Jurado de morte – parte 4

O coração de Zé Walter parecia querer sair pela boca, e só voltou a bater normal quando se deu conta de que o soco que ouviu na porta era da mulher dele, preocupada.
-Zé? Abre essa porta, Zé! – Gritou Gizela.
Zé abriu a porta e viu a mulher. Ela estava preocupada. Havia ligado pra ele diversas vezes naquele dia, mas ele não atendeu.
-Porra… Eu dormi. – Disse ele, sentando na cama. Zé já ia contar o seu pesadelo com o bigodudo do opala preto quando Gizela o interrompeu.
-Ligou pra polícia, Zé?
-Não.
-Porra, Zé!
-Calma, Gi. Olha só, eu acho que a polícia tá envolvida. Não vai adiantar eu ligar pra lá, Gi. O cara mandou na careta, ele sabia que eu ou qualquer um que recebesse uma ameaça dessas ia procurar a polícia. Se ainda assim ele mandou a carta, é porque ele sabe que não vai adiantar lhufas ligar pra polícia.
-Humm. Isso é. -Disse Gizela sentando na cama.
-Mas e agora? O que vamos fazer, Zé?
– Não sei, Gi… Olha, vem cá. Tem um carro. Opala. Eu acho que o cara tá…-Zé Walter puxava Gizela para a janela afim de mostrar o opala preto. Mas o carro não estava lá. A vaga esta vazia.
-Carro? O que? -Gizela não etendia.
-Tava ali… Agora saiu, Gi. Um Opala preto. Carro de assassino. Eu vi o carro hoje cedo. Ele tava parado ali naquela vaga onde está a kombi. Tá vendo? Perto da banca. Depois o carro saiu e o vidro abriu. Tinha um homem sinistro dentro.
-Homem sinistro, Zé?
-Isso. Um homem de bigode grisalho. Cara de uns 50, 60 anos. Tava usando um óculos escuro. Ele abriu a janela e olhou pra mim, Gi. Aqui pra cima!
-Porra que estranho, Zé. Mas isso não significa que…
-Gi, quantas vezes você olha pelo vidro do carro para prédios de apartamento? Sobretudo andares altos?
-Nenhuma.
-Viu? Acho que o cara tá envolvido, Gi. Além disso é um opala e opala você sabe…
-Ah, Zé. Porra para com essas fantasias. Isso é só em filme de máfia.
-Ah, mas filme de máfia é inspirado em que? Na realidade, Gi. Na realidade!
-Zé, me escuta. Eu andei o dia todo pensando na tal carta. Eu acho que isso é brincadeira, cara.
-Que isso Gi? Porra quem vai brincar assim com os outros? Isso dá cadeia, meu.
-Ah, sei lá. Vai que é um desses seus amigos sem noção, Zé. Pode ser, por que não?
-… – Zé estava quieto. De fato aquilo poderia se tratar de uma mera brincadeira de mau gosto. Amigos sem noção ele de fato os tinha. E tantos que havia perdido as contas.
-Zé, tu dormiu a tarde inteira, hein? Eu tô ligando desde as duas da tarde aqui pra casa e nada…
-Pois é, mas… Não sei. Acho que é efeito psicológico. Essas coisas de fuga. Se bem que nem dormindo eu escapei da morte.
-Hã?
-É, tive um pesadelo.
-Mas não ouviu o telefone tocar, Zé?
-Não… – Disse Zé Walter, pegando o telefone sem fio. Colocou no ouvido e descobriu:
-Ué. Tá sem linha.
-Sem linha?
-É, olha só…
-Ué…Será que pifou?
Zé Walter e Gizela se entreolharam. Nisso tocou o interfone.
Os dois arregalaram os olhos.
-Tá esperando alguém? -Perguntou Gizela.
-Não, e você?
-Também não. – Disse ela correndo para atender.
Zé Walter correu para a janela, mas não havia sinal do opala preto.
-Alô? Sim? – Gizela falava com o Porteiro no interfone da cozinha.
Zé Walter correu até lá. Ficou gesticulando, afobado, querendo saber do que se tratava. Gizela tirou o telefone do ouvido sussurrou para Zé.
-Você pediu pizza?
-Não.
-Seu Limair? Olha, não pedimos pizza não. Pede pra verificar aí, porque não foi aqui não. Hã? O que? Como assim já subiu? Mas não pediu daqui. Hã? Tá, tá. Tá bom. Boa noite. – Ela se apressou em desligar.
-Ah, não. Vai tomar no cu, Gi! – Disse Zé Walter já andando para trás.
-O babaca mandou subir antes de ligar pra cá. O entregador já tá subindo.
-Fudeu. É o assassino!
-Caralho, e agora, Zé?
-Não sei.
-E agora Zé?
-Não sei, porra. Vamos fazer alguma coisa.
-Mas o que?
