O dia que choveu sangue no Brasil

Como nós ja sabemos por posts como este e este, de vez em quando ocorrem chuvas “estranhas” no mundo todo o o Brasil não fica de fora no quesito “dia que choveu algo bizarro”.  Um desses casos curiosos e que se traduzem em mistérios ainda em aberto, se relaciona com uma misteriosa chuva de sangue que teria se abatido em 1968, sobre a região de São José dos Campos

Em 15 de agosto de 1968 houve uma chuva de sangue e carne no Vale do Paraíba. 25 dias depois, voltava a chover carne no mesmo local.

Em 15 de agosto de 1968. Motoristas neste dia na Rodovia Federal BR-116, na Presidente Dutra ou Via Dutra (estrada que liga São Paulo ao Rio de Janeiro no sentido leste-oeste) entre as cidades de Caçapava e São José dos Campos no mesorregião do Vale do Paraíba foram surpreendidas por uma chuva repentina de sangue e carne.

Não havia nuvens visíveis. Deslocando-se ao local, o deputado Marcondes Ferreira deparou-se com uma área de um quilômetro quadrado coberta de sangue e carne. Jornais locais informaram que os tamanhos das carnes, algumas em formato de cubo, de textura esponjosa e cor arroxeada, variavam entre 5 e 15 centímetros.

O céu estava limpo, nenhum avião passou sobre a área antes ou durante a chuva, não havia abutres nas proximidades. Respondendo a isso, a polícia retirou secretamente o material e encerrou o caso, classificando como “inexplicável”.

Os jornais  noticiariam o fenômeno em 30 de agosto de 1968 com manchetes alarmistas:

“Chuva de Sangue e Carne em S. Paulo”.

Embora a notícia fosse de estilo sensacionalista, o jornal apenas noticiou corretamente os fatos, informando que

“há alguns dias ocorreu uma chuva de carne e sangue no bairro de Eugênio de Melo, em São José dos Campos, mobilizando a polícia local para investigar De acordo com o deputado Marcondes Ferreira, […] vários moradores daquela localidade, no dia da ocorrência, viram pedaços de carne e gotas de sangue caindo do céu, sem que nenhum avião ou helicóptero passasse por ali . Chamando a polícia, amostras de carne foram coletadas e enviadas para exame, cujos resultados ainda não são conhecidos.”

 

As carnes eram do tamanho de um bife pequeno, além de apresentarem a já mencionada textura esponjosa e cor arroxeada. Não pareciam ser de pássaros, porque não havia sinais de penas. Foram os trabalhadores que presenciaram o fenômeno, em uma área de aproximadamente um quilômetro quadrado.

A 9 quilômetros da Rodovia Presidente Dutra, na olaria de Pedro Marinho de Sousa, os repórteres do jornal ouviram, na tarde desta quinta-feira, 29 de agosto, alguns trabalhadores que testemunharam a chuva de carne e sangue que provocou o pânico entre algumas famílias por cerca de cinco minutos. Vicente Rodrigues, morador do Bairro da Grama em Caçapava, relatou que estava colocando tijolos em uma olaria, quando a chuva de carne e sangue começou a assustar a todos, inclusive velhos e crianças. Pedaços de 5 a 20 centímetros caíram a meio metro de distância cada um, e um poste de carne atingiu a cabeça do entrevistado. Vicente Rodrigues afirmou que era católico e nunca tinha visto nada parecido na vida, e tinha certeza de que o céu estava limpo e nenhum pássaro passava pelo local naquele momento.

Os oleiros, esparramados, entraram em pânico e criaram um pandemônio ao ver os pedaços de carne viva, sangrando, que caíam sobre as telhas e tijolos, interpretando o fato como a chegada do Apocalipse: “Chefe do Céu, está chovendo sangue!” uma expressão de espanto, José Aparecido, dezessete anos, fugiu com medo. O que caiu em sua cabeça e braços, foram gotas de sangue, de um vermelho arroxeado, e forte. Pedro Marinho, ao ver Marcos dos Santos, 15 anos, correndo aterrorizado, gritou: “Deve ser castigo do céu! Hoje é dia santo e fiz meus funcionários trabalharem!”

