Como lidar com um impertinente de lotação

Existem diferentes tipos de impertinentes de lotação. Não pretendo fazer nenhum tratado sobre esses seres desprezíveis aqui, mas apenas registrar um momento fugaz do passado que me ocorreu outro dia num almoço com minhas amigas do trabalho.

Naquele tempo eu estava num ônibus semi cheio.

Um ônibus semi-cheio é algo variável de cidade para cidade, sobretudo da hora relax para a hora do rush. Mas naquele momento, o semi-cheio significava apenas todos os lugares ocupados.  Eu e meu irmão havíamos pego o ônibus e em um milagre matemático desses que não se explica, havia dois lugares livres no busum. Todos os dois no corredor (querer janela tb é demais!) e um na frente do outro. Sentamos ali e ficamos batendo papo.  Eu conversava com meu irmão animadamente quando a dona que estava do meu lado levantou-se e puxou a cordinha, saindo do lugar. Pela lógica, tudo era óbvio. Meu irmão levantou-se para sentar ao meu lado, mas do nada, numa velocidade estupenda uma bunda gigante jogou-se no espaço vago. Era um gordão daqueles que você se pergunta se seriam produtos de uma degeneração genética da espécie humana ou apenas uma comprovação de que alienígenas existem. Não era novo, nem velho. Era apenas gordo e feio. Meio careca, com cara de critico boçal de cinema. Aqueles que gostam de dizer que filme bom é filme iraniano de título hermético.

Tudo bem. Contive meu impulso assassino aprendido com ninguém menos que Gelson, e mantive a aparência serena de um monge tibetano. O busocão ia se sacudindo de modo rotineiro e a cada “zig” o filho da puta ia pro “zag”. Talvez culpa de seu volume adiposo, sei lá.

Então eu olhei para o meu irmão no banco de trás e nem precisei dizer nada.

Eu dei uma PUTA DUMA TOSSIDA NA CARA DO BALEIÃO.

Foi uma daquelas tossidas que você consegue sentir as ondinhas de catarro subindo pela sua garganta em direção ao olho do incauto companheiro de viagem.

O cara fez uma cara de “caralho!” pra mim. E tão logo eu terminei minha tossida o meu irmão emendou:

-Porra, que foda hein?

E eu:

-Cof, cof, pois é.

-Cara tá tomando o remédio ainda?

-Não. Parei.

-Que isso, maluco! Pirou cara? Quer morrer? A médica não falou que não podia parar? Que essa merda aí mata?

-Pois é, mas eu parei de escarrar sangue. Achei que tava bom. Agora voltou pior.

-Porra, cara,. Minha mãe sabe que você parou de tomar o remédio de tuberculose?

-Não. Eu não falei nada. (pigarreando com força. Tudo pela interpretação, né?)

Nisso o gordão ali do meu lado começa a ficar meio azul. Notei que desde a tossida na cara ele estava congelado. Acho que tava prendendo a respiração, coitado.

Em menos de um segundo após o meu pigarro escatarrento do fundo do meu âmago, o baleião levantou e desceu do ônibus. Acho que nesse dia ele tomou banho de álcool.

Eu e meu irmão tínhamos esta mania de mudar de assunto do nada, sem aviso, sem piscadela sem nenhuma indicação que estávamos em “sacangem mode on”. Um dia na barca me lembro que estávamos conversando e notei que o maluco do nosso lado estava descaradamente prestando atenção na nossa conversa.

Pois então começamos algo mais ou menos assim:

-Mas e aí? Matou? – Lancei eu ao léu. Bem assim mesmo. Completamente fora de todo o contexto da conversa. Quando acontecia isso, ele já sabia do que se tratava e emendava.

-Matei.

-E ele? Chorou igual mulherzinha, né?

-Porra, pediu pelo amor de Deus e tudo. Disso que tinha filho, filha, gato, papagaio, periquito. O escambau a quatro.

-Pô cara você não ficou com remorso de matar o cara não?

-Eu disse, sai do carro ô filho da puta. E ele não saia. Aí já viu. Não pode perder a moral.Sabe como é…

-Sei. Outro dia eu apaguei um também.

-Faca ou pistola?

-Pistola. Faca ninguém usa mais. Só o… Porra como é que é o nome dele?

-Quem juvenal?

-Não, aquele grandão. Meio mongo. Um que tem uma cicatriz na cara… Lá do Turano (um morro do Rio)… Sabe quem?

-Ah, sei… Porra ele tem um nome estranho. Tipo Jaburú, jabruré…

– Ah! Lembrei. É Harakiri. O cara é maluco. Mata com faca. Da última ele arrancou a cabeça.

-Caralho, arrancou a cabeça com faca?