-Sei lá. Calma aí. Porra… Caceta… Deixa eu pensar. Putaquepariu, porteiro burro do caralho…
-Pensa logo, Zé. Ele ta subindo.
-Ai caralho, ai caralho…
-Zé, A tv porteiro!
-Isso! Rápido. – Disse Zé correndo para a sala e ligando a Tv. A “Tv porteiro” era um canal da antena coletiva que mostrava as câmeras de segurança do prédio.
A Tv mostrava a garagem. Depois veio o corredor, a portaria, a frente do prédio e finalmente o elevador.
Ali dentro, visto de cima, numa imagem borrada e em preto e branco, estava um homem, usando um capacete preto e… Jaqueta de motoqueiro.
Zé Walter sentiu um arrepio na espinha.
-Zé acho que é um entregador comum. – Disse Gizela.
-Hummm. Não sei. Olha o volume da embalagem. Não parece estufado?
-É. Parece. Quem tá lá com ele? Dá pra ver?
-Acho que é a dona Isolda do 504.
O elevador para no cinco e a velha desce. Fica só o homem de capacete no elevador. Nisso, o homem da pizza olha na direção da câmera. Ele usa óculos escuros do tipo aviador e Zé Walter pôde notar até um pedaço de bigode aparecendo dentro do capacete.
-Caralho, fudeu!
-Que foi? Que foi?
-É ele! O cara do Opala. Que andar que tá? Olha ali no reflexo do espelho. Tá no seis?
-Agora sete.
-Rapido Gi. Vem! – Diz Zé Walter, agarrando Gizela pelo braço e saindo correndo. Eles correm para fora do apartamento.
-Pra onde Zé?
-Por aqui. – Sussurra ele, apontando para as escadas. Os dois enfiam-se nas escadas.
Assim que a porta corta-fogo se fecha eles ouvem o barulho do elevador chegando no andar.
Os dois observam a cena pela greta da porta.
O homem de jaqueta e capacete chega no andar. Ele vai com a caixa da pizza e um papel na mão. Olha cada uma das portas. Mexe no bolso.
Zé Walter e Gizela se entreolham no escuro.
No fim do corredor o homem da pizza tira um papel do bolso. Ele vai até o apartamento deles. Toca a campainha. Como niguém responde, o homem toca duas, três, seis, dez vezes. Nada. Nenhum sinal. Ele então começa a socar a porta. Bate com força três ou quatro vezes, até que ela se abre.
Zé olha para Gizela na escuridão e sussurra:
-Porra, Gi…Você não trancou?
-Vá a merda, Zé. Eu tava pensando que ia morrer. Cê acha que eu ia ter cabeça de trancar a porta? Não deu tempo.
O homem da pizza entra no apartamento e não há mais sinal de vida no corredor.
Na escuridão da porta corta-fogo, Zé Walter e Gizela estão tensos. A respiração presa. O medo é cada vez maior.
O homem da pizza finalmente sai, ainda com a pizza na mão. Vira as costas e chama o elevador. Parece uma eternidade o tempo que leva para que o elevador chegue.
Nisso, o homem da pizza olha para a escada.
O cagaço de Zé Walter atinge proporções bíblicas.
-Fudeu, Gi. ele vai vir pra cá. Ele viu a gente!
-Calma Zé. Calma… -Gizela tenta acalmar.
O homem da pizza começa a vir na direção deles. Parece decidido, como se tivesse visto alguma coisa.
-Fudeu, fudeu…
-Pai nosso que estás no céu… -Os dois sussurravam.
Nisso, o elevador chegou. O homem da pizza ouviu o barulho do elevador e voltou.
Finalmente a porta se abre e o homem da pizza vai embora.
Zé e Gizela se olham, aliviados.
-Ah, meu Deus. Aleluia. Ufa!
-Putaquepariu, caralho, buceta! -Geme Zé. Agira eles estão com a certeza de que o cara da pizza é o assassino.
-E agora? Voltamos? – Pergunta Gizela.
-Não sei. Melhor que ficar aqui deve ser.
Zé e Gisela saem da porta de acesso às escadas com o pé ante pé. Vão rapidamente para o apartamento. Entram e trancam a porta.
Logo que entram percebem que tudo está como deixaram, com a excessão de um detalhe: A tv está desligada.
-Gi você desligou a Televisão?
-Não lembro. Eu acho que não…
-Então foi ele.
-Porra, ele sacou que a gente viu ele.
-É. Veja aí se ele não mexeu em mais nada. -Diz Zé Walter.
Gisela vai até o quarto. Depois até a cozinha.
-Parece que está tudo em ordem.
-Que porra estranha…
-Não tá faltando nada… Calmaí.
-Que foi?
