A última canção de amor

Preparou o jantar com esmero. Havia estudado antes, uma semana para ser exato, a fazer aquele prato com certa desenvoltura.
O nome do prato não interessa, até porque não faz a menor diferença. Mas era algo com funghi. Algo para impressionar.
Comprou também o vinho, que era de boa safra. Custou caro, escavou o fundo do bolso, quase chega ao magma para poder botar um vermelho de qualidade naquela taça.

Emprestada, mas pelo menos era de cristal-boro vindo da Prússia. Antiguidade, daquelas que vêm cheias de recomendações.
A casa foi arrumada com tal cuidado e meticulosidade que chegou ao ponto de botar uma regua e medir nos milímetros a distância dos livros na mesa de centro, cuidadosamente arrumados para dar um ar displicente.
A roupa era nova, incluindo as cuecas, porque afinal, sabe-se lá se o sucesso daquela noite lhe bateria à porta metida também numa langerie empolgante?


Tentou não pensar nisso. Concentrou-se em não errar o ponto da massa.
Olhava as horas com insistência como se isso fizesse o tempo mais rápido. Mas não deu certo. Já era quase meia noite.
A musica fez falta e logo ele baixou a luz e colocou Stan Getz pra rodar, mas depois achou que estava sofisticando demais. Não pareceria natural. Quem afinal escuta Stan Getz numa quinta feita à noite sem ter ganhado preventivamente na loteria?
Assim, trocou e botou Caterina Caselli, tentando ignorar que aquilo deixava as apostas ainda mais altas.


Musiquinha italiana, massinha com funghi e um vinho, claro, com designação de origem.
Antes que a garrafa fosse aberta, a campainha anunciou sua chegada. Esperou que tocasse duas vezes, afinal, não é de bom tom que se abra no primeiro toque ou pareceria que a arapuca estava armada.
Ela chegou e no beijo, ele sentiu o sabor do batom. Ela estava mesmo ali.
Passou pela porta e logo ela viu a mesa arrumada. Tudo em seu lugar.
O sorriso cristalizou as verdades não ditas. O olhar antecipou-lhe o futuro.  A noite prometia.


Ela tirou a echarpe e sentou-se no sofá, mantendo o recato e educação já esperados.
Ele trouxe uns petiscos. Ficaram ouvindo Caselli cantando. Cantava bonito a tal da Caterina Caselli.

Em poucos minutos estavam se agarrando, já quase nus e nada daquilo tudo fez grande diferença.


O que fez realmente uma grande diferença foi a lua cheia no céu.
Assim que ela surgiu na janela ele percebeu que havia cometido um pequeno erro. Mas já era tarde.

Caiu por cima dela, tentando segurar as contrações. Fez menção de se levantar. Queria fugir, se trancar no quarto, mas ela o segurou.
A infeliz pensou que era um ataque epiléptico, mas nem sequer conseguiu sair de baixo dele. Não houve tempo sequer para um grito de pavor diante da aberração que se transmutava diante dos seus olhos emoldurados em rimel.

As garras e os dentes rasgaram sua pele numa profusão de sangue e carne.
Os urros gorgolejantes Explodiram do peito peludo da besta. O monstro saltou pela varanda e fugiu em direção ao cemitério, deixando para trás a devastação sanguinoleta.


Caterina Caselli ainda tocava na vitrola uma canção de amor.

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4 comentários em “A última canção de amor”

  1. “…entre amar e matar não sobra espaço
    Quanta lâmina rente ao meu abraço
    E cristais de arsênico em meu beijo
    Vão matar o que mais quero…”

    Canção de Lobisomem
    Guinga et al

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