Jurado de morte – parte 8

Zé Walter dirigia o carro sentindo um estranho misto de emoções. Medo, angústia e uma estranha euforia coabitavam seu coração.
Enquanto dirigia ele pensava em como descobrir o paradeiro do tal Lion. Sem pistas nem idéias, partiu na direção do bairro Viçoso Jardim, um bairro pobre, tomado por algumas favelas e fábricas desativadas.
Zé chegou ao bairro na parte da tarde. Já escurecia quando ele finalmente estacionou a a Parati de Armando perto de uma pracinha.
Dali, Zé resolveu seguir a pé. Foi direto ao ponto onde umas duas vans com a marca dos Thudercats aguardavam a lotação completar.
Zé Walter teve o impulso de perguntar de cara para o sujeito da van onde encontrar o Lion, mas sabendo que ele fugiu do presídio, aquilo seria uma pergunta suicida. Certamente ele seria tomado por um policial civil e isso implicaria em sentença de morte naquele bairro perigoso, dominado pelas milícias e pelo tráfico, que disputavam uma guerra permanente pelo poder.
Zé Walter fez o oposto. Foi até o cara do espetinho. Um camelô que vendia espetinhos de “churrasco de gato”. Na verdade, os espetinhos eram de carne de boi e frango, assadas na brasa de uma minúscula churrasqueira de ferro fundido, toda encardida. Zé sentou ali no meio fio, perto de uma lata de lixo transbordante e ficou parado, degustando um churrasco de gato.
Não demorou, novas vans chegaram ao ponto final, e delas desceram os motoristas. Em menos de cinco minutos, uma pequena reuião de motoristas de van aconteceu na banca do churrasquinho de gato. Zé estava na lateral, obscurecido pela mal cheirosa lata de lixo, cheia de bagulho nojento e moscas.
O local era ruim, mas Zé podia ouvir perfeitamente a conversa dos motoristas. Falaram de futebol, de mulher, de problemas familiares, contaram piadas, falaram de desemprego, política, religião…
Zé já não aguentava mais ficar ali, parado do lado do latão de lixo. E nada dos desgraçados falarem do Lion. Só conversavam amenidades. Levou um bom tempo nisso. Tanto tempo, que Zé Walter já pensava em desistir e tentar outra abordagem. Foi nessa hora que chegou um velho gordão e careca, junto com um motorista de van com cara de maluco.
Os homens saudaram efusivamente o velho, um tal de Buda, e não demorou, o tom da conversa diminuiu.
O velho gritou para o “mineiro” do churrasquinho que queria aquele “clássico”.
Das gargalhadas e risadas em alto e bom som, agora os homens falavam entre dentes. A altura que eles falavam baixou tão consideravelmente que não tardou para que beirasse o incompreensivel. Zé esticava o mais que podia o pescoço para ouvir alguma informação, mas só distinguia poucas palavras.
O tal mineiro, o cara do churrasquinho, se aproximou do grupo trazendo um espetinho só de gordura. O velho Buda agarrou o espetinho de nacos amarelos de gordura de boi, pingando copiosamente e começou a comer feito um animal. Zé sentiu vontade de vomitar vendo o Buda comer gordura pura. Enquanto o “Mineiro” estava perto, e eles pararam de falar. Aquilo era suspeito. Assim que o “mineiro” voltou para a churrasqueira, eles retomaram a conversa.
Quando você não consegue ouvir uma frase completa, precisa de muita atenção, pois uma outra palavra ou duas na frase de resposta, pode lançar pistas fundamentais na construção das palavras que ficaram faltando. Zé fazia assim e gradualmente, consegiu descobrir que o tal Lion estava sendo chamado de “rei”. Aquilo foi fácil descobrir, já que Lion é a mesma coisa que Leão. E Leão é “o rei da floresta”.
Em seguida, ele soube que o Leão, estava em outra “jaula”. E que já tinha mandado afiar o “facão”. No meio disso, sobravam palavras disconexas e incompreensíveis. Mas ele conseguiu perceber que os homens falavam em “bonde” em “banco” e em “derrubar geral”. Um deles falou algo que não deu pra saber o que era, mas fez com as mãos um movimento estranho, como o de colocar uma caixa sobre uma mesa. Depois fez um movimento simulando correr e fez um barulho assim “booooom!”. Zé compreendeu que aquilo só podia significar que Lion planejava explodir alguma coisa. Mas o que seria? Um banco?
Não era impossível. A quadrilha estava crescendo rapidamente e não demoraria a se desmembrar novamente para ocupar outras comunidades carentes da cidade. Isso explicaria o “bonde” e explicaria também a necessidade de roubar um banco para cobrir o alto custo de uma operação de guerra. Os milicianos roubam bancos porque sabem que bancos possuem seguro. Roubar bancos é menos prejudicial à imagem da milícia nas comunidades do que aumentar as taxas que os mantém. Além do mais, com o aumento substancial na entrada de dinheiro, eles podem dispor de mais armamento e melhor qualidade nas proteções necessárias para entrar em confronto com os traficantes. Certamente que “derrubar geral” significava entrar nas favelas escrotizando todos os soldados dos comandos que as controlavam, assumindo o controle e estabelecendo os novos padrões “thundercats” de conduta e arrecadação.
