As vezes em que eu quase fiquei cego

Certas pessoas parecem predestinadas ao sucesso. É relativamente comum vermos pessoas que desde a mais tenra idade manifestam pendores artísticos, políticos, etc. Nelson Rodrigues já dizia que até o ato de ser puta é algo de origem vocacional na mulher. Eu penso sobre as coisas que me acontecem e quase sempre fico com uma certa sensação de que eu tenho uma capacidade única de me ferrar. Talvez seja esta minha habilidade vocacional máxima. A de me ferrar. Vejamos:


Plástico derretido no olho

Eu estava tomando banho. Eu gostava de tomar banhos longos, quentes e musicais. Para tal eu levava meu rádio para o banheiro e colocava ele em cima do cesto de roupa suja. Metia o rock no útimo volume e brincava de guitarrinha imaginária em baixo d água. Era comum eu só terminar o banho quando sentia um forte cheiro de queimado vindo do chuveiro. A temperatura no fio ficava muito quente e ele começava a derreter, soltando um fedor horrível, que me obrigava a terminar o banho. Num daqueles dias, eu estava tomando um banho super quente enquanto ouvia Eagles tocando Hotel California.

Foi quando uma explosão aconteceu. Foi um estouro alto no chuveiro, e eu instintivamente olhei pra cima.
Foi olhar e sentir uma coisa quente, como se fosse uma agulha em brasa entrar no meu olho. Eu dei um pulo. Aquela merda queimando, queimando…

Me desesperei. Para piorar, estava tudo escuro.

Estava escuro porque eu sempre gostei de tomar banho em completa escuridão. Mas mesmo que tivesse luz, não iria fazer diferença nenhuma, já que eu estava com o olho fechado, apertando com a mão. Gritando um monte de palavrões.
Eu corri molhado pelo banheiro. Quase caí. Peguei a toalha tateando. È uma merda sentir dor. A gente não faz nada direito. Peguei a toalha e me enrolei como pude.
Tateei pela parede até achar a porta e consegui sair do mundo escuro, fumacento e com cheiro de queimado. A primeira pessoa que me viu gritando todo molhado e com a toalha a me cobrir mal e porcamente as partes baixas foi a Edna.

A Edna era aquela empregada meio maluquinha que tinha disritimia e dormia na cama da minha mãe sempre que a gente saía de casa. A Edna ficou desesperada e não sabia o que fazer. Era hora do almoço e ela estava fazendo a comida. Quando me ouviu gritar largou tudo no fogo e foi ver.

E aí ao invés de ajudar, ela só correu de um lado para o outro perguntando o que havia acontecido com meu olho. E eu só gritava em desespero. Ficava aquela merda queimando e eu tinha certeza que estava cego.
Por sorte a minha mãe chegou em casa bem naquela hora. Ela se assustou com a cena de me ver pelado, molhado, com shampoo na cabeça segurando o olho e gritando enrolado numa toalha que ameaçava cair e a Edna feito uma barata tonta em volta.
Minha mãe, acostumada a me ver em situações escabrosas, não pensou duas vezes. Me levou para o quarto, vestiu uma roupa em mim, ( a primeira que ela viu) e me carregou para o oftalmologista que ficava relativamente perto do meu prédio. O olho ainda queimava, mas já estava doendo menos.
Chegamos lá. Minha mãe disse que era emergência, mas nem precisava, afinal ali estava um sujeito vestindo a roupa mais descombinada da face da terra com a mãe segurando tão forte no braço que poderia deslocá-lo com um puxão, e ainda por cima com o cabelo molhado despenteado segurando uma gaze no olho e com a orelha cheia de espuma de sampoo.
A emergência era um tanto quanto óbvia, embora eu reconheça que o quadro estava mais para emergência psiquiátrica.

