Toda nudez será castigada

Um homem pelado numa performance num museu de Arte Moderna se tornou o novo assunto do momento, gerando ódio, desespero e perturbando a paz de espírito de diversas pessoas. O desencadeador do estopim: Alguém entrou com uma criança, que foi diretamente estimulada (pela mãe) a “tocar” no corpo do homem, que jazia nu no chão, numa proposta artística que muitos se perguntaram se era arte realmente.

Há quem acuse isso de ser pedofilia. Há quem acuse de “não ser arte de verdade”.

Toda nudez será castigada

O que são duas afirmações fortes, e estúpidas cada uma a seu modo: O homem nu com uma criança no mesmo espaço, sendo que ela o toca (ao contrário do que já li em posts de várias pessoas se indignando, não foi nos genitais) não pratica pedofilia. O cara ali não tem relação libidinosa com o publico. Seria diferente de levar uma criança numa suruba.
A pedofilia alegada nisso aqui me parece mais um mecanismo de produzir massa critica de indignados para depois jogar um laço neles e usar essa massa como manobra política/religiosa nos mais diversos projetos de poder. Penso sinceramente que a pedofilia é uma coisa mais séria, grave e muito mais preocupante que aquilo ali!
Falar que o que ocorreu no museu é pedofilia é, ao meu ver, até um certo desrespeito com as vítimas desse crime tão hediondo que é o abuso infantil.
Falar também que aquilo não é arte, compromete bastante a visão do que é arte ou não é, mas talvez o pior, é estabelecer um critério de definição do que pode ser arte ou não e isso aqui é um assunto delicado. Há quem sustente que qualquer expressão humana pode ser considerada arte.  Até ficar pelado.

Ficar pelado é arte? Penso que isso depende do contexto.

Pessoalmente, digo que minha opinião é que esse tipo de manifestação artística é extremamente pretensiosa e não se sustenta sem uma verborragia daquelas que só faz sentido depois de usar entorpecentes. Mas, é aquilo. Tem quem goste. É como Funk. Eu detesto funk, mas eu não digo que funk não é musica. Arte não é só o que eu gosto. O mundo seria bom se ele fosse só do jeito que eu gosto, mas essa utopia é coisa de pirado. Temos parar de agir como bebezões e nos olhar no espelho para contemplar nossa insignificância. Cadê a humildade? Tá faltando humildade no mundo. O mundo não está aí pra nos atender. Vamos cair na real, hein meu povo? Até porque, tem coisa mais seria para nos preocuparmos.

Meio mundo está hoje debatendo se a mãe estava certa de levar uma criança num recinto que havia um homem pelado, mesmo que sob um pretexto artístico. Não vou entrar nesse mérito. Acho que os pais devem ter a responsabilidade de saberem como conduzir os filhos. Se ela acha que não há problema na filha contemplar um peladão com seu pênis mole rastejando no chão duma sala de museu,  não sou eu quem vai criticar, até porque, a relação das pessoas com a nudez é variável e de matriz cultural.  Uma criança criada numa família que lida com o tabu da nudez vai reagir de um modo e outra criada numa colônia naturista desde que se entende por gente, vai reagir de outra. Há alguém errado aqui? Talvez todos. Todo mundo tem um parafuso solto em alguma parte. Então qualquer acusação é sempre o sujo falando do mal lavado.

O que me incomoda mais em tudo isso é a ideia de que o cara ganhou quase um milhão de reais de isenção fiscal para fazer essa porra de ficar pelado com uma réplica de escultura da Lygia Clark. Pra mim se fosse dez reais já estava caro.

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Desculpa, eu acho patético. Eu acho tão, mas tão patético, que eu tenho uma série dificuldade de encontrar adjetivos para isso, porque ficar pelado é duma banalidade que transcende o cara jogar tintas aleatoriamente sobre uma tela, ou beber tinta e vomitar numa e dizer que “pintou” (sim já aconteceu). Meu problema com a arte performática e outras artes cênicas como o teatro, é que me parecem bastante efêmeras. Veja, uma vez que o cara vestiu a roupa, parou de fazer sua performance, acabou. Quem viu, viu, quem não viu, perdeu. Diferente de um filme que se vê e revê, uma performance se esgota em seu tempo de existência. É poético, é bonito no papel e coisa e tal… Mas sendo bancado por quem não viu não me parece outra coisa que não sacanagem.  Por ser bancado com o dinheiro público fico me questionando se foi um bom investimento em algo completamente efêmero.