Zé continuou de ouvido em pé para descobrir mais informações e soube que o tal “Bonde” sairia naquela madrugada. O Rei controlaria tudo por rádio, da “jaula”. Como Lion não estava mais preso, a tal nova jaula seria algum tipo de esconderijo. Era previsível que Lion não voltasse para seu quartel-general em função de estar ainda procurado pela polícia.
A informação mais importante daquela noite e que valeu as horas desperdiçadas ao lado daquela lixeira nojenta de onde pingava um suquinho de lixo marrom-esverdeado, surgiu com o velho barrigudo, o tal “buda”. O Buda falava um pouco mais alto que os motoristas e Zé pôde ouvir com total clareza que ele iria se encontrar com o Rei dali a algumas horas para acertar o lance do bonde.
Zé ficou ali mais uns minutos. Comeu outro churrasquinho e esperou.
Depois de mais dois churrasuqinhos “clássicos” de banha amarela, o Buda deu-se por satisfeito e saiu dali com o motorista com cara de pirado.
Zé levantou-se e saiu atrás, guardando cerca de vinte metros deles por precaução.
Os dois caminharam pela avenida de acesso à pracinha até chegarem numa van preta, sem placa, que estava estacionada na porta de uma garagem.
Zé marcou bem a Van e correu para o lado oposto, para pegar a Parati.
Assim que entrou na Parati, ele viu a van passar por ele com os dois sentados na frente.
Zé esperou ainda alguns poucos minutos até que houvesse uma brecha no trâsito para que ele pudesse pegar o caminho na outra mão.
Quando finalmente conseguiu, ele ainda podia ver a van preta ao longe, mas havia vários carros entre os dois. Isso ajudava um pouco a mantê-lo longe da vista dos dois.
À medida em que o tempo foi passando, Zé percebeu que eles estavam saindo do bairro Viçoso Jardim e entravam numas quebradas distantes. Eles entraram por ruas cada vez menos movimentadas de modo que chegou um momento em que só havia a Parati, um fusquinha com adesivos evangélicos e a van preta.
Zé teve medo que com a redução do tráfego, eles desconfiassem que estavam sendo seguidos. Então aumentou a distância entre os carros, mas mantendo a van sempre ao alcance da vista.
Os homens pararam o carro numa rua estreita perto da entrada de um morro. Zé parou perto de uma banca de jornal, uma esquina antes.
A hora estava bem avançada e era o início da madrugada. Zé Walter desceu do carro e se esgueirou pelos muros, para ver os dois andando, sozinhos na rua estreita. Eles andaram, pararam e olharam em volta. Zé temeu ter sido visto. Espremeu-se num muro recuado e torceu para não dar merda. Por sorte, não deu.
Então Zé escutou os dois darem três socos num portão de ferro. Dali a um tempo, o portão abriu e eles enraram.
Zé correu até o portão na tentativa de escutar alguma coisa, mas não ouvia muita coisa além de um funk tocando lá dentro e algumas risadas.
Zé tentou descobrir uma forma de invadir o lugar, mas o esconderijo de Lion parecia intransponível. Era apenas um grande portão de ferro, sem pintura, só no zarcão, com alguns posteres de bailes Funk rasgados colados na frente. Não havia nenhum símbolo ou marca que ligasse o local com a milícia dos Thundercats.
Zé atravessou a rua e tentou olhar de longe, na esperança de ver alguma coisa. Mas não havia nada que indicasse uma forma de acesso.
Então ele percebeu que havia uma árvore, uma amendoeira, que tinha uns galhos baixos e lá em cima, um galho se aproximava bastante de uma janela com vidros quebrados no segundo andar da casa.
Zé correu para a amendoeira e começou a escalar. Como não tinha preparo físico ou experiência em escalar árvores ele se arranhou e teve que tentar pelo menos três vezes antes de conseguir atingir o galho principal.
Ele finalmente conseguiu e rapidamente foi escalando a árvore, até estar a cerca de dez metros do chão.
A janela com vidro quebrado estava a menos de um mísero metro dele. Zé esticou-se o mais que pôde, mas o galho era fino e ele ficou com medo de quebrar. Foi nessa hora que ele ouviu um tiro. Um tiro tão alto que seu coração quase saiu pela boca.
-Puta que pariu! Me viram! -Pensou.
(continua)

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5 comentários em “Jurado de morte – parte 8”

      • Olá Philipe!
        Então vai parar na parte 9? Pensei que ia se equiparar ao Relato de um MIB que foram 10 partes.
        Rapaz, esse conto tá muito show de bola. Parabéns. E que vnham outros!!!!
        Eu vou dar sugestões para novos contos:
        – Animais de estimação que se voltam contra os próprios donos.
        – Emrpegados que são aviltados pelos colegas de trabalhos
        – Um suco/regrigerante/doce que qdo fica estragado dá super-inteligência pra alunos de uma escola e como efeito colateral ficam sem memória do que fizeram nos últimos 3 minutos
        – A vida louca dos caminhoneiros com os perigos da estrada

        Poderia continuar também com a história do Caçador. Tava ótimo aquele conto e de um outro que eu não sei onde está no site do cara que encontra ele mesmo mais velho.

        Grande abraço,
        Vanderson

  1. Puxa, esse Zé está me surpreendendo a cada dia! :happy:

    Queria que o Jurado De Morte não acabasse… É muito irado!
    Bom trabalho, Philipe
    E que Venha o 10 por favooor ? ! :love: :*(

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