A doutora já estava -coitada – na porta para ir almoçar. Ela ficou puta. Voltou lá pra dentro comigo.
Mandou que eu sentasse na cadeira com aquela sutileza e delicadeza de um torturador do DOPS, pegou umas coisas que eu não vi o que era e começou a examinar meu olho. A minha mãe do lado, segurando a minha mão, certa de que eu iria desmaiar. ( acontece que desde o dia em que eu resolvi personificar o “Homem Pássaro” e cortei a testa, indo parar na emergência e fui violentamente contido por seis médicos, nunca mais consegui me sentir bem em hospitais.)
Ela mandou que eu abrisse o olho. Mas o problema é que em função do estresse da situação e o fator “K” (K-GAÇO) eu não abria aquele olho nem a pau! A médica, que já estava meio frustrada de não poder ir almoçar, começou a ficar mais… digamos, estressada? Não, não. Ela ficou foi puta pra caralho mesmo.
Eu só lembro ela virar pra mim:
– Ah, não vai abrir o olho não é?
E então eu realizei que estava prestes a adentrar pujantemente no fator “F”.

Ela abriu meu olho com uma coisa igual a um alicate. Algo parecido com um fórceps de metal e sem anestesia, sem avisar, sem pedir e nem ao menos cantar uma musiquinha, ela pegou uma puta duma pinça enorme e enfiou no meu olho!
Putaquipariu! Senti a dor toda novamente.

Ela começou a futicar no meu olho. A cena era bem horrível. Posso calcular pelo grau de aperto que a minha mãe dá na minha mão. Ao longo de mil e uma merdas, eu aprendi a calcular o grau do nivel “F” que estou passando pelo tanto que a minha mãe aperta a minha mão.

Num determinado momento em diante eu não estava mais no consultório escuro da olftalmologista do Dops. Eu estava num lugar bonito, como aquele morrinho verdejante do papel de parede do Windows Xp. Os pássaros cantavam e as nuvens passavam no céu. E eu estava feliz.

Eu acho que a merda era tamanha que eu saí do corpo. Não sei se estar em coma é ir para este lugar ou não. Não sei se imaginei este lugar para compensar a situação ESCROTA que estava passando ali. Mas o fato é que o mecanismo de fuga funciona como o último fusível cerebral para momentos de aperto.

Convenhamos que era parecido com ir ao dentista. Só que ela estava obturando o meu olho!
Quando dei por mim, ela estava fazendo um curativo no olho e me receitou uns colírios cicatrizantes. Aquela merda doeu por uma semana e por quase um mês foi como ter um cisco permanente na vista.

Depois que o olho começou a melhorar é que nós conseguimos efetuar uma perícia no chuveiro. O calor dos banhos ultra-quentes provocou o derretimento dos fios. O derretimento foi lentamente subindo pelos fios até chegar num ponto em que os fios se encostavam. O plástico dos fios derreteu e eles se encontraram bem naquele lugar onde tem uma pecinha que parece um pedaço de lego. Esta coisa preta derreteu como chocolate. E na hora que estourou, um pequeno pedaço incandescente desse cremoso plástico, atingiu meu olho.