Uma escultura dura enquanto durar seu substrato. Se for pedra, dura talvez para sempre. Agora imagine que trágico se Michelangelo resolvesse que Davi fosse uma arte performática. Ele paga um jovem mancebo para fazer aquela pose diante do Papa. Acabou os minutos, nunca mais ninguém viu, acabou, sumiu. O produto artístico e claro, o dinheiro junto. Parece certo isso? Pois é. Qual a diferença entre o volume de pessoas impactadas pelo produto artístico físico versus o efêmero ao longo do tempo?

Por isso muita gente chama de estelionato artístico e eu até compreendo, uma vez que está provado que hoje a arte contemporânea se tornou uma das formas preferidas de se lavar dinheiro. Não acho que este seja o caso aqui. Penso que a intenção era realmente boa, apesar de achar pobre o conceito, não posso dizer que não é uma ação artística.  Também me questiono sempre o seguinte: Se a arte precisar ser explicada, ela será um bom trabalho? Será que a arte não devia ser autoexplicativa? Esse gueto de meia duzia de cinco super entendidos agraciados pela mão divina a quem todos devemos reconhecer que sabem mais que nós, são parte integrante do processo de entubar algo que não se entende (e paga-se fortunas por isso) porque alguém disse é é bom e válido. Há inclusive quem tenha a pachorra de alegar que pessoas não podem ter direito de reclamar e questionar arte porque não entendem do assunto e portanto não tem lugar de fala.

Veja, tem gente hoje que alega que tudo é arte. Pixação é arte para o pixador, e defecar numa lata é considerada uma produção artística.

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“Todos os artistas deveriam vender suas impressões digitais ou a sua própria merda em latinhas”, escreveu Piero Manzoni, numa carta de 1961. “Se o colecionador quiser algo íntimo e pessoal, que seja mesmo do artista, ele pode comprar a sua merda.”

De fato, esse italiano entrou para a história da arte com uma obra em que alegava vender suas próprias fezes -ele criou 90 latinhas etiquetadas “Merda d’Artista” dois anos antes de morrer, por causa de problemas ligados ao alcoolismo, aos 29, em 1963.

Se até merda nego vendeu como arte, ficar pelado não é muito distante. Aliás, ficar pelado não é nenhuma grande novidade em termos artísticos e isso me incomoda, porque se você vai abiscoitar quase um milhão de reais que deveria ir para o governo aplicar em escolas, em compras de remédio para o câncer dos pacientes do SUS, como os que estão em falta, em consertos de equipamentos públicos ou simplesmente para poder ajudar no saneamento básico, eu espero mais que simplesmente uma pantomima dum boneco pegando carona num trabalho alheio sob a conversa fiada de “homenagem”. O próprio artista comenta a obra em seu site:

Schwartz manipula uma réplica de plástico de uma das esculturas da série Bichos (1960), de Lygia Clark. O objeto permite a articulação das diferentes partes do seu corpo através de suas dobradiças. O público será convidado a participar.

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É arte? É. Eu acho de gosto duvidoso, muito embora crie uma questão interessante (e inusitada, confesso) diante de como isso repercutiu na mídia, expondo uma certa questão social diante da nudez. Eu fico meio surpreso, porque esse é o país em que todo ano, entra ano, sai ano tem uma dona pelada pulando tresloucadamente em meio a raios e lantejoulas coloridas em todo comercial da Globo. (já desci o porrete aqui antes) Mas pouca gente liga, e muitos ainda já consideram uma “tradição”.
Hoje o mesmo país que viu o mapinguari peludo de Enoli Lara em plena Marques de Sapucaí se descabela com um homem pelado numa sala de museu.
Outra coisa é que homens pelados com genitália à mostra não são uma novidade em museus. Eu não sei quanto a você, mas eu já vi tanto homem pelado em tudo que é representação artística que acho que banalizou. Nos anos 80 e 90 Lord K era uma banda de rock que inovou levando uma mulher pelada e seu guitarrista completamente nus para os palcos. Recentemente, ganhou mídia uma dona que resolveu inovar e se lançou como a “pianista nua”… Aliás, já teve homem pelado TODO DIA na televisão, em ABERTURA de novela. Quem não lembra? Foi em Brega e Chique, de 1987.

