Tentando a minha própria distorção temporal

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Ontem antes de ir dormir eu acabei postando aquele vídeo da distorção temporal e enquanto tomava banho para deitar, acabei me sentindo compelido a tentar fazer o treco. Sem muitas esperanças, juntei os bagulhos. A câmera estava ao alcance da mão, com bateria, com lente clara, tripé… Fui até a varanda e vi que a noite estava adequada, sem muitas nuvens e com boas estrelas, apesar de que no condomínio onde eu moro nego colocou umas luzes alaranjadas potentes pra dedéu que ficam acesas até raiar o dia, e é muita luz. Aqui tá foda! De dia o sol vem de cima. Agora, de noite, o sol vem de baixo.
Isso atrapalhou legal. Outra coisa que eu não podia prever é um repentino aparecimento da lua. Eu não tinha nenhuma dica nem carta celeste para prever o que iria aparecer. Aqui está no que deu:

O resultado do meu primeiro time lapse, de míseros 12 segundos, ficou meia-boca, mas me ajudou a compreender melhor algumas coisas, que implementarei no meu próximo teste dessa técnica.
Como é feita a parada:

Você tem que ter uma câmera que possa configurar a abertura do diafragma para o máximo possível. geralmente só dá pra fazer isso legal nas maquinas “reflex” de espelho. No caso, a minha é uma DSLR Canon 3Ti. Eu usei uma lente clara de 50mm e este foi um dos meus erros.
Não pela lente clara, mas por ser 50mm. Em termos didaticamente leigos: Em geral, as lentes funciona assim, quanto maior o valor em milímetros, mais “de zoom” a lente é. Assim, uma de 200mm vai ter mais “zoom” que uma de 50mm, que por sua vez tem mais “zoom” que uma de 12mm. Se fosse só isso tava bom, mas ainda entra aí a questão da claridade da lente. Algumas lentes deixam passar mais luz que outras. A regra é fácil, quanto mais luz passa, melhor é. E infelizmente, mais cara a lente também. Há outros fatores que aumentam os preços das lentes, mas que pra este caso, acho que não vão afetar muito o resultado, como estabilizadores óticos e focagem rápida… Não para fotos de estrelas.
No caso da filmagem das estrelas, a logica é inversa a da filmagem da lua. Na da lua, eu quero usar o máximo de zoom que eu puder, então, usei uma lente telescópica de 500mm.

Já nas estrelas, a ideia não é mostrar só uma no meio da tela preta mas sim um pancadão delas, e é por isso que o ideal é usar uma lente grande-angular, ou seja, uma lente que pega muita coisa e bota no quadro. Seria mais ou menos um tipo de “lente anti-zoom”.

O que ficou claro no meu teste é que é fundamental um tripé firme, um cartão de grande capacidade, porque a sequencia é captada TODA em formato RAW, que come muito espaço e baterias! Bateria é uma coisa fundamental, porque o contínuo bater de fotos, acesso e gravação no cartão, mais o visor lcd ligado direto consomem muito. Solucionei isso com o grip vertical, que permite enfiar duas baterias na maquina de uma vez só. Assim, já dá o dobro da performance.

Outro problema é que para fazer um bom timelapse como aqueles inigualáveis lá (os caras são profissa e vendem os videos deles até pro Discovery.) do último post é que precisa de um lugar escuro como um BREU. Sabe quele lugar tão escuro que dá medo? Pois é. O ideal é assim. Não dá pra ser no meio da cidade que é onde eu moro, porque o brilho da luz da cidade afeta o resultado final, a menos que role um daqueles apagões épicos.
A escolha do dia, aliás, da noite, me parece de suma importância, já que em dias nebulosos, não vai pegar legal muitas estrelas. O bom é quele dia típico de maio, que dá aquele céu azulão, sem nenhuma nuvem, e de preferência com lua nova. Aí fica style o bagulho.

