Estou quase no bônus: 32 anos -Meu casamento e o dia que conheci a primeira dama

Após completar cada um dos meus 16.819.200 minutos de existência, deixo a tranqüila e plácida idade de 31 anos para  a complexa, densa e fervilhante idade de 32.

Não parece, mas há uma grande diferença entre ter 31 anos e ter 32. A primeira e mais óbvia é que com 32, você está numa idade par e segundo a minha macumba-crendice-sem-nenhuma-base-científica, em anos pares eu me saio melhor na vida. Outro aspecto que posso ressaltar para o fato de que 32 anos é bem melhor que 31, é que com 32 eu já tenho acumulados 525.600 minutos a mais, o que garante mais uns xp-points ao pensar, conversar, ouvir e refletir sobre o mundo.

Se fosse só o fato de completar 32 anos já seria bom, mas imagina isso somado ao fato de completar 9 anos de casamento no mesmo dia. É bem melhor.

Completar 9 anos de casamento num mundo onde cada vez mais pessoas desacreditam da união matrimonial é algo meio gump, né? Ainda mais duas vezes.

Curiosamente, eu casei com a primeira dama duas vezes. A primeira no civil e só 15 dias depois, no religioso, por conta de um descompasso nas datas de casamento disponíveis no civil. Hoje completam 9 anos que eu fazia 23 anos entrando na igreja sem ver porra nenhuma (casei sem óculos) além de um borrão branco que surgiu lá no fundo da igreja, que ainda estava meio vazia, e que foi lentamente entrando em foco a medida em que se aproximava.

O que era para ser uma coisa ruim acabou virando uma espécie de efeito especial personalizado, pois gradativamente eu vi a Nivea surgindo, como um anjo branco que se materializava só pra mim. O fato de casar sem óculos ajudou a me manter calmo, já que eu só via o padre e a noiva. O resto todo estava numa massa amorfa de cores, no maior gaussian blur da paróquia (literalmente).

Quando a cerimônia acabou, ao me virar, notei que a igreja já estava cheia. A medida em que saíamos da igreja, eu fui gradativamente vendo o pessoal, e sentindo o calor dos infernos que estava aquele dia. Casei meio dia. Maior maluquice casar nessa hora no verão e na cidade de Três Rios. Tudo bem que não é quente como Itaperuna, mas no verão em Três Rios faz um calor descomunal.

Volta e meia eu me pego pensando em como é bom ser casado.  Lógico que existem casamentos e casamentos. Tem gente que detesta, se sente preso, sufocado. Quer sair, galinhar, tem o ciúme, a desconfiança.

Com a gente é tudo numa boa. Tão numa boa que me espanto a cada ano de casado, porque parece que passa bem rapido. Eu em me ligo muito em contabilizar essas coisas. Eu acho que casamento é de fato uma loteria. Se o cara der azar, meu chapa, já era. Eu dei sorte. Nos damos bem em muitos aspectos.

Isso me faz pensar sobre essa coisa do destino. pequenas merdinhas que acontecem e parecem irrelevantes podem catapultar sua vida para patamares nunca antes imaginados. Isso aconteceu comigo algumas vezes nesses 32 anos. Uma delas e talvez a mais marcante foi quando eu resolvi descer com o Raphael (meu irmão) o Nelson (aquele que se ferrou comigo no episódio da torre do Niterói Shopping) e o Pedro Still (meu amigo da escola). Neste dia a chopperia perto da minha casa estava bombando como nunca e como que por milagre, logo que chegeui uma galera que estava numa mesa saiu. Eu me joguei tal qual um goleiro da seleção sobre a mesa e garanti ela pra nós.  Conseguir uma mesa  é  uma tarefa árdua que só quem freqüenta lugares que viram “point” sabe como é.

Minutos depois, lá estavamos nós bebendo e trocando idéias sobre coisas totalmente sem sentido. Eu não sabia, mas estava parado no ponto de ônibus do destino. E continuei sem saber quando ele chegou.

