O nazismo da decepção

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Um dia eu estava saindo da escola e mudei meu trajeto. Sempre que eu mudava meu trajeto, dava alguma merda, mas por outro lado, era divertido porque eu não sabia bem o que esperar.
Então nesse dia, eu fui passando e entrei por uma galeria de lojas e no final dela, numa loja de esquina eu e deparei com uma coisa que praticamente não existe mais, mas que naquele tempo era mina de ouro. Uma

IMPORTADORA

Uma importadora no início da década de 90 era algo magico, porque nosso atraso em relação ao resto do mundo era colossal. O que nós mais tínhamos eram sacoleiros, pessoas que iam ao Paraguai para trazer muamba. Nego trazia até videocassete no sacolão! Uísque, canetinhas, relogios, perfume e todo aquele mar de porcariadas como meias de seda, fitas cassete e até mesmo disquetes de computador de boa qualidade! Uau!

Entre as pessoas da minha geração, fita cassete, borracha cheirosa, caneta de múltiplas cores e estojo-robô com cem mil compartimentos (que ainda fazia barulhinho com luzinhas) era o nirvana. Foi nessa época que me deparei com a importadora e ali tive um dos momentos de mindfuck que mudaram minha vida. A loja tinha uma seção de REVISTAS IMPORTADAS, mané. Hoje, com internet e as facilidades que todo mundo ja se acostumou não da pra ter a noção do que é um moleque de doze, treze anos, dar de cara com uma revista FANGORIA.

O nazismo da decepção
Foi ali que deu ruim na minha cabeça, hahaha.

Mas ainda mais esclafobético que uma revista que era dedicada a maquiagem de filme de terror… A loja vendia REVELL!

Pensa o que pode ser uma loja que venda revista de maquiagem de terror e kits de montar aviãozinho e navio. Era um oásis. Eu queria morar lá, até porque la tinha batata pringles, algo que eu só comia quando ia na casa do Cristiano, um moleque chato do meu prédio que aliás, eu odiava, mas que ia la de amigão na maior cara de pau, porque apesar dele ser super mimado, ele tinha todos os brinquedos e videogames imagináveis, porque o pai dele era piloto da varig e separou da esposa! Lá que eu comia Pringles e jogava Odissey.

Mas voltando à importadora, logo me tornei Habitué do lugar ao ponto do dono já saber que TODO SANTO DIA eu ia aparecer ali. Nesse tempo ainda não matava aulas. Outro treco que me fez muito mais bem do que mal, e que aliás, agradeço a Deus por TODOS OS DIAS QUE MATEI AULA NA VIDA. Melhor coisa que fiz! A escola era uma bosta, um lixo tão imbecil, um campo de concentração para debilóides onde NADA me interessava.

Matar aula era estudar a vida. Mas naquele tempo, eu ia pra escola todo dia e passava la na volta pra casa. Eu era duro, de modo que todo santo dia eu folheava a fangoria e chegava a fazer macumba pra nego nunca comprar a revista antes de eu acabar de ver tudo.

Mas um belo dia, eu cheguei la e cadê as revistas? Elas estavam do outro lado do balcão.

O coroa me olhou nos olhos. Era um velho bigodudo o dono da loja.
Vendo que eu só ensebava a revista e nunca comprava, ele tirou a revista do meu alcance.

-Agora só pode folhear quem vai comprar. – Ele disse. E ainda tripudiou no meu sofrimento:

– Aqui não é biblioteca, filho.

Resignado, passei então a admirar as artes das caixas dos kits de modelismo. Foi um encontro. O velho pensou que estava me sacaneando, mas ele me ajudou. Meu primeiro contato com o plastimodelismo, pra valer, foi ali. Logo eu juntaria dindim da merenda para poder comprar kits.
Um dia, passei la e comprei um kit. Montei e  ficou bonitão. Era um avião chamado “Harrier Cobra” nunca mais esqueci.
Certa vez eu estava indo pra escola quando uma ideia me ocorreu. Eu devia estreitar os laços com o tiozão da loja.
Então, naquela semana teve um feriado na escola e eu levei meu aviãozinho la pra ele ver. Ele curtiu. Me deu dicas. Veja que legal, o tiozão da importadora era um plastimodelista experiente!

Ele me mostrou fotos dos modelos que ele fazia e até de uns dioramas. Uau, dioramas. Então era esse o nome das maquetes com soldados e tanques e tudo mais. Pirei o cabeção, e agora eu queria ser um modelista profissional.
Assim, eu usei toda minha lábia para convencer o dono da loja a me deixar “expor” um diorama meu na vitrine da loja dele em troca dele me dar a revista Fangoria, já que “ninguém compraria uma revista com aquela aberração na capa mesmo”…
Sempre fui bom no caô. Deu certo. Ele topou, mas deixou claro: Faça o melhor diorama que conseguir.
Voltei pra casa empolgado. Peguei um tanque de guerra que eu tinha e mais uma meia duzia de soldadinhos de plastico (de brinquedo) que pintei pacientemente. Tava ficando maneiro. Improvisei destroços. Na minha cena o taque havia se danificado e soldados nazistas enfrentavam aliados enquanto dois outros tentavam reparar a lagarta do tanque partida. Uma arvore ressecada (roubada do jardim do prédio) dava o tom de devastação da guerra.

Fiz ate uma moldura de base. Ficou legal mesmo. Levei pro cara todo orgulhoso de minha arte. Ele olhou, olhou e sacramentou:

-Isso nunca vai ficar na minha vitrine.

A maquete, ele disse, estava boa, mas havia uma coisa nela: Nazistas. O velho da loja tinha PAVOR de nazistas. E isso era ao ponto de só de ter visto uma suástica no meu diorama (da guerra) ele nem falou mais comigo e ainda me expulsou da loja. Eu nem sequer fazia ideia da razão pelo qual o coroa não gostava de nazistas. Pra mim eram somente soldados.
Voltei pra casa cabisbaixo. E sem revista.

-Nazistas filhos da puta.

Ufos,mistérios,curiosidades e muito mais
Luminária Ufo

3 comentários em “O nazismo da decepção”

  1. Vai ver o cara ficou com medo de arrumar confusão com alguem da galeria.
    Revell é muito legal, mal posso esperar pro meu filho ter idade pra montar com ele alguns navios e aviões.

    Responder
  2. Caraca, que legal.
    Mas as vezes a mãe ou vó dele morreu em algum campo de concentração, vai saber!
    E vc não precisou devolver a revista, precisou?

    Responder

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