas compridas percorreram seu corpo. Quatro cadáveres pútridos avançaram sobre ele. Marcelo ainda viu o brilho fraco da luz do poste revelar os grandes caninos brancos que reluziram na escuridão do quarto antes de se enterrarem em sua carne tenra.

-KÁÁÁÁÁSSIAAAAAAAAAAAA* – Um grito de desespero ecoou na noite. Mas ninguém ouviu. Pombos voaram dos beirais e a lua continuou pendurada e fria, no céu.

A boate já estava quase vazia. Meia dúzia de gatos pingados ainda se acotovelavam na pista de dança.
Um rapaz todo suado saiu da pista e foi até o bar pedir uma água. Do outro lado do balcão, ele viu uma mulher morena, linda, olhando para ele e sorrindo.
Imediatamente o jovem correu na direção dela.
-Oooooi… – Ele disse.
-Oi.
-Meu nome é Rooodriiigo. E o sssseu?
-Kássia.
-Prazer. – Disse ele, beijando o rosto da moça de vestido imaculadamente branco.
-Rodrigo?
-Isso.
-Então, Rodrigo vinte e três… – Ela disse, sorrindo. -Vai me beijar agora ou vai ficar só aí parado me olhando?
O rapaz sorriu.
-Como você quiser…

FIM

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23 comentários em “Kássia”

    • Na verdade, este é um conto de vampiros. Basicamente é uma história sobre uma família de vampiros que começa a despertar de um sono que se iniciou no inicio do século XIX. Eles usam a filha mais nova para ir à caça de alimento para a família. 

  1. Nuossa, lembrei agora do filme “O Sacrifício” com o Nicolas Cage… o final achei uma merda mas o filme é muito bom, e resumidamente é isso aí que você escreveu…

      • É que o filme é contado como se fosse para ter um final feliz, e no fim não é, muito pelo contrário (pelo menos foi o que entendi do filme). Seu conto não, vem “morno” até perto do final, sem dar bandeira, aí quando o cara acorda acorrentado na cama lembrando do email dos rins é que você vê a viola em caco… muito bom!

  2. otimo texto philipe, gostei do geito que ele começa sem dar nenhuma ideia do final.

    Merece uma continuação, Kassia daria uma vilã e tanto, só pelamordedeus, se tiver continuação não transforme em um crepusculo brasileiro …

    Agora cá pensando com meus botões, se alguma garota me puser um numero, é sebo nas canela XD

    falow philippe
    CaioSurianMathias

  3. Bacana, Philipe! Me lembrou a história real do açougueiro de Porto Alegre, que mandava a mulher buscar pretendentes na rua. Depois da mulher transar com eles e oferecer um jantar bem caprichado, o açougueiro enfiava um machado na cabeça do pobre coitado e fazia linguiça com a carne. A linguiça mais vendida da cidade, por sinal. O_o

      • É sério mesmo! Não sei como não fizeram um filme ainda. É uma história estilo Sweeney Todd, só que real!
        Tem até um livro bem bacana do David Coimbra, dá uma olhada no primeiro capítulo e vê se não é parecido com o teu conto: http://migre.me/5bcEI 

        • Fizeram um curta meio documentário, passou até na RBS afilhada da Globo aqui no sul.
          Aqui tá os links do youtubehttp://youtu.be/tFDQFfirLjI
          http://youtu.be/PX7ZJ1a1fmE

  4. kkkkkkkk!!! Eu estava escutando “It hurts me too” do Diesel quando comecei a ler teu conto!!! Bem apropriado, até a metade claro… Depois tem que encerrar com Sympathy for the Devil!

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