– A carta.
-Tava em cima da cama.
-Não tá.
-Caralho, ele pegou. Ele pegou a carta. Puta que…
-Zé, ele pegou a carta. Ele acabou com a prova. Ele veio aqui para pegar a carta. É isso.
-…Pariu, Gi e agora? Nem se a gente quiser ir na polícia… Ninguém vai acreditar.
-Zé, eu tô com medo.
-Eu também, Gi.
Nisso, o interfone toca. Os dois se entreolham assustados.
Gizela corre para atender.
-Seu Limair? Pode falar, seu Limair.
-…
-Hã? Ah, tá. Tá. Tá certo. Tudo bem. Olha seu Limair, não deixa mais ninguém subir sem a nossa autorização não, viu? Senão vou reclamar com o seu Joel. Ah, e olha, o telefone aqui em casa tá com problema. Se o senhor puder, fala com o seu Waldicley pra ele pedir o reparo, tá? Ok… Boa noite. Té manhã.
-E aí? -Perguntou Zé aflito.
-O cara foi embora. Disse pro seu Limair que foi engano da pizzaria. Que saiu o endereço de entrega errado.
-Porteiro débil mental filho duma vaca! Porra, esse tal Limair não faz nada direito, meu. Vive deixando entrar tudo que é otário, faz confusão com morador, entrega a minha Veja pro cara do andar de cima, é um incompetente. Não sei como deixam uma porra dessas ser porteiro. Ainda mais com o que a gente paga de condomínio. Agora, sobre o que o cara disse, pra mim é caô.
-Pra mim também. Se fosse mesmo o cara da pizzaria, ele ia entrar aqui em casa? Desligar a TV?
-E digo mais… Eu acho que ele que fodeu o telefone.
-Humm. Faz sentido, Zé.
-Certamente ele veio aqui já de caso pensado, para pegar a carta. A carta é a única prova do crime. Ele pegou a carta e saiu fora.
-Mas e agora?
-Agora nada. Agora vamos dormir. Eu acho que eles não vão fazer mais nada hoje. Ainda me resta mais um dia e algumas horas…
-Zé, não fala assim.
-Tá bom, Gi. Tá bom. Vamos dormir.
Os dois tomam um Toddynho cada, depois um banho e vão dormir.
A noite passa arrastada. Nenhum dos dois consegue dormir bem. Zé Porque passou a manhã e tarde dormindo. Gizela porque está abalada com aquilo tudo.
No dia seguinte, Zé acorda com Gizela chamando para tomar café.
Ele vai até a janela. Olha lá para baixo… Nada do opala preto.
Os dois tomam café quase sem dizer uma palavra. Apenas se olham. Os olhares dizem tudo.
-Tenho que trabalhar. -Finalmente Gizela rompe o silêncio.
-Gi, andei pensando. Acho que tenho que sair fora.
-Sair fora?
-Sim. Os caras querem a minha cabeça tal qual um São João Batista.
-Mas pra onde, Zé?
-Gi… Sei lá… Vou ter que dar um “vazari”. Sair de circulação por uns dias. -Diz Zé Waler.
Gizela faz uma cara de choro.
-Calma, Gi. Eu volto Eu prometo. Eu vou dar um tempo. Acho que vou pra casa do Amarildo. Na chácara. Lá naquele buraco, os caras não vão me achar.
-Mas como você vai falar com ele?
-Gi, eu não vou. Deve estar tudo grampeado. Não dá pra confiar. Eu sei onde o Amarildo guarda a chave reserva. Eu pego ela e entro lá. Preciso colocar a cabeça no lugar. Espairecer. Pensar no que fazer. Daí, de lá eu ligo pra ele.
-Tá bom. Mas Zé…
-Oi Gi.
-Cuidado hein? Eu te amo.
-Eu também te amo Gi.
Os dois se beijam de forma agressiva. É o medo. Eles temem não se encontrarem mais.
Gizela sai para o trabalho na fundação com o coração apertado, deixando para trás o marido.
Zé Walter vai para o quarto arrumar uma mochila. Enquanto arruma, ele pensa em uma forma de fugir sem ser visto nem seguido.
Zé tranca a casa, pega o elevador de serviço e desce no playground. Ali ele corre até as palmeiras que enfeitam a parte da frente do prédio. Olha lá de cima. Nem sinal do Opala. Zé estuda meticulosamente o caminho que fará na rua. Ele planeja correr até a rua de trás, onde passará por um beco e chegará a outra rua, onde há uma estação do Metrô.
Do play, Zé desce pelas escadas até o térreo. Ele já se encaminha para a portaria quando vê, do outro lado da rua, o Opala preto estacionando perto da banca.
-Fudeu! -É só o que ele consegue falar.

