Sepultamento celestial no Tibete (AVISO: não recomendado para pessoas impressionáveis)

AVISO: Este post contém imagens chocantes.

O chamado sepultamento celestial é o principal tipo de sepultamento que ocorre no Tibete e em algumas áreas da região. Ele também ganhou o apelido de “esmola dos pássaros”.

Segundo a crença tibetana, a alma abandona o corpo no momento da morte. O corpo, sem a alma, não serve para nada, de modo que seria desperdício não usá-lo como fonte de ALIMENTO!

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Assim, o morto é servido como alimento para as aves necrófagas, como a última grande manifestação da caridade do morto.

Este método de sepultamento é o mais famoso e aos olhos de muitos tibetanos é o único que “faz sentido”. Uma exceção é feita apenas para o Dalai Lama e o Panchen Lama. Neste caso, seus corpos são embalsamados após a morte e depois eles são cobertos com ouro.

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O processo se inicia na “Cidade das bandeiras de oração”. O lugar é uma plataforma criada para o enterro nas proximidades do mosteiro Chalan. Além do Tibet, o “Enterro celestial” é praticado também em alguns territórios indianos, como Ladakh ou Arunachal Pradesh.

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É comum encontrarmos os parentes do falecido orando durante a cerimônia de funeral nas “Cidade das bandeiras de oração”.

Em 1959, quando as autoridades chinesas finalmente tomaram à força o território do Tibete, o rito foi completamente banido. Desde 1974, após inúmeros pedidos de monges e tibetanos, o governo chinês permitiu retomar o “funeral Celestial.”
Outro elemento comum no lugar são os abutres. Eles surgem voando entre as altas nuvens e se reúnem na “Cidade das bandeiras de oração”. Hoje existem cerca de 1.100 lugares como estes, criados para o enterro celestial. O ritual é realizado por pessoas especiais, chamados rogyapami.

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O Rogyapa (“coveiro”) afia uma faca numa cerimônia fúnebre na “Cidade das bandeiras de oração.” Quando o tibetano morre, seu corpo é colocado em uma posição sentada, e assim ele “fica” por 24 horas até que o Lama leia as orações do Livro Tibetano dos Mortos.

Estas orações são destinadas a ajudar a promover a alma através de 49 níveis de Bardo – o estado intermediário que faz a ponte entre a morte e o renascimento. 3 dias após a morte, um amigo próximo do falecido carrega o cadáver já em decomposição em suas costas, até o local do enterro.

Ali começa a parte mais grotesca. O Rogyapa primeiro faz um monte de cortes no corpo e chama as aves.

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São elas, os abutres, que irão fazer a maior parte do trabalho. Parece incrível, mas eles vão comer praticamente toda a carne do morto, num banquete frenético e animado.

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Após comerem tudo, sobra pouca coisa. Chega a hora do Coveiro entrar em ação. O “coveiro” recolhe e esmaga os ossos em um tipo de suporte especial feito de rocha plana.

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Ele também vai “empanar” partes do defunto, numa mistura com Zampa (farinha de cevada com manteiga de iaque) e com os pedaços do morto à milanesa ele alimenta todos os pássaros.

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O corpo será destruído até não deixar vestígios. É assim porque no budismo tibetano, acredita-se que desta forma a alma deixa o corpo mais fácilmente. E isso facilitaria a ela partir para encontrar uma nova “morada”.

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O Rogyapa (“coveiro”) reza antes da cerimônia de enterro na “Cidade de bandeiras de oração.” Para cada sepultamento, o rogyapa recebe até 100 yuans (cerca de 27 reais). Quando já só restam os ossos, o Rogyapa vem carregando um tipo de martelo gigante, com o qual desfere pancadas, esmigalhando os ossos para facilitar o festim.
Esmaga os ossos do falecido é parte da cerimônia de funeral.