Escorreu sangue na olaria do bairro do Paiol, no bairro de Eugênio de Melo, em São José dos Campos. Eram 12h30. O céu, como já mencionado, claro, sem nuvens, sem pássaros. As pessoas estavam todas olhando para o céu azul. Foi lá que Rosalina Moreira Ramos correu para avisar o marido que estava amassando barro:

“Olha. É o fim do mundo, João. Lá na beira da porta tem pedaços de carne e gotas de sangue”.

Ele se atrapalhou para ver se estava sonhando ou mesmo acordado. Parecia miragem, alucinação. Mas não foi. Todos os outros se abaixaram para ver os pedaços de carne, da cor do fígado, sem osso e sem penas. Nada. Carne moída, como se fosse esmagada pela hélice de um avião. Mas então, lembrando o susto, eles raciocinavam:

“Vá, aqui não tem avião, nunca houve um avião. Se ele pegou um pássaro, onde as penas terminaram? É só carne. Isso é uma coisa maldita. O diabo está solto.”

O dono da olaria ficou com “a pulga atrás da orelha”. Isso não era normal. Deixou a olaria no bairro do Paiol e foi para o bairro de Eugênio de Melo. Lá ele entrou no Bar Pinguim e disse ao proprietário, Nelson dos Santos, que ponderou: “Não espere um minuto. Vá à polícia, porque isso não é brincadeira. Você já pensou que problema vai acontecer se você ouvir da morte de alguém próximo? Vá falar com o soldado Ferdinando. Explica o caso. “Pedro repetiu a história na Polícia. Eles não queriam acreditar, mas foram ver. O perito Romildo, com a ajuda da Polícia Técnica, recolheu os pedaços de carne. Os balconistas Ronaldo e Barreti tomaram as declarações. Era um negócio sério. A carne e o sangue caíram nos arbustos e no telhado de casas muito modestas, num raio de 500 metros. Depois que a polícia ficou curiosa. Gente de São José dos Campos, Caçapava, Taubaté, Rio de Janeiro e São Paulo. Mais de mil pessoas em poucas horas.

Vicente Borges de Siqueira, que trabalhava na construção de um forno de olaria, disse que, quando deixou cair um pedaço de carne em seu braço, soltou o tijolo por medo: “A carne estava sangrando. Parecia fígado, marrom escuro . Então, com os gritos dos meus companheiros, vi sangue e carne caindo por todos os lados. Olhei para cima e não havia nada no céu. Nem pássaros, nem aviões. É muito raro ver um aqui. Foi isso que assustou nós e confesso que minhas pernas começaram a tremer. A carne não tinha cheiro ruim. Estava um pouco gelatinosa, esquisita. Ele caiu por dois ou três minutos. Depois vemos outra curiosidade. Secou ao sol e não cheirava mal de forma alguma.

Para João Vidal Ramos, era mesmo “coisa de outro mundo”:

“Moro aqui há muitos anos. Nunca passou um avião sobre esta olaria. Passa longe, perto da montanha. Nunca passou aqui. Não acredito essa história de que um avião pegou um urubu. Se ele pegou um corvo, as penas devem cair com a carne. Isso é uma maldita coisa. É a coisa do outro mundo.”

O vigário da paróquia de Eugênio de Melo, o padre francês Marcel Merck, disse à reportagem que:

  1. Mora a dois quilômetros do local e nunca soube da presença de aviões nas proximidades;

  2. Ele soube de outro ‘mistério’, a poucos metros do local, de uma mulher cujas roupas queimavam sem a presença de fogo no quarto, misteriosamente. As roupas do marido e dos filhos não foram queimadas, apenas as dela;

  3. Ele entende que são eventos misteriosos que o homem ainda não pode esclarecer.”

A rota aérea Rio-São Paulo era feita pelo litoral, até o Morro do Papagaio, a mais de dois quilômetros de altitude, portanto distante de Eugênio de Melo mais de 100 quilômetros.