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Depois botaram até uma folhinha escrotésima na bunda do cara. Lembra?

A relação da nossa sociedade ocidental com a nudez deve ser tema de um porrilhão de estudos antropológicos, psicológicos e sociais. A despeito dessa relação da nudez e da vergonha do corpo, a relação de conexão sexualizante que se estabeleceu com a imagem da nudez, se coloca o bizarro paradoxo de que conforme a nudez é vista como algo a ser evitado, mais ela permeia nossos ambientes culturais e inclusive, religiosos. Vá na Capela Sistina e olhe para cima se você duvida:

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A nudez é vista como imoral pela Biblia Sagrada e mesmo assim dentro de suas igrejas existem obras de arte, sejam em telas ou esculturas que mostram o nu em detalhes. Como é possível? Os olhos que vêem a nudez na arte e a nudez fora dela não são os mesmos? Os moralistas dizem que as sensações são diferentes, contrariando Sigmund Freud, que definia a arte também como uma sublimação da libido sexual do ser humano.

Então é nesse contraste duma sociedade em eterno conflito que um homem nu sendo tocado na canela por uma criança, causa comoção.
Há todo um contexto simbólico quase irresistível para um psicólogo nisso. A criança e sua simbologia de pureza maculada ao ter contato com a pele de um homem adulto, imovel, cadavericamente nu, a dupla representação o inexorável destino. O envelhecimento e a morte. Permeando tudo isso o enlace construído historicamente sobre a natureza sexual do corpo nu, o que explica visões de um ato pedófilo.
O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes, provocaria Nelson Rodrigues.

Mas afinal, me intrigo ao refletir porque a nudez ainda nos incomoda tanto? Seria fruto de imposição religiosa? E enfim: Estaria na arte o caminho para a compreensão e desmistificação da nudez? Talvez sim, talvez não. Mas o fato é que um sujeito pelado (a um custo alto pago com isenção fiscal num país que é quase na totalidade formado por infelizes desgraçados, miseráveis e ignorantes, suja ampla maioria nunca sequer botou os pés num museu) é o estopim de um ciclo de pensamentos e reflexões que nos conduz a pensarmos sobre isso.  Até porque, a vergonha do corpo nu, na história da civilização, é uma coisa recente. Andar nu em 4000 a.C. era uma coisa comum, mais recentemente, para os gregos, em 500 a.C. as competições esportivas e as batalhas eram feitas sem roupa. Tudo natural, normal.  Tanto é que “ginásio” é uma palavra grega que significa algo como “lugar de todo mundo peladão”.

Pero Vaz de Caminha já notava e transmitia ao rei, com certa consternação impactada, a tranquilidade com o que os índios não se preocupavam com suas “vergonhas” à mostra por aqui.

De volta à antiguidade, traço o paralelo com o cinema.

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Eu acho até graça da acrobacia estética que Hollywood precisa fazer de vez em quando para não chocar sua audiência puritana. Um exemplo são as sunguinhas de couro em 300 de Esparta. No mundo real, todos os espartanos combatiam nus. No Império Romano, nos banhos públicos a nudez era normal e habitual, embora fora deste ambiente poderia ser considerado uma forma de humilhação.