 

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O Rogyapa reza durante o banquete dos abutres e toca instrumentos locais. Um deles é uma flauta feita num osso (que talvez seja humano ou de iaque, isso eu não sei)

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Ele também dança e toca sinos.

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O Rogyapa também se lava durante a cerimônia.

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Os rogyapas não ligam para o cheiro da morte, pois eles vivem com suas famílias ali pertinho. Pra eles a morte é algo corriqueiro, é como você enxerga seu trabalho.

Ok, aqui começa a parte mais gore do negócio, então você pode parar nessa parte se não quiser ver defunto.

Continuando...

Vamos acompanhar um processo de sepultamento celestial em detalhes:

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O amigo do morto atravessa um longo caminho carregando o defunto. Hoje em dia não tem mais essa de levar nas costas. Hoje eles levam de motoca.

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O morto vai na garupa, amarrado e embalado numa lona.  Assim que eles chegam no lugar, os abutres já começam a ficar animados.

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Em poucos minutos eles já são dezenas. Em menos de uma hora talvez já estejam na casa das centenas.

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Os abutres são espertos e acabaram meio que se adestrando. Eles se acumulam nas elevações à espera da chamada para o rango.  O coveiro se aproxima e trata o preço com os parentes. nessa ocasião é feito o pagamento.

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Agora dali em diante é com ele. O coveiro deita o corpo, desembrulha com cuidado e com um cutelo especial começa a fazer cortes.

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O corpo é amarrado e preso a uma estaca fincada no chão.

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A razão disso é que os abutres entram em frenesi quando começam a comer, e eles tendem a fazer uma bagunça separando pedaços dos corpos ara tudo que é lado. Amarrar facilita na organização do trabalho posterior.

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O coveiro vai cortando, cortando, abrindo os talhos. A razão disso é facilitar o desmanche dos pedaços, o que também acelera muito o ritual.

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O governo chinês anunciou a sua intenção de assumir o controle estrito dos funerais tibetanos. A tradição antiga, segundo a qual os cadáveres eram deixados ao ar livre para serem comidos por abutres, segundo ambientalistas, é muito prejudicial para a saúde das aves. (ok, ambientalistas… Eu não consigo ver muito claramente como dar um defunto para uma ave necrófaga pode ser prejudicial para ela, mas em todo caso, é o que eles alegam. E convenhamos, ambientalista chinês criando caso com abutres tibetanos enquanto fazem vista grossa para criminosa extração da bile do urso é foda.)

De acordo com o Ministério da Proteção Ambiental da China, o recente aumento nas mortes inexplicáveis ??de abutres é causada pelos rituais fúnebres. Funcionários atribuem isso ao “envenenamento de carne humana” – note que os caras não estão NEM AÍ para o fato de que são pessoas envenenadas que causam a morte dos abutres.

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Voltando ao festim das aves da morte, um só adulto morto já é o suficiente para sustentar todo o bando.

Claro que a comunidade tibetana interpretou a proibição dos ritos religiosos negativamente. Eles consideraram que estas medidas eram apenas mais um passo para estabelecer o controle oficial, agora até sobre sua religião.

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As aves saltam com com fome para roer até o último osso do  tibetano morto.

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Depois que as aves fizeram a maior parte do serviço, o coveiro busca o que sobrou e leva para moer.

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Essa é a parte mais trabalhosa, porque tem que dar duro. Quebrar ossos na marreta requer grande esforço físico.

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O que eles retiram, são aspergidos com farinha e servidos novamente às aves. A farinha serve para agarrar o sangue e deixar a coisa menos sangrenta.

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A julgar pelo sorriso, ele gosta do trabalho.

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Enquanto ele rala, é acompanhado de perto por uma audiência concentrada.

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Após se banquetear com os últimos restos, elas vão embora, deixando somente pequenos pedaços de ossos pelo solo.