Fazer o timelapse em si é uma coisa facílima. Ou você usa um intervalômetro ou instala o magic lantern (vale a pena!) e soluciona isso “na faixa”. Basicamente é uma setagem que diz para a maquina que você quer que ela comece a bater fotos feito louca, de X em X tempo. Aperta o disparo e ela começa. E é lindo quando as coisas simplesmente funcionam.
Mas como tudo na vida, já deu pra perceber que o buraco é mais em baixo. Eu tava la todo pimpão tentando fazer o meu primeiro timelapse da vida, em ignorei algumas coisas simples, que servem não só para o timelapse, como para fotografia espacial em geral:

  • Pegue a distancia focal da lente e divida 600 por ela. Vai dar um valor. Este valor é o tempo de exposição ideal para esta lente. Assim, se sua lente é como a minha, 50mm, então 600:50 =12 segundos de exposição.
  • Outra coisa é que como a lente é clara, 1:1,8 então isso quer dizer que ela poderia ficar mais “aberta” a entrada de luz, o que podemos compensar, reduzindo o ISO. Isso é fundamental, porque com quanto menor o ISO, mais nítida a imagem ficará e com menos tendência ao granulado. Mas tem que balancear, porque o ISO mais alto também ajuda a captar estrelas que só vão aparecer (como magica) na sua foto depois.
  • Mais um macete, é desligar o IS. O IS é a estabilização de imagem da lente. Parece bizarro? E é mesmo bizarro imaginar que a lente vai fazer uma imagem mais nítida no tripé se o IS estiver desligado. Estranho pensar que desligando a estabilização a imagem fica mais nítida…
  • Se grana não for problema na sua vida como é na minha, o ideal é pegar uma maquina full frame para fazer isso, já que uma Canon T3i tipo a minha, tem um sensor CCD menor, e portanto, capta menos área. Obviamente que isso é contornável se você usar uma lente grande angular que compense essa diferença (claro que não estou dizendo que é a mesma coisa, mas financeiramente, se você não pode partir de cara para uma 5D, é uma solução coerente).
  • O lance funciona assim: Se você deixa entrar mais luz, a maquina pode ficar captando menos tempo. Senão, entra luz demais e estraga a foto. Dessa forma, se sua lente é mais “escura”, deixando passar menos luz, você precisa deixar a entrada de luz na sua maquina aberta por mais tempo. Só que se você fizer isso demais, o céu vai ficar riscado, já que o deslocamento do planeta pelo espaço fará cada estrela gerar um risquinho na foto. Nem sempre é ruim e pode ser este seu objetivo. Saca só:
  • O ponto referencial – sempre que for fazer um timelapse do espaço, lembre-se de colocar uma casinha, ua pedra, uma planta, uma arvore, ou qualquer coisa que seja, desde que fique imovel, e seja reconhecível. Isso é importante para “situar” o cérebro do observador, senão ele pode pensar que a cena foi feita de uma nave espacial ou de uma luneta.
  • Uma dica importante diz respeito a velocidade do giro do nosso planeta. Se você der a bobeira de setar um intervalo de registro muito grande, terá problemas de flickering no movimento das estrelas. Este foi meu principal erro (pelo menos que eu consigo notar no meu atual estagio de conhecimento semi-nulo de fotografia) já que a Terra gira RAPIDAÇO! Não parece, mas a câmera consegue ver isso melhor que nós dois. O time-lapse dos gringos malucos parece que tem um tempo baixo entre cada batida, e com isso, eles registram a estrela bem perto do mesmo ponto entre cada frame do video. Desse jeito, o arranjo faz com que o movimento de deslocamento dos astros do firmamento seja mais suave e lindo. Fazendo isso, o video dura mais também e registra objetos que passam rápido como aviões e satélites de forma mais bela e nítida.

A parte mais complicada pra mim foi pegar um monte de foto preta e fazer aparecer as estrelas no photoshop. A imagem RAW tem a vantagem de te dar a imagem integral, deixando que você possa usar os controles depois que bateu a foto e não antes. Parece meio magico e confesso que pra mim ainda é um pouco. Com apenas alguns ajustes já brota um pancadão de estrela que estava lá o tempo todo e eu não conseguia ver. Mas a imagem Raw tem muitas manhas, muitos controles, e esta é a parte mais difícil porque não sei o que os gringos fazem para aparecer esse STAR TREK no céu. Nessa parte, se alguém aí souber algum macete, dica, truque, macumba de photoshop… O que vier eu traço e agradeço.
Com o adobe bridge dá pra criar um ajuste padrão baseado numa foto RAW e aplicar todos aqueles controles e presets em todas as trocentas mil imagens de uma vez.
Dica: Demora séculos! Vá ao cinema.