Nenhuma delegacia registrou nenhum acidente em pedreiras localizadas no Vale do Paraíba. Segundo alguns, pode ter havido alguma explosão de dinamite e a consequente liberação dos pedaços de carne pelo ar. Mas a pedreira mais próxima estava localizada a mais de 20 quilômetros de distância, o que desbancou essa hipótese. Os moradores deste local, com pouquíssimas casas sem iluminação elétrica, começaram a se aposentar no início da noite. Eles temiam “ficar cara a cara” com o diabo, embora Pedro Marinho mandasse recitar uma missa e ferver a louça.

Uma segunda chuva de sangue

Curiosamente, choveria carne e sangue no Vale do Paraíba apenas 25 dias depois do primeiro insólito acidente.

No dia 10 de setembro, milhares de pessoas do distrito de Santa Luzia, a cerca de 40 quilômetros de Eugênio de Melo, entre Caçapava e Piedade, ficaram maravilhados com o fato. Como antes, a chuva foi registrada ao meio-dia, com o céu totalmente limpo e um sol escaldante.

Armando Silva cuidava de uma plantação de arroz, quase às margens do rio Paraíba, quando chamou a atenção dos companheiros para as manchas de sangue que respingavam em sua camisa. Outros colonos agrícolas descobriram que suas roupas também estavam manchadas de sangue. Alarmados, eles correram para avisar outros moradores próximos. Assim como os oleiros onde caíam carne e sangue, os fazendeiros atribuíam o fato a uma maldição.

Os pedaços de carne que caíram em Santa Luzia tinham o mesmo tamanho, ou seja, 2 a 3 centímetros, de cor castanha, cor de fígado e, curiosamente, gelatinosos. A carne não apresentava odor desagradável, mesmo após três dias exposta ao sol. A chuva durou de três a quatro minutos, deixando cerca de 3,5 quilos de carne.

As amostras foram coletadas por inquiridores e pesquisadores do fenômeno. O chefe da Delegacia de Taubaté, Ronaldo Dias, disse que a carne foi examinada por um perito da Polícia Técnica da Delegacia Regional de São José dos Campos, que então as encaminhou ao IML de São Paulo para obter um laudo detalhado. Da mesma forma, é bom ser friso, o local onde choveu carne e sangue pela segunda vez não estava localizado dentro da rota aérea São Paulo-Rio, pois as viagens de avião eram feitas pelo litoral, a partir de Ubatuba. Isso elimina qualquer hipótese de que um pássaro tenha sido esmagado por um avião, e mais ainda: a carne do “espaço”, desprovida de ossos e penas, caiu em diferentes pontos em um círculo.

O Laboratório de Anatomia, Patologia e Microscopia Legal do estado após examinar as amostras coletadas no Bairro da Olaria, em Caçapava, e no Distrito do Paiol, em São José dos Campos, concluiu que a carne que caiu no Vale do Paraíba era de um mamífero fêmea. O laudo da análise feita pelo IML de São Paulo chegou à Delegacia de São José dos Campos no dia 12 de outubro. O documento foi assinado pelo médico Ferdinando de Queiroz Costa que descreve o material examinado como sendo “coração de mamífero fêmea e rim”. O exame foi limitado aos tecidos. Apenas um exame mais atento poderia fornecer respostas conclusivas. O IML fez esse exame mas não revelou a quem ou a que pertencia a carne que “caiu do céu” em Caçapava e São José dos Campos.

A história da chuva de sangue foi investigada pelo pesquisador e ufólogo Claudio Suenaga.

Eu estou tentando encontrar mais registros do caso, mas não parece ter sido bem documentado. Suenaga traz como fonte primária da notícia o jornal Notícias populares, mas nesse post aqui eu explico em detalhes por que o Notícias Populares não é exatamente uma boa fonte de dados para histórias estranhas, na media em que eles costumavam inventar notícias malucas para encher espaços e dinamizar a venda de jornal, como o caso da mulher que engravidou de uma tartaruga, o Bebê diabo e etc.