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38 comentários em “Sepultamento celestial no Tibete (AVISO: não recomendado para pessoas impressionáveis)”

  1. Seria sinistro se tivessem instalado uma GoPro na cabeça de um dos abutres…

    A única coisa cabulosa foi o corpo retalhado.

    Mas ai.. se ele ficar sentado por 24 horas enquanto os caras ficam lendo o “Necronomicon” deles, não era pra o corpo ficar todo duro na posição sentado?

  2. Por essas e outras que considero Mundo Gump um dos melhores sites da atualidade! Que post incrível, na real acepção do vocábulo…rs! E pensar que isso tudo acontece no mesmo planeta em que a gente vive, parece coisa de filme…

  3. Acho que até mesmo por causa da minha religião, essas coisas não me impressionam muito. Interessante é ver como os abutres limpam tuudo! E o carinha lá… Sem nenhuma preocupação com higiene, né? rs Não podia usar uma luvinha?
    Muito bom o post, Philipe!

  4. Muito bom este post. Serve pra gente pensar a respeito das diferenças culturais desse mundão. Não há como julgar se é correto ou não, né? Abraço, valeu!!!

  5. Já falei isso uma vez enquanto estava no cemiterio com meu professor de história. Eu disse que preferia ter alguma utilidade no final em vez de ficar enterrado em um caixão.

  6. Muito legal as informações do site. Vou “copiar” algumas informações pra meu blog, dando os créditos e deixando um link pra o post original, claro!
    Só as imagens que são postas muito grandes, dificulta no carregamento da página, não é bom, faz um visitante desistir antes de ler.
    No demais, muito bom o site!

    • POis é, realmente o numero alto de fotografias atrapalha alguns leitores com conexões mais lentas. Mas é algo que aprendi a conviver depois de 9 anos de blogagem diária. Tem posts aqui que chega a ter mais de 300 imagens!

  7. Philipe, boa noite.
    Li um livro a respeito da tradição tibetana, e lá eles utilizam este método, além dos motivos já listados, pelo fato de morarem em uma região com muitas pedras e pouco solo, o que dificultaria bastante o trabalho de enterrar o morto.
    Assim, ao invés de cavarem a pedra para um enterro, realizam esta técnica.
    Ademais, como já mencionado, após a morte física, o corpo não tem mais utilidade alguma.
    É uma demonstração de desprendimento, afinal.
    Abs, parabéns pelo site.

  8. A explicação para que o governo chines impeça essa cerimônia, é que uso do diclofenaco (anti inflamatório) por humanos, depois de consumida a carne humana pelas aves, provoca falência renal, causando a morte delas. Acontece a mesma coisa na índia, eles tem uma cerimonia parecida, só que em vez de picar o cadáver, eles apenas jogam dentro de um templo cheio de abutres, lá também essas aves morrem pelo mesmo motivo.

  9. Muito interessante o post. O coveiro das últimas fotos me parece um pouco modelo bebum. Não senti firmeza no “ritual” dele. O do início todo paramentado, dançando e tocando e esse sentadão na grama ao lado do defunto, posando para foto. Enterro tibetano padrão SUS?

  10. Hoje estava no meu curso e lá frequentam 3 colegas do Tibete, amanhã dia 01-11 é dia dos finados aqui, então a minha professora perguntou qual era a tradição em cada pais, quando um dos tibetanos comentaram que realizavam essa cerimônia eu fiquei em choque e simplesmente não acreditei tive que vir pesquisar. Eu não consigo imaginar umap ente querido meu sendo comido por abutres, para mim é surreal, sou da opção de doar os órgãos e cremar o que sobrar. Bem cada um com a sua cultura né.

  11. Já havia pensado a respeito antes de saber que já existia.
    Achei bem limpo, não contamina o solo ou o ar. Não acho desrespeitoso nem tenho preconceito com os abutres.

    Mas a imagem da pessoa amarrada foi um tanto chocante, é quase como se ainda não tivesse morrido. Não obstante, não me apego.

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