Formol no Olho

Nós tínhamos uma casa em Cabo Frio. E quando você tem casa de praia, acaba sacrificando todo e qualquer final de semana de sol, onde você poderia viajar para mil lugares para ir para o mesmo lugar de sempre fazer as mesmas chatas tarefas de sempre, cortar a grama, arrumar o portão, limpar a churrasqueira, etc.
Eu gostava de ir para Cabo Frio porque lá eu podia mergulhar.
Num desses dias, eu estava mergulhando e vi no fundo um filhote de tubarão enrolado num bolo de linha. Eu desci até lá e peguei o coitadinho. Mas ele já estava morto. Então eu pacientemente desenrolei ele daquele bolo de linha e voltei com ele para a praia.
Eu segurava aquele filhote de tubarão como um belo troféu que mostrava como eu era um mergulhador valente.
Resolvi que ia levar o tubarão para casa e empalhá-lo. Eu sempre quis ter um grande tubarão branco empalhado para mostrar para meus netos e contar aquela fantástica história sobre como eu consegui matar o monstro com apenas uma faca.
Mas o fato é que aquele era um filhotinho minúsculo, do tamanho do meu antebraço.
Levei ele pra casa num plástico com gelo.
Voltamos de Cabo Frio para Niterói e eu fui na farmácia comprar os materiais necessários.
Eu sabia que para empalhar um animal (taxidermia) eu precisaria de algodão, formol e seringa.
E assim eu fiz.
Comprei formol e seringa na farmácia.
Neste momento minha mãe falava com a minha avó no telefone da sala equanto eu empalhava o bicho na varanda. Eu pegava a seringa e aplicava o formol ao longo do corpo do tubarãozinho. Tudo ia bem até que eu resolvi aplicar formol na ponta do nariz dele.
E a agulha empacou. O formol não saía de jeito nenhum. ( óbviamente, o retardado mental tentava aplicar formol no meio de uma cartilagem)
E eu comecei a ficar puto. Aí eu decidi que seria o tubarão ou eu. Eu não podia ser vencido por um filhote escroto de tubrão. Eu ia vencer custasse o que custasse. Me inclinei sobre o animal, usando as duas mãos eu fiz toda a força que eu podia empurrando o êmbulo da seringa numa pressão alucinante. Eu já estava forçando a pressão na seringa por alguns segundos. Lembro que fiz ainda mais força. Apliquei toda força que eu tinha em cima daquela seringa que era MADE IN ARGENTINA.
Eu já estava tremendo de tanta força quando aquela porra estourou.
Assim, deliberadamente, a seringa separou a agulha do corpo da injeção e o formol maldito foi borrifado nos meus dois olhos.
Eu caí para trás na hora com as mãos no rosto. Eu parecia aquele goleiro malandrão do episódio da Rosemere fogueteira nos anos 90.
Eu rolava gritando: – Fiquei cego! Fiquei Cego!!!!
Minha mãe novamente se viu na situação de encerrar a conversa com a minha vó e ir socorrer o filho que mais uma vez, vocacionalmente, se ferrou.

O formol quando cai no olho arde BEM MAIS que plástico derretido. É uma sensação parecida com fazer um colírio usando seis hall´s preto mais um vidrinho de Vicky Vaporoub, duas colheres de álcool absoluto e duas gotinhas de ácido sulfúrico.

Naquela hora eu estava certo que estava finalmente cego.

Por sorte, a gente tinha água boricada em casa e a minha mãe lavou meus olhos com isso. A água boricada diminuiu bastante a queimação alucinante que o formol dava.
Depois de suas horas de sufoco o olho parou de arder. Eu fui no espelho e vi que o branco do meu olho não era mais branco. Era um rosa puxado para vermelho.
Eu vi um bilhão de capilares dilatados. Eu devia ter tirado uma foto do estado do meu olho naquele dia. Parecia coisa de filme. No dia seguinte, eu acordei com a situação oposta. O branco do olho estava no nível mais branco que eu jamais havia visto em toda minha vida. Não havia nenhuma veiazinha aparente. Parecia que eu tinha lavado o olho com OMO – “o branco que sua família merece”.