Eu tentei obter pistas pesquisando nos arquivos do jornal O Globo, mas não localizei nenhuma referência ao termo “chuva de sangue” nesse período, o que pode nos levar a especular se a história não seria realmente inventada pelo Noticias Populares.  Eu também procurei por termos como chuva de sangue e chuva de carne nos jornais ligados ao grupo Folha de São Paulo, sem nenhum sucesso. É estranho que algo desse tipo não tivesse nenhuma menção nos jornais do estado de São Paulo, o que parece nos confirmar a origem ficcional de todo o caso. Entretanto, é importante observar que o fato de eu não ter encontrado não quer dizer que não exista e a história não possa ter algum fundo de verdade. O que torna tudo bem intrigante é o farto conjunto de informações, com pessoas, nomes, ruas e tudo mais. Geralmente essas histórias inventadas costumam ser mais vagas.

Investigando o aso eu encontrei referência a outra chuva de sangue ocorrida em 1927, com o peculiar evento do fenômeno se repetir também:

 

Mistério ocorrido em Sorocaba no final de 1927 foi divulgado por vários jornais, inclusive pela Tribuna do Norte

Dos acontecimentos sensacionalistas da primeira metade do século XX que não tiveram como palco o município de Pindamonhangaba, porém divulgados pelo jornal Tribuna do Norte, este ainda hoje chama a atenção dos leitores.

Era a edição de 2/10/1927 da Tribuna, o título “Chuva de sangue”:

Uma chuva de sangue em Sorocaba é noticiada pelo nosso colega ‘Cruzeiro do Sul’, daquela cidade: – ‘Os moradores da rua Caputera, nas imediações da Santa Casa, foram surpreendidos ante ontem por um fato curioso que os atemorizou e suscitou os mais desencontrados comentários. Ao meio dia de ante ontem, quando o sol dardejava com intenso vigor, aquela rua, de súbito, foi coberta inteiramente, numa extensão de cem metros, por uma tenue camada de sangue, caida como chuva, de um só jato’”.

Conforme o artigo republicado pela Tribuna, ao perceber a ocorrência do fenômeno, além dos receosos e assustados moradores da rua, grande número de curiosos foram atraídos para a rua Caputera para constatar e comentar o ocorrido. Anoiteceu e muita gente ainda para lá se dirigia.

Presente ao local para cobrir o fato, o enviado pelo jornal Cruzeiro do Sul lembrava que a referida rua ficava nas proximidades de um matadouro. A explicação àquilo seria a mesma dada a um fato idêntico que havia acontecido no Rio Grande do Sul, em local próximo de charqueadas (áreas onde se produz o charque, normalmente galpões cobertos onde a carne é salgada e exposta para o processo de desidratação) onde: “O sangue animal infiltrado no solo e depois evaporado e retido pelas nuvens, retornou novamente liquefeito, em forma de chuva, produzindo-se ali, esse fenômeno mais de uma vez”.

Segundo o jornal Cruzeiro do Sul, a rua Caputera ou qualquer outra via próxima de um matadouro estaria sujeita à chuva vermelha.

Poderia ser este caso de 1927 o evento “base” usado pelos criativos “jornalistas” do Noticias populares para criar sua história? É uma possibilidade.
As supostas chuvas de sangue ja teriam ocorrido também em outros países. 

 

Chuva de feijão africano

Curiosamente, essa não foi a única vez que coisas estranhas choveram do céu no Brasil. Em 1971, o fazendeiro Salvador Targino relatou uma chuva de feijão sobre sua propriedade em Brejinho, Paraíba. Autoridades agrícolas locais especularam que uma tempestade varreu uma pilha de grãos na África Ocidental e os derrubou no nordeste do Brasil. Targino cozinhou alguns feijões, mas disse que estavam duros demais para comer.

Link para a matéria de Salvador Targino:

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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