CONTINUA…

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10 comentários em “Jurado de morte – parte 4”

  1. Phillipe, VOCÊ É O MEU IDOLO!!

    Se vc lançar um 10 livros diferentes, eu compro vinte!!!

    e, sobre essa história:

    Carai véi!!! o mar abriu no meio veiiiii!!!

    philipe, brincadeiras a parte, eu te adimiro como um grande escritor. tamanha a sua riqueza de detalhes, eu quase senti o cagaço do zé, fiquei imaginando o cara de bigode querendo me matar( o cara me parece o solid snake). Suas narrativas estão no mesmo nivel, quisá muito acima, de J.K roling e J.R.R tolkien. E, digo mais, é de livros com autores como você que a literatura brasileira precisa. Vai Concerteza, fazer muito mais sucesso que essa tal saga ai dos vampiros baitolas…

    Um forte abraço, e qualquer dia visitenos em GIIÃÃÃOOOOooo 😀

    • Caraca, meu. Calmaí. Nem é pra tanto, hehehe. Fico feliz que esteja curtindo. Essa história está me divertido. O mais estranho é que não faço idéia do que vai acontecer. Eu vou escrevendo direto, sem pensar no que vai dar. Vamos ver onde ela nos leva.

  2. Pow mano 1° que eu comento aqui ja leio teu blog tem uns 2 anos …
    E cara a história ta boa mas na minha opinião, vc ja escreveu melhor ( é so minha opinião) talvez seja so essa história que eu nao esteja gostando muito da maneira como vc ta escrevendo…
    mas a ideia da historia é ótima cara ve se caprivha mais na proxima …vlw so teu fã rsrsr

  3. Estou de volta Philipe,

    História boa, está nos prendendo…
    Bom, já falaram que o seu Zé ta louco, eu já acho que ele é muito “cagão”… po Philipe coloca um sangue extra nele, o cara fala muito palavrão mas não age como o um “valentão rs” que parecia ser (ele deveria incorporar o Chuck Norrris x_x x_x x_x )… e acho que a mulher dele sabe que estão suando com ele… tipo se fosse comigo não seria lógico falar para minha mulher que eu iria para casa do um amigo ou parente, não me sentiria nada confortável em saber q o truta do Sr.Bigode já entrou em meu apartamento, conhece minha mulher, sabe toda a rotina, etc, etc…

    Tipo eu me salvo e primeira dama se exploda… estranho rs!!!

    Vamos ver como tudo termina… até mais!!!

    Estou gostando…

  4. apesar do cara da pizza ser o assassino(eu ja vi isso em algum lugar)
    eu fiquei com vontade de comer pizza
    cara eu to com uma puta de uma vontade de comer pizza agora
    vai entender
    comecei a ler e ja li do 1 ao 4 sem pausas
    e vou continuar
    suas historias prendem viu?
    mas ainda estou esperando a continuação do cartão negro
    sou seu fan
    vc sabe
    hoje vou ler isso tudo
    pelo ritmo da historia (e da minha empolgação) acho que leio isso tudo agora de uma vez
    abraços philipe
    sou seu fan

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