No fim das contas, você vai mandar gerar copias das imagens RAW já ajustadas no formato TIFF com compressão LZW. Pra fazer a joça virar um filminho, é fácil. Pegue o quicktime player de guerra e mande abrir “sequencia de imagem”. (tem que ser versão pro) Escolha as imagens Tiff na pasta e mande abrir. Quando ele abrir, você manda exportar como filme do quicktime. Aí ele pergunta qual a taxa de frames do filme. Basicamente, é o seguinte: Televisão é 30. Cinema é 24 e stop motion eventualmente chega a ser 15. Eu escolhi 24, e confesso que chutei. Talvez se tivesse jogado 30, isso poderia ter reduzido o flickering do meu video. Mas não tenho certeza disso. O que eu sei é que mandou gerar o filminho a partir das fotos, pronto. Espere um cacetão de tempo e tchã! Virou um filme.

A imagem resultante será gigantesca, já que pelo menos a minha maquina só faz o raw em imagens enormes, mas isso pode ser útil, já que sem dindim para comprar uma grua eletrônica ou um tripé de motion control, eu estimo que seja possível controlar o deslocamento de um video enorme sobre o stage de video, usando um combustion ou premiére. Assim, seu video pode ser deslocado horizontalmente, adicionando uma sensação sutil de pan e /ou dolly, que não existia quando você registrou as estrelas. Claro não é a mesma coisa, mas o custo de fazer isso é zero reais!
Eu pensei em adaptar um velho toca-discos, acoplando um “braço” metálico com uma cabeça de tripé nele e assim ir controlando o giro dele com um dimmer. Fazendo isso, talvez seja possível obter um deslocamento sutil e belo como o motion control daqueles caras. Mas aí já é papo para o McGyver!

Estou aberto a macetes e dicas. Eu não sou fotógrafo, então se eu tiver falado uma solene merda aqui, já peço perdão antecipadamente.

Comments

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Luminária Ufo

18 comentários em “Tentando a minha própria distorção temporal”

  1. Philipe, se vc ta gostando desse negocio mesmo o cara la do TimeScape tá fazendo um filme com os videos dele..tá em pre-venda..tem 3 versões…uma só com o video..uma com making-of e outra mais completa (leia-se cara pra burro) onde ele ensina como faz…o lance dos tracks e tal..

    http://timescapes.org/pre_order.asp

    o blog do cara é interessante tbm http://forum.timescapes.org/blog/

    Tem tbm uns videos no vimeo de um cara mostrando como funciona os trakcs

    http://vimeo.com/31817037

    acho que pode te interessar!
    abs!

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    • Pode crer, no alto daquele morrão la deve dar pra fazer umas fotos DUCA! O foda é sair de lá. Principalmente se chover. Sorte que meu carro tem tração, hahaha.

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  2. O maior  observatório do Brasil, que fica em Brasópolis-MG, já perdeu muito de sua capacidade devido ao crescimento das cidades em volta, tem até um astrônomo que fez um estudo sobre isso. Nós desperdiçamos muita energia com lâmpadas viradas para cima  ou sem parte refletiva no topo.

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  3. taí, eu perguntei como fazia, né?
     interessante é este recurso de programar as fotos pra hora que você quiser, não tenho isso, estou com uma G12 da Canon… mas legal essa coisa de usar os RAW…  interessante que as vezes tiro fotos completamente escuras e no tratamento aparece peixes que não dá pra ver no jpeg,(a G12 gera os 2 ao mesmo tempo) divertido gerar o vídeo a partir das imagens, ficou interessante o vídeo, mas as luzes da cidade estouram muito, ainda assim, gostei… a lua ficou interessante, troço meio sombrio.mas poxa… como esses arquivos RAW comem espaço! to me lascando aqui pra lidar com eles.

    e agora no carnaval? não rola uma viagenzinha pro interior pra uma tentativa longe da poluição luminosa?

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    • Opa, eu fiz este post em sua homenagem. Inicialmente ele era minha resposta, mas ficou muito grande e promovi ela a post.
      Eu vou tentar ir para algum lugar mais distante pra ver se consigo fazer um treco menos tosqueira agora que sei onde vacilei no último. De quebra ainda faço um churras na casa da minha sogra, lá em Papucaia (onde o Judas perdeu as meias).
      Como estava com um intervalo muito grande, demorou muito. A noite toda praticamente. Agora que sei que da pra colocar 2 segundos de intervalo, devo matar um desses aí em mais ou menos umas duas horas. O foda é o cartão. Vou ver se levo meu note, aí descarrego nele.