E talvez a maioria não saiba, porque os filmes nunca mostram, mas até o século VIII, o batismo cristão também era uma cerimônia onde o batizado, nu, era mergulhado em água, purificando assim sua alma. Acredita-se, inclusive, que foi a extinção desta prática, por parte da igreja católica, que teria acentuado a conotação sexual a nudez. Na época vitoriana, em meados do século XIX, a nudez já era considerada obscena. Desde então, até os dias de hoje, a nudez geralmente não é aceita nas sociedades, com exceção a nudez artística, que hoje é colocada em perspectiva sob acusações de não-arte e gritos de “pedofilia”.

Há quem sustente que tudo no fundo é culpa da igreja. A igreja católica aparece em diversos estudos antropológicos como um elemento ditatorial das regras de nossos pudores atuais com forte tradição semita de ocultação do corpo. Este é o fundamento ideológico da ideia de uma “nudez erótica” na sociedade ocidental. Embora o conceito de nudez seja a ausência de vestimentas, verificamos que, pode também ter outros significados e leituras dependendo do local em que estamos. Na cultura ocidental, estar nu, esta diretamente ligado aos órgãos sexuais (expostos ou não). Para ortodoxos são braços, colo e pernas. Já os Muçulmanos consideram a cabeça descoberta a verdadeira nudez. Em algumas tribos africanas pessoas se sentem nuas na falta de adornos no pescoço e orelhas. Isso mostra que a nudez transcende o ato de tirar ou não a roupa e esta condicionada a um contexto social e a percepção que cada cultura tem do corpo humano. Vale lembrar que como humanos, somos os únicos animais a ter esta percepção. Em nossa cultura ocidental contemporânea, conforme Dra. Carmita H.N. Abdo, mantivemos como alicerce moral a herança do sistema de pudores da Idade Média.

É um assunto interessante, e que claro, dá pano para manga, como convém a todos os assuntos interessantes do mundo. Embora eu considere que realmente o peladão (apesar de achar sua proposta meio óbvia e bem cara, com resultado patético) é sim arte, tenho a completa convicção de que a arte em geral, não deveria ser financiada pelo governo, e sim bancada pelo público ao qual ela se destina e isso vale para teatro, cinema, livros, tudo. Se você não consegue viver de sua arte, arrume um emprego normal… Ou ache um jeito de criar algo que as pessoas deem valor e financiem por encontrarem mérito. Penso que um país com o nível de desigualdade que temos, não pode perder nem sequer um tostão com pessoas peladas em museus frequentados por uma microscópica elite, enquanto milhares de infelizes não tem sequer acesso à água e esgoto.

Eu teria vergonha de mim mesmo se usasse dinheiro público em qualquer coisa “artística” sabendo da situação degradante das periferias, da criminalidade do verdadeiro “cobertor peleja” das verbas publicas, assoladas por uma divida em permanente crescimento, como um monstruoso tumor que suga para o buraco negro dos bancos o dinheiro dos nossos impostos, que está sendo contingenciado de projetos sociais.

Dados do Tesouro nacional revelam que hoje, o Brasil consome um volume brutal de tudo que tem, para pagar sua dívida. Pra piorar, segundo levantamento da Auditoria Cidadã da Dívida, cerca de 90% do total da dívida é composto de juros sobre juros, o que é proibido. Em 2013 o FMI (veja quem) já dizia que o gasto do Brasil com juros da dívida pública é o 3º maior do mundo, perdendo somente para a da Grécia, mergulhada em crise financeira, e a do Líbano, cujas finanças estavam em frangalhos, abaladas pelos custos de guerra.

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Quer ter vergonha? Quer ficar indignado? Então aí está. Essa é a verdadeira vergonha, o verdadeiro pudor. É o bode na sala, o rei desnudo!

Quando a nudez é aceitável? Quando é ofensiva? E quem decide isto? São perguntas difíceis de serem respondidas. Aristóteles simplifica dizendo que “é nos olhos que vive o pudor”. Percebemos que a noção de certo e errado está dentro de nós, arraigada.   Nudez é campo perigoso, onde ninguém fica sem dar opinião. Pelo menos o homem nu do museu serviu para alguma coisa. Nudez é um assunto que mexe com todos, afinal opinião é como bunda, todo mundo tem, e como nos ensinou Yoko Ono, umas mais bonitas que as outras.

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