Os refugiados do Vlora

Volta e meia recebo algumas dessas fotos abaixo como sendo retratos dos refugiados sírios tentando escapar para a Europa de qualquer jeito.

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Não se trata disso, na verdade. Mas o fato dessas imagens não serem dos refugiados sírios não quer dizer que as imagens acima sejam menos chocantes, capazes de transmitir o horror e o desespero, quando ocorre alguma coisa tão desgracenta que o verniz de civilização que nos recobre se esvai e a balburdia resultante é um cada um por si e Deus contra todos.

Era previsível que esse tipo de invasão do navio acabaria em morte. Mas o que me intrigou mesmo era descobrir afinal, que porra foi essa. Armado apenas com o nome da embarcação “Vlora”, fui atrás dessa trágica história de refugiados desesperados.

Essas fotos quase 25 anos e os eventos relacionados a ela estão diretamente ligados ao termo “Navio Doce”.

No dia 07 de agosto de 1991 no porto albanês de Durazzo um navio de nome Vlora aportou. Ele vinha carregado de açúcar direto de Cuba. Do nada, no melhor estilo filme de zumbi, surgiu uma multidão no porto.  A cada segundo, mais e mais gente invadia o porto albanês e a coisa se transformou em uma avalanche grotesca. Uma avalanche de gente.
A multidão desesperada invadiu o navio e sua tripulação foi ameaçada de morte se não seguisse imediatamente para a costa da Itália.  O Capitão argumentou com os líderes do movimento que o navio Vlora estava com defeito. O motor estava em condições precárias e precisaria de reparo. Mas ninguém lhe deu ouvidos, apostando que aquilo era “má vontade”.

Mas não era.

O navio defeituoso seguiu viagem abarrotado de refugiados Albaneses, zarpando com nada menos que 20 mil  pessoas à bordo! Entre eles estavam mulheres, crianças e idosos.

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O capitão foi forçado a cumprir as ordens de zarpar. Navio avariado se aproximou da costa italiana apenas vinte e quatro horas depois. Mas em Brindisi as autoridades se negaram a permitir que o  “Vlora” aportasse.

Começava ali um impasse que duraria dias e culminaria com a morte de varias pessoas. Apenas olhando para a foto acima você pode imaginar o grau de imundície que devia estar este navio. O navio zarpara sem nenhuma preparação e isso incluía a ausência total de água e comida. As pessoas estavam famintas e estavam urinando e evacuando em todos os lugares do navio.

Passageiros desesperados não queriam se arriscar em mais uma viagem para tentar a sorte no próximo porto, que era em Bari.

O capitão no rádio disse que a situação a bordo do navio está perto de desastre. A água havia esgotado, o calor era infernal, ninguém se entendia, o navio estava precisando de reparos urgentes. Começavam os primeiros motins. As pessoas estavam se comportando como ratos. Diante do caos, a gestão portuária se rendeu. O “Vlora” teve permissão para atracar no cais.

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Mas o que fazer com a avalanche humana, doentes, cansados, famintos?

A Itália não estava preparada para aquele evento. 91 era um ano complicado. Em dezembro daquele ano, a União Soviética entrou em colapso. Dois anos antes o Muro de Berlim foi demolido. A Europa acolheu com entusiasmo esta evolução, sem saber o que os esperava no futuro próximo. Agora o Governo italiano precisava de agilidade para gerenciar e identificar nada menos que 20.000 visitantes inesperados. Com dificuldade, a polícia local falhou ao encaminhar a multidão no estádio Victoria.

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Decidiu-se deportar todos de volta para a Albânia.

Quando os passageiros do Vlora descobriram os planos italianos, os motins começaram. A polícia local não foi  capaz de lidar com a multidão louca. Mas deixar as pessoas com fome, também, não era uma boa ideia. Assim, provisões foram jogados de helicópteros para o povo desesperado preso no estádio. As pessoas pareciam cada vez mais com ratos. Então, o governo partiu para o método 171.  Os italianos prometeram aos albaneses que todos, sem exceção, seriam levados para Roma de avião.

Na verdade, o avião fez uma curva e dirigiu-se para Tirana, e o povo se ferrou.

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Dessa forma, eu acho que as fotos que parecem ser de pessoas fugindo, são na verdade dos albaneses desembarcando nos portos italianos. Há relatos de pessoas tão desesperadas de sede que beberam água do mar.

O que é mais curioso neste caso dos albaneses, é que não havia uma ameaça clara para desencadear esta onda. Toda a Europa testemunhou as cenas dramáticas, captadas nos noticiários da televisão, mostrando os albaneses sendo expulsos por funcionários italianos. Embora o repatriamento era legalmente justificado, a maneira em que a operação foi conduzida era problemática. A grande maioria dos albaneses, de acordo com seus relatos do êxodo, fugiram de seu país por se sentirem “enterrados vivos” lá.

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Eles explicaram que, em algum momento um boato se espalhou de que a Itália estava disposta a receber refugiados. Quando a notícia de que era possível deixar a Albânia se espalhou, caminhões lotados de refugiados foram apreendidos, e na correria que se seguiu, os navios e suas tripulações foram forçados a zarpar.

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Tudo sugere que aquilo que atingiu a Albânia foi uma forma de psicose em massa. É difícil determinar se esta psicose foi desencadeada deliberadamente, e embora rumores sugerem que este era o caso, não há nenhuma evidência conclusiva para suportar isto cientificamente.