E ele chegou na forma da Janaína. A Janaína é uma amiga minha que na época estudava na minha sala. (nesta época eu era normalista, um refugiado da fúria assassina do professor de química, Uma bicha bombada e enrustida que jurou me destruir no dia que leu uma revistinha em quadrinhos da minha autoria no qual ele assumia ser fruta. Assim, fugi do “científico” para o curso “normal” junto com o Pedro Still, que quase saiu na porrada com o cara e tb ficou “desenganado escolarmente”.  Eu praticamente convivia só com mulher o dia todo) A Janaína era uma aluna engraçada que dormia na aula direto. Dormia de babar mesmo. Ia lá pra trás e simplesmente desmaiava. Curiosamente ela tirava nota boa. A Janaína falava pouco comigo, mas sempre foi gostosa, fato que provocou um enorme estranhamento nos amigos da minha mesa quando ela surgiu perguntando se podia sentar com a gente naquela mesa. Eu de imediato concordei e foi aí que a Jana saiu e voltou com um bando de mulheres. E a nossa mesa  de nerds lotou.

Entre as meninas amigas da Jana e a própria, que reconhece que estava ali na nossa mesa absolutamente por interesse de arrumar um lugar para sentar, estava uma garota incomum.

Incomum porque ao contrario de todas as demais ela estava usando um casaco marrom de capuz que mais parecia uma roupa de monge franciscano.  Ela tinha um cabelo absolutamente liso e uma franja. Estava com o pior humor do universo. Sabe aquele  tipo de expressão que você faz no último lugar da fila do Banco do Brasil no dia 10? POis a cara que ela fazia era essa. Ela estava quieta, achando tudo aquilo ali um saco. Além do mais, era a única pessoa em toda a chopperia que estava bebendo água. Nem suco nem refri. Só água. Além disso ela estava secando pacientemente batatas fritas no guardanapo. Não conversava com ninguém, o que dava um belo contraste com a Janaína, a Cíntia e a irmã dela que esqueci o nome, que eram super animadas e engraçadas.

Não sei explicar o que me atraiu naquela garota de mal humor num ambiente descontraído, mas posso dizer que eu senti que tava ficando afim dela.

Talvez o que explique isso não seja exatamente o amor como o do Professor Girafales e Dona Florinda, mas o amor de um alpinista pelo Everest. O alpinista vê aquela montanha em toda sua impávida majestosidade desafiando sua audácia. E ele quer desesperadamente subir aquela coisa e conquistar a montanha. Mesmo que para isso precise colocar a vida em risco.

Ali, atrás da mesa, no canto escuro, numa felicidade digna de velório e de capuz, estava a minha montanha.

Eu me lembro que no banheiro quando fui fazer xixi falei pro meu irmão que ia ficar com aquela garota e ele duvidou que aquilo fosse possível. Então apostamos.

Eu devia ter dito que ia casar com ela, pois aí sim a aposta valeria a pena.

Conquistar a Nivea foi uma tarefa difícil.

Precisei me aproximar com cuidado, ficar amigo. Claramente naquele dia não ia rolar absolutamente nada além de um belo tabefe, caso eu desse uma de Wando pra cima dela.

No papo, descobri que ela havia terminado dias antes um noivado de 5 anos. Ela ficou mal e foi morar com a Janaína. Assim, tudo que ela não queria saber era de namoro, noivado e casamento.

A montanha mostrava-se à prova de alpinistas amorosos, mas não esmoreci.

Cada vez que eu conhecia mais aquela garota, mais eu gostava dela. Um dia, na sala de aula, durante uma aula chata eu me peguei pensando nela.  Começamos a nos encontrar na chopperia onde ela recomeçava o ritual de secar batatas fritas com copo d água e eu competia com a Jana pra ver quem bebia mais chopp. Ficamos amigos e trocamos umas fitas de musica. Um dia a Nivea me pediu para digitar o curriculo dela. Eu levei o material pra casa e mostrei pro meu pai:

-Olha só, pai. As meninas estão mandando currículo pra namorar comigo.

-Nossa. que legal. Deixa eu ver. Hummmm. Essa aí tá boa hein? Já tá na faculdade! Olha só o nome dela. Tem nome de rainha! Cê vai namorar com essa?

– Se ela quiser eu quero.