Super Bonder no olho

O episódio da super bonder no olho foi o mais retardado e o mais tranqüilo de todos, porque eu consegui fechar o olho a tempo.
Quando a gente usa muito a Super Bonder, essa da bisnaguinha, é normal descobrirmos que mais da metade do volume da bisnaguinha é ar que aquela empresa safada coloca. Só isso já era motivo mais que suficiente para processarmos a Loctite, mas o pior não é isso.
O pior é aquele biquinho sacana que a Super Bonder tem. Sempre que terminamos de usar uma gotinha sobe por aquele biquinho e se solidifica numa bela tampa de cristal na ponta do bico.
Aí o primeiro reflexo (um reflexo bem mongol, diga-se de passagem) é pegar a bisnaguinha e apertar ela pra ver se sai a cola. Apertar pra ver se desentope.
Não. Não desentope. O que acontece apenas é que mudamos a pressão interna dentro do caralho da bisnaguinha.
E aí é que temos a brilhante idéia de pegar uma agulha e – Virando o buraco do bico da cola bem na mira do nosso olho – perfurar a cola solidificada no bico.
O que acontece então é uma bela mijada de Super Bonder no nosso olho.
Nesse dia eu consegui fechar o olho bem a tempo e só colei a minha pálpebra. Mas isso foi suficiente para aquela merda queimar lá dentro feito fogo. Corri no banheiro peguei um chumaço de papel higiênico e tasquei em cima.
Maior cagada porque agora eu estava com o olho ainda queimando e um curativo bem bonito de papel higiênico e os dedos colados na cara. Sem falar de uma bela cascata de cola escorrida que descia pelo meu rosto indo até o pescoço e colando a camisa nele.
Era uma cena digna do Mister Bin. E o pior é que foi tudo em menos de dez segundos em absoluto silêncio, porque não ia adiantar nada gritar, já que aquele era um fim de semana e eu estava sozinho em casa.
Com aquele treco colado na mão, no papel, no olho e na camisa eu peguei coma outra mão e abri a torneira. Enfiei a cara debaixo da torneira e tentei jogar água para tentar acalmar o calor.

O processo de endurecimento do cianocrilato ( o componente da super cola) é baseado na geração espontânea de calor, que provoca a evaporação imediata e cristalização de um meio específico. Na verdade, a super cola provoca até combustão espontânea tamanha sua capacidade de gerar calor.
Não crê? faça a experiência: Compre umas quatro bisnagas de super bonder. Pegue um pires velho e coloque uma bola de algodão ali. Então usando óculos de proteção, derrame o mais rápido que puder todo o super bonder sobre o algodão. Afaste-se e espere. Ele vai pegar fogo! Mas se não quiser fazer, veja este video:

Spontaneous Combustion ! – How To….The best home videos are here
Bem, depois que a queimação aliviou, eu comecei a molhar e passando sabonete em cima, mexer com a mão, lentamente a cola foi se soltando e eu consegui abrir meu olho. Estava vermelho mas estava inteiro e funcionando.

Tiro de metal na reta do olho

Fora esta experiência do Super Bonder, eu quase fiquei cego tentando cortar um pedaço de metal. Eu usei um alicate de corte e fiz tanta força que aquele treco deu um tiro. Disparou e me acertou os óculos.
Quando eu tirei os óculos para ver, o pedaço de metal havia feito um pequeno buraco na lente. Fraturando-a bem na reta do meu olho.

Essa foi por pouco.

89 Comentários

  1. Cristhine 12 de setembro de 2007
  2. Alexandre 12 de setembro de 2007
  3. Philipe 12 de setembro de 2007
  4. fernando_kling 12 de setembro de 2007
  5. Maicon 12 de setembro de 2007
  6. Rochester Oliveira 13 de setembro de 2007
  7. Daniel 13 de setembro de 2007
  8. Alessandro "ALEH" Andrade 13 de setembro de 2007
  9. Felipe F3 13 de setembro de 2007
  10. maikon 15 de setembro de 2007
  11. Debora Behar 16 de setembro de 2007
  12. Philipe 16 de setembro de 2007
  13. renato 19 de setembro de 2007
  14. fsaf 3 de fevereiro de 2008
  15. Ana 10 de fevereiro de 2008
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  22. tiza 27 de setembro de 2008
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  30. catiroba 5 de agosto de 2009
  31. carlos 7 de agosto de 2009
  32. carlos 7 de agosto de 2009
  33. Caroline 2 de setembro de 2009
  34. porigueita 2 de setembro de 2009
  35. Flavia Rodrigues 7 de outubro de 2009
  36. carla duna 26 de novembro de 2009
  37. Pedro 27 de novembro de 2009
  38. daniel 11 de dezembro de 2009
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  41. Imoveis zona norte 20 de fevereiro de 2010
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    • Philipe 22 de julho de 2014


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