A história de Vlora é lembrada como um dos muitos episódios da onda de imigração que ocorreu em Itália 1990-1992 e permanece até hoje (2015), o maior já desembarque de imigrantes ilegais que já chegaram à Itália. Há um documentário sobre isso.

O problema dos refugiados albaneses persiste até hoje, mas a coisa vem se amplificando com os novos refugiados da Líbia, Síria e de outros lugares que buscam abrigo na Europa. Infelizmente, parece um problema sem solução, que vem dividindo a Europa sobre como lidar com o êxodo de pessoas desesperadas. Aliás, recomendo a leitura do meu post sobre o gasoduto na Síria para entender melhor o rolo do Obama e Putin nessa merda toda.

Uma coisa curiosa com relação ao problema dos refugiados, é que parece que o mundo está “cheio demais”. O tempo inteiro somos levados a essa percepção, de que vai chegar um momento em que não haverá mais espaço para tanta gente. Movimentos sociais por posse de terra, problemas fundiários, disputas de territórios entre países e explosões demográficas parecem ameaçar nosso futuro no planeta Terra. Só se fala nisso, o problema da Síria, dos refugiados, dos grupos extremistas islâmicos dominam os noticiários.

No entanto, eu gostaria de trazer um pequeno dado GUMP que pode mudar essa compreensão da superlotação da Terra:

Todas as pessoas do mundo cabem na Cidade de São Paulo

O mundo tem atualmente 7,1 bilhões de habitantes. A cidade de São Paulo tem uma área de 1.552,986 km2 ou 1.552.986.000 m2 (um bilhão e quinhentos e cinquenta e dois milhões e novecentos e oitenta e seis mil metros quadrados). Fazendo a divisão, temos 4,7 pessoas por metro quadrado.

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Se pussermos estas pessoas em pé, uma bem do lado da outra, como em um show de um cantor popular ou no réveillon de Copacabana, poderíamos sim colocar toda a população mundial, metro por metro, na área da cidade de São Paulo (inclusive nos morros, no rio Tietê, no parque do Ibirapuera, no aeroporto de Congonhas, na represa de Guarapiranga, etc.). Mesmo que a população mundial dobre, subindo para 14 bilhões de habitantes ainda caberia na cidade de São Paulo se todas ficassem juntinhas (9 pessoas por metro quadrado) como no metrô, em horário de pico.

Mas é óbvio que não estou propondo uma sandice dessas. Esse cálculo pueril só serve para demonstrar um fato inegável:

Há planeta para todo mundo

Os neomalthusianos que me desculpem, mas estamos num planeta grande o suficiente para não termos este tipo de problema de êxodos por questões de espaço. O problema não é, nunca foi e dificilmente será espaço (nas próximas décadas pelo menos).

 

O mundo tem 510 bilhões de km2 de área total, sendo 148,9 bilhões de km2 de terra e 361,1 bilhões de km2 de água. Portanto, a densidade demográfica é de menos de um habitante por km2 no mundo, mas nem toda área terrestre é habitável ou pode ser usada para agricultura e pecuária. Também devem existir áreas destinadas à preservação florestal e à biodiversidade.

 

Como disse Mahatma Gandhi, na década de 1940, época em que a população mundial era de cerca de 2 bilhões de habitantes:

“A Terra tem o suficiente para a necessidade de todos, mas não para a ganância de uns poucos”.

Nossas maiores mazelas decorrem da natureza humana, as questões políticas, regimes, guerras, estupidez, religião, conflitos urbanos, e principalmente, acima de tudo, DESORGANIZAÇÃO. 

Falta comida dum lado, sobra do outro.  Infelizmente, para essas questões inerentes à condição humana, não vejo saída. 

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12 comentários em “Os refugiados do Vlora”

  1. Bem. Parece que o objetivo da debandada aí em questão, deva ser pela ocupação de área urbanizada e de propriedade legítima. É claro que em se tratando de área acupável, tem espaço pra todo mundo e muito mais. Aja visto que na poir das hipóteses as propriedades são divididas em (grandes) aéras para cada familia.
    Agora fico imaginando que essas pessoas ocuparam os lugares mais improváveis desse navio e todos..Mas será que era por pouco tempo? Porque imagina o caos, a disputa, a hora em que tivesse que mudar de lugar por algum motivo, como fazer as necessidades, por exemplo, se todos os lugares estão aparentemente ocupados até com mais de uma pessoa por espaço.

  2. Nao sou neomalthusiano, mas por maior que o mundo seja as pessoas se aglomeram. Se numa area de baixa renda, com péssimas condições sanitárias e pouca presença do estado houver uma explosão populacional (Leia-se 10, 12 filhos por casal), não seria é i-ne-vi-tá-vel o aumento da violência?

    • Kkkkkkk que imbecil.Há recursos para todos, mas como você é manipulado pela midia controlada por poderosos que tem como meta matar boa parte da população humana para viverem como deuses você repete esse discurso mentiroso [Aviso do Philipe: Ikaro mantenha a cortesia nos comentarios, ou terei que moderar tudo que você escreve e isso vai me dar um trabalho do caralho. Não precisa ser agressivo com as pessoas ao discordar delas].

  3. – um pequeno detalhe: a área do mundo tem 510 “milhões” de kilômetros quadrados, e não “bilhões” como foi escrito. Muda um pouco as proporções (só mil vezes).

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