O sorriso da mulher morta

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Nossa, que vontade louca que me deu de escrever um conto após lascar este título aqui em cima. Mas infelizmente, isso não é um conto e sim a dura realidade da vida, ou melhor, da morte, embora com seu toque de romantismo e gumpice em todos os cantos.

Vou contar sobre uma mulher morta em Paris do século 19. Naquele tempo, assim como com qualquer outro momento em Paris, havia suicídios.

Mas o século XIX foi prolífico na questão de suicídios e eu acredito que deve haver algum estudo sobre isso em algum lugar. Por exemplo, Santos Dumont, é o típico cara daquele século, que deu fim à própria vida, como era um tipo de “padrão” parisiense de morrer. Muitas pessoas apareciam boiando no rio Sena, e em grande parte eram pessoas que se jogavam ou simplesmente caíam no rio. Assim, quando acontecia de aparecer um corpo boiando no rio, havia um curioso procedimento de identificação para o falecido úmido: Ele era exibido ao público.

É uma coisa um tanto quanto mórbida para se pensar hoje em dia, mas acho que naquele tempo fazia total sentido.

Para evitar a decomposição, um quarto refrigerado foi criado e ele comportava até 14 corpos de uma só vez. Em uma extremidade da sala havia uma grande janela, onde qualquer transeunte que passava em frente ao prédio poderia olhar pra dentro e, esperançosamente, identificar um daqueles defuntos. Ficou célebre a frase:

“Não há uma única janela em Paris que atrai mais espectadores do que essa.”

Em 1880 apareceu um corpo em particular. Ela foi pescada do Sena. Parecia estar dormindo. Não havia nenhum arranhão ou mancha em seu corpo. Nem feridas. Não se sabe ao certo se ela caiu e se afogou ou se lançou para a morte como as jovens da época faziam. Talvez tomada pelas dores de um amor não correspondido. Ninguém sabe os motivos que levaram aquela linda moça a ir parar na sala dos defuntos do IML da época.

Sugeriram que ela teria cometido suicídio. O corpo da jovem foi apresentado atrás da janela da sala fria dos mortos e as pessoas olhavam para aquela moça linda, bela como um anjo, com um estranho sorriso no rosto tranqüilo que contrastava com o ambiente mórbido e tenebroso onde era exposta, intrigados.
A mulher sem nome ficou em exposição por um longo tempo à espera de identificação, mas isso nunca ocorreu. Uma vez que seu corpo apodrecia, foi preciso enterrá-la. A mulher misteriosa foi enterrada em uma cova sem marcação, mas seu sorriso permaneceu.

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Um patologista desconhecido foi tomado de atração pelo sorriso daquela mulher linda. Assim, com pena de que sua beleza se perdesse para sempre, ele fez um molde de gesso do rosto dela.

É um mistério tudo que aconteceu com aquela máscara mortuária, mas sabe-se que em algum momento, ela se tornou famosa. L’Inconnue de la Seine, era como ela foi chamada. ( ‘a mulher desconhecida do Sena.’)
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Sabe-se que foram feitas cópias da máscara e, em seguida, a máscara da moça morta virou um tipo bizarro de item de colecionador. Logo, fotografias da máscara original foram feitas e outras máscaras foram feitas com base nos negativos. Por volta de 1900, algumas fábricas na Alemanha e na França estavam produzindo replicas do rosto do cadáver da mulher misteriosa.

14 LInconnue de la Seine Death Mask O sorriso da mulher morta

Ele se tornou uma figura popular, algumas obras de arte foram inspirados por ela. Seu sorriso enigmático foi comparado ao da Mona Lisa e muitos especularam sobre o que poderia ter causado a felicidade da moça enquanto seu fim se aproximava. Estudioso Hans Hesse disse:

“Disseram-me que toda uma geração de meninas alemãs inspiraram-se na beleza dela.”

Uma das muitas máscaras

b2d47a0d977261c2af1b53fed13605a2 O sorriso da mulher morta

Na verdade, a moça misteriosa tornou-se um dos primeiros grandes ícones de beleza. A moça morta esteve no pódium do ideal de beleza até que foi parcialmente substituída por atrizes do cinema mudo. Porém, seu rosto ainda permanece. Ele ainda pode ser vista, e mais: Até mesmo beijada!

A história de como uma defunta virou um dos objetos mais beijados do mundo é curiosa. Dois homens década de 1950, um norueguês e outro americano, reuniram-se em uma conferência médica. O norte-americano era Peter Safar, um pioneiro da respiração boca-a-boca. Ele acreditava que a respiração boca-a-boca poderia ser uma ferramenta salva-vidas, e ele acreditava que, com as ferramentas certas, o “povão” poderia aprender a usá-la.

Para sua decepção, havia na época uma falta de ferramentas úteis disponíveis, de modo que, para a prática, seria necessário um cadáver e tempo para praticar. Isto significava que o público, que por razões óbvias não dispunha de cadáveres, não poderia aprender esta técnica de salvamento tão importante. Então, o plano de Peter Safar era mudar isso, e o colega médico norueguês estava lá para ajudá-lo, arranjando uma reunião dele com Armund Laerdal, que era um fabricante de brinquedos.

Laerdal foi convidado a fazer uma boneca de tamanho natural sobre o qual as pessoas poderiam praticar respiração boca-a-boca sem ter que (ung! meter a boca na cavidade melada de um defunto podre)

Laerdal tomou para si a tarefa com grande entusiasmo, já que ele mesmo havia salvado seu filho de dois anos de idade de um afogamento justamente com a respiração boca-a-boca.

Creio que ele escolheu um cadáver feminino porque ele pressentiu que os homens seriam mais relutantes em beijar um manequim do sexo masculino por machismo da época. Laerdal sabia que seria um manequim feminino, mas ainda precisava de um rosto. Ele conhecia a história da bela falecida do Sena e sentiu que usar seu rosto sorridente seria um tributo adequado à mulher misteriosa. Esperto, ele também esperava que o uso de um rosto atraente ajudaria a incentivar os homens a utilizarem sua boneca. Em seguida, ela foi batizada de Anne, e assim, em 1960, ‘Resusci Anne’ nasceu, também conhecido como ‘RCP Annie ” nos EUA.

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A boneca iniciou mudança generalizada e revolucionou o treino em ressuscitação boca-a-boca, tanto para os profissionais médicos e também para o público. Mais tarde, Anne foi atualizada e passou a incluir um compartimento compressível para a prática de ressuscitação cardiopulmonar, ou CPR como é mais conhecida.

Embora não seja tão autêntica como um verdadeiro cadáver, ‘Resusci Anne’ foi definitivamente preferível que um morto. Assim, é no mínimo curioso que uma mulher que tenha tirado a própria vida contribuiu postumamente para salvar milhares de vidas.

L’Inconnue de la Seine ainda é a face mais beijada de todos os tempos.

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