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  4. Eu achei muito legal o que tu já conseguiu, o que tu já aprendeu sobre o processo. Talvez tu estejas sendo um pouco exigente demais contigo mesmo. Mas continuo te acompanhando, e vou ficar feliz de ver o teu progresso.

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    • Não penso que eu esteja sendo exigente. Algo me diz que a minha maquina consegue fazer um video com a mesma qualidade la do video dos gringos (tirando o dolly automatizado que é caro), eu só tenho que aprender como. Vamos ver o que eu consigo arrumar no carnaval.

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  5. Premissa… será que foi com câmera fotográfica mesmo? Não poderia ter sido com câmera de vídeo. E mais… Os gringos não são “malucos” ? Tem gente que não abandonou a película… Não poderia ter sido uma câmera de filmar, portanto?

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  6. De novo eu. Olhei com mais calma o vídeo original, dos gringos. Nunca dá para saber exatamente como cada fotógrafo resolve as questões técnicas de cada sequência, mas dá pra perceber quais teriam sido as soluções utilizadas para cada tomada:
    – tem time lapse;
    – tem HDR time lapsed;
    – tem exposição de dia e de noite sendo repetida seguido de finalização por composição de imagem;
    – tem o uso pontual de recorte (não importa a técnica ou nome, ex.: máscara, chroma key, luma key) ao invés da composição tradicional.

    Não falo do que parece ser dolly´s computadorizados pq não é o foco aqui.
    Atenção: o que falo a seguir serve também para filmes ou vídeos em cor.
    Os filmes tinham o que chamam de latitude ou densidade. Entre o branco total e o preto, a escala de cinza possíveis variavam de filme pra filme. No vídeo e câmeras digitais, é uma porcaria. Independente da máquina, qdo fotografa, vc sempre é obrigado a tomar uma decisão: – qual faixa de luminância vou pegar. Percebo no vídeo dos gringos que tem tomadas que seria impossíveis manter alguma luz na mata e as estrelas sem que estourasse (branco) o céu. (obs.: Por isso que não se vê estrelas nas fotos do homem na lua. Ou fotografava os astronautas exposto ao sol escaldante sem atmosfera ou fotografava as estrelas.)
    Ansel Adams criou um processo intuitivo chamado de escala zonal, para quem fotografa só com fotômetros e não quer se perder nos seus cálculos na hora de fotografar. Mas o mais importante é que se não me engano ele comenta compensações necessárias de tempo a serem feitas para quem fotografa com exposições longas. Procure saber mais detalhes para isso e se vai ajudá-lo também. Qualquer coisa, faça uma chamada aqui, que apareço: – PLIM!

    Abraços
    Henrique

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    • Cara será que os sujeitos lá não usaram um simples refletor de led, desses baratinhos, dimmerizados, para iluminar as arvores e manter a captura do céu? Eu acho que dá e sai menos trabalhoso que fazer duas vezes a mesma sequencia pra só depois compor. Eu tenho um aqui que dá pra regular até ficar suuuper sutil. Ainda mais em árvores, imagina o suplicio de fazer uma mascara num dolly animado? Num dos videos deles, dá pra ver a traquitana do dolly mecânico usada, e não é um daqueles monstrengos de motion control do George Lucas.

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      • A luz das estrelas é ínfima. Qualquer luz sútil tem que ter um primor de precisão. Lembre-se que tem tema de vegetação em primeiro plano e angulado, ou seja, a luz que cai nela em primeiro plano logo esmaece conforme a vegetação tende a ir para o segundo plano. Teria que ter mais de um refletor led e usar a distância do tema para achar o melhor ponto. Nos sites dados por outros aqui com making of, não vi isso, aparentemente. O modo de finalizar as imagens na animação me pareceu a resposta para muita das dúvidas. Está nessa postagem abaixo que fiz anteriormente. é justamente no site dessa truca computadorizada. É uma graça e não é tão cara para o que se propõem. Bem pequena.

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      • Justamente pelos disparos serem computadorizados as compensações de tempo já estão incluídas, tirando o melhor de cada foto. Pesquise isso se for fazer manualmente.

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