E então acabamos ficando mais amigos e um dia ela surgiu com uma idéia de fazermos uma festa de aniversário para a Jana. Eu bolei um cartão gigante e ela foi lá em casa. A Nivea diz que até este dia não sentia porra nenhuma por mim. Aliás ela me achava esquisito -Só porque eu só andava de preto, praticava alta magia, tinha dois relógios que não marcavam hora com monstrinhos dentro , minhas mãos eram sempre sujas de tinta de nanquim e meus oculos eram do tipo “morcegão da asa quebrada”…

Então ela foi lá em casa e papo vai, papo vem, pegou um caderno meu. Nessa época o meu cadernoa da escola era uma espécie de pré-mundo gump, porque tinha de tudo (menos matéria da aula) tinha poeisa, tinha conto, tinha aventura, tinha um porradão de desenho.

Eu fui tomar banho e deixei ela com o caderno lendo um conto lá.

Quando voltei ela comentou de uma poesia que leu chamada “A mulher Ideal” e adorou. A Nivea diz que foi fisgada pela poesia. Dali em diante ela começou lentamente a se interessar por mim e ver que aquele meu jeito estranho tinha conserto.

Uns dias depois do aniversário da Jana, combinamos de sair. Só que eu me esqueci. A galera ficou esperando eu ligar, mas eu estava jantando com minha família, totalmente alheio ao lance que havia marcado. Quando cheguei em casa que me lembrei. Já tava bem tarde. Já tinha passado da meia-noite e eu liguei pra casa da Janaína. A Nivea antendeu o telefone e na voz dela notei que ela tava meio puta. Disse que a galera esperou e depois foram embora achando que eu não ia mais. Estava muito tarde e ela desistiu de ir.

Era uma boa oportunidade de ficarmos a sós e eu consegui (com um certo custo) convencer a Nivea de sair só comigo para um lugar lá perto da casa da Janaína.

Nos encontramos e fomos para um barzinho totalmente vazio. Ficamos conversando durante horas e horas. Rolando o maior clima, mas eu não tinha coragem de chegar junto. Eu estava timidaço.

Quando levei ela pra casa, enquanto caminhávamos, eu ia no caminho pensando em como dizer pra Nivea que eu queria namorar com ela, e não apenas ficar. Eu estava bem enferrujado nas artes de “pegar mulher” e temia que se errasse o jeito colocaria tudo a perder.

Na hora de nos despedir ainda ficamos conversando um bom tempo, até que eu tomei coragem e pedi para namorar com ela. Ela topou. E foi assim que começou.

Eu fui embora pra casa levitando dois palmos acima do chão. Passei no corôa que vendia flor e mandei entregar uma dúzia de rosas pra ela.  A primeira de muitas.

Mas veja como são as coisas, se eu tivesse demorado no elevador, não pegaria aquela mesa no bar, não teria encontrado a Janaína e suas amigas, não teria conhecido a Nivea.

31 Comentários

  1. Fernando Kling 23 de janeiro de 2008
  2. Verena 23 de janeiro de 2008
  3. Moisés 23 de janeiro de 2008
  4. Philipe 23 de janeiro de 2008
  5. Erika 23 de janeiro de 2008
  6. FabianoK 23 de janeiro de 2008
  7. Leandro Carrasco 23 de janeiro de 2008
  8. Amósis 23 de janeiro de 2008
  9. Lu 23 de janeiro de 2008
  10. Vivian Martins 23 de janeiro de 2008
  11. vale1clique 23 de janeiro de 2008
  12. Luke 23 de janeiro de 2008
  13. mayra 23 de janeiro de 2008
  14. Vanessa 23 de janeiro de 2008
  15. Daniela BH 23 de janeiro de 2008
  16. Philipe 24 de janeiro de 2008
  17. Ester Beatriz 24 de janeiro de 2008
  18. Emilio 24 de janeiro de 2008
  19. Philipe 24 de janeiro de 2008
  20. JoW Lee Ana 24 de janeiro de 2008
  21. Philipe 24 de janeiro de 2008
  22. ciyamane 24 de janeiro de 2008
  23. Philipe 24 de janeiro de 2008
  24. Thiago 24 de janeiro de 2008
  25. Marcelo BSB 10 de julho de 2008
  26. Philipe 10 de julho de 2008
  27. Lucas 14 de janeiro de 2009
  28. Philipe 14 de janeiro de 2009
  29. jow 17 de maio de 2010
  30. Helena Maris 6 de dezembro de 2010
    • Anônimo 6 de dezembro de 2010


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