-Arrancou, maluco. O cara tem o maior bração. E a porra da cabeça não soltava. Ele começou a rodar a cabeça do PM. Custou a arrancar.

– E depois?

-Depois ele jogou lá de cima. Caiu na casa de alguém (risos maníacos)

Nisso, o velho do meu lado está com o jornal enfiado na cara. Eu noto um leve tremor em suas mãos. E continuo.

– Mas sabe, cara. Tipo, aí ele jogou a cabeça lá e a galera aplaudiu. Parecia coisa de olimpíada. (risos maníacos)

– Porra. Sinistro. Tiro tudo bem, Mas faca é foda. Faca é pra capa do Povo. Não sei como ele dorme.

-O cara não dorme, meu. Ele fica ligadão na Brisola lá direto. Mas o pior não é isso.

-Ah. Para.

-Sério, maluco. Nesse dia o povo aplaudiu e o cara tipo deu uma piarada lá. Ele viu uma dona que tava olhando, vendo (ênfase) assuntos que não lhe diziam respeito.

-Esses tem que matar mesmo.

Nisso o maluco do nosso lado quase entra com o corpo todo no jornal.

-Aí ele foi lá e pegou a dona, cara. Puts.

-Cruel?

-Porra, cara nem precisava. A galera até pediu pra pegar leve com a tia.

-Mas nego encherido tem que se foder mesmo. Fica com a butuca no assunto dos outros. Tem mais que se ferrar. Dona fifi se fufú! (risos maníacos)

A barca não tinha nem completado 60% da viagem e o maluco dobrou o jornal e saiu, todo duro, sem olhar pra trás. Aposto que daquela testa ali escorria uma gotinha suplicante de suor.

Mas é fogo. Hoje em todo lugar, com cada vez mais gente nas cidades, está impossível conversar em paz, sem que se forme uma espécie de platéia julgadora silenciosa ao seu redor. Não dá pra falar nada escabroso, porque sempre tem um desgraçado ali de butuca ligada. Outro dia eu estava num restaurante nipo-chinês do centro conversando com a Denise. Eu contava pra ela uma história muito da escalfobética que por “N” motivos não posso me dar o luxo de contar aqui, mas que é muito, muito bom mesmo. A cada reviravolta na história a Denise vibrava. Eis que eu conto a história quando uma pessoa na mesa ao lado que nunca vi mais gorda, vira pra nós e comenta.

-Olha, me desculpa, eu sei que não tenho nada a ver com isso, mas tenho que falar. Essa história é muito boa. è sensacional. Isso aconteceu mesmo?

E então o papo a dois vira um papo a três e eu continuo contando a parada.

Surreal?

Surreal não. Gump.

40 Comentários

  1. el_matador 6 de agosto de 2008
  2. guga baade 6 de agosto de 2008
  3. el_matador 6 de agosto de 2008
  4. Bia 6 de agosto de 2008
  5. Philipe 6 de agosto de 2008
  6. Josué 7 de agosto de 2008
  7. Kblo 7 de agosto de 2008
  8. Anderson 7 de agosto de 2008
  9. xandih 7 de agosto de 2008
  10. camilo vitorino da costa 7 de agosto de 2008
  11. Michele 7 de agosto de 2008
  12. Denise 7 de agosto de 2008
  13. Danilo - Autozine 8 de agosto de 2008
  14. Wid 9 de agosto de 2008
  15. Philipe 9 de agosto de 2008
  16. jean 15 de agosto de 2008
  17. Israel Bastos 28 de agosto de 2008
  18. juliana 11 de maio de 2009
  19. Flávia 22 de maio de 2009
    • Philipe 22 de maio de 2009
  20. Luciana 26 de maio de 2009
  21. ELV.VITAL 28 de julho de 2009
  22. nicanor 19 de abril de 2010
    • Philipe 19 de abril de 2010
      • nicanor 19 de abril de 2010
        • Philipe 19 de abril de 2010
          • nicanor 20 de abril de 2010
  23. Carlos 24 de abril de 2010
    • nicanor 2 de maio de 2010
      • jhonny 12 de novembro de 2010
  24. ROMEU 29 de maio de 2010
  25. Gabriel 25 de junho de 2010
  26. Rangel 19 de outubro de 2010
  27. JHONNY 2 de novembro de 2010
    • Philipe 3 de novembro de 2010
      • JHONNY 3 de novembro de 2010
  28. Alexandre Bassani 2 de fevereiro de 2011
  29. Alexandre bassani 2 de fevereiro de 2011
  30. Sylvia Neta 24 de março de 2012
  31. doutrinador o cavaleiro de cri 23 de abril de 2012


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